sexta-feira, abril 13, 2007

Diplomas, trapalhices e outras questões...

Como se sabe, o Primeiro-ministro de Portugal deu uma entrevista à televisão pública para, embora a pretexto do balanço de dois anos de governação, justificar as suas habilitações académicas. Ao que chegamos!... Apenas num país de “doutores e engenheiros” é possível a patética figura a que se assistiu, ao ver o mais alto responsável do governo do País a exibir diplomas e a desfolhar papéis, perante um país atónito com o folhetim e pronto aceitar, com alívio, quaisquer explicações, que fossem...

Pronto, respiremos fundo! o Primeiro-ministro é engenheiro...

Claro que quem está convencido já estava, ou estava pronto a ficar... Quem não está, nunca irá ficar. Por mim, confesso, o tema não é tão excitante assim. O diploma ou foi validamente passado ou não foi. Se não foi, nada de muito grave para o Mundo. Ficará apenas o registo da trafulhice para memória futura...

De facto, se bem analisarmos, os vertiginosos percursos políticos não se constroem sem umas “trapalhicezitas” pelo meio, desta ou de outra natureza. Enfim, como dizia o outro: “é a vida!...” E a política que temos, acrescento... Por isso, que venha o mais pintado político, da estirpe do Eng.º Sócrates, que atire a primeira pedra!...

Mas para além da espuma das coisas, há porém, nesta matéria, outras verdadeiras questões, que o episódio ignora ou tende a fazer esquecer. Refiro-me, em primeiro lugar, à situação do sistema de ensino superior, de que o poder político não pode angelicamente lavar as mãos. A degradação a que chegou a célebre Universidade Independente é consequência das políticas para o ensino superior, que têm privilegiado o ensino privado em detrimento do ensino público.

As reformas que, no final dos anos oitenta, foram proclamadas, mediante crescimento dos alunos, provocaram a desregulamentação do sistema, proporcionaram, desde então, o rápido crescimento do ensino privado, abrindo caminho à “mercantilização” do ensino superior, sem que o Estado tenha assegurado cabalmente os seus deveres de regulamentação e fiscalização.

Pelo contrário, o Estado tem injectado generoso apoio à abertura e funcionamento destas instituições privadas, sendo uma realidade que muitos dos estabelecimentos de ensino superior privado floresceram à sombra do Estado, financiadas com impostos dos portugueses. E, com o sacrifício das famílias, face às elevadas propinas que pesam sobre os alunos...

Esta opção política pelo ensino superior privado tem sido potenciada pelo pelos constrangimentos, financeiros e outros, impostos ao ensino superior público. E, nesta lógica de lucro, o resultado aí está: a proliferação de universidades, pólos universitários e cursos, que atribuem qualificações, muitas vezes, sem qualidade científica e técnica, “fabricando” licenciaturas sem qualquer utilidade e lançando milhares de pessoas na frustração de nada lhes servir o “canudo”...

O episódio do diploma do Primeiro-ministro levanta ainda outro tipo questões, porventura ainda mais graves. Refiro-me à tentativa de controlo da comunicação social por parte de órgãos do Governo, no sentido de impedir que fossem tornadas públicas as notícias sobre o percurso académico do Primeiro-ministro.

São chefes de redacção, directores de programação, editores de política que reconhecem publicamente terem sido contactados pelo gabinete do Primeiro-ministro e, até pelo próprio, procurando atalhar aos danos políticos da notícia, com veladas ameaças acções judiciais. Pois bem, em vez da indignada denúncia, temos que os envolvidos nesta telenovela mediática optaram por afirmar que não se tratou de qualquer tipo de pressão ou condicionamento do direito de informação...

Assim vai a verticalidade e a fibra jornalistica dos media, que se proclamam de referência! Triste sinal dos tempos!...

26 comentários:

Maria disse...

E assim vamos animadamente, amanhã já tudo está esquecido, para a semana o snr. volta a ser engenheiro (parece que não (sei se) é), continua PM, este país até é democrático e há liberdade de imprensa...
Pronto.

Bom fim de semana

M. disse...

"Diplomas, trapalhices e outras questões...", dizes tu, e "bem" (Já pareço o Jorge Coelho na Quadratura do Círculo...).
Sim, a ida do PM à televisão foi caricata. Dá-me ideia que quando há muita preocupação em justificar situações e atitudes é porque há gato . Mas o que apreciei mais no teu artigo foi tocares nos problemas relacionados com o ensino. Claro, sempre atento...

Maria P. disse...

Por isso escolhi Teixeira de Pascoaes, ao meditar.

Excelente a tua observação sobre o nosso ensino, isso sim é grave!

Um bom fim de semana.

P.S. Sem guardar patos:)

Frioleiras disse...

"voltei a casa" e leio-te...
É bom inteirar-me, p ti, d q s tem passado p cá...
nada q já s n soubesse, infelizmente...
a tristeza d q somos... n gostava, n queria, mas é assim... somos assim ...
Bj.
É bom reler-t...
F.

Opintas/Bernardo disse...

Bom fim de semana e um abraço.

vida de vidro disse...

Eu já desesperava de ler uma análise desta bendita questão que colocasse os pontos nos ii que realmente importam. A degradação do ensino superior, sobretudo o ensino superior privado, é a verdadeira questão e não esta palhaçada a que assistimos todos os dias com mais uma "notícia" e mais um "parece que..." . E é caso para dizer que os jornalistas da RTP foram com tanta sede ao "pote" das explicações do nosso primeiro que até se esqueceram de se preparar convenientemente para o balanço dos dois anos em que Sócrates pôs e dispôs quase sem que ninguém o contradissesse. Tristezas... **

disse...

E nos entreactos…
O crucial para a sociedade Portuguesa vai esfriando.

