segunda-feira, novembro 27, 2017

FRAGMENTOS LI


Espreme-se pois a ferida, Maria Adelaide como tenaz de fogo para purgar o sofrimento e melhor sarar, expõe-se em carne viva, impudicamente aberta, desejando que o sangue rebente e o pus escorra e, no entanto, no lugar da dor apenas o abcesso calcinado, testemunho remoto, sinal seco e agora esventrado, tempestade, esvaída na distância, O Valentim, amigo de todas as horas do Alferes, as boas e as más, heróis ambos em registos diversos, embora, desta escrita redonda, a fazer que anda, mas não anda e, neste agora da narrativa, por razões muito suas, aceitou, de sorriso rasgado, a tarefa de apresentar cumprimentos de despedida a Dona Rosalinda, como iniciativa própria fora, o Valentim, dizíamos, neste agora dos acontecimentos narrados, deveria ser lugar de recriação festiva e de celebração órfica, e a escrita tão eloquente, que fosse registo fidedigno e testemunho da paixão pela Vida, na partilha de uma amizade sem medida, cúmplice e generosa, em que as humanas criaturas, por vezes, sublimam a condição precária da existência. No entanto, o Valentim, neste jogo de escrita e seu devir demiúrgico é apenas lugar ausente e frio, vácuo, que a memória retém, como incisão sarada pelo tempo e a amizade, tão genuína e tão breve, apenas um sublinhado ou registo antigo, nas páginas de um livro esquecido.

Tens, por isso, razão, Maria Adelaide, de nada vale andar a escarafunchar uma dor “abstracta”, de que esta narrativa, que se quer literária, se faz registo, pois ninguém pode alterar o curso das coisas, nem sequer o autor (se autor houvesse) que, dizendo-as, lhes deu vida, mas que, não poderá jamais salvar o Valentim da sua sorte, fervor de vida esmagado, sabe-se lá por que “mão invisível”, ou torrente, ou capricho do Acaso vividos. Aliás, talvez seja essa a melhor forma de o homenagear, reconhecendo a humana impossibilidade, perante o capricho dos deuses e o misterioso rosto da Tragédia, pois em sua autenticidade, o Valentim vivia, com o mesmo à vontade com rasgou a placenta que o trouxe à vida, sem cálculo, nem favor. Ou glória que o seduzisse ou má sorte que o afectasse.

Deixemos, pois, em paz o Valentim e sejamos apenas, Maria Adelaide, o tabelião que regista, para memória futura, os factos que desenham a sua funesta morte, a dois dias da “peluda”, no alvoroço de filho único de regresso ao braços maternos.

Um calor tórrido e húmido tornava o ar pesado, com chuvas diluvianas, em confluência com a maré cheia, a elevarem as águas e a ocuparem a zona ribeirinha, que, depois da enxurrada, deixaria um mar de lama e detritos, que, além de irrespirável, tornavam a cidade intransitável. Mas o Valentim teimou. Que iria agora visitar a Dona Rosalinda “e que não estava para aturar desistências, nem aceitar recomendações de “madalenas” temerosas, bem pior que as ruas inundadas de Bissau foram as bolanhas de Catió e de Cufar e ali estavam ambos aptos a embarcarem para a peluda”. A chuva terminara, entretanto, e, em seu lugar, um Sol desmedido de criar alucinações e escaldar os miolos. E o Valentim, impecável, dentro da sua farda de caqui amarelo, camisa de manga curta e calção, ao volante do jeep do comando da Companhia de Cavalaria, acicatado pelo desejo de se despedir da Guiné à maneira, quer dizer, percorrendo, qual fauno africano, o itinerário do desejo, na crepitação e no fogo de uma mulatinha cabo-verdiana, por certo a melhor escolha, por entre as residentes, que Dona Rosalinda, em todas as ocasiões prestável, lhe iria discretamente sugerir, não sem antes indagar de “seu menino” - que lindo que tu és meu filho! – e, calar no peito, com um suspiro teatral à mistura, a breve ansiedade de suas carnes flácidas.

