Colapsam as palavras e despenham-se na voragem
Das paisagens geladas. Lonjuras que apenas os ventos
Ousam. Pressente-se o grito perdido das fragas
Em simulacro de dor.
Vã a tentativa para além do azul coalhado
E das farripas de bruma que incendeiam os vales
Como bocas sinuosas de dragões em danças guerreiras.
Ou monges brancos em penitências aladas
No milagre de todas as lembranças...
Fantasmagorias soltas debruçadas sobre as casas
Perdidas. Solidão de cabras balindo a urze
E as magras tetas. Ventres que se abrem
Nas encostas. Em presépios de abandono...
Lá no alto a íngreme penitência das dores
E de todas as promessas:
Pagãos que somos!
Guardamos o inesperado. E colhemos
No restrito núcleo de afectos o gosto
Do vinho que bebemos.
E a água que calamos.
E agitação febril dos olhos.
E dos sonhos.
E a granítica esperança tatuada
No coração dos homens.
Manuel Veiga