sábado, julho 04, 2020

PAGÃOS E PUROS ...


Por tua ordem
Fuzilei todas as palavras
E ficámos nus e mudos…

E reinventámos-nos
Na linguagem primordial
Dos corpos

Pagãos e puros…


Manuel Veiga


quinta-feira, julho 02, 2020

ABSOLUTA PALAVRA ...


A Hora é esta assim
Escassa. A morder a orla
Do sonho

A anunciar-se
Devassa. Sede e água
A transbordar

E a proclamar-se
Desmedida. E a profanar-se
Em dádiva.

E a resguardar-se
Profana. E absoluta
Palavra.

Manuel Veiga


segunda-feira, junho 29, 2020

A TRAVESSIA É MAIS ALÉM


São de pedra os caminhos de Damasco
E de pedra são as rotas e as distâncias.
E é de areia o rosto das miragens
E são de fel os dias. E de amargura
A água dos rochedos.

São de pedra os trilhos.
E as bocas são a arder
Insónia de serpentes
E labaredas negras…

Soberbos, porém, os dias
Assim cativos de pedras
E de medos...

(E uma flor vermelha
A derramar-se na brisa
Ígnea!...)

Manuel Veiga

in Perfil dos Dias – Edição Modocromia



sexta-feira, junho 26, 2020

UMA LEGENDA APENAS


Na galeria dos retratos, uma legenda apenas:
“Trespassam-se todas as memórias – por atacado …”
E o eco delas. E as portas trancadas.
E as paredes nuas…

Cá dentro, apenas os restos de uma fogueira
Que ainda arde!... Onde se imola
O cântico. E se renova
Por vezes aziago
Outras louvado...

……………………………………………………………
Patético “o Anjo da História”
Afadiga-se, lá fora, buscando
Parar o vento que tudo
Varre...


Manuel Veiga



terça-feira, junho 23, 2020

AGUARELA MATINAL ...


Murmúrio de poema
Sobre a pétala orvalhada
Pequena gota a explodir na tela
E na pálpebra

E o frémito da boca
Pequena lágrima
Que tomba
E se derrete
Aguarela
E sal
E mel

Em cada sílaba
Sibilada …

Manuel Veiga


sexta-feira, junho 19, 2020

PERFÍDIA(S)...


1.
Revolvem-se
As bocas
E as línguas
De tão líquidas
Voam.

2.
Frémito dos lábios
Perfídia dos deuses
A celebrarem o fogo
E a ausência
Dos corpos…


Manuel Veiga


terça-feira, junho 16, 2020

GOTA e DANÇA ...


 Ínfima a erguer-se
Do nada. Densa.
A prometer-se
Gota.
e
Dança

Mínima
Agita-se. E explode
Brevíssima

Poeira que renasce
Verso e reverso
Em sua forma
Alada.

Antagónica
E múltipla

Flor sem tempo
Agora. A erguer-se
Máxima.


Manuel Veiga



sábado, junho 13, 2020

UMA GRANDE FARRA!...



Uma sardinha, muito fresquinha, com a barbatana a puxar-lhe para a brasa:
- “Saltamos? P´ra grelha, saltamos?...”

E o chicharro fora de prazo, mais mole que um manjerico murcho, porém muito enfatuado, mui cauto e mui sábio: - “Não confio na tua máscara. Só se fores enlatada…”

E riu muito. O alarve…

Um vírus, que por ali passava, já chateado com tanta pandemia, saltou então para a espinha da sardinha. E comeu-a!...

E chamou-lhe “Lampreia”!... E quem acabou por ficar confinado foi ele, aquele vírus danado…

Santo António, que andava por ali desempregado, achou muita graça à estória e … casou-os! Ao vírus com à sardinha, agora promovida a Lampreia!...

- “Milagre!Milagre!... - gritou  a maralha, no meio da praça, sem ponta de turista estrangeiro…

Enfim, uma grande Farra! …

Manuel Veiga



quarta-feira, junho 10, 2020

O FRÉMITO. E O LÁBIO...


