terça-feira, maio 14, 2019

AUSÊNCIA(S) 3


São as ausências um perfume
Evanescente. Anoitecer das camélias
À margem do mundo…

Música de fundo. Ou apenas
Um acorde jazz. Lancinantes notas
No desalinho do sax…

Ou abandono dos dedos
E a página aberta. A alma absorta
E um livro tombado...


Manuel Veiga






sexta-feira, maio 10, 2019

NA ORLA DOS LÁBIOS...


O poema desenha-se na orla dos lábios
Na íntima tensão do verbo antes de explodir
Itinerário de sombra rente à luz

Ou murmúrio subterrâneo de gestos
A florirem no rosto imaculado das coisas
Antes de acontecerem.

Como se Eros fosse falua
A singrar oceanos ignotos e o corpo
Uma chama branca a arder
No cruzamento das rotas e
No movimento líquido da Palavra
A alagar-se em fogo.

Sem metáforas…

Manuel Veiga
Perfil dos Dias - Edição Modocromia

quinta-feira, maio 09, 2019

PERFIL DOS DIAS - PREFÁCIO - DOMINGOS LOBO


 A Arte de Traçar, de Modo Lírico, o Perfil dos Dias

O escritor nas sociedades contemporâneas, não tem propriamente uma profissão. Escreve por impulso cívico ou por não poder mais evitar a indignação. Raros vivem de escrever, de efabular sobre o mundo que percepcionam, embora seja isso o que fazem em grande parte do seu tempo.

Estamos a séculos dessa mítica “era dos versos” em que os poetas, pelo simples facto de o serem, granjeavam estatuto de respeito e admiração na Polis e tinham, mesmo escassa, uma tensa que lhe permitia continuar a escrever e a cantar os seus versos.

Sei que vivemos tempos sem tempo para as palavras altas e necessárias, vivemos o aturdimento das simulações electrónicas que não nos deixa saborear um verso, reflectir sobre o coração que freme no corpo de um poema; sei que vivemos tempos estranhos (mas é o nosso tempo, e cabe-nos vivê-lo e tentar transformá-lo), tempos em que a usura e a competição se tornaram regras e a febre do dinheiro se transmudou ideologia quase dominante. A poesia, que é a arte suprema da palavra, precisa de silêncio e espaço, não campeia em tão árido chão.

«Poeta é», diz-nos Manuel Gusmão, «aquele que constrói ou compõe um mundo de palavras e de possíveis verbais, com o qual reconfigura, faz, desfaz, refaz e acrescenta o mundo de mundos que é o nosso». Que nos faz compreender o mundo, este nosso estreito mundo que a palavra poética, através dos seus signos linguísticos, tenta ampliar e tornar reconhecível.

Os poetas são gente resistente, sonhadores de utopias, mesmo no território insano da hodierna distopia que vai corroendo os imaginários mais férteis, teimam e avançam, vão pelo sonho, acreditam que um dia a serenidade regressará às cidades e será então possível conversar sobre livros à volta de um copo ou de um café, que os poetas saberão de novo cantar e o fogo das palavras há-de voltejar livre e solto, que a vida regressará límpida e inteira às suas veias, que poderão de novo consumir emoções, ideias e afectos, mesmo sabendo, como nos diz Manuel Veiga neste Perfil dos Dias, que são Esquivas as palavras/o tempo fugidio/e os olhos/ mágoas. Mesmo quando sabemos do tempo que se esvai, da ruga que na almofada amanhece e com ela mais um sinal da brevidade da vida, o poeta estará atento a esse rumor ácido que pontua os dias e saberá sempre, na luminosidade de um verso, ultrapassar o instante porque Soberbos, porém, os dias/Assim cativos de pedras/e de medos, hão-de transfigurar-se e criar raízes nesse território fértil, incontaminado das palavras.

Um tempo em que o poeta regressará aos itinerários da chuva, a soletrar estrelas, a olhar o cristal da Lua reflectido nos lagos; retornará às coisas simples e perenes, ao lugar secreto, inviolável, da nossa humanidade, a esse território efémero e líquido, à Pradaria em chamas/E potros dentro.

Neste novo livro de Manuel Veiga coexiste uma contenção sintáctica, uma simplicidade discursiva tocante, em que a metáfora (Anti-Metáfora, titula o autor) se dilui na própria construção do poema, uma técnica de recursos linguísticos que serve a ideia central sem recurso a barroquismos retóricos. O poema flui, mesmo quando os versos contêm, na sua mancha gráfica, não mais de oito sílabas e o comum dessa geografia se mantém ordenada por três versos.

Manuel Veiga consegue, neste seu Perfil dos Dias, em que o erotismo, que é sinal de apego à vida, percorre grande parte do seu corpo diegético, uma voz mais serena, mais interiorizada do que lhe reconhecemos de livros anteriores: há, neste livro, uma mais exigente depuração oficinal, um mais amplo sentido das palavras, o seu íntimo rumor, como acontece no poema Alegria Breve.

