De regresso de África, África minha, a que te
arrastei, Maria Adelaide, neste tempo sem tempo, a que a narrativa se molda,
como efervescência de memória e capricho fora, que tanto se ergue faiscante,
como se esbate e retrai, bicho-de-conta a evitar a luz, para mais adiante, aparecer, fixando-se, coisa
ardida, no corpo inerte das coisas ditas. De África, fomos o verso e o reverso,
incisão e ariete na mesma tatuagem, tu, em Angola nascida e “menina e moça” de
casa de teus pais te levaram e desembocaste em Lisboa, em colégio de freiras,
para te dobrarem o génio e receberes a esmerada educação a que estavas destinada
não fora tua rebeldia de menina mimada por tuas criadas e amas, que amor de mãe
não tiveste e este teu garboso Aspirante a Oficial de Cavalaria, que Alferes
seria meses depois, por acaso de graduação militar Alferes-Adjunto do Comandante
da Companhia de Cavalaria, na Guiné e o Valentim seu inseparável camarada, - como
gostarias tu, Maria Adelaide, tê-los visto ambos, brilhantes de solaria e “cagança”,
em trote, pela Calçada da Ajuda rumo a Monsanto, em exercícios militares, montados
em soberbos alazões - tempo de cerejas ainda e verduras, que tempo maduro de
“outros Maios” viria depois, desfeita a guerra e ajustados os sonhos
colectivos, no refluxo de uma Revolução que percorreu o sangue dos homens e o
fulgor de cravos vermelhos no cano das espingardas. Nesse tempo tu vieste, tempo
de refluxos e interrogações sobre o rumo das coisas em devir incerto, capricho
teu certamente, que “nunca viras um comunista tão perto” e encanto meu pelo
verde de teus olhos e curiosidade confessada por ti, mulher elegante e “chic”,
casada com amigo infância, em tempos outros, algures numa aldeia perdida no
norte do País e que, árvores do mesmo chão, se distanciaram numa separação
consentida de opções radicais de suas vidas – o João, teu marido, a singrar na
política de ajuste contas e este teu amigo, fiel aos seus princípios e valores
a arrastar os dias numa anódina Repartição Pública, tal pária que o zelo
apostólico-político do Director-geral não lhe consentia qualquer trabalho, ao
menos para justificar o horário e o vencimento, tempo nosso, portanto, totalmente
nosso, vivido como um perfume raro ou um gole de vinho que na paleta de vibrantes
sabores, se desfaz no palato.
Como eu gostaria que viesses, ainda hoje, neste
tempo melancólico a anunciar o fim. Sei que jamais será possível, mas é ainda em
ti, Maria Adelaide, que me refugio, pois ainda que definitivamente perdida, tu és o veio e a seiva que alimentam a minha
escrita e esta narrativa, prestes a esgotar-se e que, sem rebuço, mais que uma
vez, disseste entediante. E revivo-te hoje, como se uma luz branca e fria
inundasse toda a cena, o momento grave, como um terramoto de alma, em que
anunciaste o tumor que te roía o seio e a que te negavas numa teimosia dorida,
iludindo a urgência da cirurgia. Havia “séculos” que não nos víamos, éramos passado
e cinza quente e num fulgor de instantes, todos os momentos em mim renasceram,
assim as dores de teu divórcio e a nódoa negra, dissimulada por cremes, a
agressão e a brutalidade boçal do insulto do João, meu “velho” companheiro de
infância e teu marido, a tua emancipação como Mulher e tua decisão unilateral
de pores fim aos nossos encontros, que “amante e marido” – disseste – “são
verso e reverso da mesma subjugação feminina”, a fome de nossos corpos acesos, noites
de Santo António engalanado e a embriaguez das noites cálidas, a gota de vinho
nos teus lábios por meus dedos, a tua prodigiosa ideia de celebrares comigo e com
o champanhe de teu marido as minhas derrotas eleitorais, dividida que eras entre
o voto do coração e os “dever” de o acompanhares, como esposa, no voto e na
vida – eu, derrotado eleitoralmente, celebrava contigo e o João, vencedor,
perdia, perdendo-te todos os dias – a livraria na Baixa, os teus seios rijos
nas minhas costas em teu abraço de surpresa, o murmúrio de teus lábios no
ouvido, e transgressão amorosa de um livro roubado, que exigiste, a pergunta a
queimar-te na boca e na tua voz rubra, ainda hoje sem resposta – “amas-me?” - a
lassidão dos dias burocráticos, os teus, que eras mulher de quem eras e os meus
porque era comunista – um pária! – a rotina das horas, nossos corpos, por
milímetros, a deslizarem, pelos elevadores e corredores, a festa madura, como
cachos, de tuas pernas descuidadas, balançando-se, sentada sobre a secretária, Antonioni
e o “Grito”, e a frágil Monica Vitti, a derramar talento sobre a tela, o
encontro das mãos e a febre, o beijo a explodir, a limpidez de teus olhos
verdes e o Acaso de um comunista na tua vida e, assim eu te revia nesse micro
momento de todos os deslumbres, quando ao
telefone, atónito, a recompor-me da surpresa, me anunciaste o desejo de
almoçarmos juntos “um destes dias, tão breve quanto possível” e que levarias
contigo uma pessoa minha amiga, “que não vês há muito tempo”, Claro que sim,
Maria Adelaide claro que sim! E numa ironia desastrada, “se não por ti, pelo
menos pela surpresa que me reservas”! E tu, em gargalhada nervosa, “meu
querido, não há mais surpresas entre nós, sabemos quase tudo um do outro”, e a adensares
o mistério “e a surpresa não é minha, mas estou certa que será tua”, num tom de
voz melancólica e algo estranha, apesar do sorriso.
