domingo, novembro 27, 2022

Imperfeições


amor é uma linha recta.

infinita no Espaço-Tempo

onde se jogam todas as formas

imperfeita…

 

ligeirissima curva, porém

pertuba a perfeição

geométrica da linha

por onde o amor

se liberta

e denuncia

e celebra

 

caleidoscópio de cores infinitas

a derremarem-se pelo espaço - sem tempo!

primeirissima

árvore

e

fruto proibido

não pecado

ainda,…

 

Manuel Veiga

26.11.22

 

sábado, novembro 26, 2022

PLANURAS...

 

Planuras

 

acendem se brisas

e amanhecem potros

pradarias

nuas

 

grutas. abruptas

veredas líquidas

planuras

e o tropel

as bocas

 

Manuel Veiga

Coreografia dos Sentidos

Ediçáo Modocromia

quarta-feira, novembro 16, 2022

Dois Poemas Simples

 

1  Emulação de rostos

 

emulação de rostos

e o perfil de máscaras

reflexo de palavras

lúcidas

 e Memória dos espelhos

que resistem.

 

2 - Pagãos e puros


por amor de ti

fuzilei todas as palavras

ficamos indefesos

e livres


e inventamos, então,

a linguagem primordial

dos corpos

Pagãos e puros…

 

Manuel Veigq

“Coreografia dos Sentidos”

Edição Modocromia

 

domingo, novembro 13, 2022

Um Corcel a Latejar no Peito

 

 

Felizes, os dias felizes e os dias de sol

Luminosos como a inocência de uns olhos inocentes

E as amáveis coisas que nos rodeiam

E a delicadeza dos nomes

Que enunciamos

 

E um corcel a bater no peito

 Pronto a soltar-se no inesperado

De uma qualquer esquina perdida

Em fusão de Liberdade…

 

E a dor magoada e os ardentes

Anseios que vinculam e ligam

E religam a consciência dos homens´

Ao devir da Humanidade

 

Manuel Veiga

11.11.22

 


domingo, novembro 06, 2022

O Estado Novo de Fernando Pessoa


 

Sim, o Estado Novo e o povo

ouviu, leu e assistiu

Sim, isto  é um “Estado Novo”

Pois é um estado das coisas

que nunca antes se viu.

 

Em tudo paira a alegria

e, de tão íntima que é,

como Deus na Teologia

ela existe em toda a parte

e em parte alguma se vê---

 

Há estradas, e a grande Estrada

Que a tradição ao porvir

Liga, branca e orçamentada,

E vai de onde ninguém parte

Para onde ninguém quer ir

 

Há portos  e o p porto-maca

Onde vem doente o cais

Sim, mas nunca ali atraca

O  Paquete Portugal

Pois tem calado de mais---

 

Há esquadra...  Só um tolo se cala

Que a inteligência propicia

A achar, sabe que, se fala,

Desde logo encontra a esquadra

É uma esquadra de polícia.

 

Visão grande! Ódio à minúscula

Nem para prová-la tal

tem alguém que ficar triste

Unido Nacional existe

Mas não unido nacional!

 

E o Império? vasto caminho

Onde os que o poder despeja

Conduzirão com carinho

A civilização cristã

Que ninguém sabe ou que seja

 

Com diretrizes à arte

Reata-se a tradição

E juntam-se Apolo e Marte

No Teatro Nacional

Que é onde era a Inquisição

 

E a fé dos nossos maiores?

Forma-a impoluta o consórcio

Entre os padres e os doutores

Casados o Erro e a Fraude

Já não pode haver divórcio-

 

Que a fé seja sempre viva

Porque a Esperança não é vã

A fome corporativa

É derrotismo, Alegria!

Hoje o almoço é amanhã!..

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Escrito em 1935, ano em que o Poeta faleceu

dado à estampa por Jorge Sena no Diário Popular

em Junho de 1974

 

MV

 

quarta-feira, novembro 02, 2022

OUTONAIS OS DIAS...

