terça-feira, dezembro 15, 2015

FRAGMENTOS XIV - O Baptismo do "Assobio"...


Regressemos, pois, ao Alferes, que ainda não era, mas apenas Aspirante, e à “tropa fandanga” em que o pelotão, sob seu comando, se estava a transformar. Ainda mal sarado fora o “medir de forças” com o grupinho de reguilas alfacinhas do bairro de Alcântara e aparecia agora aquela “encomenda extraviada”, provinda dos cumes da Gardunha, que, em vez de falar, grunhia e trocava os pés pelas mãos e para quem a voz de comando do jovem oficial ou a paciência dos “instrutores”, graduados em cabos milicianos e, em devido tempo, furriéis, quando, a dois dias de embarcarem para a Guiné, também os doirados galões em diagonal do Aspirante, forem substituídos pelos horizontais e também doirados galões de Alferes, com o esplendor de todo o Batalhão em farda de gala, formado na parada, numa cerimónia ilustrada pelos mais altos galões, dragonas e estrelas dos generais da Região Militar e a solene e inestimável bênção do Cardeal Cerejeira, Patriarca de Lisboa, que Deus haja, cerimónia essa, (que mais tarde seria), voz de comando ou paciência evangélica dos denodados cabos milicianos, futuros furriéis, ocupavam o mesmíssimo plano na casmurrice horizontal do Assobio, que outra dimensão não atendia que não fossem as subtis hierarquias estabelecidas pelas leis da sobrevivência no alto da serra da Gardunha, que ele, Assobio, (antes de o ser), bem conhecia e, a seu favor, supinamente manobrava.

É que outras regras, o Assobio não conhecia, nem elas – as regras – se importam com Apoucalhados, pois que outra coisa não visam, as regras ou normas, que não seja estabelecer a normalidade universal, ou seja, que cada recruta não “mije fora do caco” e, em prontidão absoluta, as ordens de comando seja cumpridas – Ámen! - seja quem for que no poder esteja investido, cabo miliciano, comandante de secção de um pelotão em recruta, Alferes, Capitão ou General, ou o todo-poderoso Hamurabi com seus códigos e leis.

As coisas, porém, estavam a ficar feias no pelotão. O “Apoucalhado” recruta, em vias de ser Assobio, amuava, ficava nas suas realíssimas tamanquinhas, não tugia, nem mugia, sendo previsível que, no seu íntimo, soltasse um valentíssimo manguito para as vozes de comando, os gritos ou à chacota dos seus camaradas ou às soleníssimas cerimónias militares.

O mais grave da questão, porém, era a influência nefasta que contaminava a ”ecologia” do funcionamento do pelotão, pois bem se sabe que, em qualquer organismo vivo, social ou orgânico, quando qualquer das componentes, por desprezível que seja, não se encontra devidamente integrada, pode ser o pequeno grão de areia, que emperra todo o sistema, máxime, destruindo toda a sua orgânica e funcionamento.

Disso se dava conta e velava o capitão Mascarenhas, comandante da Companhia, com vagas pretensões a cavaleiro tauromáquico, oriundo de velha cepa monárquica do Douro, que solenemente proclamava que “os homens, como os cavalos, se educam com ração e chibata” e, se não prestam para o “volteio”, sempre servem para a carga e, senão para a carga, certamente para o talho e, então, batendo com o pingalim na bota de cano alto, proclamava alto e bom som que o Alferes, que ainda não era, estava a ficar mole com o recruta tresmalhado, provindo dos cumes da Gardunha.

Ora, o Alferes tinha por bem certo que o recruta tresmalhado cavalo de volteio jamais seria, porém, alguma coisa, nas linhas do rosto, no olhar inquieto e tímido e na expressão da linguagem corporal de animal acossado, mas não vencido, sim, alguma coisa, intuição ou fezada, lhe dizia ao resiliente Alferes que a criatura, cavalgadura ou apoucalhado, poderia ser recuperada; em suma, o jovem Aspirante, que Alferes ainda não era, negava-se, em sua generosidade, a enviar o Assobio, que estava prestes a sê-lo, para o matadouro, isto é,  recambiado, como encomenda inútil, para os cumes da Gardunha, onde desceria mais um degrau na escala da desgraça e da desconsideração social, pois não se iria livrar do labéu que “nem para a guerra servia”... E, então, qual a rapariga casadoira o iria pretender, ainda que, como ele, “apoucalhada” pela vida?  

