sexta-feira, janeiro 14, 2022

Passadeira Vermelha

 

No Grande Livro do Tempo

Onde se inscrevem os milagres e todos

Os feitos. E as insígnias do sangue e

Do leite materno

 

E a memória dos dias faustos

E de todos aqueles que são e aqueles outros

Que hão-de vir

 

Nasceu uma estrela

E a acolheste em teu regaço e a ungiste

E a embalas em teus braços

E quiseste que eu a visse e amasse

Como se fosse “cousa” nossa

 

Que devolvo agora embrulhada

Em palavras néscias

A que acrescento

Minha bênção

 

Como se fora estrela minha.

 

Manuel Veiga

sábado, janeiro 08, 2022

PELA MARGEM DO TEMPO

 

Na lisa permanência do tempo ressaltam

De quando em quando, pequeníssimos fragmentos

Algumas frações mínimas – um relance de um rosto

Que se abre à nossa passagem e que saído da multidão

Parece querer abraçar-nos – ou uma outra notícia sem memória

Caída do cesto das notícias espessas

O do comentário erudito que nos emociona.

Ou, então sobra sempre o poema que um dia

Havemos de escrever e nunca mais vêm à claridade.

E, no entanto, haverá talvez uma mão clandestina

E uns centímetros aveludados da pele nua – uma carícia

Que fica tatuada na polpa dos dedos.

 

Porventura, um amor irreal coberto de palavras

Inventadas, onde o fogo abrasa e os dias  

Cristalizam em pequenas doses de tempo

Fluido – entre a quimera e a dor mordente –

Uma fina dor a desaguar na avalanche da vida

Onde se joga o “homo faber” e se perde a liberdade

Nas minudências festivas e no fervor das grilhetas---

 

Assim caminhamos, frágeis e vulneráveis

Por entre a multidão que nos é estranha

Apressados e sem tempo, que o tempo alienamos

E dele colhemos apenas a margem e a miragem

Presos uns aos outros pelos longos dedos da solidão

 

 

Manuel Veiga

08.01.2022

sexta-feira, janeiro 07, 2022

DEPURAÇÕES

 Antes do magma. Nesse eterno lugar

Tempo sem tempo. Mero enunciado das coisas
E todos os nomes.

 

Nessa órfica placenta

Onde se desenham todos os rostos

E a linha das mãos é arbítrio

E precoce carícia

 

E todas as coisas fluem
Em sua mútua simpatia

E singular gesto de se enunciarem

 

Nesse mundo orquestrado

Na usura de absolutos silêncios

E ignotos territórios

 

E no infinito-tempo

De todas as singularidades

Ergues-te do barro e te sublimas

E explodem, então, todas as cores

E se fecundam solares

Todos prenúncios

 

E te digo Sibila. E te nomeio depuradora

De essências, em mar de miasmas…

Como se foras, mais que delírio, poema.

E invenção minha.

 

Manuel Veiga

In Coreografia dos Sentidos

Edição MODOCROMI

quarta-feira, janeiro 05, 2022

A Carta Que Nunca Te Escreverei

 

Desejoso por chegar e, finalmente, conhecer as razões de tanta urgência na sua chamada à Casa Grande e, depois, de resolvidos os assuntos a que era solicitado, regressar a Lisboa, para ficar ao serviço da Revolução, onde melhor a pudesse servir.

Em passo acelerado, atravessou a sala de espera e as bilheteiras, saiu da Estação dos Caminhos de Ferro, e dirigia-se para velho autocarro que, finalmente, o levaria à Casa Grande, quando se dá conta do reluzente Ford V8 com o chauffer, numa das mãos o boné e, numa vénia como está o menino, faça o favor de entrar, mantendo a porta da retaguarda do automóvel teimosamente aberta.

Manuel Maria pasmava! O automóvel estava ao serviço exclusivo da Federico Amásio, Senhor da Casa Grande, que aliás raras vezes usava, preferindo a volúpia de um bom galope a cavalo. O vistoso automóvel era apenas um luxo, um “sinal exterior de riqueza” e ostentação de poder. Estranhava, pois, Manuel Maria e, mesmo antes de perguntar pelas duas mulheres, que ambas o amavam, como ambas sua mãe fossem, interrogou com o olhar o condutor, e como se para si próprio falasse, que significa isto?...

