sábado, novembro 04, 2017

No Dorso das Palavras Transitivas...


Estátuas derrubadas e jardins de cinza
No dorso das palavras transitivas
Fortalezas traídas por dentro.

Passos de deuses ausentes
E corredores desertos.

Que nada do que foi
Hoje permanece.

Apenas Eco. Música atonal a dissolver-se
No íntimo do silêncio.

Na eloquência de tempestades
Há no entanto uma vibração insuspeita
A adejar infrene na combustão
Da Memória.

E a sangrar dores evanescentes
E o gesto inaugural
Das Palavras límpidas.


Manuel Veiga 

sexta-feira, novembro 03, 2017

CRISE SÓCIO - ECONÓMICA E POLÍTICA BRASILEIRA na Revista SEARA NOVA



A Revista SEARA NOVA nº 2018 (Outono 2017)
apresenta, no seu último númeroum artigo sobre
a actual situação económica, social e política no Brasil,
pela professora universitária brasileira,
Cristiane Tolomei
da Universidade Federal de Maranhão

Pelo seu interesse e actualidade, transcrevem-se alguns extractos e fotos que ilustram o trabalho jornalístico.




"Mais de cinco anos sendo vice-presidente do Brasil, Michel Temer finalmente realizou o seu sonho de assumir a presidência do país no dia 31 de agosto de 2016. Um pouco mais de um ano do governo ilegítimo, Temer e seus companheiros buscam (e até o momento conseguiram muitas conquistas) aprovar cortes nos direitos trabalhistas, plano de congelamento de gastos sociais por 20 anos, aumento na idade da aposentadoria, redução de direitos políticos e a lista segue.

O pacote do horror oferecido ao povo brasileiro vem em meio à uma crise social e econômica que não parece ter fim. O Brasil vive um dos seus piores momentos da sua história: taxa de desemprego subindo absurdamente e dívidas nos municípios e estados, ocasionando sérios problemas como no caso do Rio de Janeiro que apresenta um cenário de caos tanto em relação aos descasos com pagamento de salários dos funcionários públicos, com a saúde e com a segurança pública.

Ademais da crise econômica, há uma crise social preocupante, uma vez que está ocorrendo o retorno de movimentos conservadores, racistas e fascistas, que insistem em derrubar muitas conquistas sociais tanto para negros quanto mulheres e a comunidade LGBT.

É uma triste realidade (...) corrupção e mais corrupção, escândalos e mais escândalos, que se tornaram algo corriqueiro na mídia nacional (grande parte desta mídia golpista) e no cotidiano dos brasileiros. Na verdade, nada mais choca, o crime caiu na banalidade, instituiu-se e ninguém mais acredita que a situação irá melhorar de imediato.
        
O Brasil eternamente conhecido como o país do futuro (quando acreditávamos que realmente o futuro havia chegado para nós), coloca todas as suas esperanças nas Eleições de 2018 como único meio de “sacudir a poeira e dar a volta por cima”.

Destacam-se nomes como o do ex-presidente Lula e do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, ambos do Partido dos Trabalhadores (PT), como líderes populistas e de “esquerda”, contrários à onda reacionária e conservadora liderada pelo deputado federal  Jair Bolsonaro (PSC), do ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT), a luta dentro do PSDB entre os nomes do Governador de São Paulo Geraldo Alckmin e do Prefeito de São Paulo João Dória, seguidos da ex-senadora Marina Silva 



Fernando Haddad
aclamado na Avenida Paulista.

O quadro nos parece repetitivo e desolador, daí a esperança do povo no retorno de Lula para a presidência, uma vez que a memória do brasileiro ainda está fresca e sabe que entre 2002 a 2010, muitos direitos foram adquiridos, a educação e a saúde melhoraram, as pessoas passaram a ter mais conforto e tudo parecia melhor.
(…)
(Recentemente) o cenário da música, o público do Rock in Rio rompeu com o silêncio das ruas, gritando para todo o mundo o seu descontentamento com o governo do golpista Michel Temer que colocou o Brasil no quadro do subdesenvolvimento e no retrocesso do cenário internacional.

