segunda-feira, junho 27, 2022

OS DEDOS DA SOLIDÃO

 Na lisa permanência do tempo ressaltam

De quando em quando, pequeníssimas particulas

Frações mínimas – um relance de um rosto

Que se abre à nossa passagem e que saído da multidão

Parece querer abraçar-nos – ou uma outra notícia sem memória

Caída do cesto das notícias espessas

O do comentário erudito que nos deslumbra.

Ou, então sobra sempre o poema que um dia

Havemos de escrever e nunca mais vêm à claridade.

E, no entanto, haverá talvez uma mão clandestina

E uns centímetros aveludados da pele nua – uma carícia

Que fica tatuada na polpa dos dedos. E por aí permanece…

 

Porventura, um amor irreal coberto de palavras

Inventadas, onde o fogo abrasa e os dias  

Cristalizam em pequenas doses de tempo

Fluido – entre a quimera e a dor mordente –

Uma fina mágoa a desaguar na avalanche da vida

Onde se joga o “homo faber” e se perde e ganha a liberdade

Nas minudências festivas e no fervor das grilhetas

 

Assim caminhamos, frágeis e vulneráveis

Por entre a multidão que nos é estranha

Apressados e sem tempo, que o tempo alienamos

E dele colhemos apenas a margem e a miragem

Presos uns aos outros pelos longos dedos da solidão


Manuel Veiga

08.01.2022

 

quarta-feira, junho 22, 2022

Nem Reino, nem Glória

 


Nem reino, nem glória!

Apenas os sapatos gastos e a poeira

Dos caminhos. E uma reluzente pedrinha

A brilhar por entre os dedos.

Valiosa.

 

O salgueiro como, sempre, ali permanece

A oferecer sua sombra. E o rio.

Agora seco nas cascatas

Da memória.

 

E o freixo. E o canto do melro

A agitar-se em cio.

E também a menina de A. de Campos

Às portas da Tabacaria.

(a comer chocolates, está claro!)

 

E a inamovível pedra em que me sento.

Que me importa a mim a verdade

E a mentira! passa, tudo passa.

Apenas uma reluzente

Pedra me interessa

Passando de mão em mão

E a gargalhada dos deuses

E uma última jogada…

 

Manuel Veiga

22.06.22

 

 

quinta-feira, junho 09, 2022

Arfar Solitário


Abrasa o sol nesta miragem.

A distância é o voo

E a canícula. E a ave soletrando o círculo.

E o zénite...

 

E a violenta bordadura do azul no fio de meus olhos

Agitando a brisa cálida...

 

E o grito calcificado do restolho.

E o cardo a dançar no vento.

E a poeira…

 

E a gotícula lambendo a pele nua.

E os lábios gretados. E a sede das horas

E os passos sobre o eco...

E o arfar solitário.

 

Infinita esta paisagem em que me detenho

Como planície inventada

Ou voo quebrado...

 

Estridência de cigarra acesa

Ou secreta cotovia em alvoroço

Adejando por dentro


Manuel Veiga

"Coreografia dos Sentidos"

Edição Modocromia

 

sábado, junho 04, 2022

AÇAFATE DE PALAVRAS


Vens de longe, de uma lonjura sem tempo

Com uma cascata de sorrisos tão cristalinos

Que acordam ecos e despertam os sentidos…

Trazes contigo um açafate de palavras cheio

Que me estendes na doçura de um beijo

E majestosa anuncias-me que

Queres o poema prometido…

Um poema prometido, pétala a pétala esculpido

Como as flores que agora trazes –

Guardadas (como letras)

Desde a idade que declinávamos

“Rosa Rosae” numa cascata de sorrisos.

E teus lábios – rosácea –

“Rosa Rosae” e a perfeição

Do Universo

 

Manuel Veiga

02.06.22

quarta-feira, junho 01, 2022

JOGO DE DADOS


 

Uma linha recta

Uma superfície lisa

E um ponto neutro.

 

Em cada extremo

As perdas e os danos´

De meu balanço.

 

E ganhos?

 

Invejosos os deuses

Cedo os levaram

Num jogo de dados.

 

Manuel Veiga

 


terça-feira, maio 31, 2022

A CARTA QUE NUNCA TE ESCRVEREI 34


Manuel Maria, em dois passos rápidos, atravessou o adro, de cabeça erguida e olhar ausente, evitando cumprimentos e salamaleques e entrou, discretamente, na Igreja, pela porta lateral, com o deliberado propósito de passar despercebido, pois sabe Deus quanto lhe desagradava participar nas cerimónias fúnebres do Visconde, já que a sua presença, ali, no funeral, iria abrir feridas suas, mal saradas e levantar poeira adormecida.

Manuel Maria nascera na Casa Grande, em circunstâncias, um tanto estranhas, enfim, filho da crepitosa Violante, mas o nome do pai, que todo o mundo conhecia, era, no entanto,  tabu em toda a região e o povo na risota ia dizendo  que Manuel Maria era filho Espírito Santo, que na sua humanidade  não terá resistido aos encantos de Violante, ali chegada, vinda de Sul para norte, qual  peça do enxoval da Camilinha,  que mais que aia ou dama de companhia como irmã a consideravam que outra irmã não tivera.

