terça-feira, fevereiro 03, 2026

Um Dia Irei Inventar Um Rio


Um dia irei inventar um rio

E derramar pétalas na boca de todos os amantes.

E então todas as margens serão

Registo de meus passos                                                                

E todas as águas salivas buliçosas:

Espuma dos dias e sinfónicos cânticos

A ecoarem no palato

E nas línguas…

 

E  serei um archote de lume

Em cada praça. E em cada esquina

Uma memória altiva.

 

E cada lago uma fonte.

E cada terreiro será grito

De um pregão.

 

E todos os nomes serão o mesmo nome.

E todas as pontes a passagem

De meu corpo.

 

 E serei piano na escala                                                        

De teus dedos. E vadio fado no abismo

De teus olhos..


Manuel Veiga

 

terça-feira, janeiro 13, 2026

TODOS OS RIOS SÃO A MESMA SEDE


São os deuses traiçoeiros em seu delírio

E as pátrias decidem as bandeiras

Como destino dos homens.Em cada dor, porém, uma tempestade

E um rasgo de mãos acesas

Sem fronteiras.

 

Nada do que é humano respira sozinho

E os Povos não reconhecem oceanos, nem fronteiras

E todos os rios são a mesma sede

E crestados lábios.

 

E todas as fomes se somam

E todas as angústias são látego coletivo

E em cada luta há sempre um afago indefinido

E em cada muro um grito subterrâneo

Que explode em cada gesto

De dizê-lo.

 

Nada os deuses nos devem

São os homens que se inventam

Em cada dádiva de amor rebelde

E liberdade…

 

E quando um Povo sofre (ou se liberta)

É toda a Humanidade!…


Manuel Veiga

sexta-feira, dezembro 12, 2025

Noticias de Inverno

 

Escrevo poemas imaginários

(que jamais serão escritos)

e te envio numa gota de chuva

neste inverno de melancolia

 

sei que vais beber esta água

delicadamente

como se fora um raio de sol que se alonga

em tua pele macia e nua…

 

e todos os jardins da cidade

fossem habitados por faunos e ninfas

numa dança pagã

e pura…




Manuel Veiga


 

quinta-feira, dezembro 04, 2025

CADA DIA ... CADA LETRA...


cada dia, meu poema

e cada letra a transfiguração

de meus passos.

 

devoção de teu nome

murmúrio de água

e

néctar                               

no íntimo

da flor…

Manuel Veiga

 

domingo, novembro 09, 2025

NEM UM SUSPIRO

 

Nada. Nem um suspiro. Nem um bulício.

Apenas o leve adejar do Sonho.

A espraiar-se em azul-turquesa.

 

E aquela ilha!... Ao longe.

Secreto coração do Mundo

Em toda a parte…

 

Batendo em alvoroço

De lume...

 

Manuel Veiga


segunda-feira, outubro 20, 2025

Desfazer da Tenda....


Desfaz a Tenda dos Milagres, poeta!

Pois a ti te bastam os ecos

E o topo das montanhas

Que são vertigem…

 

E afasta este azul nítido

Tão líquido azul que magoa. E se perde

Lá ao fundo…

 

E cala o sonho do sonho

E a asa. E o golpe que por vezes assoma –

Verso que desponta no reverso

E inebria…

 

E cala também o beijo dos amantes.

E os dias de verão e

Bem assim o inverno…

 

Que este vinho antigo

E este lastro. E este perfume decantado~

E esta gravitas

São já tanto!...


Manuel Veiga

quinta-feira, outubro 09, 2025

Passadeira Vermelha


no grande livro da vida

onde se inscrevem os milagres e todos

os feitos. E as insígnias do sangue e

o leite materno…

e a memória dos dias faustos

e de todos aqueles que são

e aqueles outros

que hão-de vir

nasceu uma criança!

e a acolheste em teu regaço a ungiste e quiseste que o poeta

a amasse como se fora

dádiva tua…

e na lonjura de todas as impossibilidades e

na majestade de todos os gestos o poeta estendeu então uma passadeira vermelha à altivez gloriosa de teus passos e

devolveu teu gesto e essa inocência frágil e

delicada envolta em palavras néscias

a que acrescenta agora

uma bênção pagã

e minha desmesura …


Manuel Veiga

 

sexta-feira, outubro 03, 2025

Pretérito Imperfeito


No roteiro de teus passos e no fervor

Dos laços me entardeço. E me derramo

E me desfaço. E (bem) te digo

Seda fina e xaile antigo

Debruado no frémito

Dos lábios…

 

E me inflamo poeta predilecto

E néscio, sou borbulhar de mostos

E bailado.

 

E movimento perpétuo.

E a caligrafia dos gestos.

 

E da lucidez me reclamo. E te proclamo.

Música atonal. Flor tão breve e um poema

Alvoroçado.

 

Infinito-Presente.

E pretérito imperfeito

 Manuel Veiga

segunda-feira, setembro 22, 2025

A COR DO SONHO NA PALETA...


colhe o poeta a cor do sonho na paleta

com as nuvens sobre a esfera onírica, porém presa

e na nesga rasgada sem saber se sai ou entra

o mar ao longe...

 

advinham-se corpos irreais em transparência

reclinados sobre colchas sem memória

como sombras pressentidas na luz imensa

que o dia clama...

 

talvez crianças caprichosas ou velhos faunos

desfaçam a cortina ou a subtil brisa os descubra

desnudados sem culpa ou sem remorso

bárbaros e puros...

 

talvez deste lado da paisagem onde beijos correm

como ondas e os dedos do poeta se deslaçam

o azul capriche no tempo breve e em suave tarde

apenas os corpos reinem...


Manuel Veiga

segunda-feira, setembro 01, 2025

Restolhar do Sonho

 

Um fio de sonho

E gesto largo

Nos longos dedos

Do silêncio.

De permeio

O acre enleio

Por dentro o sarro

E o engano

Desenganado

A elidir o logro

No restolhar

Do sonho…

Manuel Veiga


sábado, agosto 23, 2025

Atiçar o Fogo

 

Gosto, sim. De teu corpo-lume

A pedir chuva miudinha

E a fazer negaças.

E a desdizer-se

Em graça …–

 

Alvoroço

De teu corpo

Fogo e água

A fundirem-se

Em flama ardente…

 

Prazer do poeta

A atiçar o fogo

Em que arde!...


Manuel Veiga

 

Um Dia Irei Inventar Um Rio

Um dia irei inventar um rio E derramar pétalas na boca de todos os amantes. E então todas as margens serão Registo de meus passos   ...