quinta-feira, setembro 29, 2022

ABSOLUTA PALAVRA


 

A Hora é esta. Assim

Escassa. A morder a orla

Do sonho

 

Sacral e mítica…

 

A anunciar-se

Líquida. Sede e água

A transbordar

 

E a proclamar-se

Desmedida. E a profanar-se

Dádiva.

 

E a resguardar-se

Profana. E absoluta

Palavra. Dita.


Manuel Veiga

in COREOGRAGIA DOS SENTIDOS

Modocromia- Edição

 

domingo, setembro 25, 2022

RAIO DE MINERVA

 

como um raio da faiscante Minerva

vestes tuas asas de poeta

deslumbrante seguem-te milhares

solicitando teus favores.

compreendo-te – mas não eu !

que sou poeta da humana condição

 

e teus versos

espinhos

de uma rosa desbotada

que o Outono teima em entardecer…

 

Manuel Veiga

25-09.22

 


quinta-feira, setembro 22, 2022

A CARTA QUE NUNCA TE ESCECEREI - TAKE 32


Um pouco agitado, na sequência da azeda troca de palavras com o GNR e ansioso por chegar à Casa Grande e desembaraçar-se o melhor que pudesse das razões  da sua chamada urgente à Casa Grande e, depois, regressar imediatamente a Lisboa, para se colocar ao serviço da Revolução, onde melhor a pudesse servir, pois tamanha era a sua convicção revolucionária que, nem por momentos lhe passou pela cabeça que a agitação dos militares pudesse ter outra natureza e que não se resolvesse na Revolução Democrática, há tanto tempo esperada.

Em passo acelerado, atravessou a sala de espera e as bilheteiras e saiu da Estação dos Caminhos de Ferro, e dirigia-se para velho autocarro que, finalmente, o levaria à Casa Grande, quando se dá conta do reluzente Ford V8, e o velho Viriato, encaixado na mal ajustada libré de chauffeur, numa das mãos o boné, que retirara numa vénia, como está o menino, faça o favor de entrar, mantendo a porta aberta com a mão livre.

Manuel Maria pasmava! O automóvel estava ao serviço exclusivo da Federico Amásio, Senhor da Casa Grande, que aliás raras vezes usava, preferindo a volúpia de uma de boa desfilada a galope, num de cavalo “com sangue na guelra”, como era seu timbre montar. O vistoso automóvel era apenas um luxo, “sinal” de riqueza e ostentação de poder, que o dono da Casa Grande conhecia “arte” em todas as suas expressões. Tão excessiva magnanimidade colocou Manuel Maria de pé atrás, digamos assim,  e mesmo antes de perguntar pelas duas mulheres que o esperavam e que ambas amava como filho, interrogou com o olhar o condutor e. como se para si próprio falasse, que significa isto?...

Vamos, não há tempo a perder… respondeu o velho motorista; tenho ordens para o levar diretamente à Igreja…

- À Igreja? Mas que diabo vou eu fazer à Igreja? Manuel Maria, visivelmente indignado… Face à insistência muda, mas nem por isso menos eloquente, compreendeu Manuel Maria, que não tinha forma de se livrar do chauffeur e do luxoso automóvel.

Entrou, pois. o jovem para viatura um pouco intrigado e inquieto, pois bem sabia que Federico Amásio, Senhor da Casa Grande, tinha por ele, Manuel Maria, tanta afeição quanta um galgo tem por uma lebre. A que propósito, portanto, a distinção do luxuoso automóvel? – interrogava-se!..- ou que maquinação, naquela mente perversa?. cismava... Intrigado, embora Manuel Maria não dedicou, porém, mais que uns breves segundos à questão do automóvel e já que ali estava era ir em frente e despachar-se o mais rãpido possível das razões urgentes que o traziam à Casa Grande. A Revolução estava nas ruas de Lisboa e outras cidades e não seria o “mando” de Federico Amásio, nem o afecto das duas mulheres, que o amavam, como se ambas, sua mãe de Manuel Maria fossem, Ninguém o irua reter…