Vamos, não há tempo a perder… respondeu o velho motorista tenho ordens para o levar diretamente à Igreja…

 À Igreja? Era o que me faltava! Mas que diabo vou eu fazer à Igreja, inquiriu Manuel Maria divertido, pois. não deixava de ter graça, que antes de pisar chão de Terras do Demo, fosse levado à Igreja para uma desinfeção espiritual, ironizou Manuel Maria numa gargalhada íntima, bem sabendo nós, das suas fantasias e inesperados humores, com que adorna os traços do seu carácter, um pouco melancólico.

Havia um certo perfume de mistério no nascimento de Manuel Maria, que veio ao mundo, na Casa Grande, mediante uma gravidez, um tanto surpreendente, da azougada Violante. criada, dama de companhia e amiga, que a Camilinha, a fidalga-esposa, trouxera, com o enxoval, de casa de seus Pais, para a fazer esquecer o deserto para onde fora-a atirada com o casamento. E. de facto, em certa medida, Violante acabou por dar sentido à vida da fidalga, na defesa da vida e no amor maternal a uma criança espúria, cujo destino seria, se não a morte, a indigência e a marginalidade,

Como se sabe, Federico Amásio possuía as mulheres com o mesmo garbo com que um lobo esfaimado abocanha uma ovelha fora do redil. Por sua vez a Camilinha, educada em Colégio religioso, era uma florinha mimada, inexperiente, com a cabecinha loira formada para a Santidade e, em consequência, a relação sexual, admitida apenas na constância do matrimónio, na gloriosa e santa missão de reprodução da espécie. De forma que, a noite de núpcias, que devia ter constituído uma festa dos corpos e alegria dos sentidos, foi transformada, pela bestealidade e a bebedeira noivo, num sórdido espectáculo, com palavrões, insultos e violência, de tal ordem que aterrorizaram a delicada e frágil Camilinha, que, a partir da noite de núpcias, se “fechou” totalmente para os prazeres do amor sexual, recusando o leito nupcial e banindo a presença do marido. E não houve promessas ou ameaças que a demovessem, fazendo dos seus aposentos, decorados com livros e imagens santas, o seu mundo, donde raramente saía, até mesmo para tomar as refeições. O contacto com o Mundo da Casa Grande era mediado pela crepitosa Violante, de carnes rijas, uma espécie de mensageira entre mundo e o ermitério, onde a Camilinha se enterrara viva, recusando, categoricamente, a proximidade do marido

Seja como for, a verdade é que a Camilinha acabou por perdoar a afronta da rapariga (um  pouco estouvada, convenhamos) e a criança foi criada e apaparicada na infância pelas duas mulheres que viviam Casa Grande – a aia e a Senhora – como filho de ambas fosse. E, se Manuel Maria crescia em superabundância de amor maternal, tinha, no entanto, um pequeno problema de paternidade. Em verdade, toda a gente, em Terras do Demo. conhecia a história do nascimento da Manuel Maria. mas ninguém se atrevia a dizer, em voz alta, que Federico Amásio era o pai da criança.

Sejamos claros, apenas a Camilinha, vinda de sul para norte, ao arrepio das águas, para estabelecer laços de matrimónio com o Senhor da Casa Grande e, com tal casamento, salvar a honra do Pai, roído pelas dividas de jogo e pela sífilis, apenas a Camilinha, dizíamos, tinha, na verdade, autoridade para que, se o desejasse, dar o nome às coisas”, quer dizer, revelar em pormenor todas as circunstâncias do nascimento da criança e dizer preto no branco que Federico Amásio era o pai. Mas quem ousaria perguntar? E era mais que certo, que se a Camilinha falasse, saberia escolher o momento mais adequado para falar, quer dizer, o momento que melhor servisse os interesses do jovem Manuel Maria, que amava como filho, e, ao mesmo tempo, tirar o máximo desforço das humilhações e desconsiderações recebidas do marido, desde a noite de núpcias.

E não faltavam razões à jovem esposa, que, a par da proteção e do acrisolada amor maternal pelo jovem, centro de sua vida, alimentou ao longo dos anos bem acesa a ideia de vingança, como motivação da sua vida e a sua missão sobre a Terra. E interrogava-se, nas suas horas de meditação, onde fora buscar inspiração e força para impedir a expulsão da Violante e do filho, da Casa Grande.

