Gostava de ser lerdo. A
sério! Muito lerdo.
Passarinhos à janela
logo pela manhã... Piu... piu... piu...
E girofles de infância
no lajedo.
E azuuuul... muito azul
a entrar-me casa adentro.
Como se minha casa fosse
bordel
De sonhos tresmalhados
Ou leilão de calcinha
muito azuliiinhaaaa.
De menina
Muito purinha
Porém, cara...
Ou exibição de meia
preta
De balzaquiana muy casta
…
Ah, gostava de ser
lerdo. A sério. Muito lerdo.
Ser um senhor bem-posto.
E voz timbrada.
Talvez – como se diz? –
Palestrante, é isso!...
Ou então advogado a fazer
poema em dodecassílabo
Tudo muito bem
arrumado...
Gostava de ser lerdo. A
sério. Muito lerdo...
Ser assim como que uma
espécie passarinheiro
De controle remoto. Enfim,
ser esse meu fado
(“Meu fado... meu
fado... meu fado!...”)
E minha sina – passarinha
aqui...
Lambiscadela
acoliiiii!... –
E no final tudo bate
certo: nem a passarinha come
Nem o “Atílio...
atina!”...
Ah, sim! Gostava de ser
lerdo. Muito lerdo...
Habitar altas escarpas!
E ter marinheiros nos olhos. E barcos.
E marés, está claro! E
resmas de sereias
À volta.
E melancólicas noites de
azia.
E esguicho precoce.
E aguardente rasca.
E ser poeta decadentista
Debruçado sobre o
Tejo...
A sério. Gostava de ser
lerdo. Muito lerdo.
Ser analfabeto de
ideias.
E tocador de
bombardino... Pom!... Pom!...
Mas sou este trambolho
lúcido
Este patinho feio
Das letras
A gemer pelas esquinas.
D. Quixote de causas
mortas e
Dulcineias perdidas.
Manuel Veiga
DO ESPLENDOR DAS COISAS
POSSÍVEIS