segunda-feira, maio 14, 2007

Meninos de oiro?!...

Manhã de domingo preguiçosa... Procuro motivos que quebrem a monotonia, vagamente cinzenta. Na atmosfera e nas letras que vão desfilando... A histeria mediática de Lagos, Fátima, a visita papal, os financiamentos brasileiros do partido do governo... Sorna, a agenda mediática prossegue, levando a água ao moinho onde se farinham os condimentos das emoções quotidianas...

Rapto de crianças aos milhares, crianças guerreiras em Africa, genocídio no Dafur, carros-bomba no Iraque, que matam crianças inocentes todos os dias... Quem se importa? Enfim, vivemos!... E emocionamo-nos, pois claro!... Num caso ou outro, apaziguamos a consciência numa qualquer marcha contra a fome... E, evidentemente, gritamos mais alto, cada um de nós, um qualquer grito indignado, que os media nos impõem...

Estava, portanto, nestas ruminações, (onde avultava a surpresa de um certo cinismo de considerar que a comunicação social, mais que o papel estruturante do Estado democrático, com que gosta de se enfeitar, outra coisa não pretende que aumentar as audiências), estava, portanto – dizia - nestas ruminações, quando deparo, em grande destaque, com o título de que um “reforço do Sporting ainda não ata os sapatos”...

Vindo de Braga, naturalmente, em cujo distrito crianças da sua idade são constrangidas a abandonar a escola para cozerem sapatos para multinacionais de calçado...

A notícia era empolgante! A briosa jornalista era pródiga no relato, indo ao pormenor de esclarecer que o miúdo “já não quer que a mãezinha lhe escolha a roupa para levar para a escola”. No entanto, com oito anos e “trinta quilos distribuídos por 1,30 metros” assinou (?) como “centrocampista” do prestigiado clube de Lisboa...

O miúdo considera-se normal, mas os dirigentes desportivos do categorizado clube entendem que não, que é digno das maiores atenções, pelo que irá treinar duas vezes por semana no clube, para o qual se mudará definitivamente com 11 anos...Por detrás (ou será por todos os lados?) uma empresa de mediação desportiva, que segundo a notícia, será compensada financeiramente pelo clube. Pudera!...

O pai está babado, como era esperado: “fiquei orgulhoso quando ouvi o pessoal do Sporting falar do talento do meu filho...”. E com razão!... O filho, conforme o relato, “com seis anos dava 30 toques seguidos na bola e o Cristiano Ronaldo contou que dava 100 aos doze anos...”. Imaginem o orgulho!...

O limite é, portanto, o céu! O próprio Bruno – esta a sua graça – na sua ingenuidade infantil, garante que quer ser como o Cristiano Ronaldo, “se possível melhor que ele...” e que se deixa influenciar pela televisão: “olho o Cristiano ou o Ronaldinho e tento ser igual”. Faz - é bom de ver - “golos de trivela” e gosta de “dar as pernas ao adversário”...

Apenas a mãe – qual "mulher de Atenas”!... - destoa neste coro: “ele ainda é muito pequenino!... Pode alguma coisa tal mágoa?!...

A mim salvou-me o dia... Saio à rua, com ressonâncias de José Afonso:

“O meu menino é d´oiro
É d´oiro o meu menino
Hei-de levá-lo ao Céu
Enquanto for pequenino"...

22 comentários:

Maria P. disse...

Como eu gosto destas escritas tão bem descritas!

Beijinho*

Vera disse...

Gostei do teu texto! As manhãs de domingo são preguiçosas mesmo, acho que é mal (ou bem) geral.
O que contaste do menino fez-me pensar... mas este tipo de coisas também não é um pouco exploração infantil? Será que permitirão a esta criança, além de estudar, que brinque como as da sua idade?
Bem... saio pensando!

Beijinhos

bettips disse...

Ah...as tuas ruminações tão iguais, minhas dúvidas tão semelhantes. Ainda bem que foste uma voz boa no meu comentário sobre "cultura". Unicamente cultura, falava eu. Se falasse dos nazis, NUNCA poderia falar de cultura...pessoas não entendem que é o conhecimento, a arte, a comunicação do belo que nos aproxima. Por isso, o teu (e o meu) domingo foram o que descreves: vazio, falso, um milhão de moinantes dominam milhões de outras almas livres. Dinheiro, um demónio instalado...Abç

hfm disse...

Gosto destes textos.

E gostaria que passasse pelos meus Alicerces tem lá algo para si.

Licínia Quitério disse...

