sexta-feira, dezembro 08, 2017

Colha Eu Pétalas e Rosas...


Sou assim hoje em festa vestido para vós
Na alegria de ler-vos, de quando, em vez,
Como se viessem todas juntas de viés
As palavras que partilham nossa voz.

Não cuido de jardins, mas amo as flores
Cada uma em seu perfume diverso.
Como letras batidas de um qualquer verso
Que, todas juntas, me perdem de amores.

E do poema construído em cada sílaba
Da amizade fugaz (sei lá se p´ra sempre)
Fique a harmonia e a emoção bem quente

E em cada gesto de beleza murmurada
Desse bouquet da amizade, em suma,
Colha eu pétalas e rosas, uma a uma...

Manuel Veiga


(De um tempo em que se escreviam sonetos)


domingo, dezembro 03, 2017

O Rubor e a Pétala

Colhe o poeta a pétala. E o rubor.
Alegria breve

A desprender-se. E desamparada flor
Que estremece. E se ergue
No frémito.

E se oferece. Nudez alva a derramar-se
Na manhã fria.

Lábios febris gretados a desenhar
O sobressalto. Sobre a pele.
E a sede que arde.

Rosa e nome. Indelével perfume
A inflamar o declive fremente. Seiva que teima
No interior do caule.

Que o poema requer. Flor silvestre
A percorrer o assombro
Dos dias. Por abrir.

Manuel Veiga


sexta-feira, dezembro 01, 2017

Quem Me Dera Ser Lerdo



Gostava de ser lerdo. A sério! Muito lerdo.
Passarinhos à janela logo pela manhã...  Piu... piu... piu...
E girofles de infância no lajedo.

E azuuuul... muito azul a entrar-me casa adentro.
Como se minha casa fosse bordel
De sonhos tresmalhados
Ou leilão de calcinha muito azuliiinhaaaa.
De menina
Muito purinha
Porém, cara...

Ou exibição de meia preta
De balzaquiana muy casta …

Ah, gostava de ser lerdo. A sério. Muito lerdo.
Ser um senhor bem-posto. E voz timbrada.
Talvez – como se diz? – Palestrante, é isso!...
Ou então advogado a fazer poema em dodecassílabo
Tudo muito bem arrumado...

Gostava de ser lerdo. A sério. Muito lerdo...
Ser assim como que uma espécie passarinheiro
De controle remoto. Enfim, ser esse meu fado
(“Meu fado... meu fado... meu fado!...”)
E minha sina – passarinha aqui...
Lambiscadela acoliiiii!... – 
E no final tudo bate certo: nem a passarinha come
Nem o “Atílio... atina!”...  

Ah, sim! Gostava de ser lerdo. Muito lerdo...
Habitar altas escarpas! E ter marinheiros nos olhos. E barcos.
E marés, está claro! E resmas de sereias
À volta.

E melancólicas noites de azia.
E esguicho precoce.
E aguardente rasca.
E ser poeta decadentista
Debruçado sobre o Tejo...

A sério. Gostava de ser lerdo. Muito lerdo.
Ser analfabeto de ideias.
E tocador de bombardino... Pom!... Pom!...

Mas sou este trambolho lúcido
Este patinho feio
Das letras
A gemer pelas esquinas.

D. Quixote de causas mortas e
Dulcineias perdidas.

Manuel Veiga
DO ESPLENDOR DAS COISAS POSSÍVEIS
Poética Edições