Relógio de Pêndulo
quinta-feira, abril 02, 2026
terça-feira, março 31, 2026
URGENCIA DOS CORPOS
Amantíssima a noite e seus longos dedos
A urdir o espaço e
o tempo na urgência dos corpos
Gramática de um
canto novo. E da secreta língua
A arder no palato
das palavras
Em que te digo Mulher
– amante, amiga
E te desbravo. E moldo
Como se foras criação
minha …
Fermentação de
mostos
A transbordar. E a
inundar a boca
E a colher o gosto...
............................................
Já não poeta. Poema
Apenas.
Manuel Veiga
sábado, março 07, 2026
FLOR SINGULAR
Na
usura dos dias, uma flor singular
E a inclemência do sol …
Fevor
de espinhos e murmúrios
De
pétalas a abrirem-se em apogeu
De
luz branca que apenas
O coração percebe…
Então
resguarda-se. E desdobra-se
Em mistério.Crisálida de fogo e cristal
A que se nega.
E se agita fecunda - flor sem nome.
Que se proclama Mulher
Em
majestade
Agua e febre!…
Manuel Veiga
terça-feira, fevereiro 03, 2026
Um Dia Irei Inventar Um Rio
Um dia irei inventar um rio
E
derramar pétalas na boca de todos os amantes.
E
então todas as margens serão
Registo de meus passos
E
todas as águas salivas buliçosas:
Espuma
dos dias e sinfónicos cânticos
A
ecoarem no palato
E
nas línguas…
E
serei um archote de lume
Em
cada praça. E em cada esquina
Uma
memória altiva.
E
cada lago uma fonte.
E
cada terreiro será grito
De
um pregão.
E
todos os nomes serão o mesmo nome.
E
todas as pontes a passagem
De
meu corpo.
E
serei piano na escala
De
teus dedos. E vadio fado no abismo
De
teus olhos..
Manuel Veiga
terça-feira, janeiro 13, 2026
TODOS OS RIOS SÃO A MESMA SEDE
São os deuses traiçoeiros em seu delírio
E as pátrias decidem as bandeiras
Como destino dos homens.Em cada dor, porém, uma tempestade
E um rasgo de mãos acesas
Sem fronteiras.
Nada do que é humano respira sozinho
E os Povos não reconhecem oceanos, nem fronteiras
E todos os rios são a mesma sede
E crestados lábios.
E todas as fomes se somam
E todas as angústias são látego coletivo
E em cada luta há sempre um afago indefinido
E em cada muro um grito subterrâneo
Que explode em cada gesto
De dizê-lo.
Nada os deuses nos devem
São os homens que se inventam
Em cada dádiva de amor rebelde
E liberdade…
E quando um Povo sofre (ou se liberta)
É toda a Humanidade!…
Manuel Veiga
sexta-feira, dezembro 12, 2025
Noticias de Inverno
Escrevo poemas imaginários
(que
jamais serão escritos)
e
te envio numa gota de chuva
neste
inverno de melancolia
sei
que vais beber esta água
delicadamente
como
se fora um raio de sol que se alonga
em
tua pele macia e nua…
e
todos os jardins da cidade
fossem
habitados por faunos e ninfas
numa
dança pagã
e
pura…
Manuel Veiga
quinta-feira, dezembro 04, 2025
CADA DIA ... CADA LETRA...
cada dia, meu
poema
e cada letra a
transfiguração
de meus passos.
devoção de teu nome
murmúrio de água
e
néctar
no íntimo
da flor…
Manuel Veiga
domingo, novembro 09, 2025
NEM UM SUSPIRO
Nada. Nem um suspiro. Nem um
bulício.
Apenas o leve adejar do Sonho.
A espraiar-se em azul-turquesa.
E aquela ilha!... Ao longe.
Secreto coração do Mundo
Em toda a parte…
Batendo em alvoroço
De lume...
Manuel Veiga
segunda-feira, outubro 20, 2025
Desfazer da Tenda....
Desfaz a Tenda dos Milagres, poeta!
Pois a ti te bastam os ecos
E o topo das montanhas
Que são vertigem…
E afasta este azul nítido
Tão líquido azul que magoa. E se perde
Lá ao fundo…
E cala o sonho do sonho
E a asa. E o golpe que por vezes assoma –
Verso que desponta no reverso
E inebria…
E cala também o beijo dos amantes.
E os dias de verão e
Bem assim o inverno…
Que este vinho antigo
E este lastro. E este perfume decantado~
E esta gravitas
São já tanto!...
Manuel Veiga
quinta-feira, outubro 09, 2025
Passadeira Vermelha
no grande livro da vida
onde se inscrevem os milagres e todos
os feitos. E as insígnias do sangue e
o leite materno…
e a memória dos dias faustos
e de todos aqueles que são
e aqueles outros
que hão-de vir
nasceu uma criança!
e a acolheste em teu regaço a ungiste e
quiseste que o poeta
a amasse como se fora
dádiva tua…
e na lonjura de todas as impossibilidades
e
na majestade de todos os gestos o poeta
estendeu então uma passadeira vermelha à altivez gloriosa de teus passos e
devolveu teu gesto e essa inocência frágil
e
delicada envolta em palavras néscias
a que acrescenta agora
uma bênção pagã
e minha desmesura …
Manuel Veiga
sexta-feira, outubro 03, 2025
Pretérito Imperfeito
No
roteiro de teus passos e no fervor
Dos
laços me entardeço. E me derramo
E
me desfaço. E (bem) te digo
Seda
fina e xaile antigo
Debruado
no frémito
Dos
lábios…
E
me inflamo poeta predilecto
E
néscio, sou borbulhar de mostos
E
bailado.
E
movimento perpétuo.
E
a caligrafia dos gestos.
E
da lucidez me reclamo. E te proclamo.
Música
atonal. Flor tão breve e um poema
Alvoroçado.
Infinito-Presente.
E
pretérito imperfeito
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Magnânimo o freixo e sua sombra E os braços erguidos, em oração muda. Magnânima a margem das ribeiras E as cascatas no silêncio das montanha...
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Escrevo poemas imaginários (que jamais serão escritos) e te envio numa gota de chuva neste inverno de melancolia sei que vais ...