sexta-feira, setembro 08, 2017

SOU LINHO ESTENDIDO...


Sou linho estendido sobre a pedra. (Como mesa...)
E o suor dos rostos em círculo. Como mito. Sei agora...
E o pão avaro.
E o rito das mãos de boca em boca
E as gargantas ressequidas.
Sou o vinho...

E sou a sombra. E a gota de água.
E a agitação do freixo. Sou a canícula e sou a raiva.
E a boina descaída sobre os olhos – basca.
E a precária sesta na aragem do dia.
Sou a ceifa...

Sou os tordos espantados de meus olhos
E a voz do amo
E o sol que já declina...

Sou os corpos debruçados sobre a terra
E o crepitar do caule e da espiga.
Sou o fio da revolta
Que não sabe ainda...

E neste horizonte de mágoa
Sou sopro de bandeira
Sou esta linha quebrada que explode
E me incendeia...

Sou este signo vazio de tudo ou nada.
E o canto das cigarras que teima...

Manuel Veiga

"Do Esplendor das Coisas Possíveis"
POETICA Edições - Abril 2016



quarta-feira, setembro 06, 2017

Sei Que Minha Liberdade...


Sei que a minha liberdade é a minha palavra
Acesa. Por vezes, serena. Porém,
Certeira – nunca justiceira!
E é a minha vontade
Que ninguém domina!

E os dados tombados sobre a mesa.

E sei que Deus e o Diabo moram nos pormenores
E em cada esquina. E que a ambos sirvo
Na minha condição de humanidade.
Em cada lance da vida.

E sei que no Juízo Final a escolha
Será minha.


Manuel Veiga

segunda-feira, setembro 04, 2017

METAMORFOSE(S)...



Sorriso flor aberta
A render-se em festa
E olhar-mágoa. Febre e lágrima
A desfazer em água.

E o poeta. Espera pura
A arder em palavra nua
E a beber o fel e o mel
Nessa metamorfose
Líquida.

Já não lágrima. Apenas
Febre e dádiva.

Manuel  Veiga