quarta-feira, março 28, 2018

ANTI INOCÊNCIA


Sou a Branca de Neve – tenho sete porquinhos
E um jardim de girofles!

Sou o Capuchinho Vermelho:
- O Lobo Mau é meu amigo…
E tenho uma cabana na floresta.

 - E a tua avozinha sabe?
- Claro que sabe, é ela quem recebe a renda!


sábado, março 24, 2018

CÂNTICO DA PÁSCOA


 “Que querei daqui, vós, portentosos sons
Que do Céu vindes procurar-me no pó?
Soai antes onde há corações bons
A mensagem bem a oiço, porém, falta-me a fé
E o milagre é da Fé o filho amado...”

“Àquelas esferas não ouso aspirar
Donde me vem a boa e doce nova;
Mas quando o som se renova
À vida novamente quero voltar...”

“Então descia em mim a benção
Do Céu, na paz do Sábado, serena
E a voz dos sinos, de presságios plena;
E era um prazer fogoso a oração...
Um indizível anseio me impelia
A floresta e campos correr
E, entre lágrimas ardentes, sentia
Que em mim um mundo começava a nascer...”

“O Canto (da Páscoa) veio lembra-me os jogos de infância
Da primavera a festa livre da alegria;
O ânimo infantil sustenta-me a lembrança
Que do derradeiro passo me desvia...”

“Ressoai, ressoai doces hinos do Céu!
Lágrima, corre! ... Terra, aqui estou eu!...”

in “Fausto” – Johann Wolfgang Goethe
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Uns breves dias ausente
Beijos e abraços



sexta-feira, março 23, 2018

ANTI ALCOOLEMIA


Não há “tremedeira”
Que não dê asneira…

Aguenta-te, pá!...
Não forces a fronteira
Que é aziago

E bem podes - sei lá! -
Tombar de borco
Como copo
Vazio.


Manuel Veiga



quarta-feira, março 21, 2018

MICRO-PAISAGEM


Abruptas vozes sem distância e rumor
De águas. Abrem-se matinas no regato dos olhos
E açucenas a despontar primaveras.

Sou passagem. E secreta ponte
Nesta micropaisagem
De cores intimas.

O ar freme neste hálito da memória
A escorrer vertigens. E soletro o bago
E o mel. E o minucioso insecto
Em seu rendilhado voo.

E o zumbido das coisas
A lamber o cérebro.

Canto gregoriano
Em que me quedo
E me (des)digo

E inóspito me oculto.

Arfar do poema a abrir-se
Ao Mundo.


Manuel Veiga



domingo, março 18, 2018

COLHE O POETA...


Colhe o poeta a pétala. E o rubor.
Alegria breve

A desprender-se. E desamparada flor
Que estremece. E se ergue
No frémito

E se oferece. Nudez alva a derramar-se
Na manhã fria.

Lábios febris gretados a desenhar
O sobressalto. Sobre a pele.
E a sede que arde.

Flor e nome. Indelével perfume
A inflamar o declive fremente. Seiva que teima
No interior do caule.

(Poema reeditado )


Manuel Veiga


sexta-feira, março 16, 2018

Brasil - Assassinato da Vereadora MARIELLE FRANCO






No Brasil após o assassinato da vereadora e ativista Marielle Franco, o jornalista Beto Almeida contou na entrevista à Sputnik Mundo o que pode estar por trás destes crimes”

VER Sputnik

ANTI DRAMA...



Desce o pano sobre a cena
Decomposição da fala em alvoroço
E a persistência do eco.

Ruído de alma em fingimento
Sobre palco deserto.

E o grito-mudo…

Comédia da vida.
Em traço grosso.


Manuel Veiga



segunda-feira, março 12, 2018

ANTÍTESE...



No corpo do poema
Um murmúrio. Ligeiríssima fuga
Na dispersão da tarde...

Lá fora o Mundo!
Cá dentro o sopro de uma sonata
A diluir-se em cada verso...



Manuel Veiga

sábado, março 10, 2018

O Trabalho Humano Na Economia e Na Sociedade


“Reflectir sobre o trabalho humano envolve questionar a economia, a empresa, as relações mercantis ou o mercado como regulador supremo, mas também tomar consciência dos valores de civilização e de cultura que queremos preservar e desenvolver e bem assim inquirir como é que estes hão-de tomar corpo nas múltiplas instituições que integram as sociedades e presidem à sua organização. Com toda a razão, a Doutrina Social, que a Igreja vem desenvolvendo há mais de um século, insiste em que o trabalho é a chave da questão social.

