sábado, julho 17, 2021

A NUDEZ DAS ESTATÚAS



O levíssimo tule que verte a nudez das estátuas

Detém também uma policromia outra, que se nega

E a geografia das ondas e das águas fulvas

Sem que – reparem – por vezes, o saibamos dizer.

………………………………………………..

Tudo é nada. Apenas a avidez das coisas

Lhes traça o perfil em que se despenham 

E lhes esboça existência – precária forma!

 

Ineptos nossos olhos deslizando

Pela superfície acumulando sinais que tecem

Girandolas fogosas, logo desbotadas ou

Perfidamente sedutoras na voragem

Do instante – néscios que somos

A exibir aparências e a colher o Vazio  

 

Como se veracidade das coisas fosse

A nossa fome delas

 

 

Manuel  Veiga

 

 

quarta-feira, junho 30, 2021

Da Fragrância das Flores


No perfume das flores uma fragrância

Perversa. Uma subtilíssima ocultação, não da cor

Que ruboresce – quando a flor, for!

Nem assim também a corola,

Girandola de cor a arder

Perante o assédio da brisa

E do besoiro sedutor

 

 Nem a nudez das pétalas,

Assim expostas tão ávidas do toque

Que as derrame, flor sem nome

 

A fragrância – flor ainda – é de outra índole

Deleita-se em jogo de faz de conta

E em seu deslizar de nuvem

Arvora seus mistérios

Há quem a diga devassa

Há quem a queira assim louçã

E fagueira...

 

 

Manuel Veiga   

  

 

sexta-feira, junho 18, 2021

PERFUME DE "ROSA-MUNDO"


Derramo meus poemas em gesto largo

De quem semeia. Modesto destino o de nascer entre ervas

Daninhas. Porém, outras palavras-poema trazem no ventre

A gravidez do tempo – ainda que sem Memória.

Nem medida.

 

Mas assim as quero – palavras lascadas

E excessivas. E sem destino certo –

As minhas palavras ditas …

 

Persiste, porém, um poema outro.

De palavras muito nítidas. Cerzidas de seda

E linho. E servidas puras como se fossem as primeiras

Assim despidas Ou a inauguração do universo.

Ou o perfume da Rosa-Mundo.

 

Manuel Veiga

 

quarta-feira, maio 26, 2021

SEM RAZÃO QUEM SE AFADIGA...


Dizem-me ser urgente amor

Mas sem razão quem se afadiga

Em cortar cerce a flor

E a profanar a rosa

De um trago…

 

Entre o amor e o desalinho

Uma gramática de signos mudos

Pela polpa dos dedos decifrados

Que se acendem no percurso dos lábios

Em ardor de seda e lume

 

E ardem. E renascem em espiral

Lume com lume. E os corpos já não corpos

Apenas lume aceso. E o vernáculo

A inscrever o verbo no murmúrio

E na incisão vertical da pele

 Onde em tributo e dádiva os corpos

Se libertam

 

Manuel Veiga

 

sexta-feira, maio 14, 2021

EM LOUVOR DE LYDIA - Favo de Teu Nome

 

Amoráveis os dias, Lydia, assim colhidos

Como pétalas em teu regaço. E o lago de teus olhos

Onde moram os barcos e aportam

Todas as viagens.

 

Deixemos, Lydia, que o tempo se faça solstício

E do momento guardemos a doce espera

E o favo de teu nome. E desfolhemos

Os dedos numa carícia breve

Como se fora a brisa

Sobre a pele.

 

E louvemos os deuses

Que embora néscios sobre nós descem

Na amargura das horas e no cântico

Festivo da tarde…

 

Manuel Veiga

Lydia é criação literária de Ricardo Reis

 

terça-feira, maio 04, 2021

AURORA DOS TEMPOS...


Na subtil vibração das coisas

Onde se desenha o fluxo imaculado

De todas as águas. E os ventos são início

E sopro criador em busca de forma

Que lhes defina o perfil

E lhes conceda substância

E cor. E os nomes determinação

E movimento…

 

E a música apenas

Bruma atonal em trânsito

A acender o fogo

E o frémito dos corpos

 

Nessa inconstância primeva

De afectos. E na incisão do tempo

Sujeito de acasos

 

Revolvo a matriz das coisas perecíveis

E daquelas que são luz e irradiam

E daquelas outras que são raiz

E permanecem.

