segunda-feira, fevereiro 18, 2019

A CARTA QUE NUNCA TE ESCREVEREI - Take 10


Aquele tempo, porém, era ainda tempo de Cantinas Velhas e de borbulhas a formigar revoluções e tigres de papel e correrias à frente da polícia em “Primeiros de Maio Vermelhos”, com o Rossio a abarrotar de revolta e a GNR a espadeirar sem olhar a quem, operários, estudantes, passeantes e turistas, velhos e novos, mulheres e crianças, cabeças a sangrar, quedas e tombos na correria, ferraduras dos cavalos empinados a relincharem e a chisparem na calçada, gritos e aflições, grupos organizados que, em carrossel, se revezavam e apareciam e desapareciam, inesperadamente, por detrás dos cavalos, gritando, amálgama de insultos e palavras de ordem, alguns manifestantes, mais decididos e bem organizados, a esquivarem-se dos bastões e a segurarem as bestas pela brida e a passarem-lhe pó de pimenta pelas narinas dilatadas e o escoicear frenético e equilíbrio instável dos guardas sobre as selas e Manuel Maria acossado, a sangrar e a correr pela Rua do Carmo acima, quase filado pelos cascos do cavalo e pelo bastão do façanhudo guarda, erguido, lá bem alto, na iminência de descer novamente sobre seu frágil e dorido costado. E, naquele vendaval de pancadaria, por entre as dezenas de manifestantes, que, em desespero, buscavam protecção na fuga e nas reentrâncias dos prédios, como uma bênção caída dos céus, sem que nada a fizesse prever, Manuel Maria é puxado para dentro da vedação de um prédio aparentemente em obras, prosseguindo o polícia e o cavalo, com o Manuel Maria a salvo, o afã de perseguição dos manifestantes mais à mão de semear, como soe dizer-se, bem se sabendo que, como em tudo na vida, tantas vezes, o mal de alguns é alívio de outros.

De tal sorte que, também no caso, embora apenas precariamente separado da agitação e dos perigos do exterior, por um frágil tabique, a verdade é que Manuel Maria se sentiu em segurança, com o breve ruído seco da porta a ser trancada e o sorriso irónico do homem, alto e louro, não mais de quarenta anos, uma bela barbicha também loura a enquadrar-lhe o rosto sedutor, impecavelmente vestido, último grito da moda, como se fosse modelo saído de uma vitrina, onde apenas as mãos desmesuradas e os dedos grossos destoavam da elegância do porte, imperturbável e sorridente, como se as dantescas cenas que lá fora, literalmente, a um palmo do nariz, se passavam e de que a cabeça partida e o rosto ensanguentado do jovem eram testemunho dramático, fossem para ele, o imperturbável salvador de Manuel Maria, cenas de teatro de rua ou quadros de uma peça dramática, cuja sequência detinha os fios.

E, então, a voz do homem, alargando o sorriso acolhedor “Guerra é guerra! ... Tiveste um belo baptismo de fogo, não haja dúvida!... Vai, corre! Lavas o rosto na torneira que encontras lá ao fundo, saltas o muro, corres pelo logradouro, segues pela cave do prédio em frente e estás a salvo”…

Manuel Maria, ainda a titubear de surpresa e emoção, agradeceu e quis conhecer o nome de seu salvador. “Que nada! vai, foge! – exclama  com firmeza, o desconhecido – conhecerás o meu nome um dia, se tiver de ser…”. E Manuel Maria jurou para os seus botões que jamais iria esquecer aquele rosto e o tamanho daquelas mãos, que apenas outras assim vira em tempos esvoaçantes da infância, numa aldeia longínqua das Terras do Demo, onde pela primeira vez vira a luz do dia, filho incógnito de amores espúrios de criada de servir, em vetusta Casa Senhorial.

Rapidamente, porém, Manuel Maria varreu lembranças antigas (que a hora era de outras dores) e se escapuliu, através do logradoiro dos prédios, seguindo as instruções de seu salvador, indo desembocar a meio da Rua do Ouro. Afogueado pelas emoções e pelas correrias, Manuel Maria disfarçou como pode os hematomas e os resquícios de sangue nos cabelos, enfiando uma larga boina basca e, afoito, caminhou, em passada larga, rumo ao Rossio, apto a prosseguir a luta e a candidatar-se a umas novas bordoadas. O ambiente, porém, mudara, em poucos minutos. Tal como se desencadearam, sem nada o fazer prever, qual cenário em ópera bufa que, inesperadamente, se altera ou, dito com mais propriedade, como se, após forte trovoada, a atmosfera se abrisse em bonança, ainda porém sob o efeito da tensão eléctrica, assim também a agitação e os gritos e as correrias e os polícias e os cavalos e as imprecações e as palavras de ordem e os desmandos e as chanfalhadas e as costelas partidas e as cabeças abertas e os incautos e pacíficos transeuntes apanhados, sem dó nem piedade, na onda da bestealidade policial se haviam calado e a larga praça do Rossio, orgulho de lisboetas e encanto de turistas, retomava gradualmente a sua pachorrenta rotina, com caixeiros e lojistas abrindo novamente portas e vitrinas, um grupo ou outro a comentar os acontecimentos, prontamente desfeito pelos polícias de giro e os esparsos gritos das sirenes a riscar os ares e um pelotão da polícia de choque acantonado nas traseiras do Teatro D. Maria não vá o Diabo tecê-las e a onda levantar-se de novo e o os cavalos da Guarda Nacional Republicana recuados na Praça da Figueira e rasgão na cabeça do Manuel Maria a doer c´mo caraças, e a estação do Metro do Restauradores rumo à Residência de Estudantes e a remoer sozinho os acontecimentos da tarde, que não se alcançava pelas redondezas nenhum dos amigos que a brutalidade da carga policial havia separado e tal fora combinado que, em caso de dispersão, cada um regressaria por seus meios.

