Recordo-me da Merência, espigadota, de
cabelos ruivos e sardas dispersas pelo rosto leitoso e bem desenhado. Um pouco
misteriosa nos seus silêncios, arredia às brincadeiras mais ousadas dos rapazes
que, com ela e outras rapariguinhas se juntavam no adro da Igreja, depois das
aulas, como potros selvagens, nos fins de tarde daqueles longínquos anos de
Primavera. E quando algum, mais afoito, lhe levantava a ponta da saia ou, no
pretexto das brincadeiras, atrevia a mão aos seios púberes e, ela soltava, numa
indignada recusa:
-
“Vê lá se apanhas um estalo!...”
Junto ao adro, descaindo um pouco para
oeste, rematando o pequeno largo, como vértice da rua da Igreja e a rua mais
estreita da Calheta, era a forja do Ti´ Alípio. De essencial direi apenas que o
“Tio” Alípio, viúvo, criava dois filhos ainda tenros, à força de marteladas na
forja e do esgravatar de uns alqueires de centeio, em terras arrendadas, nas
ladeiras íngremes dos rios da minha infância.
O Manuel, o mais velho, - em estrita
divisão social do trabalho (isto sou eu agora a falar...) - fora destinado às
agruras do centeio inóspito e ao cultivo de uma pequena horta a uns escassos
quilómetros da povoação, a qual, por razões que não antecipo, irá ser o mítico
lugar do desenlace desta “estória”.
Para o filho mais novo, o Tio Alípio havia
decidido que seria ferreiro e continuar assim a tradição da forja, apontando
relhas e aguçando enxadas ou, quando necessário, ajustar as ferraduras de
alguma besta. Pensaria o bom do “Tio” Alípio, que reservar para o seu benjamim
a tradição da forja seria, certamente, a maneira certa de homenagear a mulher,
falecida no momento do parto, de cuja família recebera a oficina.
Acontece, porém, que o Zé - é esta a sua
graça, embora mais conhecido por Zé “Sugão”, já que em criança compensou,
durante largo tempo, a carência de afectos maternais com o “sugar” dos dedos na
boca, hábito que pela adolescência se prolongou, mediante a substituição dos
dedos pelo permanente sugar de figos secos – acontece, dizia, que o Zé não
tinha nem físico, nem vontade para a violência da forja, a que fora
acorrentado...
Era, pois, com manifesto regozijo que,
espreitando pela fresta da porta da forja, acompanhava as nossas brincadeiras
no adro. Uma ou outra vez, quando o pai, por qualquer outro afazer, se
ausentava, era certo que Zé, a quem a vida reservara mais agreste passatempo,
subia a curta distância das nossas correrias.
Quando assim acontecia, a Merência de
olhar fixo no chão, sentava-se no muro do adro, ajeitava a saia, esticando o
tecido até à extensão das pernas, cobrindo a penugem incipiente que as adornava
e que os últimos raios do sol, descendo no horizonte, davam tonalidades
delicadas.
O Zé, a uns palmos de distância,
encostado ao muro, sem uma palavra, olhava-a de soslaio, mal disfarçando o
pudor do êxtase num pontapé ou outro, como quem enxota visita indesejada,
quando inadvertidamente a bola lhe chegava aos pés...
E assim ficavam aquelas duas alminhas,
mirando-se, sabe-se lá a que alturas transportados, até que o adro da igreja
ficava deserto ou, antes disso, o Ti´ Alípio, qual trombeta do juízo final,
reclamava a presença do filho, bem sabendo então o Zé que o deleite do paraíso
iria decair no ardor infernal de um bom par de estalos na cara. É que Ti´
Alípio, rigoroso “padre padrone”, não
admitia transgressões na ordem familiar e, muito menos que o filho, herdeiro
designado de seu brioso ofício, andasse “metido” com a “galdéria” da Merência...
Importa esclarecer que o Ti´ Alípio,
ainda que vagamente aparentados, não falava com a família da Merência. Uma
antiga rixa sobre partilha de águas com a propriedade confinante à horta que o
filho mais velho, o Manuel, zelosamente granjeava, alimentava entre eles um
verdete de ódio, que nem festa ou morte, alguma vez haveria de limpar. Toda a
aldeia o sabia. E respeitava aquela funesta zanga na profundeza (ou insensatez)
da sua autenticidade...
Passaram anos. A infância esgotou-se
como um suspiro. Com o alvor dos anos sessenta a aldeia despovoou-se com
emigração para França e outras araganças. Entretanto, o Ti´ Alípio falecera. O
Manuel largou a junta das escanzeladas mulas e as agruras da horta e do centeio
e enfileirou na emigração a salto. O Zé, porém, por lá se deixou ficar,
acantonado ao fervor da sua devoção maior...