 

E te digo prenúncio, verso e reverso

E te inauguro femina – cálice e semente! –

E bem te digo guardiã de ritos. Iluminação

E sombra. Murmúrio e grito

E Aurora dos Tempos …

 

Manuel Veiga

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Nota - Contra meu desejo, razões de força maior têm impedido a minha visita e comentários nos blogs da minha estimação. Em breve será reposta a regularidade das visitas, Assim, espero! 

Beijos e Abraços!


domingo, maio 02, 2021

"COMO SE FORAS INVENÇÃO MINHA..."

 




As palavras, meu amor 
São apenas insónia 
Um rumor mudo
E a flor selvagem 
Com que enfeito 
Teus cabelos


Para além delas
E das suas cinzas
Existe uma chama outra 
E esta coisa estranha
De saber-te
Como se foras
Invenção minha

Manuel Veiga

COREOGAFIA DOS SENTIDOS
Edição Modocromia
No Prelo


domingo, abril 25, 2021

ESCULTOR DE PAISAGENS - O TEMPO!


Escultor de paisagens o tempo. E estes rostos,

Onde me revejo. E as mãos, arados.

E os punhos erguidos.

 

Sons de fábricas a martelar silêncios

Perdidas na voragem dos dias

Infecundos. E do lucro

Sem fronteiras.

 

E, no entanto, esta torrente. E esta fonte

Que desce em cascata de palavras

Verbo que se faz carne. E ferve

No peito a latejar

Rubros cravos

E bandeiras.

 

Nada é definitivo quando a rocha

Se abre ao fogo. Nem a memória

É fatuidade de um beijo e

Cantilena de amores

Em retalho…

 

Nem a Revolução um feito

Inacabado. Antes um horizonte aberto

A oferecer-se em cada tempo

Sonho sempre novo

Em cada gesto

Logrado

 

Como um poema sinfónico

Passo a passo a arder por dentro

Uma cadência sem idade.


E este amor desatado!

 

E este aguilhão e este alvoroço

E o rosto magoado deste Povo

A inscrever um tempo novo

Letra a letra

Liberdade.

 

25 Abril Sempre!

 

Manuel Veiga




sexta-feira, abril 23, 2021

SEARA NOVA - 100 anos de Acção e Pensamento Crítico


A Revista SEARA NOVA faz cem anos de existência e publicação regular. As comemorações do centenário têm início no próximo dia 11 de Maio, no Salão Nobre dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Lisboa, com uma Sessão Pública de apresentação do Programa Comemorativo, que terá a participação do Director da Revista, do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e da respectiva Vereadora da Cultura e a presença de representantes da Comissão de Honra, bem como representantes das entidades parceiras da iniciativa (Biblioteca Nacional de Portugal, Museu do  Aljube, Torre do Tombo, Rede de Bibliotecas Públicas, entre outras)-

O primeiro número da revista SEARA NOVA foi publicado no dia 15 de Outubro de 1921. Viviam-se tempos conturbados em Portugal, marcados por enormes desigualdades socais, consideráveis atrasos económicos, baixo nível cultural da população, ausência de valores e de preocupações éticas entre as elites, alastramento da corrupção entre os detentores dos poderes e um regime político de mentira e incompetência.

Os fundadores SEARA NOVA - Aquilino Ribeiro, Augusto Casimiro, Azeredo Perdigão, Câmara Reys, Faria de Vasconcelos, Ferreira de Macedo, Francisco António Correia, Jaime Cortezão, Raul Brandão e Raul Proença - opunham-se ao que designavam de "desastre colectivo" e pugnavam pelos valores da inteligência, da cultura, da ética, da justiça e do progresso.

No primeiro editorial escrevia-se: "A Seara Nova não pode proceder como se uma maior justiça social não fosse possível, como se o socialismo não representasse uma promessa de realização dessa justiça. Todas as suas simpatias vão, pois, para os que lutam, dentro da ordem, dos métodos democráticos e desse espírito de realidades sem o qual são inteiramente ilusórias quaisquer reformas sociais, pelo triunfo do socialismo".