E assim também agora, por seus próprios meios, em tempo literário outro, já não tempo de borbulhas a formigar revoluções e 1º de Maios vermelhos e proibidos e manifestações reprimidas e cabeças partidas, que esse tempo é tempo passado e em todas as laudas da história pátria jurado tempo de fascismo nunca mais, mas neste tempo agora, tempo de cerejas e grávido de promessas e de revoluções ao vivo, tempo de sonhos e de quimeras e canções que alguma coisa há-de sobrar delas, das canções e das quimeras e dos sonhos e desse tempo e desse povo também, a tomar em suas mãos o seu destino e o novel arquitecto Manuel Maria a acreditar genuinamente numa Arquitectura para o Povo e, neste ínterim, a subir aos Paços do Concelho, determinado a colocar os seus conhecimentos urbanísticos ao serviço da Revolução e oferecer a sua colaboração a José Augusto Esquerdino, recém-eleito em amplo plenário da população, Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal.

Manuel Veiga





domingo, fevereiro 17, 2019

TÃO POR DENTRO ...


Hiperbólica curva na voz
Do cello

Luz de nevoeiro
A acender
A noite

E o Tejo a deslassar-se
Ao longe

E a música - tão ávida!...
A lamber as cordas
E a diluir-se

Tão por dentro!...


Manuel Veiga



sexta-feira, fevereiro 15, 2019

DA IMPORTÂNCIA DO NOME ...


A Revolução liberal de 1789, como se sabe, aboliu os privilégios pessoais. E, na sua pulsão libertadora, fundou uma nova ordem social e proclamou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão para a qual “os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos; as distinções sociais não podem ser baseadas senão na utilidade comum.”


Em consequência, a partir daí, o direito ao nome, no conjunto dos direitos de cidadania, não será mais objecto de outorga, isto é, imposição ou dádiva, mas antes considerado como direito natural, inerente a todos os indivíduos.

Sinal imprescindível da personalidade, o nome pessoal extravasa, porém, a palavra que o enuncia. Representa, sobretudo, aquilo que somos; ou seja, o nome é o símbolo que reveste o seu titular e unifica o indivíduo: estrutura corpórea, mas também a dimensão psíquica e conjunto de valores éticos, políticos, intelectuais e morais, que definem o carácter.

Por outras palavras, o nome constitui o sinal mediante a qual a sociedade nos interpela, a evocação pelo qual somos reconhecidos durante toda a vida e, de alguma forma, nos propaga no tempo, pois que, como símbolo da identificação e da individuação pessoal, nos vincula à nossa vivência e ao mérito (ou demérito) da nossa participação colectiva.

Na sua dimensão simbólica, o nome pessoal é também expressão de uma ideologia: de classe, de grupo ou de uma família. Os nomes pessoais falam para além das pessoas que designam. Revelam mais do que afirmam. Desde logo porque, hoje em dia, para as grandes massas aculturadas pela ideologia dominante são um fenómeno de moda. (“Maria Albertina porque foste nessa/ de chamar Vanessa/ à tua menina?”).

Noutros casos, sobretudo, nas classes dominantes, o nome pessoal é a projecção social de um futuro que proclama, por isso, no nome de baptismo se inscrevem as referências familiares dos antepassados mais distintos, num processo que (dir-se-ia) da mesma natureza com que os primitivos usurpavam o nome dos animais ou fenómenos naturais que os seduziam. Em boa medida, é verdadeira a expressão “diz-me como te chamas, dir-te-ei quem desejam que sejas...”

Este fenómeno é replicado nos processos democráticos ou revolucionários, em que os nomes de líderes e de vultos destacados são assumidos pelas massas e os inscrevem no registo dominante dos nomes próprios em determinado momento histórico. Por exemplo, na geração do post 25 de Abril, são frequentes os nomes de “Vasco” e de “Catarina”, como homenagem a dois vultos maiores da revolução – Vasco Gonçalves e Catarina Eufémia.

Acontece que, na sua expressão simbólica, os nomes podem ser manipulados como instrumento de luta ideológica. De facto, como se referiu, o nome é direito natural de que todos homens, sem distinção, são sujeitos. Quer dizer, portanto, que o nome igualiza todos os homens, colocando-os, ao menos no plano formal (deixando por agora de fora as desigualdades derivadas da situação concreta de cada um no sistema de produção), em lugar idêntico perante o direito e a sociedade.

Mas se o direito igualiza, a ideologia distingue.

Vejamos. Os nomes produzem um efeito especular, unificador das características pessoais de cada um, que no seu conjunto definem a sua individualidade própria, como ficou dito.

É mediante esse efeito que os indivíduos em concreto se reconhecem e a sociedade os interpela como homens e cidadãos. Eliminar ou elidir alguma das características individuais expressas simbolicamente no nome, será diminuir a personalidade do indivíduo. Ignorar deliberadamente, truncar, substituir, abjurar, diminuir o nome de uma pessoa é, de alguma forma, decretar a sua “morte civil”...
 (…)

Manuel Veiga

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA e Outras Metáforas
Modocromia – Lisboa 2015



ADÁGIO ...

Desnudam-se as pétalas Uma a uma. E derrama-se a cor Nua. Indefinição ainda Que alastra Agora sinfónica. Cor e vida. E se ab...