E o Alferes, adjunto do Companhia e herói a contragosto desta narrativa, sem fim à vista e que Maria Adelaide teima em dizer mal cerzida e desajeitada, sem ponta por onde se lhe pegue, uma vez que, redonda, a escrita, em si própria, se ensarilha, o Alferes, dizíamos, com um sorriso discreto a percorrer-lhe os lábios, encolheu os ombros, resignado, como quem aceita, sem inquietação, o destino das coisas e dos acontecimentos e, percorridos que foram, num ápice, o lampejo e a orquestração fantasista da visita do amigo à Pensão Estrela, espectáculo e festa, de que Dona Rosalinda seria sábia maestrina, acompanhou, com um olhar cúmplice, o arranque “à Fângio” do soluçante jeep militar que, na passagem, levantava cortinas da água empoçada no alcatrão gasto da parada, regando a farda, entre gargalhadas e assobios, de um ou outro militar mais distraído e que, passada a porta de armas e a continência do sentinela, com o Valentim ao volante, se perdeu no vaivém da cidade e o Alferes, herói a contragosto desta escrita, rumou ao “cativeiro” das tarefas de liquidação e contas da Companhia de Cavalaria e elaboração de relatórios e autos de entrega de todo o espólio, desde as viaturas pesadas até última munição.

O soldado Assobio, outrora “apoucalhado”, chegado à recruta, há escassos três anos, com três dias de atraso, qual encomenda extraviada e, por mérito seu e do grupo de reguilas alfacinhas que o instruíram, o ensinaram a ler e a escrever e o nomearam como seu, arvorado depois “impedido” do comando da Companhia, por ordem de serviço lida em parada e ora prestes a passar à peluda e ao seu nome civil Eusébio da Silva Ferreira, andava numa roda-viva, levando e trazendo papéis da Secretaria para o edifício do Comando, que, depois lidos e assinados pelo Capitão Mascarenhas, seguiam seus trâmites para o Quartel-general do Comando Militar na Guiné.

E, assim, neste frenesi, se esgotavam os minutos e se apressavam as horas, povoadas por ordens e contra ordens, pois bem se sabe que as organizações humanas, quanto mais rígidas forem e hierarquizadas, tanto mais toda a gente quer “safar a onça”, os de cima empurrando para os que estão por baixo e estes, com a manha de gerações a aguentarem a carga, sempre aptos a “passarem a perna” aqueles que estão por cima, quer dizer, aqueles que, de cima, lhes carregam o cerviz, num jogo de forças, a mais das vezes de soma zero, de tal sorte, tudo visto e ponderado, no final tudo acaba por bater certo, cada um por si, toca a despachar, o que for, soará.

E tudo assim corria, nessa tarde de amanuenses cuidados e ajuste de balanços, no deve e haver da guerra, pois o balanço maior era aquele que um de si próprio fazia, a escassas horas do regresso e, para o Capitão Mascarenhas, em processo de revisão mental de suas certezas e de princípios e valores de Oficial de Cavalaria, no inicio impregnados de “furioso” nacionalismo, e que, no final da Comissão de serviço militar, no Comando da Companhia de Cavalaria, queimavam como tição aceso, na persistência da dúvida, cinza que teima em calor, mas gradualmente arrefece, de tal forma que, quase a findar esta sua primeira experiência de comando, num quadro de intensa guerrilha, em que, apesar dos perigos e acasos de guerra passados, se poder ufanar com a proeza e a circunstância de regressar com a sua Companhia intacta, isto é, sem baixas em virtude de morte em combate, de tal forma que, dizíamos, tais princípios de orgulho militar e valores de exacerbado nacionalismo e “caganças” de militar de Cavalaria, em colapso, não passavam de morno lenitivo na dor maior das suas dúvidas e se constituía, tal proeza de ausência de mortes, em refulgente gáudio no ajuste de contas com os oficiais do Estado-maior, esses fs. da p. que não sabem o que é a guerra e passam a comissão de serviço a coçar os tomates, sentados à secretária.

Foi então, que elevando-se sobre aos sons cavos da cidade, que passavam filtrados pelas espessas amuradas, um estrondo abafado, seguido, a breve espaço, pelo persistente buzinar de uma viatura, (veio a saber-se) de uma patrulha da Polícia Militar, que irrompeu pelo quartel adentro para estacionar, frente ao edifício do Comando, donde salta o furriel miliciano Anjos, comandante da patrulha, pois bem sabe o graduado militar, que a morte de um oficial do Exército, ainda que miliciano, em acidente de viação, numa incursão solitária num bairro periférico, a conduzir viatura militar, sem que registo, ou ordem de serviço, que o justifique é assunto demasiado quente, para se poder arriscar a qualquer diligência moto próprio, ainda que seja para entregar o ferido, que se sabia morto, aos cuidados do Hospital Militar.

