O Poeta-Aprendiz, o Poeta-Mestre e Figuras de Estilo
O aprendiz de poeta, na oficina do Mestre, que, penosamente, amassa um poema: - “E se lhe meter uma anáfora?...”
E o
Mestre, com ares de entendido, mirando a obra, monossilábico: - “Nah!”
Insistência
do aprendiz, perante a hesitação do Mestre: “E
um assíndeto?..."
O Mestre,
em silêncio pesado, coça cabeça!...
E o poeta-aprendiz dubitativo, insiste: - “Talvez uma
catacrese?!...”
Geme suor resiliente
a testa do Mestre: - “Há-de sair… há-de
sair…um poema para deslumbrar o Mundo”! ... E espreme-se, esforçado…
E o novel poeta,
cada vez mais duvidoso: - “E
umas metonímias? E que tal uma elipse? ...”
E o
Mestre, lívido e desanimado: - “Ora
esta! Nunca tal me tinha acontecido…”
E o jovem,
de sorriso rasgado, salvador: “Porque
não umas metáforas? Resultam sempre...”
E o
Mestre, resignado: “Pois, sim. E como?
Tinha por aí duas ou três, mas, com a Primavera, regressou uma andorinha e ela forrou o ninho com minhas gastas metáforas!...”
O
poeta-aprendiz, saindo porta fora, a morder uma hipérbole:
- “Este Mestre está … gasto! Melhor lhe fora ir salvar o Mundo para o “corno de África”…
Manuel Veiga