A forja morreu de estertor natural. O
estiolamento, por falta de braços, da produção agrícola tornou-a supérflua. Nem
o Zé com isso se importou. Respeitava o nome do pai, mas odiava o seu ofício...
E a Merência lá continuava, firme, como estrela polar, marcando-lhe o rumo e a
vida...
Por essa ocasião, nas minhas subidas à
aldeia, em tempo de férias, ia sabendo de Zé, por quem tinha sincera amizade,
caldeada (no mais lídimo sentido da palavra) nas minhas escapadelas para à
oficina de Ti´ Alípio, onde, deslumbrado, acompanhava o contorcer do ferro em
brasa e a metamorfose de sons na bigorna sob a força do martelo, donde saltavam
fagulhas patéticas, que a meus olhos eram fadas ou estrelas caídas de um céu
por mim inventado...
Sabia, por isso, que o Zé ia
sobrevivendo, jeira aqui ou ali, ou como criado de lavoura por um período mais
ou menos longo, de algum lavrador mais teimoso, resistente aos caminhos da
emigração, para quem o cuidado das terras não lhe permitia partir, nem o fruto
do trabalho lhe permitia ficar.
Tempos negros, esses!...
Em minha ânsia de por em dia o balanço
de meus afectos, perguntava, então, também pela Merência. Todos os irmãos
haviam emigrado, mas ela ficara e era o amparo da mãe, cuja doença prendera, sem
remédio, à enxerga.
E, entre sorrisos mais ou menos explícitos
e insinuações picarescas ia então eu cimentando a suspeita que a Merência e o
Zé se encontravam, pela calada da noite, no recato dos lençóis, de que o Zé se
escapulia, lesto, já quando a alva brotava no último canto dos galos e
horizonte se tingia das tímidas cores da manhã.
Contava-se até, que um dia,
surpreendidos, entre estevas e giestas, em parte do termo mais distante, o Zé
obrigara o incauto pastor a ficar calado, mediante promessa de lhe guardar as
ovelhas, no dia da festa do Verão, em honra do santo padroeiro da freguesia,
quando os jovens da terra, de fatiota nova, se revolvem em bailaricos e, quando
Deus quer e a ocasião surge, nalgum canto mais esconso, os corpos suados na dança,
se soltam no frémito dos sentidos.
Contava-se, pois, na aldeia, os
encontros clandestinos dos dois amantes, sendo que as más-línguas logo
acrescentavam versão mais picante, posta a circular pelo lesto pastor: ou seja,
que o Zé, fazendo jus à sua alcunha de “sugão”, estaria a amestrar a língua nas
mais íntimas impudicícias da Merência.
Tal era o falatório e a risada pública
que, pelo Entrudo, entre os gritos e esgares, os “caretos” e os galfarros da
terra, mimavam o Zé, declamando, em coro: - “Haja
decência, Zé Sugão e a Merência!”...
Enfim, uma orgia de gritos e gestos, com
laivos de crueldade...
O picaresco episódio acentuou o divórcio
com o povo da aldeia. Em olímpico desprezo, porém. Raramente se viam juntos durante
o dia, mas pela calada da noite encontravam sempre engenho e arte de se amarem,
quando a mãe da Merência dormia ou, quando já mais débil na doença, não podia
atazanar a filha, “que era a sua
desgraça”...
Assim, por anos a fio. Claro que a lei
da vida, por vezes, é justa. A mãe da Merência acabou por falecer e, com seu
óbito, foram removidos os últimos obstáculos à felicidade daquele perene
noivado. Sem encargos familiares, eram ambos livres de se “juntarem” e o povo
da aldeia que se danasse...
À Merência coubera em partilhas o
terreno confinante à horta do tio Alípio centro das desavenças antigas entre as
duas famílias, que constituem, por assim dizer, os liames ignorados desta
história. Assim, à margem das regras, subvertendo a ordem social, juntaram os
trapinhos e os escassos atavios, que as vidas, essas, há muito haviam sido
fundidas numa única órbita, como os deuses costumam desenhar para os amantes
predestinados.
A horta, que de bom grado o Zé trocara
pela forja, em ajuste amigável com o irmão, agora um pouco mais alargada com
herança da Merência, era uma espécie de jardim das delícias. Reconstruíram o
casebre que lhes servia de guarida, à força de braços e teimosia, dando ao
escasso cubículo condições mínimas de dignidade e esmerada limpeza que a
Merência nessas coisas não transigia. O Zé, com ajuda de uma junta de bestas
tratava da vinha, da meia dúzia de oliveiras e de algum cereal. Ela, a Merência
tratava do “seu” Zé e da horta e dos primores, quando chegava o tempo.