Veloz como entrara, saiu do edifício o furriel miliciano, agora acompanhado do Capitão Ornellas, Comandante da Polícia Militar que manda afastar os soldados que o voyeurismo juntara, em redor da viatura e do corpo do Valentim, com o crânio esfacelado, apoiado por dois soldados da patrulha e determina que, de imediato, o corpo do Alferes, visivelmente sem vida, seja tapado com um cobertor, e os dois militares permaneçam de guarda e, em passo acelerado, Capitão Ornellas e o Furriel Anjos, militares sobre quem impende, por seu múnus policial, o dever de elaborarem o auto de notícia e dar sequência aos respectivos trâmites, rumaram ao encontro do Capitão Mascarenhas, pois que o Oficial morto e viatura acidentada estavam distribuídos à unidade militar de que aquele era comandante, em primeira linha. E, sendo certo que o “auto de notícia”, se extingue no simples acto de “fixar” os acontecimentos tais como aconteceram ou, após breve analise de indícios, tal como os ditos previsivelmente aconteceram, ou poderiam ter acontecido, ou deveriam acontecerem, pois bem se sabe que o olhar de cada um, vendo todos a mesma coisa, cada qual vê coisas diferentes, afeiçoando o que observa ou repara ou olha, áquilo que lhe é dado ver, ou seja à sua específica maneira de olhar e entender, donde se conclui quanto é precária, não apenas a justiça dos homens, mas também quanto é ténue a  visão das coisas e dos factos, que são o suporte da Justiça do Mundo.

No entanto, neste agora, a prender a atenção do leitor (se leitor houver) os factos que se encadeiam no normal entendimento das coisas, são, em sua aparência, inequívocos – o Valentim perdeu a vida, num acidente de viação, disso ficamos cientes, e assim irá constar do auto de notícia, devidamente assinado pelo Furriel, que em ronda militar, deparou com a viatura afundada numa cova da estrada e o corpo do Alferes estendido na berma, a sagrar pela cabeça e os miolos fora, bem junto as secular embondeiro onde o corpo embatera, projectado pela inércia e a paragem brusca da viatura. E se por assim ser verdade, assim o auto fora assinado, sem mais diligências.

Que importava, de facto, mais estrondo, ou menos estrondo, a anteceder o colapso da viatura, num país em guerra? Não, certamente, ao Furriel Anjos, que para se coçar lhe bastava o corpo do ensanguentado e miolos do Alferes Valentim espalhados na lama, nem ao Capitão Ornellas, nem ao Capitão Mascarenhas, ambos demasiado ocupados em harmonizar a narrativa de forma a causar o menor dano, ou seja, despachar o mais cedo possível o Corpo Expedicionário do Exército Português, para o paquete Uíge que, transposta a foz do Geba, nas lanchas da Marinha,  ao largo aguardava.

(continua)




sábado, novembro 25, 2017

Vibração de Água


Que a hora seja assim dobrada
Entre o esquecimento e o calcário
E a dor fina da água no orvalho das pétalas

E nesta sombra de pálpebras magoadas
Agita.se a vibração da lágrima
E o incontido gesto de bebê-la

Flor decepada! Ainda…


Manuel Veiga


quinta-feira, novembro 23, 2017

" OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA "


“Os que estão preocupados com a saúde do Planeta, nossa casa comum, e que lutam contra as diversas formas de poluição, por que não lutam contra a obsolescência programada?” -  K. Marx, in Das Kapital.

"Não raras vezes as empresas fazem acordos - cartel- e, com os profissionais de marketing, introduzem deliberadamente a obsolescência na sua estratégia de venda do produto, com o objectivo de gerar um volume de vendas duradouro reduzindo o tempo entre compras sucessivas. Um exemplo poderia ser o de uma máquina de lavar roupa, que é deliberadamente projectada para deixar de funcionar cinco anos após a compra, obrigando os consumidores a comprar outra máquina para os próximos cinco anos. O mesmo se passa com as lâmpadas, material informático.