Diz a cadela que a emprenhei e que o cachorro é meu filho! Que se foda a cadela e o cachorro, se embarrigou que tivesse mais cuidado! A mim é que ela não fila o dente! Era o que me faltava!  gritava alucinado pelo corredores Federico Amásio - Puta que os pariu, Rua! A cadela e cachorro para olho da rua! Já…

É então, nesse momento determinante, que a Camilinha, como tantas vezes na vida acontece, com seres aparentemente frágeis, perante as injustiças e iniquidades, se transfiguram e afoitam e crescem em autoridade e se afirmam contra o poder, por mais forte e autoritário que sejam, e assim redimem a vida e dão sentido à sociedade. E perante a crueldade do marido, ergue-se como rainha em porte altivo e. segurando o marido pelo braço, fixando-o fundo nos olhos, em voz firme, mas serena nem a criança, nem a mãe saem desta casa, se elas saírem irei com elas e se for necessário para dobrar a sua vontade e  a sua maldade, irei ao Governador Civil, irei ao Bispo, irei a Lisboa ou a Roma se necessário e toda a gente ficaria a conhecer que rês era o Senhor da Casa Grande.

Manuel Veiga

.  

 

 

segunda-feira, dezembro 27, 2021

INTERMINÁVEL JOGO

 

Em seu desenfado

Inventaram os deuses um singular jogo:

Colocam as pedras no tabuleiro

E largam, então, as vítimas.

 

E fazem rolar em fragor as órbitras

E o jogo de forças.

 

Os néscios exultam – a contar seus ganhos

E os sábios sorriem. Pois que, perdendo,

Muitas vezes ganham

Certos de seus rasgos

E de seus logros.

 

Bem sabendo das estultas regras

E do interminável jogo!...

 

 

Manuel Veiga

 

quarta-feira, dezembro 22, 2021

CICLO DE VIDA,,,

 

 

Planto macieiras imaginárias

Na inocência de teus olhos e

Sacudo o cisco do tempo que se entranha

Na pele dos dias…

 

Estaremos assim sentados

Tu em meus joelhos. E a sombra benigna

Brincando em tua face em tons de oiro

Por entre a vibração da tarde…

 

Um dia serás como a árvore

E a raiz, minhas cinzas. E o livro

Em que te soletras serão os invisíveis

Dedos que te acarinham.

E minhas sílabas…

 

E eu ausente em tuas letras.

E os gomos que agora abrimos no gume

E que nossas bocas partilham

Serão a fome, da fome,

A arder em teu caminho…

 

Tua vida em mim,

António!

 

 

Manuel Veiga

 

domingo, dezembro 12, 2021

POEMA DE NATAL

 

Derrama-se o canto sobre a mesa alva.
E a noite fria. Agora é este lume na estrela
De teus dedos murmurados. E a frágil linha
De teus cabelos brancos escorridos...
Meu rosto são teus olhos...
Arfar do peito meu. Agora esta miragem
No esconso tempo. Desprendo em teu regaço
Lírios de outrora. E componho o musgo e a hera.
O menino sou eu. E a lágrima é tua lá no Céu.
Dulcíssima a Hora...
Ilumina-se o esplendor dos anjos em redor.
Meu vagido, teu seio. E este milagre de ti.
Não há incenso, bem sei. Apenas a Mulher parida
E o filho incréu. De joelhos entoando tua benção:
"Gloria in excelsis Deo!..."
.
Manuel Veiga

....................................................................................................................................................
FOTOS - Coreografia dos Sentidos





 










sábado, dezembro 04, 2021

Coreografia ds Sentidos

Cartas de marear

Coreografia dos sentidos

E música das palavras

Subtis ondas

De ti em mim.

Teu corpo – barco

E minha boca declive

E marinhagens

Acesas, 

A flor do griito.

E mar adentro...

Manuel Veiga

COREOGRAFIA dos SENTIDOS

Edição MODOCROMIA

segunda-feira, novembro 29, 2021

COMO SE FORAS INVENÇÃO MINHA

 



As palavras, meu amor

São apenas insónia

Um rumor mudo

E a flor selvagem

Com que enfeito

 Teus cabelos


Para além delas

E das suas cinzas 

Existe uma chama outra

E esta coisa estranha

De saber-te

Como se foras 

Invenção minha

Manuel Veiga 

Coreografia dos Sentidos - Edição Modocromia


terça-feira, novembro 23, 2021

PUNHAL DE GELO...


Palavras cortantes. Na manhã baça

Soberbas! E parcas. Punhal de gelo

Nas costas – como facas…

 

Frios os dedos no enredo.

Atónitos. Colhem a flor do gelo

E destilam mentais venenos

 

A pele macia. E nudez fria.

Se derrete – negados os dias faustos!

 

Que, venham, pois, todos em bando

Mascarados – chibos e veados!

Brutus – dizem-me – é cão capado!...

 

Manuel Veiga

 

Passadeira Vermelha

  No Grande Livro do Tempo Onde se inscrevem os milagres e todos Os feitos. E as insígnias do sangue e Do leite materno   E a memó...