O velho chauffeur mal arrancou com o automóvel, começou a despejar as notícias e acontecimentos trágicos dos últimos dias, o Senhor da Casa Grande faleceu e está toda a gente à espera na Igreja a para o funeral – uma tristeza! Ainda se, ao menos. tivesse sido uma morte natural era lá com Deus e suas contas, que bem sabemos não seriam poucas, mas morrer assim, arrastado, com o rosto desfeito, irreconhecível, um monte de carne e ossos, como se peça de açogue, E, olhando de soslaio Manuel Maria em busca do   efeito das suas palavras, perante a estupefação do jovem, o zeloso mensageiro, prosseguiu a narrativa, conferindo à voz tonalidades tragico-cómicas, Sua Senhoria era doido por cavalos, bem o sabíamos todos – acentuava – e acabara de comprar um potro loução, fino e luzidio, como a seda, mas mais bravo que um toiro desembestado. Nâo faltou quem tivesse o cuidado de avisar Sua Senhoria que o garrano era má rês que não deixava passar a mão pelo lombo ,quanto mais colocar os arreios. Foram necessários três homens valentes para colocar o selim, Sua Senhoria teimava em ser ele próprio a desbastar o animal e ordenou a dois homens para segurarem o cavalo pela barbela, enquanto um terceiro homem procurava aparelhar o animal, que mal sentia o selim sobre o lombo saltava em duas piruetas e lá iam os arreios pelo ar, uma, duas, varias vezes, até o animal parece ter acalmado e finalmente ser possivel apresentar a Sua Senhoria, o potro rebelde para primeira lição.

Enfim, o cavalo seguro, agora, apenas pelas rédeas, fez meia dúzia de piruetas, que Federico Amásio aguentou com perícia, dando a ideia que. sim senhor, tínhamos cavalo e cavaleiro. Federico Amásio sorria, Mas – vão lá conhcer-se os caprichos e melindres de um cavalinho loução, de pelo fino e luzidio como seda?!..Mandava o bom senso, que o cavaleiro se respaldasse na ajuda dos seus empregados para, com maior segurança, poder montar. Mas  Federico Amásio, não. Toldado pela vaidade (e pelo alcool), mandou que toda a gente se afastasse, formando um círculo, em volta do cavalo e do cavaleiro, atento o pessoal a qualquer auxilio. O cavalinho, seguro com mão firme nas rédeas, batia com as patas no terreiro, mostrando impaciência que Federico Amásio procurava dominar, com palavras dóceis e palmadas carinhosas no pescoço e espádua e, quando lhe pareceu o momento oportuno, meteu o pé no estribo e elevou perna  contrária, com  vista a ultrapassar a altura do animal e ficar instilado no selim.

Se era essa a intenção do cavaleiro, não era esse, porém, o interesse do cavalo. Dito isso, no momento em que Federico Amásio, com o pé firme no estribo, eleva o corpo,  no momento em que o cavaleiro forma o salto, nesse momento decisivo, de destreza e arte, com o cavaleiro, a “voar” sobre a garupa, para ficar sentado, com elegância, no selim, o cavalinho arredio na iminência ser montado, solta um relincho lancinante,  ergue-se, sobre as patas traseiras e tomba sobre o cavaleiro, que ficou, literalmente espalmado debaixo do cavalo, corpos de cavalo e do cavaleiro a espernearem no chão, Federico Amásio a procurar desenvencilhar-se do estribo que lhe prendia o pé e o cavalinho solto das rédeas, ergue-se num ápice, evita os  homens que lhe querem deitar mão e corre portão fora, levado, na corrida o corpo indefeso de Federico Amásio, que com a perna presa no estribo e incapaz de se libertar, é arrastado fatalmente pelo galope cego do cavalo, que, como um relâmpago, zarpou porta fora, a correr a toda a brida, vencendo todos obstáculos, nessa corrida endiabrada. Horas mais tarde, o cavalinho loução, fino e luzidio como seda, foi encontrado à sombra de um carvalho, calmo e dócil, com os restos do cadáver de Federico Amásio, membros e corpo da dependurado do selim e o crâneo partido, expelindo pela chaga aberta pedaços massa encefálica…

O velho chauffeur, suspende por uns segundos a minuciosa descrição e, olhando de soslaio o jovem Manuel Maria eu sei que há gente que não acredita, mas para mim esta tragédia foi obra do Diabo. Manuel Maria não teve tempo para replicar. Tinham chegado para o funeral do Senhor da Casa, que decorriam no interior da Igreja e extravasava para o exterior.