Neste Perfil dos Dias, encontramos a voz recorrente do eu interior, esses fragmentos metafóricos da inconsistência do Ser, essa busca, esse voo cego a nada como escreveu Reinaldo Ferreira, mas um voo que traz o olhar do outro, porque ninguém viaja sozinho pela vida, sem a sombra existencial, ora obsessivamente desejada, ora apenas intuída, ora indispensável como respirar, do outro. Pelo meio desta complexa gramática do corpo e dos afectos, existe a pertinência da busca de sentidos para o universo, o cosmos como um derivativo de absolutos, em que a esperança se inscreve: Deslizam as águas em rios secos/Até à raiz do nada.(...) Ou reserva de vida/Preservada: cópula de sol/E gota de água/E a ansiada/Espera...

O que é a matéria da vida? Essa Gota de água ou cópula de sol, esse húmus que nos conduz a uma contínua angustiante e perplexidade, a extensão dos sonhos, a capacidade de, apesar dos pesares, linimentos de um corpo em lenta combustão, conseguirmos reflectir, intuir sobre os sortilégios elementares, sobre o modo (modos extensos, diversos) de estar vivo neste avassalador sufoco do tempo, que a contemporaneidade, mesmo quando o poeta dela se resguarda (Lá fora o Mundo./Dentro o sopro de uma sonata), convoca e limita?

A matéria essencial (as palavras) sobre que especula Manuel Veiga, a construção da palavra(s) com que ergue os poemas, e neles tenta redescobrir a Vida, traçar o perfil dos dias que lhe coube (cabe) viver e o que à volta dela mais o amargura, seduz, estremece e, a espaços, num indelével fulgor, vertigem dúctil, extasia: o sexo, as paisagens, a literatura, as aves, os sonhos e a sua argila. Essas nebulosas que a memória atrai, esse íman perene, são a matéria da escrita, as palavras com que o poeta urde signos e os tenta libertar do seu caos imanente, desse obscuro, telúrico chão, dessa massa que fecunda o fogo.

A poesia de Manuel Veiga, balança entre territórios líricos e introspecções metafísicas e é nessa dualidade expressiva que a sua poética se aproxima das metamorfoses verbais que encontramos em poetas como Herberto Helder, Ramos Rosa ou Ricardo Reis. É nesse alfabeto lírico, nessa gramática do Mundo, quase sempre magoada, essa modelar forma de organizar o Acaso, mesmo que O Sol seja nuvem/E o meu fogo água//O teu corpo/céu aberto/seja. Um discurso poético que entronca, por vezes, em outros poetas do modernismo como, também, Mário Sá Carneiro.

Eis o escorço mimético sobre que reflecte, e inflecte, a escrita de Manuel Veiga. Formas modelares de pensar e entender a complexidade existencial e o mundo, os contornos de um tempo, geracional forma de passear pelos dias (breves mas azuis) e de lhes dar guarida, mesmo quando o alimento que nos dá é feito de fragmentos reflexivos e sinédoques, de poemas transportadores de memórias, mesmo quando estas se perdem na voragem dos dias: Eternos o tempo e o modo/ E o colapso de todas as memórias/Onde todas as coisas/ Anoitecem.

De tudo isto, penetrando o sensitivo orgânico desta matéria elementar, da “loucura portátil” que é escrever, de que nos conta Enrique Vila-Matas, nos fala por vezes, mesmo quando algum hermetismo percorre o seu corpo diegético, Perfil dos Dias. E fá-lo, nos momentos mais conseguidos deste livro, numa escrita serena, atenta às íntimas reverberações do léxico, fala expressiva e solar por vezes, A abrir-se na caligrafia muda das coisas/e no mistério delas, percorrida por modelações sintácticas de uma sonoridade vibrátil, sensível e ressumante de múltiplos aromas.

A poesia enquanto matéria e sujeito de todas as incursões pelas palavras, Síntese de fogo lhe chama o autor, deste especulativo modo de inventariação pessoal, de tábua de saberes íntimos e prósperos – de estar Vivo, e estando, inventar o discurso poético da dispersão elementar, do delta extenso que nos convoca à aventura, à exposição, às interrogações metafísicas sobre o amor, a morte, a solidão, os corpos que se amam e se perdem na voragem dos dias, o destino, seja isso o que for, a cultura, a política, as plurais formas de habitar o espaço e deixar marcas em poroso chão – um discurso poético que mais que ocultar as feridas, no-las dá a ver, assim despido, sem âncoras nem temores, deixando a poesia fluir indomável animal do espanto, que ela nasça e cresça no silêncio, ferindo-o, que aconteça mesmo quando o sentido da harmonia lhe escapa.

A soletrar a palavra transgressiva, sem um mapa, uma agenda, sem traços prévios nos caminhos a haver, que a aventura de estar vivo e atento apenas nos deixa, dos dias sôfregos A inquietação dos anjos/ E o seio do barro redentor// E se glorifica eterna/ Na fusão do sonho/ E mágoa, dado que A liberdade é essa chama, que o poeta, incessantemente, almeja.

Mesmo olhando o mundo, passeando essa “loucura portátil”, Manuel Veiga não deixa de trazer ao discurso a diversidade conjuntiva com que esta fala se ergue e se constrói, é nesse fulgor, nesse delta de raízes, que estes versos nos arrebatam em sua contínua transfiguração.

Domingos Lobo




ADÁGIO ...

Desnudam-se as pétalas Uma a uma. E derrama-se a cor Nua. Indefinição ainda Que alastra Agora sinfónica. Cor e vida. E se ab...