O ponto, para o Alferes (que meses depois seria), estava assim em saber decifrar, num ou outro assomo de sociabilidade do “apoucalhado” recruta, logo, tal assomo, recolhido à mínima interpelação por amigável que fosse, a pequena diferença escondida, a latência de possibilidades inesperadas, com que sabiamente a Natureza compensa seus desvios perversos ou os disformes aleijões que as humanas criaturas a si próprias se infligem. No caso, a questão era, portanto, saber, exactamente, qual o quid, o código secreto, o subtil movimento, ou pequeno grão de coisa nenhuma que iria iluminar a mente descuidada do Alferes, de forma a poder organizar a gramática de entendimento do “apoucalhado”, enconchado em permanente em tensão defensiva, como amiba em meio hostil, que não consente tubo de ensaio ou lupa.

Acontece que o jovem oficial, desde os tempos de rapaz, quando, briosamente, alimentava, todos os anos, pela Primavera, desafios de vida ou de morte com um melro trocista e cantador, estimulado pelo Zé Fardela, pastor na casa paterna, (que outra casa, ao longo da vida, outra o rapaz teve tão sua) aprendera a imitar o assobio trocista do melro, talento indispensável para a peleja, canto em que ainda hoje se refugia quando alguma amarga inquietação o toma, como que a “assobiar para o lado”, de tal sorte que o Alferes, manifestamente preocupado, face à incapacidade em dar “aparência” de soldado ao casmurro do Assobio, mínima que fosse, que lhe evitasse o açougue, quer dizer, que lhe evitasse a remissão à procedência, nos cumes da Gardunha, como encomenda perdida, acontece assim que, num momento de evasão, com o pelotão descontraído na parada, em intervalo de exercícios militares, inadvertidamente, tombam dos lábios do jovem oficial, denunciando a sua preocupação de momento, umas distraídas e mal audíveis notas assobiadas do que se presume fosse o cantar de um melro.

Como se compreende, indiferentes ao canto dos pássaros e aos desígnios das ocultas veredas da alma do assobiador, nem os recrutas, nem “cabos milicianos”, comandantes de secção, futuros furriéis meses mais tarde, nem o próprio Aspirante, ele próprio, que Alferes ainda não era, se detiveram naquele despercebido e inconsciente assobio, desenxabida imitação de cantar de melro. Apenas o Apoucalhado recruta, que Assobio ainda não era, mal caída a primeira nota daquele arremedo de canto, disparou como uma mola contida, narinas fumegantes e fogo nos olhos, como se alazão fosse, a quem assentam, pela primeira vez, a sela e, em inquieto alvoroço, fixou o Aspirante, não se sabe se para o fulminar, se para lhe agradecer o conforto de um som familiar.

Assim, o considerou o jovem oficial que, em tão veemente reacção, pressentiu ser o canto do melro, distraidamente soprado em ruminação de seus cuidados, a pedra de toque, o signo e código secreto, gatilho ou espoleta, seja o que for, que haveria de abrir a mente do “apoucalhado” recruta, a jogar-se, como promessa retardada, no destino das humanas criaturas e seu atávico desígnio de apenas poderem sobreviver em sociedade. Insistiu, por isso, o Alferes, no sopro, arremedando o pássaro, observando os mínimos sinais e a distensão do rosto do recruta, que em breve seria entronizado como Assobio, e atreveu-se a um cúmplice piscar de olho, quando o rosto daquela encomenda extraviada se iluminou, por momentos, no que, ao jovem oficial, se lhe afigurou como tímido sorriso.

E, então, inesperadamente, como por encanto, provindo dos confins do Universo musical, como se de uma flauta mágica se tratasse, ou pífaro de prata, caldeado pela divina Euterpe, o harmonioso canto do melro, em todos os seus timbres delicados, desprendeu-se, afinado e arrebatador, no cristalino sopro dos lábios do “Apoucalhado”, com o Alferes procurando dar réplica, em seu frustre talento de assobiador.

E, assim, se mantiveram, por largos minutos, como dois “apoucalhados” fora do Mundo, o Apoucalhado, ele próprio, como primeiro pífaro, a repenicar o canto esquivo do melro e o Aspirante assobiador, a tropeçar nas notas mais subtis do canto. Agora era visível o rubor de contentamento no rosto do tresmalhado recruta, perante o restante pelotão, que atraído pelo insólito espectáculo rodeava o Assobio, que naquele transe iria sê-lo, e o jovem oficial, comandante de pelotão, que persistia e insistia no concerto, perante a perplexidade dos seus comandados.

- “Agora o canto da Cotovia!...” – sugeria o Alferes, entre o desafio e a sedução. E resposta vinha imediata, no assobio treinado do “Apoucalhado”, que, perante a cumplicidade do jovem oficial e o alagar do circulo de recrutas, que escutavam embebecidos, requintava nos trinados. E depois da cotovia, a toutinegra, o pintassilgo, o faustoso gaio, o estorninho, o arrolhar dos apaixonados pombos, o voo espantando de perdizes e por aí fora, num matizado naipe de sons e cantos que surpreendiam pelo primor da execução e pelo inesperado talento de um “apoucalhado” recruta em risco de ser recambiado, como encomenda fora de prazo, por incapaz e má figura militar.