No adro da Igreja, pequenos grupos falavam em voz baixa, Alguns homens tiraram o chapéu à passagem de Manuel Maria que mal dava por conta, pois o seu  espírito  vibrava na evocação da criança enfermiça, a esconder de vergonha o rosto no colo de duas mulheres, que ambas o amavam, como se ambas sua mãe fossem e a lembrança de um homem, de mãos grandes, tão grandes que vão da Terra ao Céu, um homem ajoelhado frente a outro homem. a pedir perdão... Mas a pedir perdão de quê, meu Deus? se o homem que, ajoelhado, pedia perdão, apenas desejava um pouco de dignidade, trabalho para sustentar a família, que mãos e corpo para trabalhar tinha ele. Com essas memórias a arderem como ferro em brasa, Manuel Maria entrou na Igreja..

Por essa hora, no quartel do Carmo, em Lisboa, negociava-se a destituição de Macelo Caetano, com cravos vermelhos na rua e o Povo em festa – Fascismo Nunca Mais!...

A centenas de quilómetros de distância, vindo de sul para norte, Manuel Mara como se a tômbola da vida naquela naquele dia e naquela hora, tivesse condenado Manuel Maria à liturgia da morte, em lugar da euforia colectiva nas ruas de Lisboa e da orgástica explosão do grito do “povo unido jamais será vencido”, que breve grito ganharia densidade e consciência social, exprimindo a profunda unidade  e a profícua  aliança Povo/Forças Armadas, isto é Aliança POVO/MFA.

Seja como for, Manuel Maria estava decidido a regressar a Lisboa o mais cedo que pudesse, passando sobre a vontade das mulheres que ambas o amavam, como filho de ambas fossem.

Manuel Veiga

domingo, setembro 18, 2022

J. GOMES FERREIRA - A BONDADE DO MUNDO - POEMA CÍNIC0---

 

Menino, que vais na rua,

não cantes nem chores; berra!

Cospe no céu e na Lua

e aprende a pisar a Terra,

 

Aprende a pisar o Mundo

Deixa a Lua aos violinos

dos olhos dos vagabundos

e dos poetas caninos,

 

Aprende a pisar a vida

Deixa a Lua às costureiras

- pobre moeda caída

de quem não tem algibeira


Aprende a pisar o chão

o silêncio do luar

vem sentir no coração

outras pedras a gritar,

 

Pisa a lua sem remorsos

estatelada no solo …

Não hesites!  Quebra os ossos

dessa criança de colo.

 

Pisa-a, frio, com coragem,

sem olhos de serenata

que  isso que vês na paisagem

não é oiro, nem é prata-

 

Menino que vais na rua,

não chores, nem cantes : berra!

ou então salta para a lua

e mija de lá na terra.

 

José Gomes Ferreira

Antologia da Poesia Portuguesa – pag 187

 

 

quinta-feira, setembro 15, 2022

A CARTA QUE NUNCA TE ESCREVEREI – Take 30

   

