terça-feira, maio 04, 2021

AURORA DOS TEMPOS...


Na subtil vibração das coisas

Onde se desenha o fluxo imaculado

De todas as águas. E os ventos são início

E sopro criador em busca de forma

Que lhes defina o perfil

E lhes conceda substância

E cor. E os nomes determinação

E movimento…

 

E a música apenas

Bruma atonal em trânsito

A acender o fogo

E o frémito dos corpos

 

Nessa inconstância primeva

De afectos. E na incisão do tempo

Sujeito de acasos

 

Revolvo a matriz das coisas perecíveis

E daquelas que são luz e irradiam

E daquelas outras que são raiz

E permanecem.

 

E te digo prenúncio, verso e reverso

E te inauguro femina – cálice e semente! –

E bem te digo guardiã de ritos. Iluminação

E sombra. Murmúrio e grito

E Aurora dos Tempos …

 

Manuel Veiga

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Nota - Contra meu desejo, razões de força maior têm impedido a minha visita e comentários nos blogs da minha estimação. Em breve será reposta a regularidade das visitas, Assim, espero! 

Beijos e Abraços!


domingo, maio 02, 2021

"COMO SE FORAS INVENÇÃO MINHA..."

 




As palavras, meu amor 
São apenas insónia 
Um rumor mudo
E a flor selvagem 
Com que enfeito 
Teus cabelos


Para além delas
E das suas cinzas
Existe uma chama outra 
E esta coisa estranha
De saber-te
Como se foras
Invenção minha

Manuel Veiga

COREOGAFIA DOS SENTIDOS
Edição Modocromia
No Prelo


domingo, abril 25, 2021

ESCULTOR DE PAISAGENS - O TEMPO!


Escultor de paisagens o tempo. E estes rostos,

Onde me revejo. E as mãos, arados.

E os punhos erguidos.

 

Sons de fábricas a martelar silêncios

Perdidas na voragem dos dias

Infecundos. E do lucro

Sem fronteiras.

 

E, no entanto, esta torrente. E esta fonte

Que desce em cascata de palavras

Verbo que se faz carne. E ferve

No peito a latejar

Rubros cravos

E bandeiras.

 

Nada é definitivo quando a rocha

Se abre ao fogo. Nem a memória

É fatuidade de um beijo e

Cantilena de amores

Em retalho…

 

Nem a Revolução um feito

Inacabado. Antes um horizonte aberto

A oferecer-se em cada tempo

Sonho sempre novo

Em cada gesto

Logrado

 

Como um poema sinfónico

Passo a passo a arder por dentro

Uma cadência sem idade.


E este amor desatado!

 

E este aguilhão e este alvoroço

E o rosto magoado deste Povo

A inscrever um tempo novo

Letra a letra

Liberdade.

 

25 Abril Sempre!

 

Manuel Veiga




sexta-feira, abril 23, 2021

SEARA NOVA - 100 anos de Acção e Pensamento Crítico


A Revista SEARA NOVA faz cem anos de existência e publicação regular. As comemorações do centenário têm início no próximo dia 11 de Maio, no Salão Nobre dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Lisboa, com uma Sessão Pública de apresentação do Programa Comemorativo, que terá a participação do Director da Revista, do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e da respectiva Vereadora da Cultura e a presença de representantes da Comissão de Honra, bem como representantes das entidades parceiras da iniciativa (Biblioteca Nacional de Portugal, Museu do  Aljube, Torre do Tombo, Rede de Bibliotecas Públicas, entre outras)-

O primeiro número da revista SEARA NOVA foi publicado no dia 15 de Outubro de 1921. Viviam-se tempos conturbados em Portugal, marcados por enormes desigualdades socais, consideráveis atrasos económicos, baixo nível cultural da população, ausência de valores e de preocupações éticas entre as elites, alastramento da corrupção entre os detentores dos poderes e um regime político de mentira e incompetência.

Os fundadores SEARA NOVA - Aquilino Ribeiro, Augusto Casimiro, Azeredo Perdigão, Câmara Reys, Faria de Vasconcelos, Ferreira de Macedo, Francisco António Correia, Jaime Cortezão, Raul Brandão e Raul Proença - opunham-se ao que designavam de "desastre colectivo" e pugnavam pelos valores da inteligência, da cultura, da ética, da justiça e do progresso.

No primeiro editorial escrevia-se: "A Seara Nova não pode proceder como se uma maior justiça social não fosse possível, como se o socialismo não representasse uma promessa de realização dessa justiça. Todas as suas simpatias vão, pois, para os que lutam, dentro da ordem, dos métodos democráticos e desse espírito de realidades sem o qual são inteiramente ilusórias quaisquer reformas sociais, pelo triunfo do socialismo".