Anónimo disse...

eu por mim antes ser do que parecer...:))))

e agora todos se parecem...enquanto o país...não é!


______________


beijo. domingueiro.

(piano)

hfm disse...

Tristes sinais dos tempos, mesmo!
A mim pouco me importa que ele seja engenheiro ou não o que dele pretendia era que governasse bem. Agora tudo o que está por detrás destas "políticas" utilizadas no ensino, ah, aí, sim, importo-me e muito. 1º por ser o meu país, 2º porque os meus impostos andam por aí.

morpheus disse...

Uma boa tarde.

Vladimir disse...

acho que ainda verei uma telenovela da TVI, ou um outro "programa cultural" similar baseado na questão do diploma do nosso engenheiro...

PintoRibeiro disse...

Herético. A História acaba por ser a História. Nada como o tempo para limpar poeiras e estórias mal contadas.
Quanto ao resto, aqui não há militantes de nada. Pelo menos no blogue. Até eu opino quando não rumino.
A Sónia é minha mulher, eu sou eu, o Bernardo Kobl é ele, ( que se milita é lá fora ), e o Morpheus quer ser só o Morpheus. Apenas. E o post que fiz a completar o do Suck, a partir de uma leitura no Público, hoje, faz mesmo sentido. Acho.
Blogues meus e da Sónia só os outros 3.
Abraço.

herético disse...

Ok,Pinto Ribeiro! cada um assume as "máscaras" (ou nicks) que quer. e as militâncias (lá fora) que julga justas. discordando do teu ideário, aprecio muitos dos vossos poemas! isso me basta (na net... rss)

abraço

Peter disse...

Meu caro, colocas o dedo na ferida:

"A degradação a que chegou a célebre Universidade Independente é consequência das políticas para o ensino superior, que têm privilegiado o ensino privado em detrimento do ensino público."

Junta-lhe a tentativa (?) de manipulação dos orgãos de comunicação social e temos o quadro completo.

sonia r. disse...

Eu sou eu e cada um é um.
E fala-se hoje de nicks.
Os textos são realmente do Sérgio.

Opintas/Bernardo disse...

Eu sou Bernardo Kobl e uso o nick OPintas em homenagem ao PEIDO e estou-me a cagar que acreditem ou não que somos mesmo 4.
Há por aí quem nos conheça. Ao vivo.
Uns malandrecos...eheheheh... Herético.
Um abraço.

sonhadora disse...

deixo-te sonhos das marés prateadas do meu mar.
Beijinhos embrulhados em abraços

Cris disse...

Lamento se estou errada, mas esta história do diploma do nosso 1º parece uma coisa à americana. É óbvio que é obrigatório apurar a verdade dos factos, mas.... não há coisas mais importantes, não será esta mais uma manobra de diversão para nos distrair de assuntos, na minha opinião, mais prementes? eu, pessoalmente, não me interessa se ele é Eng. ou Arq., só quero é que ele tente, ao menos, ser um 1º ministro que se preze!

Diafragma disse...

De facto é espantoso o peso que este fait-divers atingiu, mas bem vistas as coisas é bem natural.
Toda a gente neste país é tratada por sr Dr ou Eng sem ter curso nenhum, basta ver nos barbeiros! Agora isso chegar ao 1º ministro é que já não dá. Os ingleses e os franceses não têm esse problema bacoco e provinciano.
De facto para mim o mais grave é o estado a que se chegou no ensino privado como aqui referes e muito bem, mas esses assuntos não dão tantas vendas de jornais.

PintoRibeiro disse...

Boa noite e um abraço.

Gi disse...

Por aqui se vê o quão pequenos somos. As pessoas não se bastam pelo que são, nem pelo que fazem, mas pelo que têm. A eterna questão do TER e do SER. Também sabemos que embora país de brandos costumes, passamos de bestiais a bestas enquanto o diabo esfrega um olho. Por isso me faz alguma confusão o porqu~e de tantas escandaleira e converseta à volta de um diploma! Para mim não me faz qualquer diferença. Está incorrecta a mentira que lhe está subjacente. Certo. Mas em que é que ele como bom português difere dos outros. Não somo o país do deixa andar, depois logo se vê? Não fez mais que os outros. Mal, mas memso assim o mesmo!

Gostei da análise, mas estou farta de ouvir falsos moralistas.

Noite feliz

Licínia Quitério disse...

Que está tudo muito mal explicado quanto à formação académica do 1º, isso é óbvio. Que ele alinhou na parolice do "engenheirismo" também se nota. O pior é que os gravíssimos problemas que envolvem o ensino privado ficam na segunda fila da discussão. Já para não falar da semi-obscuridade em que se tentam manter os pungentes dramas sociais que a política do mesmo Senhor Engenheiro Primeiro Ministro provoca aceleradamente, diariamente,sem fim à vista, nesta gente que somos, no país que temos.

Neste Relógio,pelo menos por agora, tenho um local previligiado de informação e desabafos.

Obrigada.

Gi disse...

voltei aqui porque ontem face ao tardio da hora e com o descurar da pontuação cometi um erro terrível. Ao fazer uma 2ª leitura, dá a sensação que lhe chamo falso moralista, faço aqui uma ressalva , não era a si que me referia e peço desculpa se assim o entendeu. Caso contrário não teria apreciado a escrita.

tenha um bom dia, que a mim já me apetece puxar os cabelos pelo disparate

Opintas/Bernardo disse...

Boa noite e um abraço.

sonhadora disse...

Sonho com a lua, com as estrelas, com o meu amor.
Beijinhos embrulhados em abraços

uivomania disse...

Subcrevo inteiramente o que a Cris disse. Acrescento apenas que, a roupa suja se deve lavar em casa.