...É preciso vender, obter lucro!

Não se trata de satisfazer as necessidades das pessoas, mas de obrigá-las a comprar, a poluir o planeta!"

terça-feira, novembro 21, 2017

Ne ls Steios de l Sangre ( Nos esteios do Sangue )


Teresa Almeida Subtil, talentosa Poetisa, estudiosa e incansável divulgadora da Língua e Cultura Mirandesas quis surpreender-me com a tradução de um poema de "Caligrafia Íntima".

Agradeço muito à minha amiga Teresa esta distinção, que muito honra a minha poesia e o amável gesto de amizade, que guardo com afecto. 



Ne ls steios de l sangre i nas falas de la tierra
Q'an nós móran.
Nas fondas augas
I ne l altar de las peinhas
stremuntiadas
Ne l çponer de l sol
I ne ls maçanales i
Ne ls beneiros
D’auga.

I ne ls oulores de la tierra arada
I nas marcas de la bara tiempo
I ne ls nuossos rius.

I na sequidede de ls beiços
I na sede de mil anhos
A apressiar ls passos.

I ne ls lhuitos. I ne l siléncio de las campanas.
I ne l strondo de las fiestas
I ne ls arraiales festibos
I nas antigas
Danças.

I ne l corpete de las rapazas
I ne ls lhenços bordados
I nas risadas
I nas lhuitas.
I ne ls dies ardidos
I naqueilhes outros pregoneiros

Te nomeio, Tierra, Lhéngua, Mátria
I te benero
I te guardo
I te digo

Géstio an que me rindo
I m’ antrego
I çfaço
Miu mirar
Altibo.




Nos esteios do sangue
E  nas telúricas vozes
Que em nós habitam
Nas profundas águas 
E no altar das rochas 
Tresmalhadas
No zénite do Sol
E nos pomares e
Nos veios líquidos

E nos cheiros de terra lavrada
E nas marcas da vara do tempo
E nos nossos rios.

E nos lábios ressequidos
E na sede de mil anos
A acicatar os passos-

E nos lutos. E no silêncio dos sinos.
E no estrondo das festas
E nos arraias festivos
E nas antigas danças.

E no corpete das raparigas
E nos lenços bordados.
E nas gargalhadas
E nas brigas.
E nos dias ardidos
E naqueles outros pregoeiros.

Te nomeio Terra, Língua, Mátria
E te venero
E guardo
E te digo

Gesto em que rendo
E me entrego
E deslasso
Meu olhar
Altivo.

Manuel Veiga
“Caligrafia Íntima"  - pág. 194
POÉTICA Edições







segunda-feira, novembro 20, 2017

Rumor de Águas Capilares - Pedido de Desculpa



Para a Conceição Lima

E para o talentoso elenco de intérpretes de poesia
(Maga e magos deste inesquecível Encontro)

E todos quantos me concederam o prazer e o privilégio
 De sua presença na Livraria “Flanêur (Porto),
A propósito da apresentação

Caligrafia Íntima”



No rumor de águas capilares
No interior da terra. Apta e pronta.

E na agitação febril do sangue
No reconhecimento
Das pertenças…

E na palavra imprevista
Como quem chega - visita desejada! -
Que capricha percorrer todos os recantos.

Nos dias afluentes. E nas memórias
Dos mostos. A fervilhar distâncias.
E nos odores evanescentes.

E na rebentação dos afectos a germinar
Solísticos improváveis…

E nesta sinfónica toada de vozes a aclararem
Sons que nos habitam. E nesta gesta
De partilha na desmesura
Do fogo. E água.

E nesta candura do sol a aquecer
O corpo de outonos tresmalhados.

Se inaugura o poema
E se deslassa caudal
E se ergue em flama
A inundar o esplendor
Da tarde

E os cálidos
Esteios da amizade!

Manuel Veiga

Lisboa 19.11.2017


Este regresso ao Norte –  digamos, assim! -
Permitiu-me acertar contas com Fernando Pessoa:
                    
No Porto não se  serve Dobrada Fria!
......................................................................................................................

Inadvertidamente apaguei este post, de que publico novamente o poema. Não conheço porém maneira de recuperar os comentários, o que sinceramente me desgosta e aborrece.