 

Outonais os dias solarengos

E os corpos deslaçados na miragem

E a cor macilenta dos frutos a caírem

De tão maduros…

 

E o céu cobrir.se de prenúncios

Hesitante entre e chuva e sol toldado

 

Chilreiam pelas ruas bandos de adolescentes

Colhendo, descuidados, fugazes primícias

Seios empinados e rostos afogueados

Ponteados de borbulhas, inflamadas

 

E o poeta, qual gato mimado, guarda

Os restos de Sol e recolhe lembranças e memórias

Que desfiam passo a passo e embriagam

Como se o tempo fosse apenas este néctar

Vertido neste Agora.

 

Manuel Veiga

03.11,2022

quarta-feira, outubro 26, 2022

Para Um Novo Teorema da Física Moderna

 

dizem expeditos cientistas que o leve bater

das asas de uma borboleta à distância

de milhares de quilómetros pode causar

uma catástrofe num ponto indeterminado…

 

esse poder a borboleta desconhece, que solta belíssimos voos

enquanto aqui e a ali, vai beijando umas flores

no seu jardim predileto – sem outro dano

ou propósito….

 

assim o poeta ele fosse – poder soltar os seus versos

e o adejar de seus mistérios e a milhares de quilómetros

pudesse agitar a beleza das palavras e com elas

fundir.se na consumação dos tempos como se fora

um novo teorema da física moderna…

 

Manuel Veiga

26.10. 22

quarta-feira, outubro 19, 2022

Para Uma Nova Geometria


 

Que o Céu desabe e a Terra trema

e, do mar, línguas de fogo, devorem

todos os inocentes…

 

e o sol expluda em poeira cósmica

e o caos reine e seja antemão

de uma nova geometria

e seja vórtice de todas as mudanças…

 

e todas as línguas se confundam

num abecedário sem registo

nem verbos, nem nomes, nem pronome

e sem adjetivos…

 

e minha fome seja o pão negro dos pedintes

e minha sede uma lágrima tua!

 

e então que de meus olhos desça uma rosa vermelha

e um poema de cristal

para enfeitar  teus seios…

 

Manuel Veiga

19.10.22

 

 

segunda-feira, outubro 17, 2022

NEM REINO NEM GLÓRIA


 

Nem Reino nem Glória

Apenas os sapatos gastos e a poeira

Dos caminhos. E uma reluzente pedrinha

A brilhar por entre os dedos …

Valiosa

 

O salgueiro, como sempre, ali permanece

A oferecer sua sombra. E o rio

Agora seco nas cascatas

da memória.

E o freixo, E o canto do melro

A agitar.se em cio.

E também a menina da A, de Campos

Às portas da Tabacaria

(a comer chocolates, está claro)

 

E a inamovível pedra em que me sento!

Que me importa a mim a verdade

E a mentira! passa, tudo passa...


Apenas uma reluzente pedra me interessa

Passando de mão em mão

E a gargalhada dos deuses

E a última jogada! …

 

Manuel Veiga

22.06-22

 

quinta-feira, outubro 13, 2022

CALIGRAFIA ÍNTIMA

 

Ho pórtico da palavra onde - marés vivas

todos os sentidos se dizem e se desfazem

e todos os náufragos se rimam

e todos se revestem de alegrias frustes

 

Nesse lugar de imponderáveis e de riscos

 e de de~matrz de água e incêndios alvoroçados

devolvo ao mar - que tudo devora

um náufrago nome infrene

e lhe ofereço todos os salvados

e todos os “noturnos despojos”

e todas as miragens

 

E todas as palavras mortas

e todas as palavras ainda por dizer

 

e  numa caligrafia íntima - minha flor de sal –

deixo que o próprio sol

se derrame à flor da  flor da pele- quer dizer breve – caricia breve!

e bálsamo seja. e limpe

e arda

 

Fogo fátuo é iluminar por dentro

os dias do porvir…

 

Manuel Veiga

in CALIGRAFIA ÍNTIMA

edição Poética  2017

Imperfeições

o  amor é uma linha recta. infinita no Espaço-Tempo onde se jogam todas as formas imperfeita…   ligeirissima curva, porém pertub...