Também eu hoje falo de infância. Depois de ler o que escreveste, sinto que alguma coisa me falhou.
Tu nunca andas alheado.

Abraço.

Anónimo disse...

zangada????????????.:))))))))))))))))))))))))....de todo.....


en.tristecida......


só....


beijo. flor do deserto....





piano.

PintoRibeiro disse...

Li o artigo e, sinceramente, não gostei. Deixai as crianças ser crianças.
Um abraço e boa noite.

JPD disse...

Se ele for bom jogador;
Se o miúda acertar no seu desígnio profissional e fizer pela vida;
Se a ilusão dos pais não for estritamente venal;
se...

Não vejo mal.

A chatice é se tudo isso for erro seu, má fortuna!

Um abraço

vida de vidro disse...

Oito anos? Pois... o fenómenos dos meninos "prodígio" é sempre algo muito complicado e dúbio. Sobretudo porque as suas capacidades são, muitas vezes, completamente exploradas pelos adultos que os deviam amar e deixar ser crianças, enquanto quiserem. Claro que ser prodígio para o futebol, hoje em dia, é bem mais mediático que sê-lo noutra qualquer arte. E com tantas notícias cinzentas à volta, como é que os media iam resistir?
Enfim , vamos sobrevivendo aos cinzentos e preguiçosos domingos... **

Frioleiras disse...

Adoro... este "verso"

“O meu menino é d´oiro
É d´oiro o meu menino
Hei-de levá-lo ao Céu
Enquanto for pequenino"...

Abç
F.

Peter disse...

Aprecio imenso a forma como escreves e os temas tratados.
É o caso deste texto, no qual concordo a 90%. Os outros 10% referem-se ao miúdo de Braga. Internado na Academia do Sporting, onde tem tudo: cama, mesa e roupa lavada, é obrigado a frequentar os seus estudos, sendo a falta de aproveitamento punida pelo Clube.

PintoRibeiro disse...

Bom dia e um abraço,

folhasdemim disse...

Após uma pausa prolongada cá estou eu de novo.
Saudades da escrita e da leitura.
Beijos e até breve.
Betty

sonhadora disse...

Escreves tão bem!
Quando o crepúsculo desce e a noite cresce, o sonho faz-me suspirar.
Beijinhos embrulhados em abraços

Klatuu o embuçado disse...

Aquilo que se idolatra nos filhos - e com modelo em que ídolos! - não diz muito dos filhos, mas diz tudo dos pais!

Abraço.

un dress disse...

diria que a melhor forma possível de saíres à rua.
a ressoar Zeca Afonso...ternura e saudade...



beijO

António Melenas disse...

Excelente crónica, meu Amigo Parecia remansosa, domingueira, mas não deixaste escapar, por um lado a frivolidade de certos escribas na escolha de títulos para as suas frioleiras, por outro a exploração a que estes pequenos génios do desporto estão sujeitos e a tocante ternura da mãe, que no evenntual génio apenas vê o eu menino"que é tão pequenino"
Bonito
Um abraço

foryou disse...

Gostei especialmente da forma como escreves. Muito bom mesmo (ui, quem sou eu para estar aqui a avaliar? ainda sou corrida...)

Quanto à criança... espero que, no meio de tudo isso, não se esqueçam de a deixar brincar e de fomentar a sua formação cultural, muito embora reconheça, que pontapé na bola dá muito mais dinheiro que festa na gramática.

O JACARÉ 007 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
O JACARÉ 007 disse...

O menino precisa rapidamente de empresário.
Ainda o pai não tinha acabado de assinar pelo Sporting e já o petiz estava a dizer que é do Porto.
O queque, neto do Visconde, vai-lhe aplicar uma cláusula de rescisão de 30 milhões.
Sabe o que é um XAD?
Abraço.

Gi disse...

Gostei do teu texto ms não posso deixar de te colocaruma questão. Não achas que cada vez masi as criianças se estão a tornar menos crianças e sim uma extensão do que os pais queriam ter sido? Ricos e famosos? As roupas, os colégios, os telemóveis, são a imagem de sucesso dos pais . Podem dar entendes? Os filhos são uma projecção do que não foram e do que são, cada vez menos "filhos".

Hoje estou um bocado em baixo de forma , se calhar por isso estou tão negativa em relação ao assunto. Gostava que houvesse tempo para tudo e que às crianças lhes coubesse só esse papel. O de serem crianaças. E todos , sem excepção os nossos meninos de ouro como o Zeca bem dizia.

Noie feliz

uivomania disse...

Vou paradoxar: Um grande sonho muito pequenino.