Manuel Maria nascera pois na Casa Grande, onde viveu sob os cuidados de duas mulheres que o amavam, como de filho de ambas fosse, a Violante que o dera à luz e a Camilinha, que por razões muito dela, o adotara como filho amado e no nascimento e infância o protegeu e, na adolescência, o retirou da influência nefasta do ambiente da Casa Grande e o colocou, como aluno interno, em  Lisboa, numa instituição da Igreja, destinada a acolher crianças desvalidas, ou filhos de famílias ricas, que., naturalmente, por santas e nobres razões, desejavam os filhos rebeldes, o mais longe possível, educados com a mão rija, entregues aos bons ofícios da Santa Madre Igreja

E agora ali estava Manuel Maria, no funeral de Federico Amásio, Visconde de Malafaya e Senhor da Casa Grande e de outros vastos domínios por toda a região de Terras do Demo e carrasco da sua adolescência, e ele, Manuel Maria sem uma gota de rancor para aquele homem, agora amortalhado, de quem nunca recebera um afecto ou uma caricia, nem sequer pelo próprio nome o tratava, apenas aquela voz rouca e riso escarninho o interpelavam, como se fosse mais um cachorro da sua matilha da caça vem aqui zorro. Sentiu uma pequena náusea e estava decidido a sair da Igreja, tão lesto como entrara, quando sente a mão carinh de Violante e, num murmúrio, incita-o, anda, vem comigo, e tomando-lhe a mão e, por entre os fiéis, guiou-o até à urna, com os restos mortais do senhor da Casa Grande e visconde de Malafaya, com o rosto coberto com pano de linho escrupulosamente engomado. De cada lado da urna, depositada sobre um suporte de madeira entalhada, pintado de preto e debruado a oiro, ardiam, numa chama dolente dois círios da altura de um homem. Em redor do defunto, seis clérigos, devidamente paramentados, dispostos três de cada lado, entoavam, em latim, o cantochão de profundis e aspergindo água benta sobre o defunto e desfiando padre-nossos, replicados em coro Pai Nosso Que Estais no Céu.,, Manuel Maria e Violante, avançavam, lentamente, por entre a multidão de crentes, Violante à frente, com Manuel Maria pela mão, pedindo licença, forçando a passagem, aqui ou ali, até chegarem junto de Camilinha, totalmente vestida de negro, com um longo véu de renda. a cobrir-lhe o corpo.

A Camilinha abraçou Manuel Maria demoradamente, deixou-lhe uma carícia no rosto e puxou-o para lhe dizer em voz baixa que devia aproximar-se o mais possível da urna e ficar sozinho, à cabeceira do defunto. Manuel Maria interrogou com o olhar a Camilinha, sem alcançar  o sentido da proposta, mas Camilinha náo lhe deixou margem para se negar e, com voz firme insistiu vai , faz o que te digo, depois te  explicarei.

 

 Manuel Veiga

domingo, maio 22, 2022

DA MENTIRA E DA VERDADE...



 

Entre a verdade e a mentira

O diáfano véu da nudez. Do qual, cada um se cobre

Com seus ritos e seus mitos.

Singular, porém, toda gente ir nua pela rua

Julgando-se coberta. E clamar que toda a gente anda nua

Dizendo-se bem vestida…

 

E se em cada mentira um ponto   

De verdade se encontrar, então é certo

Que a mentira se enovela na verdade

E o que é verdade agora será biombo mais tarde

Para se despir o fato da mentira

E revestir-se com a seda da verdade…

 

Manuel Veiga

22.05.22

terça-feira, maio 17, 2022

COMO SE FORAS INVENÇÃO MINHA


As palavras, meu amor

São apenas insónia

Um rumor mudo

E a flor selvagem

Com que enfeito

Teus cabelos

 

Para além delas

E das suas cinzas

Existe uma chama outra

E esta coisa estranha

De saber-te

 

Como se foras

Invenção minha.

 

Manuel Veiga

in Coreografia dos Sentidos

Edição MODOCROMIA





quarta-feira, maio 11, 2022

DUETO DE HARMONIAS

 

Talvez teu corpo seja uma “flor sem tempo”

E meu olhar tua nudez altiva

E minha avidez seja teu único resguardo

E e teu rubor meu amoroso sorriso

E meu gozo a ti rendido   

 

Talvez todas as pétalas voem

Em simulacro de chuva miudinha

E se desprendam uma a uma

Em carícias mudas sobre a pele

E os beijos então se soltem. E as palavras.

E nossas bocas sejam. Voragem

E tempestade a escorrerem

Sobre os corpos húmidos

Num dueto de harmonias

 

Manuel Veiga

11.05.22


sábado, maio 07, 2022

A LUCIDEZ ...


A lucidez mata. Lâmina ou seta

Por vezes Palavra

Exacta…

 

A lucidez salva

E se regenera. E fascina.

E então germina

Com uma flor na ponta

E se derrama

Verso e reverso

Ternura desatada


Manuel Veiga

in COREOGRAFIA dos SENTIDOS

 Edição MODOCROMIA

 

OS DEDOS DA SOLIDÃO

  N a lisa permanência do tempo ressaltam De quando em quando, pequeníssimas particulas Frações mínimas – um relance de um rosto Que s...