Arredados assim do mundo e do destino da
aldeia, onde raramente desciam...
Quis o acaso (ou a estranha razão dos
afectos) que numa tarde de fim de Verão, quando o narrador percorria veredas e
memórias, em viagem circular de um tempo sem regresso, fosse desembocar ao
mítico lugar, onde o Zé e a Merência, havia construído o seu destino - o seu
porto de abrigo e o seu mar.
Devo esclarecer que, embora sabendo das
suas vidas, como ficou referido, haviam passado mais de vinte anos, desde a
última vez que o narrador falara com o casal. Receava, por isso, não ser
reconhecido e, em última análise, até que a sua vista pudesse ser entendida
como intromissão abusiva. Como bem se sabe, existem universos assim, em que uma
qualquer vibração exterior, por breve que seja, é bastante para os perturbar.
Estava, por isso, receoso o narrador e
hesitou por uns breves segundos. Mas afoitou-se, movido não tanto pela antiga
amizade, mas sobretudo – sabe-o agora – pela busca dele próprio, no registo de
outras vidas...
Apareceu a Merência ao sinal discreto no
portão. Acompanhada de belo exemplar de um cão malhado, que foi esfregar-se às
suas pernas e prontamente afastado pelo zelo da anfitriã.
- “Ah,
és tu!...” – exclamou sem qualquer surpresa, como se fosse ontem o último
dia, em que se tivessem visto, ou se como a visita tivesse sido previamente
anunciada. Limpou as mãos no avental e apertou a minha, com um vago sorriso de
acolhimento. E, sem mais, apontando uns metros mais abaixo:
- “O
Zé está lá em baixo, junto à figueira tentando arranjar a parede do poço!...”
Desceu o curto espaço, evocando memórias
vagas, que o local lhe despertava e deparou o narrador com Zé, absorto no seu
trabalho.
Foi, portanto, o visitante quem quebrou
o enguiço do tempo e do lugar. E num vago sorriso, ensaiado nas lides
citadinas, em ironia que não passou despercebida, exclamou, prazenteiro, mal o
Zé levantou os olhos, incrédulo:
- “Escusas
mostrar essa cara, a Merência abriu-me o portão e eu entrei...”
- “Pois
é, a Merência é assim: abre a porta ao primeiro vagabundo que passa” -
ripostou em sorriso aberto.
Acolheu-me com um forte abraço. E,
depois de algumas palavras de circunstância, cada um de nós tentando fazer
prognóstico da última vez que estivéramos juntos, com ar sério e formal, o Zé
disparou:
- “E
eu p´ra aqui a tratar-te por tu e não devia. Ouvir dizer que eras “doutor de
leis”...
- "Pois
sou Zé, mas não te embaraces... Para dizer a verdade, sou mais uma espécie de ferreiro
sem forja – ripostou o narrador numa gargalhada, mal sabendo do que ria, se
da frustre memória dos tempos de infância, se da finíssima dor da actualidade.
O olhar do Zé, como aço, procurou então
o olhar do narrador e assim ficou, por momentos, devassando-lhe as entranhas da
alma. E, depois, desta nesga de silêncio, em que cada um se perdeu, o Zé
alargou o olhar à Merência e aos dois palmos de terra que eram seus e ripostou:
- “A
minha forja agora é esta. Espero que sejas tão feliz quanto eu sou...”
Insistiu ainda o Zé num copo de vinho
branco, “como não se bebe em Lisboa”,
fresco, retirado com esmero das águas frias do poço. E beberam numa partilha
genuína, com a brisa da tarde a escoar-se por entre os dedos...
A saída, a Merência surpreendeu-o com um
ramo de inesperados lírios:
- “São
para a tua mulher, que adivinho merecer-te...”
Tanto quanto pode, disfarçou o narrador
a pontinha de emoção que a delicadeza do gesto desencadeara e, no seu jeito de
camuflar-se em palavras desajeitadas, exclamou em arroubo de sinceridade:
- “Mas,
Merência, como eu não sou digno das tuas flores, porque não vais tu
entregá-las? E assim ficavas a conhecer a família toda...”
Que não, que não iria!... Havia meses
que não descia à aldeia e não tencionava ir lá tão cedo...
E assim se despediram. O narrador com um
ramo de flores debaixo do braço. Sabendo uns e outros que passaria tempo sem
mais se verem. E que vida, em seus caminhos cruzados, dura apenas o perfume de
uns lírios...
……………………………………………………………………
Soube, agora, que o Zé e a Merência
foram encontrados mortos e abraçados, por um pastor que por ali passava, atraído
pelo latir magoado do velho Piloto malhado.
Manuel Veiga
Nota:
Afinal, penitencio-me
Ainda há cães que sabem latir...
M. V.