terça-feira, agosto 29, 2017

Perfeitas São as Horas ...


Alquímicas cores debruçadas sobre
O balcão dos dias.

Nesta ternura de sol poente
Perfeitas são as horas. Murmúrio dos lábios. Apenas.
Calando o tempo.

E o arfar descuidado do poema
Sobre o peito. Como ave migrando.
Contrafeita...


Manuel Veiga


segunda-feira, agosto 28, 2017

ÀS VEZES, TANTAS VEZES...


Às vezes, tantas vezes
Subo ao cume mais alto das palavras
Para dizer-te...

Nuas as palavras
E sede em nossas bocas...

Telúrico o bailado
E suaves os gestos
E os rios ...

Às vezes, tantas vezes
São tantas as supinas
Confluências…

Manuel Veiga


quinta-feira, agosto 24, 2017

ANOTAÇÕES DE VERÃO V


O vale é percurso de nascentes
Íntimas. Murmúrios de água sobre a pele
E os corpos distendidos
Estátuas tombadas
Em abandono
Como heras.

E sol de estio
À superfície.

Projecção de verde
Sobre azul no Céu. Sou esse tule.
E o sonho dessa árvore a agitar prodígios
E a clamar distâncias.
E o silêncio da tarde
A arder em febre.

Frondosas
Águas.

Manuel Veiga


segunda-feira, agosto 21, 2017

FRÉMITO DE VIDA


No dorso das coisas imperecíveis um frémito
Ligeira agitação como se invisíveis dedos
Profanassem sua quieta permanência...

Uma subtil ruptura tímida que oscila
Sem ser fenda nem passo. Ainda.
Apenas dança
A abrir-se
Em promessa
Contida.

E o palco. Aberto. Esquivo
Nesta espera
Entre a fria noite
E o claro dia...

A (re)fazer –se
Em frémito de vida.


Manuel Veiga


sexta-feira, agosto 18, 2017

FRAGMENTOS XLVII

(...)
Assim concluía o Alferes, sem que para tal fosse intimado, num tempo outro, ainda na flor dos dias, quando, balançando-se entre o voluntarismo romântico da deserção e a palavra venerada do “senhor Gomes”, o velho marinheiro, revolucionário e desterrado, “meteu na ordem” as suas verduras revolucionárias e lhe esfriou as veleidades de deserção e a empolgada ambição de se colocar no lugar certo da História, ao serviço da guerrilha.

FRAGMENTOS XLVII

Pois é, Maria Adelaide, na acção dos homens, é muito curta a distância que separa a coragem da cobardia, a glória do vitupério, a celebridade do ostracismo, o amor do desamor, ou a vida da morte e muito estreita também a linha que separa os “deveres” que vinculam e os“ direitos”, que libertam e cada um colhe ou paga de tributo à sociedade, bem se sabendo que bastas vezes uma ligeira oscilação, um capricho cerzido sabe-se lá em que acaso, ou dimensão, para que, na consciência do homens, a “realidade”, seja lá isso o que for, fique de “pernas para o ar” e o que ontem era tido como verdade hoje não passe de harpejo de dúvida quando não mesmo reverso de graníticas certezas que nos aguentam inteiros e de pé. Por vezes uma aragem, uma leve agitação das asas de uma colorida borboleta é suficiente para que, no outro lado da Terra, se houver condições para tanto, pois também as coisas e os acontecimentos são eles e as suas circunstâncias, se desencadear violenta tempestade, como hoje em dia, no tempo real desta descosida narrativa, bem se sabe, face ao reino pletórico da física quântica e seus extraordinários efeitos e feitos, que aceleram o tempo e nos lançam em permanente regurgitar de “acontecimentos” que nos submergem e, onde tantas vezes, naufragamos, mergulhados na espuma dos dias.