Presidias então, Maria Adelaide, ao Conselho Directivo
de uma Escola do Ensino Secundário da Área Metropolitana de Lisboa, disso eu
sabia, que instalado num 7º andar, da Avenida 24 de Julho, no afogadilho do
Gabinete Jurídico do Ministério da Educação, por entre urgências e pausas e um
relance, de vez em quando, sobre a magnifica paisagem do Mar de Palha,
necessário se fazia conhecer os capilares organizativos, quer dizer, as escolas
e as diversas estruturas e departamentos e quem era quem, no conjunto do
sistema de Ensino, mas, em verdade, havia passado longo período de notícias um
do outro que íamos colhendo apenas por terceiros, tu ocupada e o tempo dividido
por mil tarefas de mulher moderna, o filho adolescente, que era o centro tua
vida, o Pedro que te merecia, a direcção da Escola, as aulas, a ginástica,
etc.. etc. e eu, qual “bonus pater famillia” lusitano, a dividir-se por mil
tarefas, Escritório, Ministério, Sindicato, informações jurídicas, estudos,
pareceres, tribunais, contratação colectiva, com o sangue, em boa medida apaziguado,
e a vida “medianamente” resolvida, fui deslassando de ti, por força das coisas,
que nada na vida dos homens é eterno e por bem saber que mais vale guardar o
perfume evanescente das nossas vivências mais queridas, que atropelar o destino
no vão desejo de as pretender eternas. Seja como for, acertado o encontro,
acelerou em mim o desejo de te ver e quase esqueci, entretanto, o engodo da
surpresa, desnecessário que era, pois de ti colhia a razão de minha ansiedade
de ver-te novamente e – cala-te coração! – e sei lá se a afeiçoar intimamente o
cálido desejo de ti, vaidade masculina, ou vibração bem mais profunda, ferida
escondida, que desperta, bem sabendo, porém, seres mulher de um só homem e que o
Pedro, teu colega no ensino, preenchia teus dias, se não completamente feliz
pelo menos razoavelmente satisfeita na partilha da tua vida com o Pedro, teu
actual companheiro, depois de duas ou três experiências funestas.
Fui pois ao teu encontro “tão cedo quanto possível”,
assim o desejavas, cheguei, porém, depressa de mais e então consumia a minha
ansiedade pela tua chegada, bebericando um whisky, coisa rara em mim, que não
aprecio a bebida, breve, porém, tu chegavas, fantástica no ondular de teu
corpo, notei o carmesim a subir-te ao rosto, depois do beijo (evitaste os
lábios e demoraste o abraço) e, um passo atrás, uma mulher alta, razoavelmente bonita,
de uma idade indefinida, mas definitivamente mais velha, vestida com gosto, mas
modesta, onde dominavam as cores escuras, olhar tímido e um sorriso embaraçado
e tu, Maria Adelaide, num sorriso, “aqui tens a surpresa!”, fazendo um gesto exagerado
de apresentação e eu de mão estendida no cumprimento, suspenso, sem sinal de
reconhecimento da “intrusa”, a aguardar o desenlace com um sorriso cortês e então
uma voz suave de mulher a acariciar-me os ouvidos “não me reconhece, doutor?” e eu levemente
encavacado (salvo seja), pela formalidade do tratamento um pouco deslocada e
pela situação de embaraço, que me escapava, em leve agastamento “não, não
conheço, devia?”, a vossa troca maliciosa de olhares e a gargalhada” e a
“intrusa”, divertida, “sou a Lia! Brincamos juntos quando éramos miúdos!”…
“A Lia?...”-
gaguejei. “Mas como é possível, seres a Lia?” e dando livre curso â afectividade
à flor das emoções, abracei-te, Lia, e,
em exclamação interrogativa, “há quanto anos não nos víamos!?”… E agora, sim, puxando
pelos fios da memória, das linhas do rosto de Lia, marcado por ligeiras rugas e
emerge então o seu rosto infantil e a voz de D. Elisa, do outro lado do muro,
“ai, malandros sem vergonha, que ides direitinhos para o Inferno” e do lado de
cá, por baixo do vitral da sacristia, a pequena e amorável Lia deitada de
costas, a exibir o sexo impúbere e ele, menino, a obedecer, a tocá-la e a
mexer, entre a inibição e o deslumbramento e então a Voz, qual trombeta do
juízo final a explodir como bola de fogo a derreter a sua alma “pecaminosa” e o
choro diluviano e a Lia, a sereníssima, a categórica Lia a estancar-lhe as
lágrimas e a salvá-lo das penas do Inferno “nada, não aconteceu nada –
proclamas, majestosa, perante a mãe aflita – “estávamos a jogar e Manuel caiu e
aleijou-se num joelho”.