O comboio subia ronceiro, como as letras desta prosa, a linha da Beira Alta, uma tormenta, que Manuel Maria suportava com resignação, sempre que se deslocava de Lisboa para Terras do Demo, ou vice-versa, nada de viagens regulares, pelo Natal, Páscoa ou Férias Grandes, como era usual com os estudantes da província, deslocados da família, mas não Manuel Maria, que apenas subia e descia a linha da Beira Alta, conforme os desígnios e as determinações da Casa  Grande, onde era nascido e mal tolerado, embora amado, por duas mulheres, como se ambas, sua mãe, fossem, reserva de afecto, tal amor de mães, que será sempre, perante as agruras que sempre batem à porta de alguém, por maiores que sejam os favores terrenos e as graças céu que mereça e, sendo assim, por maioria de razão será no caso de uma criança sensível, a suportar o estigma do seu nascimento e a esconder a vergonha de ser nascido, fruto de condenável mancebia, quer dizer, do escaldante encontro entre apetite desenfreado do Senhor da Casa Grande com o crepitoso corpo de Violante, um pouco estouvada, convenhamos, a invejar, sem medir distâncias, o homem, que face à Lei de Deus e dos homens pertencia a sua ama e Senhora, sua amiga e confidente, (que outra irmã não tivera) encontro funesto, portanto, entre as crepitosas carnes da serviçal Violante, um pouco desmiolada, já se sabe, porém apetitosa, com a gula do Senhor da Casa Grande, marido da fidalga Camilinha a quem qualquer “rabo de saia” despertava apetites, colheita de dores, portanto, e dissabores para as vítimas, que, saciado o carrasco, levavam um pontapé no cú e põe-te andar daqui p´ra fora, vergonha, portanto, para as mulheres que iam no engodo e depois do prazer e da ilusão, aguentavam sozinhas uma gravidez, sem pai conhecido, que o povo matreiro e jocoso, dizia, em surdina, que tal gravidez  era obra do “obra do Espírito Santo”.

Muita sorte teve, pois, Manuel Maria, em ser amado por duas mulheres, como se ambas sua mãe fossem e ter agasalho no inverno e comida todo o ano e, perante a iminente expulsão daquela ilustre Casa, qual filho de uma cadela, ter ficado a seu lado a generosidade e a determinação da Machorra, que, embora sua mãe não fosse, como tal o amava e, em sua autoridade de esposa preterida e humilhada, vergou a vontade do Senhor da Casa Grande, determinada em ir ao Bispo e ao Governador Civil ou ir a Lisboa ou ao Papa ou a casa do Diabo, se tal fosse necessário, mas toda a gente ficaria a conhecer o nome do pai da criança cruelmente expulsa e assim todos ficavam a saber quão reles era a estirpe do Senhor da Casa Grande.

Sorte, portanto, a de Manuel Maria, na solidão da sua infância, proibido de se misturar com os outros meninos da sua idade, e também mal tolerado nas suas correrias nos salões da Casa Grande, por entre a galeria de pinturas e retractos que o  “desafiavam” na sua fantasia e nos seus jogos solitários, o que provocava irritada reprimenda da mãe e da madrinha e da voz tonitruante do Homem que nunca ria e perante o qual os outros homens ajoelhavam e pediam perdão, mas pedir perdão de quê, meu Deus?  se o homem mau era ele, o homem que nunca ria, e não aqueles que o serviam, como a sua mãe e a Madrinha, que se desfaziam em cuidados para o servir e ele sempre aos gritos e ameaças, a exigir e a ordenar, como se fosse o senhor deste mundo e do outro.

Subia, pois, Manuel Maria, escorado na sua reserva de maternais afectos, rumo à sua infância, em ronceiro comboio pela linha da Beira Alta, de noite, que a urgência era grande e assim lhe havia sido ordenado para chegar pela manhã, sem que o telegrama urgente, ou o solícito padre-operário, seu tutor na Instituição, e que havia de conquistar-lhe a amizade e moldar-lhe o carácter, sem que, dizíamos, telegrama ou o padre deixassem perceber as razões de tamanha urgência.

Subia, pois, Manuel Maria, de sul para norte, rumando à Casa Grande, donde fora precocemente arrancado aos afagos de duas mulheres, que o amavam como filho, e despachado para um instituição religiosa de acolhimento de rapazes, que para esconder as vergonhas das famílias ilustres, tais instituições são criadas, subia, pois, Manuel Maria, de sul para norte, num comboio ronceiro, pouca terra, pouca terra, com o corpo dorido, dormitado, por vezes, ou procurando concentrar-se na leitura da qual se soltava para mergulhar, novel arquitecto, num dos seus habituais solilóquios que haviam de tornar-se célebres, anos mais tarde, quando, abandonada a arquitectura e domesticado o sonho  de uma Arquitectura para o Povo, decidiu “medir-se” como escritor, mas não ainda, neste tempo narrado, em que os seus mais cálidos sonhos era envolver-se profundamente na política e na luta antifascista,  pois não é por acaso, que se exibem, no sobreolho, os garbosos vestígios de brutal agressão da  Polícia de  Choque, em plena Baixa lisboeta,  num “1º de Maio” ainda recente, que se diria ainda a fumegar nos cascos dos cavalos  e  na bestialidade policial, mas também a fumegar na determinação das massas populares, agora que se extremavam posições e se adivinhava o estertor do regime, com o colapso da autoproclamada Primavera Marcelista e seus sofismas “liberalizantes”, bloqueados e neutralizados pela linha dura do regime e o aumento da repressão fascista, cada vez mais violenta  e, por outro lado, os cada vez mais evidentes os sinais de desagregação do regime.

