Conceição Lima é produtora e apresentadora do
programa de divulgação de Poesia da Radio Vizela – “Uma Hora de Poesia”. O programa tem, segundo julgo, cerca de meia
dúzia de anos e, apesar de se tratar de uma Rádio Local, tem verdadeira
expressão nacional, tantos são os poetas e qualidade da poesia apresentada no
programa.
Tempos atrás, Conceição Lima entendeu fazer um
programa à volta da minha poesia, com
uma pequena entrevista, análise e leitura de poemas, pela própria e por um
grupo de amigos, seus habituais colaboradores que, com sua voz e o seu enorme
talento dão expressão aos poemas, no decurso de cada programa.
Entretanto, aconteceu a publicação do romance “Do Amor e da Guerra”. Conceição Lima apaixonou-se pelo livro e anunciou-me,
peremptória, que apesar de sua motivação ser apenas falar de poesia e não de
literatura de ficção, queria muito, depois de reler, poder falar sobre “Do Amor e Da Guerra”.
Foi assim que surgiu a apresentação do livro na Associação Macaréu, na cidade do Porto,
no passado 15 de Dezembro. Conceição Lima cultiva a boa prática de se jogar sem
rede naquilo que gosta de fazer, seja na apresentação do seu programa, seja na
apresentação de livros. Quer dizer, prepara meticulosamente as suas
apresentações, mas nega-se a falar com suporte escrito. Fiquei a saber quando
lhe falei em deixar-me cópia das notas e apontamentos sobre as quais assentava
a sua brilhante apresentação. Que não havia nada escrito, mas que escreveria
umas anotações sobre Maria Adelaide (a
heroína), que momentos antes havia sido objecto de ligeira controvérsia entre nós
os dois.
Aqui fica, pois, em traços bem vincados, embora
breve, o perfil de Maria Adelaide,
personagem nuclear “Do Amor e Da Guerra”,
mediado pelo olhar arguto de Conceição Lima, a quem agradeço com o maior apreço
pelo seu trabalho inestimável de divulgação literária, em nome de uma amizade
que, sendo recente, se deseja perseverante e sólida.
“Ao leitor não importa a verdade dos factos.
Interessa, sim, a “verdade” da narrativa, a capacidade que o autor (“se autor
houvesse…”) nos oferece de nos confrontarmos com “ alguém” de corpo e alma, permitindo
que consiga emergir das suas palavras, alguém de corpo inteiro…
Assim foi com Maria Adelaide!
Maria Adelaide é uma das muitas personagens que tecem
esta narrativa…É ELA, porém, o “ veio” que a alimenta. Ela é a seiva que percorre
o enredo. Imperial, irreverente, excessiva, de olhar felino, ei-la que irrompe,
que salta para o palco, que exige holofotes com a luz bem direcionada…
Ela exigiu e o narrador deu-lhe luz própria,
fê-la “estrela”!
Maria Adelaide é, no fundo, “a pedra angular” de
toda a diegese. Sim, pedra…Rocha! Cristal em bruto…Até ao fim, vibrará, retinirá
e o seu eco perdurará…
Será “a incisão e o ariete” desta tatuagem!..."
