segunda-feira, agosto 27, 2007

"Noticias radiofónicas de Lisboa...."

De volta à realidade, ou seja, à estrada, o viajante olha para o céu. Está quente, como o asfalto, e parece uma bola de tão curvo. Certamente, curva-se assim para transpor a serra que tem em frente.

O viajante pára e olha o mapa. Se os seus autores não mentem, e isso não é verosímil, é já a serra de Mogadouro, o inóspito maciço montanhoso que bordeja Trás-os-Montes a Este, embora, entre Este e a raia, fique ainda o planalto mirandês. Mas ainda fica longe. Já se vê nitidamente, por entre a bruma, mas ainda muito longe. Antes ficam ainda o vale do rio Sabor e os montes de Soutelo e Penas Roías.

E, antes ainda, Peredo. Um povoado pobre, de casas velhas, que se reclina junto à estrada a seis quilómetros de Chacim (...). Peredo, tal como Chacim, é um povoado antigo e de renome. Durante o século passado (Sec. XIX), viveu da seda e conserva ainda daqueles anos heróicos, em redor das casas, algumas amoreiras. Mas a aldeia decaiu como todas as da zona e agora mal se vê gente nas suas ruas: um velho na soleira, outro sentado num tronco e duas crianças passeando de mãos dadas (...). O viajante, apesar disso, vê-a afastar-se com pena. Já sabe que até Soutelo não voltará a ver mais aldeias (...).

A paisagem é tenebrosa de tão árida. Oliveiras e sobreiros são já a única coisa que se vê, excepto algum ribeiro seco. Este ano, a seca até as pedras queimou. O viajante, angustiado, olha o céu e pede sorte. Se tiver uma avaria, os corvos comê-lo-ão.

Para o animar, liga o rádio. Costuma fazê-lo com frequência, quando atravessa sítios como este. Fá-lo para ter companhia e para que os quilómetros passem depressa. Mas não passam. A estrada, além de estreita, está cada vez mais sinuosa e mais cheia de remendos. Vê-se que há imenso tempo que nem alcatrão lhe deitam (...).

O rádio, entretanto, fala do estado do escudo português (da moeda, não do emblema). A sua saúde não é preocupante, diz alguém, comparado com as outras moedas europeias. Outro, pelo contrário, lamenta que o escudo não cresça mais. Menos mal, pensa o viajante, olhando à sua volta.

Agora, a estrada avista um rio ao longe. Deve ser o Sabor, embora não veja nenhuma indicação. O viajante atravessa-o sem parar enquanto ouve alguém, na rádio, a falar de tráfego. Pelos vistos, a esta hora, Lisboa está caótica. Quem diria, pensa o viajante.

Passado o rio Sabor, pois foi ele que ficou para trás (pelo menos, segundo os mapas) a paisagem tornou-se ainda mais inóspita. Ainda por cima, já nem oliveiras há. Só montanhas despidas e uma ou outra azinheira abrigada (...).

E um pombal. E outra encosta. E outro barranco à esquerda. À distância, alguns carvalhos e, no céu, uma abetarda. E o caminho que se alarga como se não fosse ter fim. Enquanto isto na rádio, o presidente da República (...) inaugura uma auto-estrada (longe daqui, evidentemente), a Bolsa continua a subir (tal como o escudo, parece forte) e o Sporting de Lisboa, que este ano aspira a tudo, comprou um jugoslavo por metade do que valem estes montes juntos (...).

O viajante, angustiado, volta a olhar ao longe. Só de vêem montanhas, cada vez mais solitárias e secas. E mais montes. E mais encostas. Durante vários quilómetros, que nunca mais acabam, a estrada continua a subir. Não há nada atrás. Nem carros. Nem colmeias. Nem uma simples árvore com sombra, onde possa descansar um pouco. Só montes e o céu azul e o som do rádio de Lisboa (...).“

Júlio Llamazares – in “Trás-os-Montes – Uma Viagem Portuguesa”.

