domingo, março 17, 2019

A CARTA QUE NUNCA TE ESCREVEREI - TAKE 11


Que razão inscrita na ordem das coisas pode levar a Natureza a dotar a mão esquerda de um homem das aptidões e valências que outros homens têm na mão direita é mistério que estas mal cerzidas palavras, sem sentido de medida, a assumirem-se, com vocação literária, jamais buscarão entender, sendo porém certo que a dominância da esquerda no corpo dos indivíduos é algo estranho, uma espécie de enfermidade congénita que corrói como marca física e transporta tão grande importância simbólica, que pode efectivamente determinar, muitas vezes, o próprio carácter dos homens e a predestinação de suas vidas e, não raro, em tempos de obscuridade e opressão, constituir-se como ferrete de ignomínia e de exclusão, de tal maneira que o sujeito de tal enfermidade, ou tendência, ou hábito, ou malformação, ou jeito do corpo, ou vício endémico do carácter será conhecido, não por seu nome próprio, ainda que ungido em sagrada Pia Baptismal, com toda a corte de anjos celestes, que assim sempre acontece quando uma criancinha de meses é solenemente ungida com os sagrados óleos, mas pela alcunha de Canhoto, sinónimo de canhestro, marca gritante de desajeitado e sem préstimo, enfim, atávico sinal de exclusão social.

Assim era naquele tempo de brumas, quando o Zé Canhoto, ali chegou, àquela aldeia das Terras do Demo, vindo não se sabe bem de onde, mas que alguns, que por mais vivaços se tinham, diziam ser originário para lá dos montes, que daquela margem esquerda se avistavam, aonde muito raramente alguém ia e, donde uma vez por outra, alguém escassamente chegava, bem se sabendo que a vida se faz a sul e não a norte ou não fossem as águas frondosas do Douro fronteira e, depois delas, as arribas do rio Sabor, que, no Pocinho, entra sorrateiro em águas mais poderosas e, ultrapassadas as águas da foz, horas e horas corridas, por montes e vales, descendo e subindo, subindo e descendo até a vista poder espraiar-se pelo vale da Vilariça ou perder-se, novamente, pelos sinuosos caminhos, enfeitados de amendoeiras e oliveiras e hortas e pomares de Moncorvo e Vila Flor ou, mais para norte, para os úberes vales de Alfândega da Fé, Mirandela ou Macedo de Cavaleiros. Mas para chegar até lá, quem se arrisca sem razão funda? E quem, em seu juízo, mete pés a caminho, em direcção ao norte escarpado, quando os rios correm não para norte mas vão todos em direcção ao mar? Nada, pois, tudo bem visto e ponderado, nada de estranhar que os homens não subam em direcção ao norte e, pelo contrário, melhor se compreende que um desconhecido, que com nenhum outro nome ou graça se dá ao conhecimento que não seja o monossilábico som de , como se as tumultuosas águas do rio Douro e os deuses que as governam, como castigo pelo atrevimento da passagem a nado, de noite, pois seus passos, não se compaginavam com passagem à luz do dia na pachorrenta barcaça e cuja ousadia, que quase lhe levava o corpo, lhe tivessem arrebatado, em banho sacral invertido, sobrenome ou apelidos, nada pois mais normal para quem do mundo conhece um mínimo de seus caprichos, que um sujeito de tudo desprovido até de nome, obedecesse ao ritmo e à direcção das águas e ali arribasse, como as trovoadas, ou seja, inesperadamente, deixando marcas, como se verá, em tempo literário a seu tempo narrado, proveniente de terras além-Douro, no norte do País, ninguém ali sabendo ao certo quem era, nem ao que viera, se por rixa e fugido à justiça, se por mal de amores, ou mal de fome, sendo verdade, que naquele tempos de negritude e miséria, a fome era apenas outro nome para indigência, que nada mudaria com o lugar escolhido para viver, como piolho não muda de poiso em camisa suja.

