terça-feira, junho 19, 2018

ANTI COCEIRA - Cenas De Uma Peça Burlesca ...



1ª Cena: A Dama, o Cão, o Cego... e a coceira do Cego

Um cego lazarento e empertigado, coçando-se:

Maldito cão, que está cheio de pulgas – vou mudar de cão!”…

A Dama, abrindo a caixa das esmolas. Vazia…

“Vou mudar de vida – estou farta de ser bordão de cego sem “guito”! …

O Cão, alçando a perna e “marcando o território” nas calças do cego:

“ Vou mudar de patrão – este cego não vê um palmo à frente do nariz! …”

E uma pulga, sabida, saltando do cego para o pêlo do cão:

“Vou mudar de poiso – este cego está acabado!...”

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2ª Cena: A esquina da praça, o mesmo cego e um poeta cínico

O cego em sua ladainha, na esquina da praça, estendendo a mão:

Uma moedinha, uma moedinha, dê uma moedinha, por favor!...”

Os transeuntes não ligam – apressados!
E um poeta vagamente cínico, em maré de generosidade, coloca na mão do cego 10 cêntimos:

“Toma lá e vai-te coçar! É para mandares cantar um cego!...”

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Manuel Veiga

sábado, junho 16, 2018

Todos os Rios São a Mesma Sede



Para a minha amiga Suzete Brainer
distinta Poetisa brasileira

(Evocando o seu recente Poema "Sem Palavras")


São os deuses traiçoeiros em seu delírio
E das pátrias decidem as bandeiras
Como destino dos homens.

Em cada dor, porém, uma tempestade
E um rasgo de mãos acesas
Sem fronteiras.

Nada do que é humano respira sozinho
E os Povos não reconhecem oceanos
E todos os rios são a mesma sede
E crestados lábios.

E todas as fomes se somam
E todas as angústias são látego colectivo.

E em cada luta há sempre um afago indefinido
E em cada muro um grito subterrâneo
Que explode em cada gesto
De dizê-lo.

Nada os deuses nos devem
Mas são os homens que se inventam
Em cada dádiva de amor rebelde
E liberdade

E quando um Povo sofre (ou se liberta)
É toda a Humanidade!…

Manuel Veiga