Calo-te o gesto e a palavra, Maria Adelaide, pois que, depois de me zurzires com o epiteto de neo-realista serôdio, pretendo evitar-te a tentação fácil de vires agora acusar-me de devoto da “post modernidade” e de um certo “relativismo moral” em que todas as ideias e valores morais se equivalem, de tal forma que nada justificará que neles nos detenhamos mais que a breve avaliação do prazer que nos proporcionam, e nos lancemos assim, sem norte, a celebrar um “hedonismo” de pacotilha para consumo imediato, pronto a usar e a descartar. A verdade, porém, é que, Maria Adelaide, tanto na literatura, aquela que é de facto literatura e não enjeita a “responsabilidade”, palavra malquista, como na vida, existem veios profundos e seres fecundos que, se não determinam eles o tempo longo da narrativa literária ou o “devir” da história, lhe conferem, porém, o rosto e a inteligibilidade, uma espécie de esteio ou pedra angular que dão sentido à narrativa ou à expressão da vida, bem se sabendo que não é a singularidade das coisas que transforma, mas a raiz delas e a seiva de que se alimentam ou a matriz em que se inscrevem. Captar, pois, a dialéctica das coisas perante o meio em que se inscrevem ou a actuação dos homens em sociedade é ler os sinais da sua evolução e naquilo em que os homens se distinguem das coisas, também os sinais da sua emancipação, enquanto ser social, o mesmo será dizer, a consciência de si próprio e do mundo que os rodeia.

Não julgues pois o Alferes, Maria Adelaide, e a sua aparente pusilanimidade, face ao seu desígnio e empolgada ambição de se colocar no lugar certo da História, ao serviço da guerrilha, pois que, no processo de maturação das ideias, o auto conhecimento das limitações e contradições dos homens e a sua vontade de superação constituem a pedra de toque por onde se afere o carácter e a personalidade de cada um. Compreenderás, assim, por certo, quão fecunda terá sido, apesar de breve, a conversa do Alferes com o velho revolucionário, Senhor Gomes, marinheiro e desterrado, que, nos idos anos de 1936, provou o fogo dos deuses e perdeu e pagou, com seu corpo, nas prisões fascistas e, depois, com o degredo naquele “cú de Judas” que é a Tabanca, ele cujo crime foi a ousadia de, com outros camaradas de armas e ideais, pretender antecipar o tempo longo da História no sonho de uma Pátria livre e justa e, por ela se bater e perder, fazendo da Tabanca a sua Pátria, que outra não reconhecia, madrasta de seu Povo e fazedora de guerras contra os povos das colónias que oprimia.

Quem, pois, o insensato que insistiria em suas “verduras” revolucionárias e no “infantilismo voluntarista”, depois de conhecer a opinião autorizada do Senhor Gomes, forjada no terreno concreto da rebelião política e nos longos anos de degredo, em que pela firmeza de carácter e consistência de suas ideias, soube granjear o respeito de brancos e negros, e sua voz autorizada e sábia era procurada e seguida, quem porventura tão néscio que sobrepusesse, à razão e à sabedoria, os insipientes e imaturos passos de uma aventura inconsequente, que leituras apressadas e uma mente imaginativa e exacerbada alimentavam? Não por certo o Alferes, que bebera, com o leite materno, a veneração pelos velhos que, na falta de outras capacidades, sempre distribuíam bênçãos e bons conselhos.   

“A Revolução aqui em África é deles e tu se amas a Revolução terás tua oportunidade em Portugal” e a frase, assim dita, com olhar cortante do velho revolucionário a atravessar-lhe a alma, ficou gravada como consigna ao longo da vida do Alferes, jovem oficial miliciano do Exército Português, Adjunto do Comandante da Companhia por acaso de graduação militar e estudante de Direito em Coimbra por passada larga de seus pais, ”aprendendo, aprendendo, sempre” com os livros e as lições de vida, dele e dos outros e, assim, ficando a saber que há “um tempo para semear e um tempo para colher” e que a História dos homens, em seu perpétuo rumor, não é uma linha recta, mas nada trava o seu turbulento fluir.

Sei de teu enfado, Maria Adelaide, bem sabendo eu qual o universo que te motiva e as razões pelas quais pacientemente me escutas. Nesta luta corpo a corpo em que esta narrativa (sem sujeito) se despenha existem umas “velhas contas”, apenas nossas, a ajustar e tu espreitas o momento. Que chegará, Maria Adelaide, maduro que esteja o tempo desta escrita circular, em que tu és o “alfa e o ómega” e a pedra angular que a sustenta.

 Mas, entretanto, regressemos à Tabanca. Temos um General à espera. E não é de bom-tom fazer esperar um General, tens razão!