Um eco ensurdecedor contra as barbáries que rompem intencionalmente com o pacto civilizatório obtido na Constituição de 1988, ocasionando o abandono explícito da população, que volta a sofrer com as desastrosas decisões políticas.


Família nordestina
sofrendo com a fome e a miséria.

A presidente legítima Dilma Rousseff adotou o lema "País rico é país sem pobreza" em seu primeiro mandato e no fim dele havia cumprido a promessa, quando o Brasil finalmente saiu do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas.

Dilma Roussef e Michel Temer:
de aliados a inimigos.

Essa conquista, no entanto, foi derrotada por apenas um ano do governo ilegítimo, que passou a excluir milhares de famílias do Programa Bolsa Família, reduzir o valor investido no Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar, que apoia os pequenos agricultores, e desempregar mais de 7 milhões de brasileiros.

Michel Temer e seus comparsas são um tsunami, destruindo tudo a sua volta, beneficiando somente as elites agropecuárias e industriais e os banqueiros, isto é, a minoria da minoria do país, enquanto o restante dos brasileiros está incrédulo diante do que está ocorrendo no país e sofrendo as consequências das más decisões políticas. A situação é a seguinte: Michel Temer destruiu o país e liquidou a imagem do Brasil no mundo.

E os problemas não são somente econômicos, há centenas de episódios de ódio, de homofobia, de preconceito irracional em relação à raça, ao gênero e à religião que, infelizmente, ganham força no país com seguidores de Bolsonaro e o grupo de políticos que tomam decisões embasadas em suas religiões, destoando do Estado laico, defendido na Constituição.



Movimento nazi-fascista visto nos Estados Unidos também surge no Brasil, em Santa Catarina, em pleno século XXI.

(…)Diante desse brevíssimo resumo do cenário desastroso brasileiro, só podemos afirmar que as vozes de mais de 700 mil brasileiros no Rock in Rio não podem assumir sozinhos uma luta popular, que deveria ser de milhões de brasileiros nas ruas de todo o país. Todavia, precisamos acreditar que depois da calmaria, vem a ressaca. E por ser brasileira, não poderia ser diferente, e me apego na esperança de que acordemos logo ou será tarde demais para resolver a avalanche de desgraças que estão ocorrendo no Brasil e não será eleições que dará conta do recado.

Acorda Brasil”

S. Paulo, 27 de Setembro
Cristiane Tolomei

quarta-feira, novembro 01, 2017

Um Poeta Que Muito Estimo...


Um destes dias um poeta, que muito estimo,
Meio por graça disse-me que minha poética caligrafia
Era escrita à mão ainda e, se por acaso, eu sabia
Que a poesia, toda ela, hoje em dia, salta
Das entranhas do computador e se derrama
Pelas ruas citadinas em gigantes placards
E montras, não de chocolates, mas de iguarias
Bem recicladas, como noticias esventradas,
Ou bombas por explodir algures em qualquer lugar
Ou esquina do mundo. E se consome sem sal
Em fulgor hiper-realista. E se ilumina consumista
Nas escórias do luxo. E do lixo.

Eu não sabia, por isso, saí da refrega com
O rabo entalado qual cachorro de feira enxotado
Pela cozinheira, a polvilhar a mistela do dia.

Mas fiquei a matutar na minha. E como no fado
Dedilhado em que o fadista se esganiça, fingindo
Que chora, o que então não disse, vou pois
Dizer-lhe agora que prefiro a poesia me venha
À mão como “dobrada fria” em vez do arrepio
Fervilhante dos bits a formigar nas teclas
Dos computadores. E que dispenso o incenso
E contorcionismos do hip-hop. E a borbulha tardia.
E que a culinária literária me faz azia a derreter-se
Nas bocas hipermodernistas.

Ou nas tretas da grande farra das letras.


Manuel Veiga

(reedição)
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AVISO: 

O "poeta que muito estimo" não publica em blogs !