O poema é pura forma
Abstracta melodia
Delírio da cor
A derramar-se
Na tela nua

Em verdade
O poema está noutro lado
Límpido cristal
A macular-se
Licor e vinho
E a fermentar
O frémito
E o lábio

Vermelho-vivo
A inaugurar-se beijo
E a derreter-se
Mel e favo…

Manuel Veiga

terça-feira, junho 09, 2020

A CARTA QUE NUNCA TE ESCREVEREI - Take 26


Manuel Maria, sentia-se um tanto perdido no emaranhado de linhas, novelo de escrita do qual emerge como escritor, procurando dar coerência ao fluxo de emoções várias e sentimentos díspares, cerzidos uns e outros apenas pelas pontas e em risco de, em frágil equilíbrio, desabarem, qual funambulista que, na corda bamba, lança ao ar bolas ou argolas e que a mínima distração ou gesto mal medido pode deitar tudo a perder e fazer ruir todo o edifício de fantasia e arte, assim Manuel Maria, neste  tempo na narrativa, a segurar o fio das suas emoções, procurando colocar ordem nos seus pensamentos, bem sabendo que, da obsidiante pergunta sobre o que fazia ali a Cléo, mais cedo que tarde conhecerá a resposta.

Porém, outros fios, veredas e caminhos se atravancam e percorrem a recriação da sua vida,  invisíveis filamentos que moldam a matriz, memórias que ardem, perguntas acesas para as quais ainda não tem resposta, como, por exemplo, o que fazia ali, já não a Cléo, mas o que faz ali Flávia, apenas prenúncio de personagem que, em um tempo outro, irá marcar, qual incisão no corpo mártir da escrita, que tudo aguenta, o território da sua expressividade, quiçá a cúpula do edifício tão laboriosamente encenado, assim os desígnios da narrativa, que sem rebuço se diz literária, se cumpram e o escritor Manuel Maria tenha engenho e arte para, “levar a Garcia”, a Carta Que Nunca Escreverá.

Mas, antes, porém, as dores da escrita o levarão a outras paragens e a outros recantos da memória, donde salta, de vez em quando, a chispa de entendimento das coisas e dos afectos, bem se sabendo que, por muitos que sejam os rodeios e evocações, é a matriz e o barro, de que cada um é feito, que servem de aguilhão e, agora, neste tempo narrado, Manuel Maria a retirar da penumbra, em seu jogo de espectros, o escritor e as suas angústias existenciais e inseguranças, já não em saber-se como se escreve um romance ou se ergue uma personagem, pois que, na sujeição da escrita, como em qualquer realização humana, bastará erguer a espada e espada faz-se, mas ir bem mais fundo e interrogar-se como, no grande livro da vida, se constrói um homem, seja em Literatura, seja na Vida, pois, em rigor, não se sabe se é a Literatura que imita a Vida, ou se, mais exactamente, será a Vida a imitar a Literatura.


Manuel Veiga

segunda-feira, junho 08, 2020

UM CIBO DE NÓS - Odete Costa Ferreira


 DA INCERTEZA

3.
“No ócio das horas, que pulsam lá fora,
Singra a irresponsabilidade
Pelo alheamento das vidas comuns
E morre a carne do poema.
Inglória morte, descuidados dedos
Que não escreveram, no tempo certo,
As palavras necessárias,
Ocupados no lirismo dos versos
E a carne foi inutilidade.
E a invocação das águas é maldição
Quando nelas se morre de todas as sedes,
A da dignidade, antes de tudo.
E a do intelecto, quando este se fecha
Na concha dos iluminados.

Que fez o homem às tochas
Que ardiam nas praças do pensamento livre?

Convoquemos as ágoras para que os versos líricos
 Estremeçam, por inteiro, o espírito dos homens.”

Odete Costa Ferreira

In “UM CIBO DE NÓS” – Pág. 95
Mosaico das Palavras – Editora
Fevereiro 2020

…………………………………………………..
(…) Não é, por certo, uma resposta militante, mas é, certamente, a assunção de uma cidadania e do cumprimento de si. Percebe-se a intenção, sente-se a maturação e, sobretudo, (apanágio da Palavra de Odete Costa Ferreira) a ideia de que a Palavra só será sólida, plena e integra se nascer da Verdade, da Autenticidade e de uma espera vigilante (…)

Conceição Lima – in Prefácio

Parabéns, Odete Costa Ferreira
Minha Querida Amiga
e Distinta Poetisa ... 

PAGÃOS E PUROS ...

Por tua ordem Fuzilei todas as palavras E ficámos nus e mudos… E reinventámos-nos Na linguagem primordial Dos corpos Pagãos...