Ao logo do seu centenário, escreveu na SEARA  NOVA e animou as suas páginas uma notável plêiade de ilustres intelectuais, como Adolfo Casais Monteiro, Agostinho da Silva, Alberto Vilaça, Alexandre Cabral, Alves Redol, Armando Castro, Augusto Abelaira, Bento de Jesus Caraça, Blasco Hugo Fernandes, Fernando Lopes Graça, Fernando Namora, Francine Benoît, Francisco Pereira de Moura, Gago Coutinho, Gilberto Lindim Ramos, Hernani Cidade, Irene Lisboa, Rodrigues Miguéis, José Saramago, José Gomes Ferreira, Magalhães Godinho, Magalhães Vilhena, Manuel Mendes, Manuel Machado da Luz, Mário Azevedo Gomes, Mário Sacramento, Mário Sottomayor Cardia, Mário Ventura, Jorge Peixinho, Jorge de Sena, Rogério Fernandes, Rui Grácio, Sarmento de Beires ou Vitorino Nemésio.

A SEARA NOVA foi sempre um espaço de diálogo, de abertura às ideias do progresso, de rigor ético, de investigação e de divulgação cultural, criando esse fenómeno ímpar que se tem designado por “espírito seareiro”. Na Resistência ao fascismo, a revista, mesmo quando gravemente mutilada pela censura, foi um farol democrático e espaço de elevadas polémicas e de valiosas colaborações de toda a intelectualidade progressista. A partir da década de 60 do século XX atingiu mesmo o estatuto de grande revista da Resistência antifascista, mantendo ao mesmo tempo o seu forte pendor cultural. E, neste plano, teve intervenção directa e importante papel em momentos altos da luta democrática e de resistência ao fascismo, como eleições de Humberto Delgado, Congressos da Oposição Democrática de Aveiro ou campanhas eleitorais das CDE.

Depois de um período de redefinição, após a revolução do 25 de Abril de 1974, nos anos 1980, SEARA NOVA renovou o seu projecto de intervenção, apostada nos valores de Abril, ou seja, a plena realização dos valores da democracia, do progresso, da justiça social, da solidariedade e da Paz, sempre inspirada e animada do “espírito seareiro” , cujos princípios e valores continua a perseguir, cem anos passados da sua fundação.

A Comissão Promotora do Centenário integra João Luiz Madeira Lopes, Director da Revista Seara Nova, Luís Andrade,  Director do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa e Coordenador do Conselho Científico das Comemorações, Francisco Zarco, Designer gráfico, Responsável pela Exposição Itinerante e pelo projecto gráfico das Comemorações do Centenário. 

E ainda Maria João Milhano, Hélio Bexiga Viegas, Manuel Veiga, Catarina Pires, membros do actual Conselho Editorial, bem como, Levy Baptista, anterior Director da Revista e Fernando Correia, antigo membro do conselho redactorial.

M.V.



25 de Abril, Sempre!

e venham mais cinco de uma assentada

que não faltará quem pague!... 

domingo, abril 18, 2021

POEMA PARA LYDIA ...

 

Vem, Lydia. No breve declive da tarde

Fiquemos assim abraçados e leves... 

Que nos importa a nós o destino das barcas

Que elas partam ou fiquem?

Sempre o rio terá suas margens

E nós, com ele, permaneceremos

Ainda que as águas passem

E os dias corram…

 

Colhamos, pois, o instante

E os movimentos da brisa

E a embriaguez da espera

E a espuma verde de teus olhos

Em espelho de profundas águas

E suaves ondulações do teu corpo

A espraiarem-se em esplendor

Sobre a relva – como se fôramos

Eterna festa dos sentidos.

 

É certo que o irritante gorjeio dos pássaros

Vem perturbar este silêncio

E o ledo encantamento.

 

Mas não nos amofinemos.

Temos por nós o melro – um Príncipe negro –

De asa ao sol, a soltar seu trinado

E a subverter, desalinhado,

A ordem do cântico. E a desfazer o bando

– O que nós rimos, não foi, Lydia?

 

E apaziguados que reine então

A serenidade de teu rosto assim colhido

Como o Universo todo.

E amemo-nos recatados

Quase puros e eternos.

 

E, quando o arrepio chegar

E a Sombra vier encontrarão

Apenas dois corpos enlaçados

E nós voando, sem glória ou pena,

Sobre a Nuvem.