Peço, por isso, desculpa aos meus amigos/as que tiveram a gentileza de comentar, sem me atrever a solicitar-lhes novo comentário, embora, como se compreende, o deseje muito.

Prometo ser menos desastrado a lidar com esta "gerigonça".

Grato.


quinta-feira, novembro 16, 2017

Caligrafia Íntima na RADIO VIZELA



HORA DE POESIA - RADIO VIZELA - Manuel Veiga


Que os Deuses Escravos Sejam...

Que as esferas girem e seu percurso
Seja incandescência. E os olhares o espaço sideral
E seu eterno movimento. E a linha dos dias
Se desenhe no rosto do inesperado.
E sejamos crivo e poalha
Ardente. 

E cada onda encontre o seu reverso.
E todos os amores e todos os afectos se façam.
E cada momento seja infinito instante.
E luminosa dádiva.

E que o fogo seja alimento de poetas.
E festivo, arda. E seja marca e glória a anunciar
As alvoradas.

E o tempo se faça insígnia. E ritmo.
E a vida dança.

E os homens sejam a fecunda chave do Universo.
E os deuses escravos sejam. Gemendo as dores
Da Humanidade.

Manuel Veiga

CALIGRAFIA  ÍNTIMA – pág- 17


PO´ÉTICA Edições

segunda-feira, novembro 13, 2017

Estão Proibidos Todos os Imprevistos


Estão proibidos todos os imprevistos
E o poeta será mandante de todos os acasos
Os dias terão vinte e quatro horas
Os meses trinta dias
E os anos serão contados pelos dedos.

E quando te encontrar terei quinze anos
Teus seios serão vibrante arpejo
Em tímidos dedos
Teus lábios o mel de todas as colmeias
E tua face o rubor
De todas as auroras

E então inventarei a palavra certa
Para te nomear desmesurada mente.

Manuel Veiga


sexta-feira, novembro 10, 2017

QUANDO VIERES - Eugénia Cunhal


Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.

Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.

Quando vieres
nenhum de nós dirá nada
mas a mãe largará o bordado
o pai largará o jornal
as crianças os brinquedos
e abriremos para ti os nossos corações.

Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.


Maria Eugénia Cunhal, in "Silêncio de Vidro"



quarta-feira, novembro 08, 2017

ALVOROÇO DA TARDE


O vento. Um nome. Uma mantilha solta.
Sem outra cor...

Apenas a pele. A letra soletrada.
A flor estendida.
A oferta.

E o carmim do beijo
Antes dos lábios...

Apenas o gesto
Não a pétala
Nem a rosa profanada...

Apenas brisa em mão aberta
E um raro perfume escondido
E o sonho da montanha.
Trepando.

E o lago dos olhos. Alagando-se...

Apenas um rubor mal desperto.
E este alvoroço da tarde
Em azul aberto.

Que de tão ténue
Resiste...

Manuel Veiga

“Do Esplendor das Coisas Possíveis”
Poética Edições

Abril 2016

domingo, novembro 05, 2017

VENHAM "FLANAR" NA CIDADE DO PORTO - Escritores.Online





No próximo dia 18, pelas 14.30 horas,
na Livraria "Flanêur", cidade do Porto, a professora 

CONCEIÇÃO LIMA
falará de Poesia, a propósito do livro de que sou autor

CALIGRAFIA ÍNTIMA
edição Poética Edições

VER
ESCRITORES.ONLINE

GRATO PELA VOSSA PRESENÇA AMIGA
E O ESTÍMULO DE VOSSAS PALAVRAS

Beijos e Abraços


sábado, novembro 04, 2017

No Dorso das Palavras Transitivas...


Estátuas derrubadas e jardins de cinza
No dorso das palavras transitivas
Fortalezas traídas por dentro.

Passos de deuses ausentes
E corredores desertos.

Que nada do que foi
Hoje permanece.

Apenas Eco. Música atonal a dissolver-se
No íntimo do silêncio.

Na eloquência de tempestades
Há no entanto uma vibração insuspeita
A adejar infrene na combustão
Da Memória.

E a sangrar dores evanescentes
E o gesto inaugural
Das Palavras límpidas.


Manuel Veiga 

AGUARELA MATINAL ...

Murmúrio de poema Sobre a pétala orvalhada Pequena gota a explodir na tela E na pálpebra E o frémito da boca Pequena lágrima ...