sexta-feira, março 15, 2019

"IDOS DE MARÇO..."


Dizem que os “idos de Março”
Foram fatais a César.

Mas César, desafiara os deuses
E levara Roma, aonde Roma nunca houvera.
Por isso os deuses o ungiram.
E os homens o invejaram.

E o peso do Universo e todas as invejas
César, com estoicismo, aguentava.

No entanto, Brutus – um homem honrado! –
Apunhalou o Amigo. Pelas costas!...

Não por cobiça – que Brutus é um homem honrado!
Mas porque Pompeia, mulher de César
Que séria nunca fora, séria jamais seria
Em seu resguardo de parecer honrada…

Para Brutus a traição, para Pompeia a Fama
Para César o que é de César!


Manuel Veiga





terça-feira, março 12, 2019

GLÓRIA AO ALTIVO MELRO...


Glória ao altivo melro em sua sebe. Soberano príncipe
Catando a hora em reflexos de luz. E o viço de meus olhos
Abrindo-se no negro vertebrado das asas
Em timbre de azul...

O sol é apenas pretexto. E o voo a indolência.
Não a chama, nem o sobressalto, nem o “piolho da existência”.
Apenas a imprevisível ave rasgando o ar
E a tarde caindo resiliente...

Nem passado nem futuro. Imanente o sopro
E o aguilhão de minha ausência. E a secreta passagem
Entre a fugaz ave e a alma evanescente...

Talvez a sombra de Torga seja a árvore.
E o magoado sorriso de Caeiro
A indeclinável sombra…

Manuel Veiga
 (poema reeditado)

sexta-feira, março 08, 2019

NÃO TE CELEBRO, MULHER ...


Não te celebro mulher que celebrar-te
É forma agónica de dizer-te. Ou aprisionar-te
No viciado jogo que se arrasta no equívoco
Das celebrações e de muros derrubados

Não, não te celebro, mulher. Nomeio-te.
Murmuro teu nome e, em cada sílaba, Sibila,
Digo teu nome. E, em teu nome, todos os nomes
E digo Amor, em teu nome.

E digo-te Sonho e Lume. E Lúmen. E digo-te
Sorriso. E digo-te Lágrima. 

E nomeio-te Companheira. E digo-te Camarada.

E nomeio-te Ventre e Seio.
E digo-te inquietação. E grito
E nomeio-te Fome e Sede.

E Mãe. E Filha. E Mátria. E Pátria.
E Liberdade Livre.

E digo-te Insubmissão
E nomeio-te Mãe-Coragem.

Não, não te celebro, Mulher:
Tu és a Celebração da Vida.

Manuel Veiga

Nota:
Os últimos dois versos, agora introduzidos, correspondem à ideia expressa no comentário de "ROSA dos VENTOS". Se ela me permitir, passam a fazer parte do poema. Grato.

ADÁGIO ...

Desnudam-se as pétalas Uma a uma. E derrama-se a cor Nua. Indefinição ainda Que alastra Agora sinfónica. Cor e vida. E se ab...