Manuel Veiga  

quinta-feira, agosto 17, 2017

DEIXO QUE OS RIOS SECOS


Deixo que os rios secos e as tempestades de sons ausentes
Na memória de outros maios se inscrevam na saliva
Das palavras balbuciadas em que digo amor em fim de tarde.
E assim administrando amoras tardias em círculo de sol
Lábios ciosos destes gestos que se derramam inesperados
Frutos desprendendo-se de maduros ou chuvas
Em deserto absorvidas.

Viajo caminheiro sem pressas recostado nas bermas
Celebrando as sombras e as festivas giestas outonais
Sorvendo o mel das silvas soltando revoadas
Tordos espantados que riscam o abismo dos olhos.
E ai me perco nessa voragem matizada de cores quentes
Nos odores persistentes na humidade translúcida dos beijos
Na generosidade dos seios no declive dos lábios e no cio
Das colheitas e na sofreguidão de cestos antes das uvas-

E nas ondas que arrebatam e na ferida aberta
E nesta lava e neste de lume que me consome e nesta festa
Que explode em pulsão de madrugada.

"Gracias a la Vida!"


Manuel Veiga

terça-feira, agosto 15, 2017

VIOLENTA BRANCURA DO AZUL


Abrasa o sol nesta miragem. A distância é o voo
E a canícula. E a ave soletrando o círculo.
E o zénite...

E a violenta brancura do azul no fio de meus olhos
Agitando a brisa cálida...

E o esqueleto calcificado no restolho
Abandonado.
E o cardo seco
E a poeira...

E a gotícula lambendo a pele nua.
E os lábios gretados. E a sede das horas
E os passos sobre o eco...

E o arfar solitário.
E este latir de condenado...

Infinita esta paisagem em que me detenho
Como planície inventada
Ou voo quebrado...

Estridência de cigarra acesa
Ou secreta cotovia em alvoroço
Adejando por dentro.

E o milagre
Do canto
Inesperado...


Manuel Veiga

"Do Esplendor das Coisas Possíveis" - pág. 17
POÉTICA Edições - Abril 2016

segunda-feira, agosto 14, 2017

Anotações de Verão IV


O horizonte é uma linha curva,
Ou um ponto de fuga
Bem se sabe...

Ou talvez as velas de um barco sem leme
Enfunadas de Distância e azul breve
Roteiro além Dor
E Poeta maior!

Um pouco mais de azul
E seria Céu o dito poeta-maior.
Na tarde que arde

A esbracejar, é certo, assaz perdido
Nas águas bravias do Bojador.
Sabe-se lá com que lágrimas de sal
Ou fogoso ardor!

E que fadário é o meu! Sem barco,
Nem meta, na bocarra infecta
De um qualquer Macaréu!

Ou entre ilhas nuas e graciosas loas
Ancoradas em gentil Camaféu.


Manuel Veiga



sábado, agosto 12, 2017

Anotações de Verão III


 Cada onda um corpo aberto
Em combustão mordente. E o céu
A derramar-se num azul invertebrado.

E uma litania benigna
A tomar conta
Dos sentidos.

De súbito
Desprendem-se uns seios.
Impúdicos.

Solo de jazz. Vermelho vivo.



Manuel Veiga

Anotações de Verão II


Amável a vibração das coisas simples
E nelas o poeta laborioso bichinho alado
A afadigar-se na glória de ser.

A eternidade é um momento breve
A declinar-se em soberbo azul da tarde
Colhido na carícia breve
E na fugaz curva
Do tempo

A incendiar-se
Em sol poente.


Manuel Veiga

quinta-feira, agosto 10, 2017

Anotações de Verão I


Benignos os deuses na placidez dos corpos
Zénite de azul às golfadas de Céu e Mar

E esta brisa de sal e lume na paleta dos sentidos
A esculpir o murmúrio das marés
E a cartografia das distâncias

Paisagem de um tempo breve
No prumo solar
Dos dias.


Manuel Veiga



AGUARELA MATINAL ...

Murmúrio de poema Sobre a pétala orvalhada Pequena gota a explodir na tela E na pálpebra E o frémito da boca Pequena lágrima ...