 

Manuel Veiga

18.04.2021

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Nota - Lydia é uma criação literária de Ricardo Reis, cujo  "universo poético" (?) no que à Lydia importa, tenho, por vezes, o atrevimento de procurar recriar.

Perdoem-me os meus leitores/as mais exigentes e sensíveis.

terça-feira, abril 13, 2021

DESTILAÇÕES

 

 

Destilo meus detritos – os livros

Que não li, as viagens que ficaram,

Os amores que não colhi …

 

E a esse magma em ebulição

Adiciono uma pitada de minhas dores

E quedo-me no crepitar

Das chamas…

 

E, então, neste alambique de horas gastas

Soletro ainda o perfume

 

Que incendeia. E o alvoroço

Da lágrima

 

A desprender, gota a gota,

Como se fora lágrima verdadeira

 

Manuel Veiga

 

 

segunda-feira, abril 05, 2021

POEMA DE AMOR, DE ABRIL ...

 

Visto-te de vermelho

E em nudez alva te lavro

Seara e gleba

Te desbravo

E te digo

 

E sou brado

E sou arado

E tu és grito

E eu sou bardo

 

E sou também marinheiro

Corpo do povo inteiro

E tu és raiz.

 

E uma canção intemporal

Terra sem amos se quis

E poemas mais de mil

E espingardas

A florir

 

E essa coisa de novo

De vermos soldados e Povo

A gritar do mesmo lado:

A terra a quem a trabalha

 

E agora aqui chegados

Há um vermelho que resiste

Com que incito teu ardor

Eu sou caule, tu a flor

E em abraços nos damos

Em fulgor de liberdade

Trazendo novas à cidade

Dos sonhos enfim perdidos

 

Que continuam a florir

Enquanto alguém quiser

Em poema de amor, de Abril

Tu toada e eu verso fa(e)bril

Reinventar o mês de Maio

E a força do Trabalho

 

Tu a forja e eu o malho!

 

Manuel Veiga

 


sábado, março 27, 2021

COMO SE FORAS...

 


Antes do magma. Nesse eterno lugar,

Mero enunciado das coisas

E todos os nomes.


Nessa órfica placenta, onde 

Se desenham todos os rostos

E a linha das mãos é arbítrio

E precoce carícia...


E todas as coisas fluem

Em sua mútua simpatia

E singular gesto de se enunciarem 


Nesse mundo orquestrado

Na usura de absolutos silêncios

E ignotos territórios ...


No infinito-presente

De todas as singularidades 

Ergues-te do barro e te sublimas

E explodem, então, todas as cores

E se fecundam solares

Todos prenúncios


E te digo Sibila. E te nomeio depuradora

De essências, em mar de miasmas…

Como se foras, mais que fantasia, poema.


E amorosa invenção minha.


Manuel Veiga 


domingo, março 21, 2021

Paisagem Corpo De Mulher...

 

Inebriantes a oculta linguagem dos lugares

E as pequenas coisas que iluminam

As veredas. E o polifónico canto

Que se liberta do regato

E o raio de sol preso

Em timbres de luz

E sombra...

 

A paisagem é corpo de mulher. Derramado

E em impudicícia exposto. Vale fendido e fermentação.

Passagem íntima de águas subterrâneas

Em circuito de sémen. E bálsamo.

Na íntima fusão da água

E a pele sedenta...

 

Ou talvez seja apenas o frágil vime

Desdobrando-se na cálida solicitude da brisa -

Mulher ainda no fulgor doirado abelhas

E dos insectos no remansoso

Cair da tarde...

 

Ou o mergulho de crianças leves. E breves.

Em pagã floração da vida.

 

Ou talvez seja a toalha alva agora.

Por onde tomba a palavra solta.

E se aninha - como migalha inesperada!...  

O sortilégio dos nomes. E se imiscui sem cuidados

O perfume raro em que nos damos…

 

Manuel Veiga

(Poema editado)





domingo, março 14, 2021

AS CORES DO POEMA

 

Leve fissura apenas. Milimétrica

Tensão da espera

A corroer por dentro

Sem plano

Ou guia...

 

Apenas deslizar de água

Sobre pedra. E a alquimia do verso

E o incauto morfema

E a inquietação do poeta

A engendrar as cores

Do poema.

 

E a dissolver a água

E a pedra nas dores

E alegrias da hora.

 

E na escrita maior

Do Mundo!...

 

Manuel Veiga

in "Coreografia dos Sentidos"

Edição Modocromia - no  Prelo