Seja como for, a verdade é que o ali estava, nem sequer Zé Ninguém que outra coisa não era, nem sequer ainda Zé Canhoto que em breve seria, fazendo-se jus à sua mão esquerda que na morfologia do corpo e no jogo de forças que invisíveis se jogam no cérbero e marcam o carácter e predestinam o curso da vida, ali estava pois o , provindo de além-Douro, das quebradas do alto Sabor ou do alto Tua (vá lá saber-se ao certo!) a bater à porta da Casa Grande, a pedir guarida e trabalho, naquela aldeia nas Terras do Demo, cujo termo soalheiro descaía em socalcos pela margem esquerda do Douro vinhateiro.

Apressemos, porém, os tempos e abreviemos os nós desta estória do Zé Canhoto, que ainda não era e, em breve seria, pois este nosso tempo tem pressa e urgência em colher e a rosa-dos-ventos, em que a vida se joga e que em todas as direcções aponta, é, por enquanto, auspiciosa e nos concede uma suave brisa a enfunar as velas, empurrando o mar desta narrativa, que sem rebuço se quer literária, verdade seja que sem golpe de asa ou centelha criativa – suprema ironia – pois por maior que seja a presunção do escrevente e o seu zelo, olhando em redor, não se vislumbra que Camilo se passei por perto, disposto a ditar sua prosa encantatória e voraz, a erguer o Zé Canhoto como um dos seus heróis românticos ou, se não herói, pelo menos personagem consistente que lhe garanta lugar marcado na galeria da eternidade, nem sequer Aquilino, de espingarda ao ombro e em sua saga político-literária, a lançar mão da vida canhota do Zé, que aquelas paragens chegou, vindo sabe-se lá donde, passando portentosas tormentas e, com ela, com a vida do , entretecer sua prosa apaladada e bravia, moldada em sábio e vero linguajar, numa réplica hodierna do belo romance Terras do Demo, ou - quem sabe? - talvez uma nova versão de “Quando Os Lobos Uivam”, pois, se os baldios são ardidos e desertos, não faltam, porém lobos, a descer aos povoados (que restam).

Mas apressemos os passos, que nestas linhas cruzadas de contar, importa que as raízes não sequem o tronco e os ramos e bem sabemos que Manuel Maria é o centro, onde os nós da narrativa se tecem ou se deslassam e, quando outros laços e nós da escrita se buscam, são ainda seus passos e seus gestos que se perseguem, de tal forma que, sendo certo que deixamos o nosso herói (a contragosto), no auge da Revolução de Abril, o novel arquitecto Manuel Maria, a acreditar genuinamente numa Arquitectura para o Povo, subindo a escadaria dos Paços do Concelho, de um Município da Área Metropolitana de Lisboa, a colocar-se ao serviço da Revolução, indo ao encontro de José Augusto Esquerdino, recém-eleito Presidente da Comissão Administrativa, em amplo e participado plenário da população, é exigência de entendimento e da ordem das coisas narradas que se persigam os fios desatados para que se possam desvendar finalmente os laços e veios e, para além deles e do acaso de suas vidas, que poderão unir homens tão diversos, em diversas pontas do tempo, como sejam Zé Canhoto, José Augusto Esquerdino e Manuel Maria e que fatais razões do destino ou determinação da escrita poderão levar a que estes três homens vão entroncar, como em águas matriciais, naquele local ignorado, algures em Terras do Demo, na margem esquerda do Douro, cujo termo solarengo descai em socalcos para as frondosas águas do rio.
(...)

Manuel Veiga

sexta-feira, março 15, 2019

"IDOS DE MARÇO..."


Dizem que os “idos de Março”
Foram fatais a César.

Mas César, desafiara os deuses
E levara Roma, aonde Roma nunca houvera.
Por isso os deuses o ungiram.
E os homens o invejaram.

E o peso do Universo e todas as invejas
César, com estoicismo, aguentava.

No entanto, Brutus – um homem honrado! –
Apunhalou o Amigo. Pelas costas!...

Não por cobiça – que Brutus é um homem honrado!
Mas porque Pompeia, mulher de César
Que séria nunca fora, séria jamais seria
Em seu resguardo de parecer honrada…

Para Brutus a traição, para Pompeia a Fama
Para César o que é de César!


Manuel Veiga