Ao logo do seu centenário, escreveu na SEARA  NOVA e animou as suas páginas uma notável plêiade de ilustres intelectuais, como Adolfo Casais Monteiro, Agostinho da Silva, Alberto Vilaça, Alexandre Cabral, Alves Redol, Armando Castro, Augusto Abelaira, Bento de Jesus Caraça, Blasco Hugo Fernandes, Fernando Lopes Graça, Fernando Namora, Francine Benoît, Francisco Pereira de Moura, Gago Coutinho, Gilberto Lindim Ramos, Hernani Cidade, Irene Lisboa, Rodrigues Miguéis, José Saramago, José Gomes Ferreira, Magalhães Godinho, Magalhães Vilhena, Manuel Mendes, Manuel Machado da Luz, Mário Azevedo Gomes, Mário Sacramento, Mário Sottomayor Cardia, Mário Ventura, Jorge Peixinho, Jorge de Sena, Rogério Fernandes, Rui Grácio, Sarmento de Beires ou Vitorino Nemésio.

A SEARA NOVA foi sempre um espaço de diálogo, de abertura às ideias do progresso, de rigor ético, de investigação e de divulgação cultural, criando esse fenómeno ímpar que se tem designado por “espírito seareiro”. Na Resistência ao fascismo, a revista, mesmo quando gravemente mutilada pela censura, foi um farol democrático e espaço de elevadas polémicas e de valiosas colaborações de toda a intelectualidade progressista. A partir da década de 60 do século XX atingiu mesmo o estatuto de grande revista da Resistência antifascista, mantendo ao mesmo tempo o seu forte pendor cultural. E, neste plano, teve intervenção directa e importante papel em momentos altos da luta democrática e de resistência ao fascismo, como eleições de Humberto Delgado, Congressos da Oposição Democrática de Aveiro ou campanhas eleitorais das CDE.

Depois de um período de redefinição, após a revolução do 25 de Abril de 1974, nos anos 1980, SEARA NOVA renovou o seu projecto de intervenção, apostada nos valores de Abril, ou seja, a plena realização dos valores da democracia, do progresso, da justiça social, da solidariedade e da Paz, sempre inspirada e animada do “espírito seareiro” , cujos princípios e valores continua a perseguir, cem anos passados da sua fundação.

A Comissão Promotora do Centenário integra João Luiz Madeira Lopes, Director da Revista Seara Nova, Luís Andrade,  Director do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa e Coordenador do Conselho Científico das Comemorações, Francisco Zarco, Designer gráfico, Responsável pela Exposição Itinerante e pelo projecto gráfico das Comemorações do Centenário. 

E ainda Maria João Milhano, Hélio Bexiga Viegas, Manuel Veiga, Catarina Pires, membros do actual Conselho Editorial, bem como, Levy Baptista, anterior Director da Revista e Fernando Correia, antigo membro do conselho redactorial.

M.V.



25 de Abril, Sempre!

e venham mais cinco de uma assentada

que não faltará quem pague!... 

domingo, abril 18, 2021

POEMA PARA LYDIA ...

 

Vem, Lydia. No breve declive da tarde

Fiquemos assim abraçados e leves... 

Que nos importa a nós o destino das barcas

Que elas partam ou fiquem?

Sempre o rio terá suas margens

E nós, com ele, permaneceremos

Ainda que as águas passem

E os dias corram…

 

Colhamos, pois, o instante

E os movimentos da brisa

E a embriaguez da espera

E a espuma verde de teus olhos

Em espelho de profundas águas

E suaves ondulações do teu corpo

A espraiarem-se em esplendor

Sobre a relva – como se fôramos

Eterna festa dos sentidos.

 

É certo que o irritante gorjeio dos pássaros

Vem perturbar este silêncio

E o ledo encantamento.

 

Mas não nos amofinemos.

Temos por nós o melro – um Príncipe negro –

De asa ao sol, a soltar seu trinado

E a subverter, desalinhado,

A ordem do cântico. E a desfazer o bando

– O que nós rimos, não foi, Lydia?

 

E apaziguados que reine então

A serenidade de teu rosto assim colhido

Como o Universo todo.

E amemo-nos recatados

Quase puros e eternos.

 

E, quando o arrepio chegar

E a Sombra vier encontrarão

Apenas dois corpos enlaçados

E nós voando, sem glória ou pena,

Sobre a Nuvem.

 

Manuel Veiga

18.04.2021

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Nota - Lydia é uma criação literária de Ricardo Reis, cujo  "universo poético" (?) no que à Lydia importa, tenho, por vezes, o atrevimento de procurar recriar.

Perdoem-me os meus leitores/as mais exigentes e sensíveis.

A NUDEZ DAS ESTATÚAS

O levíssimo tule que verte a nudez das estátuas Detém também uma policromia outra, que se nega E a geografia das ondas e das águas ful...