Subia, pois, Manuel Maria rumo a Terras do  Demo, de Sul para Norte, em contramão das águas, entregue às suas fantasias, perscrutando as linhas com que haverá cerzir-se o futuro, filho enjeitado, a interrogar-se sobre esta urgência e esta despropositada viagem e a garantir que, jovem arquitecto, em breve, seria senhor de suas decisões, sem outras sujeições que não sejam escolhas suas, ou do seu núcleo de afectos, como aquelas  duas mulheres, que a ambas ama, por igual medida, como se filho de ambas fora e a ambas perdoa esta cesura e este degredo de alma de saber-se filho da vida.

Raiava a manhã. Por entre, entre a copa dos pinheiros, o carmim do nascer do dia e a atmosfera fantasmagórica do nevoeiro, a elevar-se da superfície e a desfazer-se, em farripas, atravessado pelos primeiros raios de sol. Abriu a janela da carruagem para melhor absorver a paisagem e deixou-se arrastar por esses reflexos de luz e movimento que seu olhar capturava em emoção estética, esquecido de si e da viagem, num mergulho telúrico do sol a arder, em gotículas de água, por entre a copa das árvores.

A viagem aproximava-se do fim. Manuel Maria saiu de seu torpor e dá-se conta da insólita ocupação da Estação de Santa Comba Dão por militares da GNR e com a brusca entrada na carruagem do revisor da CP, acompanhado de três GNRs, que além do bilhete de comboio intimavam os escassos transeuntes a apresentarem o respectivo cartão de identificação, prontamente obedecidos, que o tom façanhudo da autoridade não deixava margem a dúvidas. Quis Manuel Maria saber as razões de tal aparato e foi recebido com o olhar desconfiado do guarda “receia-se uma tentativa de golpe de Estado por parte de alguns militares comunas – há que estar vigilante e atento – e, devolvendo os documentos, em tom provocatório – você é comuna, rapaz?...

Manuel Maria engoliu a provocação e. numa bravata inconsequente, que apenas a emoção e a alegria irreprimível provocados pelos acontecimentos acabados de conhecer, poderiam justificar, ripostou – “se há uma Revolução em Lisboa terminou o poder de Santa Comba Dão e você perdeu toda a autoridade: nego-me a responder a essa pergunta …”. O guarda ainda esboçou um gesto de agressão, que recolheu de imediato, pois, com uma revolução em andamento, nunca se sabe para que lado tombam os acontecimentos, de forma que é de elementar bom senso não fazer ondas desnecessárias e, dali abalou, o guarda, carrancudo, como entrara.

Manuel Maria fervia de emoção e recriminava-se (como se fora ele o responsável) pela inoportunidade da viagem que o impedia de viver “em directo” alguns dos mais marcantes episódios da Revolução de “25 de Abril” e uma das mais empolgantes gestas da História Pátria – o Largo do Carmo, a rendição de Marcelo Caetano, a alegria, os abraços anónimos,   as correrias, as lágrimas irreprimíveis, a profusão dos cravos vermelhos,  o extravasar das emoções soltas, os gritos de vitória e, nesse cadinho de sonhos e promessas, na medida, em que se ia consolidando a Revolução, germinava, na acção política e na vontade das massas populares, a Aliança Povo/MFA, esteio fundamental do êxito da Revolução.