Na sociedade contemporânea, a problemática em torno do trabalho, do seu estatuto, do lugar que assume na produção e repartição da riqueza e, de modo geral, do papel que lhe é conferido na organização da vida colectiva ganhou novos contornos, já que o trabalho assalariado e dependente se tornou num bem escasso e, do mesmo passo, a relação laboral conheceu uma acentuada perda de poder negocial dos trabalhadores, decorrente da globalização e da financeirização das economias.

Por outro lado, os governos e a administração pública viram os seus meios de regulação e de intervenção fortemente condicionados pelas regras de um mercado cada vez mais aberto, competitivo e desregulado. É neste quadro que emergem questões novas que suscitam o interesse e empenho de todos os cidadãos e cidadãs que recusam a inevitabilidade dos fenómenos sociais, sejam eles o desemprego estrutural, o trabalho precário, os baixos salários a par da cada vez maior acumulação da riqueza produzida, o abaixamento dos níveis de protecção e segurança dos trabalhadores, etc...

No contexto das novas coordenadas, ganha particular acuidade o próprio conceito de trabalho humano que não pode restringir-se apenas ao trabalho assalariado, mas há de incluir o trabalho de formação pessoal, de educação dos filhos e de prestação de cuidados na família ou na comunidade. O trabalho assalariado é apenas uma entre outras componentes do trabalho humano e do contributo que cada pessoa deve trazer à sociedade em que vive. Como integrar esta perspectiva nos mecanismos de repartição da riqueza e de organização das sociedades, quando se pode antever que irão sendo menores as oportunidades de trabalho assalariado para todos os activos que o procuram?

Com a globalização, os poderes públicos nacionais viram a sua capacidade de intervenção na regulação e desenvolvimento das suas economias consideravelmente reduzida, sendo necessário encontrar novas formas de regulação do mercado a nível supra nacional sob pena de vermos persistir as situações de grande desigualdade e exclusão social, que hoje se verificam, tanto à escala de cada país como, e sobretudo, à escala mundial.

Nem sempre o cidadão comum se dá conta destas realidades, não sabendo como lhes fazer face e como exigir dos respectivos governos actuações conducentes à construção de mecanismos de globalização da solidariedade, condição sine qua non para o desenvolvimento e a paz. De pouco vale engrossar a corrente do rio das muitas queixas e dos justíssimos descontentamentos (às vezes, protesto e actos de rebeldia), ainda que o leito de certos rios mais calmos se faz com o galgar das margens que os querem conter...”

(…)

Manuela Silva



quinta-feira, março 08, 2018

A MULHER DE VERMELHO...


Rasgam-se as cortinas e sob o foco a Mulher
Esguia como o tempo liberto como o punho
Erguido ao céu da praça cheia e às canções!...
Maiakovski grita em métricas guturais:
“Abram alas ao Futuro que perpassa nas dobras
Do manto vermelho!...”

A Mulher inclina-se em dignidade soberba
Segura nas mãos a flor dos dias e nos olhos
O fervor prenhe de Lonjura e de Distância.
E a palavra ousada nos lábios escarlate
Como a túnica...

Em baixo uma criança negra soletra liberdade
Nas pétalas desfolhadas do cravo rubro
Que a mãe lhe dera com o leite...

E o pai sorri com os imaculados dentes
Da fome. Com o grito. Como a guerra.
E ergue o punho à Mulher de Vermelho
Que o acolhe no seu seio de cristal...

E o devolve ao Povo acumulado na Praça
Num gesto de febre
E luta...

Viva a Liberdade!


Manuel Veiga
"Poemas Cativos" - POÉTICA Edições – pág. 51
Lisboa 2014

quarta-feira, março 07, 2018

DIA INTERNACIONAL DA MULHER - Ano 2074



- “Celebramos?”

- “Teus olhos abrasam
Teu corpo incendeia-me…”

- “Sim, sei…”
Mas celebramos? O Dia da Mulher,
Celebramos?”

- “Se tu (me) queres
Ofereço-te uma flor
E meu amor…”


Manuel Veiga - Lisboa  2074


AGUARELA MATINAL ...

Murmúrio de poema Sobre a pétala orvalhada Pequena gota a explodir na tela E na pálpebra E o frémito da boca Pequena lágrima ...