Boa continuação de férias. Cá dentro...

17 comentários:

Maria P. disse...

Então boa continuação!
Cá dentro.

Beijinho*

Camarada Choco disse...

Divulgação

Mais um Blog que se tornou um Livro!

Filme da apresentação disponível no YouTube em “Camarada Choco”

www.camaradachoco.blogspot.com
www.livrosnet.com

Graça Pires disse...

O texto de Júlio Llamazares é magnífico. As "notícias radiofónicas de Lisboa" não podem encher o coração de quem tem toda uma paisagem árida para atravessar... Um abraço.

Mar Arável disse...

"só montes e céu azul"

SÓ?
faça férias cá dentro

porque nos desertos
também são belos os grãos de areia

hfm disse...

Belo texto. Boa continuação de férias, cá dentro, lá fora, na imaginação... desde que férias.

JPD disse...

Muito recentemente estive quase, quase a ir até Mirandela e guinar para Vila Real, Guimarães, Braga, por aí fora.

Os viajantes "borregaram" a viagem não se fez e não sei daqui a quanto tempo voltarei a pensar no assunto.

Bragança é longe.

O essencial, apesar disto tudo que escrevi é dizer que o texto da tua edição é bom e ilustra bem a ideia que formei de Trás-os-Montes.

Não conheço o autor, mas que importância poderá ter.

Um abraço

PintoRibeiro disse...

Um abraço.

Licínia Quitério disse...

De Lisboa para os Montes, dos Montes para Lisboa. Infatigável viajante. E sempre com o rádio ligado :))

Abraço.

un dress disse...

...li com emoção.

porque passo aí sempre que volto ao lugar onde nasci.

exactamente e assim mesmo
AÍ!!! reconheço as silvas.

cada uma das que agora se inclinam de amoras sobre a estrada...

obrigada...:)


beijO

Afrodite disse...

cresceu a minha vontade de ir para esses lados; em breve, espero.

Até lá, um beijo.

Peter disse...

Bela descrição de um mundo que para mim é totalmente desconhecido e não o deveria ser.

Saliento a referência ao Sporting ...

Vim hoje de Lisboa, vou ver se dá para ainda me bronzear um pouco mais.

Abraço

triliti star disse...

apesar da aridez que cerca o viajante, conduzir, calmamente, numa estrada sem transito caótico, terá o seu quê de agradável...

Cris disse...

Por cá... um beijinho e muito obrigado pelas gentis palavras deixadas em Terra.

Cris


Ps: continuação de boas férias.

M. disse...

Belo texto.

OrCa disse...

Colhes esse texto no teu regaço, porque sabes das urzes e das fragas. Adivinho-te a emoção muito para além da mera substância do escrito - que é belo, claro.

Já te contei que a chegada ao planalto me provoca sempre um destrambelhamento danado? E eu que nem sou filho da terra! Mas que a aprendi e me fiz dela... como bem me parece que se passa contigo.

Um grande abraço.

bettips disse...

Continuam a comprar-se/vender-se jogadores por milxmil vezes.
Aviões brincam a brincar sem fogos, cem fogos que houvera continuariam brincando com o dinheiro que falta para tanto!
Precisa vontade e ainda não há.
Nem política, nem da outra
Esse planalto alto, e pedra, é uma formosura em Abril. Bom lembrá-lo!Abraço

António Melenas disse...

Olá Amigo,
estas paragens, bravías, mas exaltantes conheço eu conheces tu, muito bem.
Foi pena o autor não ter posto nome completo do Peredo, um nome (quanto a mim) lindíssimo: "Peredo dos Castelhanos" terra do jornalista Rogério Rodrigues e do seu pai, O Caló, que tinha em Moncorvo um tasco e pensão, onde se comia peixe do rio que era de comer e chorar por mais. E Já agora terra de um primo meu, afastado, (que nunca vi mais gordo) mas muito conhecido na região - o Cónego Melenas
Um abraço