Como facilmente se compreende, o grupinho dos alfacinhas reguilas do bairro de Alcântara eram, entre os recrutas do pelotão, os mais embebecidos e entusiasmados admiradores do inesperado talento do recruta “apoucalhado”, pois que, fora o grito murcho das gaivotas, adivinhando tempestades, ou o piar de algum pardalito ladino, caçando migalhas por entre as mesas da esplanada, ou o canto colorido do canário da menina, em alguma janela do bairro, a despertar pulsões de desejo aos gatos vadios, outras aves canoras, ou outros cânticos campestres, os alfacinhas conheciam, nem a superioridade da sua condição urbana e operária, lhes permitia admitir que o campo e a serra pudessem criar outra coisa digna de registo, para além dos nabos. Tinham, porém, ali, à vista de todos, o desmentido dos desmentidos e a prova provada de que todos e cada um tem seu préstimo e seu oculto talento e quando o sol nasce a todos deve, por isso, cobrir com a mesma dignidade.

E, então, os reguilas alfacinhas, como se celebração iniciática fosse, rodearam o “apoucalhado” num círculo fechado, deram as mãos e o reconheceram como seu.

E logo ali o nomearam:"ASSOBIO".  




10 comentários:

Laura Santos disse...

Boa alusão ao divino Cardeal Cerejeira,("Que Deus haja"), e de facto as regras, militares ou outras nunca se importaram nem importarão com os "apoucalhados", mas como tão bem ficou explicitado no texto; qualquer um tem em si um qualquer talento.
Agora já sabemos a origem do epíteto "Assobio"! :-)
Uma escrita cativante!
xx

O Puma disse...

Este Assobio poliédrico mas fino no canto e nos gestos ainda vai dar que falar no outro lado do cais
Abraço amigo

CÉU disse...

Até estou cansada. Do olhar, claro. Que "bué da" texto!
Uma escrita muita engraçada, fina, masculina, com todas as letras e vocábulos, repleta de memórias, onde a tropa se misturou, inteligentemente com a política. Tem de estar tudo a tocar "na mesma nota", caso não... a "orquestra" desafina.
Pronto, e o homem lá foi batizado.

Agradeço a visita e comentário no meu blogue.

Beijo.

Suzete Brainer disse...

O diferente sempre cria o incomodo no sistema da
normalidade, o espelho desagradável a refletir a
imperfeição do convencional. Mas, justamente este
ser diferente, de fora da rigidez do sistema, sempre
é o que renova,o que oxigena a vida como um "Assobio",
o inesperado "canto da cotovia" na afirmação:
"De que todos e cada um tem seu préstimo e seu oculto
talento e quando o sol nasce a todos deve, por isso,
cobrir com a mesma dignidade."
O teu talento de escritor é também um canto de
pássaro raro, viu escritor que não se diz escritor...rss
Uma leitora fiel desta viagem, fico com os meus olhos
brilhando de curiosidade na continuação...rss
beijo.

Fê blue bird disse...

Um texto impressionante que nos prende do princípio ao fim.
Infelizmente na actual sociedade, o talento, que todos têm, está a ser desperdiçado e temos que assobiar longe daqui.

Bom Natal !

Um beijinho

Jaime Portela disse...

O que um bom assobio pode fazer...
Uma história bem contada, a deste capítulo. Tal como nos anteriores, de resto. Com uma excelente narrativa, que prende o leitor da primeira à última linha.
Caro amigo, tem um bom fim de semana.
E um NATAL MUITO FELIZ, na companhia dos que te são mais queridos.
Abraço.

O Puma disse...

Hoje acordei de madrugada com um assobio
sei que foi um pássaro
mas pensei no teu

Abraço

jrd disse...

Quem é "Apoucalhado" aqui, nesta tropa fandanga? O aspirante que irá ser Alferes, os reguilas da grande urbe que nomearam o "Assobio" ou o Assobio que passava por "Apoucalhado"?.

Um fragmento que merece um assobio.

Abraço fraterno

AC disse...

Ah, meu amigo, a saga do mergulho ao mais profundo do Apoucalhado está muito bem conseguida.
Aguardo, em ânsias bem talhadas, o nóvel enquadramento do já Assobio.
(Isto é literatura, não tenha a menor dúvida)

Forte abraço

Lídia Borges disse...


A narrativa "apouca-se-me" perante a vontade de ler.

Estaremos perante umas novas "Farpas"?


Lídia