“Chamo-te
Flávia em óbvia evocação da chama em que te agitas e do fervor do meu desejo e,
em artifício, soletro teu nome, como sobressalto, em arrepio de pele ou beijo
em teu ouvido e a expressão risonha de teu rosto "não me faças
isso!"...
Entendamo-nos:
estas palavras são urgência tua. São tempo antecipado de um futuro que não
será. Tenho a certeza, porém que te queres assim projectada sobre este vazio de
nada, ainda que as palavras nos dedos queimem e, reinventando-te, te apague
dentro de mim, como que bebendo o último trago e a mesa posta.
Compreendo
que viesses em esforço de ti. Vieste por mim, está claro. Mas Maria Adelaide
seduziu-te. Quiseste vê-la de perto. Mais do isso, no fundo de ti quiseste os
seus momentos e a sua vida. Devo dizer-te que se não fora crueldade eu te daria
a Maria Adelaide - tenho por vezes essa vertigem. Seria delicioso pressentir o
vosso fogo, a gentileza suave do vosso encontro, a tensão do meu desejo, e o
brilho cintilante de vosso olhar em meu sorriso. Irias gostar da Maria
Adelaide, estou certo, e ela iria apreciar a ousadia. Mas estás em vantagem,
Flávia. És o presente e ela, Maria Adelaide, é passado que não mais nos
pertence. E, este jogo de transgressão e desejo, teria que ser jogado com as
armas iguais. Fica por isso calma e serena teu sangue - daqui não passaremos. E
deixa que te diga que na galeria de afectos, em que sou apenas a moldura, não
ficarás mal, de corpo inteiro, a seu lado, não apenas flash fotográfico, mas
retracto (embora incompleto) pintado a óleo, que exige maturação e talento”.
Assim Manuel Maria desafiava os deuses a
conceder-lhe a primeira página para o seu novo livro, pois se os deuses
concedem aos poetas, em cada poema, o primeiro verso, porque não os deuses não
haverão conceder a primeira página aos escritores, descontada, porém a magma
distância, pois que prosa é coisa banal, todos nós a exercemos, mesmo que alguns
a pratiquem e não o saibam e a poesia (ah, os poetas!) é o néctar, o perfume, a
infinitude, o almíscar e a ambrósia a derramarem-se no corpo e na boca dos
deuses, quiçá o unguento e o afrodisíaco caprichando em leito de metáforas, qual
pétalas de flores raras.
Desafiava, pois, Manuel Maria, os deuses a
concederem-lhe para este seu segundo livro, se não a protecção, pelo menos a
tolerância e, se não a tolerância, ao menos a indiferença, pois que, bastas
vezes, caprichosos como são os deuses, vale mais tê-los distantes que próximos,
sendo certo, porém, que Manuel Maria hesitava ainda entre a volúpia de novo
desafio e a confortável apascentação dos dias na administração do atelier de arquitectura, cujas
responsabilidades gradualmente passara para o filho, a quem reconhecia
capacidade e maior vocação.
Fizera parte do pequeno grupo de arquitectos
que, anos atrás, havia projectado e a reconversão urbanística da zona oriental
de Lisboa, decorrente da edificação da Exposição Mundial de 1998, o que lhe
permitiu granjear um apreciável portefólio de contactos profissionais e de
clientes, condição primeira para se afirmar na profissão, honrando seu múnus,
embora sem rasgo ou a pontinha de génio ou a luzinha da sorte que o projectasse
para prémios e as paragonas dos jornais. Assim, numa mediania recompensadora, Manuel
Maria se considerava realizado como arquitecto, profissão que, aliás, a vida
lhe impusera, mais que deliberada escolha pessoal, pois se liberdade de escolha
houvera e o destino dos homens fosse livre arbítrio. em vez de arquitecto, debruçado
sobre desenhos e mapas, a conceber imóveis e edifícios, talhando cérceas e
delineando frontarias, para os quais, depois, um qualquer “pato bravo” se estará
solenemente borrifar, outro seria o espaço da sua pródiga criatividade, como
realizador de cinema ou encenador de teatro, pois sempre se sentira atraído
pela sábia manipulação de linhas, tempos, palavras, imagens e sons e, em cada
uma das suas específicas linguagens extrair os significantes para, num passe de mágica, os fazer eclodir e extrair
deles novos espaços de comunicabilidade, como se de “arquitectura viva”, se tratasse.
Mas a vida é aquilo que é, sem apelo, nem agravo
e bem sabemos serem a maioria das vezes, as circunstâncias a determinarem
os passos dos homens e os homens comuns a ajeitarem-se às circunstâncias com
que se deparam, sendo porém que o equilíbrio das coisas e dos factos e dos
tempos, se repõe, por vezes, com a magnitude de acções, gestos e gestas tão
prenhes de Futuro, que, em tais casos, bem pode afirmar-se, que são os homens
a determinarem o fulgor das suas próprias circunstâncias.
E, assim, alguns homens inscrevem a sua pegada
no curso dos dias. Não era o caso de Manuel Maria, conforme já se percebeu. Estava,
pois, disponível, mas não para cortes radicais e não é com a sua idade que se dá
uma volta de 180 graus à vida. Fora de causa, por isso, a ideia do cinema e ou do
teatro, que aliás exigem recursos e equipa que não possuía. Seria uma aventura
enorme e risco de fracasso tão óbvio, que não estava disposto a correr. Mas
talvez, sim, manter esta bem-sucedida incursão no universo da literatura, que lhe
permitia a recreação da vida e da realidade do cinema e do teatro,
sem lhe assumir as dores e escrever um novo romance, mais não seja para
calar murmúrios e invejas e provar, definitivamente, a si próprio e seus
detractores que o seu talento e que o sucesso do seu livro recente não fora
obra do acaso.
Mas hesitava ainda Manuel Maria, calculando
intimamente os prós e os contra de prosseguir a sujeição da escrita, se não
valeria mais entregar-se ao prazer de viajar, buscando atmosferas e sensações
desconhecidas, por esse Mundo fora, ou pura e simplesmente regressar à sua
região, alimentar o bichinho da política, que nunca o abandonou, envolver-se
nos problemas locais e, quem sabe, se até candidatar-se à Presidência da Câmara
Municipal.
Mas tudo isto pressupunha cortar com rotinas e
pequenos prazeres “sair da zona de
conforto”, como, hoje em dia, a ideologia dominante designa a resiliência de cada um e não é, sem fundadas razões que, depois de dobrados os
sessenta anos, se muda de “estilo de vida”, sem decisivas razões.
A literatura, portanto, impunha-se, assim, como
exclusão de partes. E nesse universo de ficção e fingimento, Flávia, que um dia
Manuel Maria quisera actriz e vedeta de cinema, colheria o esplendor e a
grandeza de heroína de ficção literária.
Manuel Veiga