A viagem aproximava-se do fim. Até Celorico, seria uma escassa meia hora de ronceira marcha do comboio. Depois, mais uma hora, em estafada camioneta de passageiros e estaria, finalmente, na Casa Grande, a abraçar duas mulheres, que o amavam, como se filho de ambas fosse.

Enganou-se, porém, Manuel Maria, num pequeno pormenor, um quase nada, que o deixou perplexo e que explode de tão densa significação – a recebê-lo, na saída da Estação, o vistoso Ford V8, ao serviço exclusivo do Senhor da Casa Grande

Manuel Veiga


 

domingo, setembro 11, 2022

A PALAVRA LIBERTA...


a palavra é soberana

quando implantada na rocha

e vertical no coração dos homens…

a palavra liberta, quando 

mais que palavra – é compromisso

e vincula a humanidade de outros

homens, e é selo e acto e veio de fogo

e água no percurso dos passos…

a palavra é dúctil quando no palato

se derrama e extravasa na dança

dos corpos em ritual de amor –

subtil narrativa de palavras

urdidas sobre a pele …

fora isso

a palavra é euforia do poema

em festa – girandola de cor e lume

a glorificar o infinito

e a bem dizer o barro

que somos …

fora essas, são palavras. palavras

apenas palavras…


Manuel Veiga

11,09,22

quinta-feira, setembro 08, 2022

TEU ROSTO VEM DE LONGE

 

Teu rosto vem de longe

Nele habitam a torrente ígnea dos vulcões

E os rios secos de tanta espera.

E os ventos a mordem o percurso

Das chuvas. Como bênção


Habita teu corpo um donaire

Uma dança contida que explode

Dança guerreira e bailado

de Tchaikovsky

Ou um batuque

Africano

Em noites de cio

E lua cheia.


E um porte arisco

E uma demanda que se agita

E uma escrita muda que se advinha

Em subtil alvoroço das ancas

Como sequiosas ânforas

A acenderem-se

Por momentos

Vazias

 

Manuel Veiga

segunda-feira, setembro 05, 2022

Homenagem ao POETA Joaquim Monteiro

 A MORTE É UMA AVE

Dentro do sono a paisagem
é sublime. Ardem as crinas
dos cavalos ao vento sul.
Comoraparigas dançam com o sol
dentro dos olhos e, as maças brilham
nos dentes ainda virgens.
O verde é mais verde onde
as mudas vozes despertam
no silêncio a paz apaziguadora dos sinais,
fluindo no íntimo de um acordar futuro.
Dentro do sono a morte é uma ave
rasando o infinito das águas.
O verbo sublimado no coração da luz.
Joaquim Monteiro


"Quando morre um poeta

todas as narrativas se calam

e o Verbo se devolve ao Silêncio---

  1. MV 





sábado, setembro 03, 2022

CONHEÇO-TE...

 

Sei de tua urgência

e do cio de teu corpo

e da maciez

da tua pele

e da dança do sangue no interior

das coxas e

dos retesados seios

 e das narinas dilatadas

fêmea a derramar-se

em humidades quentes

e o meu sorriso…

 

e quando o teu corpo se despe

é a avidez homem que busca

a tua nudez

impúdica...


e o jubiloso

grito….

 

Manuel Veiga

01.09.22

terça-feira, agosto 30, 2022

LETRA A LETRA

 


cada dia, meu poema

e cada letra a transfiguração

de meus passos. e meus beijos

e a devoção de teu nome

assim selado

como néctar                                

no íntimo

da flor…

 

Manuel Veiga

28.08.22

 

 

sábado, agosto 27, 2022

ENTARDECER,,,,


vão secos e dolentemente esventrados os rios

da minha infância – e eu com eles!

vara do tempo a marcar as horas

pelo ponteiro das sombras

na espera que a noite tombe

e que venha o canto da ave

que se solta sempre

ao anoitecer…

 

sábios os que suavemente

adormecem com a alegria

dos faustos dias

e das rosas

 

que pouco vivem

mas são eternas …

 

Manuel Veiga

27.08.22

 

ABSOLUTA PALAVRA

  A Hora é esta. Assim Escassa. A morder a orla Do sonho   Sacral e mítica…   A anunciar-se Líquida. Sede e água A trans...