Agora eram teus olhos, Lia, a ler meu rosto e quase
num murmúrio “o tempo passa tão depressa!...” como que embalada na mesma onda
de recordações em que te pressenti (ou te inventei) no breve estremecimento do
corpo de mulher madura, a denunciar-te. Valeu, então, Maria Adelaide no
embaraço, olhos e ouvidos atentos e sentido de oportunidade, “é altura
de deixarem de se olhar como dois basbaques e passarmos ao almoço” – e aguçando
a ironia – “têm a vida a vossa frente para desfrutarem o prazer do encontro”. Sorri-te,
Maria Adelaide, e calei o teu vago despeito e o “discurso” desastrado, com um
ligeiríssimo gesto de contrariedade e arrumei a questão, ironizando também “mais
a mais somos funcionários públicos, não podemos estar a defraudar o patrão”.
Sentamo-nos. Maria Adelaide, adivinhando-me,
apressou-se na explicação, “a Lia é Auxiliar da Acção Educativa na minha
Escola, que em boa hora, fui a descobrir no Quadro Geral de Adidos”, onde,
“retornada” de Angola com a independência esperavas a tua oportunidade de
ingressares na Função Pública, onde se arrimaram milhares de concidadãos,
vítimas dos “ventos da História” e das manobras estratégicas da “guerra fria”,
com os americanos a promoverem e a instigarem o terrorismo e a guerra civil em
Angola e a fuga dos portugueses, que deixaram o novel País sem quadros que
pudessem assegurar o funcionamento da economia e da Administração, criando
assim dificuldades adicionais no processo de descolonização e dificuldades
acrescidas à afirmação da Democracia em Portugal, pois que a integração
económica e social, de centenas de milhares de cidadãos portugueses exigia
recursos que não havia e tu, Lia, ali estavas à minha frente, “viúva”, do macilento
e imberbe Padre Francisco que, num final de Verão, inesperadamente, um dia partiu
e, tu com ele, de uma aldeia no norte de Portugal, onde, ministro de Deus e de
Sua Santa Igreja, ele Padre, apascentava o seu rebanho de fiéis e te levou, num
carro ligeiro, por caminhos de terra batida, entre solavancos, poeira e enjoos
e, no ventr, o fruto sagrado da tua tentação e de teus amores pecaminosos. E da
tua solidão...
Em Angola te acolheste, com teu filho nos braços e o
jovem e macilento Padre Francisco a tiracolo, roído pelos remorsos e pela
tísica, que em breve faleceu. Valeu-te então, teu irmão Manuel que em Angola te
acolheu e que hoje, solteiro e sem propósito de casar, te concede o tecto e a
educação de teu filho, ele que na adolescência subiu os degraus do Seminário em
vista a ser padre, como teu padrinho, o velho e santo Padre Manuel, de quem herdou
o nome, mas não a côngrua e, em consequência, em Angola fez sua vida modesta e
honrada, que depois da debandada dos portugueses, em Lisboa, lhe permitiu
integrar-se como empregado bancário.
Assim tu o disseste, Lia, que eu não o sabia. Apenas
revesti a tua vida com palavras minhas e a Maria Adelaide como testemunha, que comovida a pressenti (e já não crítica da minha narrativa sem ponta que se pegue) com tua história, a derramar-se , fraterna, no beijo em
teu rosto e na sua (dela Maria Adelaide) “surpresa”. E na foto de teu filho…
“Já se deram conta das horas?” – interrogas-(te), Lia, obsequiosa, e as tuas palavras ficam a pairar sobre a perturbação do momento – “os
doutores poderão ficar!” – sorris cúmplice e irónica – “mas eu tenho horário a
cumprir” e Maria Adelaide “sim, sim, Lia, pode ir, eu ficarei mais uns
momentos, mas não demoro “ – replica então, afagando-te num sorriso.
Levantei-me da mesa e ajudei-te a vestir o casaco, Lia. Apartei-te em meus
braços. E uma carícia no rosto.
Ficaram os dois, apenas. O Alferes que alferes já
não era! E Maria Adelaide que sempre seria.
Manuel Veiga