quarta-feira, outubro 10, 2007

Ética republicana...

Como bem sabe, a “ética republicana” anda bastante lassa. Uma vez por outra, porém, o País político finge-se de pudores. Um discurso presidencial. Uma entrevista de um respeitável bonzo. Ou um artigo de um qualquer angustiado publicista. Ficamos então a saber que o País vai mal. Que a corrupção alastra. Que o bloco central de interesses corrói o regime e avilta a República...

Pode até acontecer que juristas desassombrados, em lugares institucionais de relevo, se não calem e tenham a coragem de afirmar que “desde que o Presidente da República alertou há um ano para a necessidade de intensificar o combate a corrupção se verificou uma “involução” nessa luta” (Director do DCIAP de Coimbra – in “Público” de 5.10.07). Ou que tenham a honradez de proclamar que o novo Código de Processo Penal – instrumento jurídico decisivo – serve apenas para enfrentar as chamadas “bagatelas penais”, mas não serve para o combate à criminalidade violenta ou altamente organizada e, em especial, a corrupção.

Pode ser que tudo isto aconteça. E, apesar de tudo, acontece. Raros, mas nem todos os homens se vergam, nem todas as instituições se calam. Ou demitem... No entanto, passada a onda e o frémito, a cálida morabezza dos costumes ocupa o espaço e o conúbio indecoroso entre os negócios e a política ganha em lucro(s) privado(s) o que perde em pudor(es) públicos...

Há até quem diga, com algum escândalo, que os “lobbies se apoderaram dos órgãos vitais das decisões do Estado”. O mesmo é dizer que o Estado deixou de servir os interesse geral do País para estar ao serviço dos interesses privados. Os mais poderosos, como bem se deduz...

Porém, apenas se surpreende quem quer. Quem não se lembra do célebre “Compromisso Portugal”? Confrontem com a prática governativa do governo de Sócrates. Os “grandes desígnios” do governo (socialista), mais que no sufrágio ou nas promessas eleitorais, foram ditados nas célebres reuniões do Convento do Beato. E que são escrupulosamente cumpridos, ponto por ponto. Na obsessão do deficit, no desemprego, nos baixos salários, na legislação laboral, nos lucros da especulação financeira.

Como vem sendo o notado, “os negócios conseguem inspirar um respeito e um temor (...) que manifestamente coíbem a imprensa e a televisão”, de que, aliás, são genericamente propriedade. Como conhecer, portanto, o que se passa no interior dos ministérios, que definem as orientações governamentais sobre a economia? Porventura alguma vez chegam ao conhecimento público?...

E como compreender que sejam interesses privados organizados a promover estudos para grandes investimentos públicos (de a questão da localização novo aeroporto é apenas um exemplo)? Ou então, (quando a desvergonha não tem limites), que pensar do facto de serem escritórios de advogados, ao serviço do poderosos interesses privados, a redigir próprios diplomas legais, que melhor servem os interesses que representam?Ilustres advogados, aliás, (ou engenheiros) distribuídos pelas bancadas parlamentares do dito bloco central. Ou instalados no directórios dos partidos do poder! Ou melhor ainda, ex-governantes retirados da “maçada” da política...

Não se trata aqui da velha questão da “mulher de César”! Não existe República sem republicanos. Como também não existe ética política, sem homens íntegros. E de pouco valem piedosas intenções presidenciais (ou outras) sobre a “transparência” da vida pública, enquanto o Estado não se libertar dos interesses que o condicionam. E dos governos que o colocam ao serviço de uns poucos... Como o “rotativismo” das últimas décadas bem demonstra...

Descontado o exagero apocalíptico, alguém duvida “se por acaso caísse do céu a transparência que o Dr. Cavaco deseja, metade da primorosa elite do nosso país marchava para a cadeia como um fuso”... (VPV – in Público de 07.10.07).

O que era bem feito, reconheçam...

25 comentários:

Vladimir disse...

Caímos no rotativismo e daí gerou-se uma teia de interesses que envolve o poder...não é preciso dizer mais nada...
Adorei a expressão do VPV, fartei-me de rir quando a li no Público...

isabel mendes ferreira disse...

bom dia Ético!!!!!



_________________



beijo-!

vida de vidro disse...

Perfeita continuação do texto de Raul Proença que aqui deixaste antes. Tudo tem a ver com a integridade. Política e intelectual. Por onde anda ela, neste reinado de bloco "centrão" e de interesses subjacentes? Pensemos no assunto, pelo menos.**

Maria disse...

Não só era bem feito como necessário....
... talvez servise de exemplo, se é que ainda aprendem...

Beijo
(já te tinha lido ontem
mas a net caiu...)

Klatuu o embuçado disse...

«Ética Republicana»??? Não conheço.
Talvez seja mais um de muitos paradoxos: tipo «Político Honesto»!

Abraço.

Nilson Barcelli disse...

O VPV é um exagerado, até pecará por defeito...
Qual é a alternativa actual a Sócrates como 1º ministro?
O PCP? O BE? O CDS?
O Sócrates está a fazer um bom trabalho, ainda que os resultados não sejam muito bons. Mas o do desemprego, por exemplo, é um bom indicador, pois é sinal de que o tipo de emprego está a mudar. Se o desemprego não tivesse aumentado é que seria de estranhar e, a prazo, mau para o país. Só é pena que penalize pessoas que não têm culpa nenhuma.
Como é óbvio, não tenho a tua visão desta problemática. O problema não está nos partidos que têm estado no poder. Está no povo que somos. E o povo, como sabes, está uniformemente distribuido por todos os partidos, ainda que em percentagens muito diferentes. Ou os bons foram todos para o teu partido (que nem sei qual é...).
Um abraço.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Obrigada pela visita. És dos meus comentadores favoritos porque há uma sintonia nesta forma de olhar.
Quanto à Ética Repúblicana...

O Jacaré 007 disse...

Bom regresso companheiro blogosférico!
Será de ler em www.smmp.pt, um artigo de António Ventinhas, intitulado, Combater o Crime ou o Deficit.
Sintomático o estado da República.
Ao menos o António das Botas e o Barreirinhas Cunhal não tinham vergonha de ser pobres.
Abraço.

Mar Arável disse...

O AR QUE SE RESPIRA

ESTÁ CADA VEZ MAIS IRRESPIRÁVEL

Vieira Calado disse...

Olhe, sabe uma coisa, a grande diferença é que praticamente, pouco temos de aturar os bispos e padres de antigamente...
Um abraço

Frioleiras disse...

por onde tens andado???

(leio-te...)

Bj

F.

Anónimo disse...

cds

surely!

Anónimo disse...

....:( não percebi....:(((
____________________.









/piano.

Anónimo disse...

esquece....:)

já percebi!

(mas eu não conhecia... coisas....da amizade.)

:)

bom dia Herético.Ético.


/hora tardia/

sonia r. disse...

Sinceramente há conceitos que são actualmente verdadeiras redundâncias.
Não faz qualquer sentido a não ser para a brigada do (reumático) habitual esse saudosismo "republicano".
Em especial quando com tanta Ética a História da República é um nojo.
Bom fim de semana.

hfm disse...

Reconhecidíssimo!

Licínia Quitério disse...

A integridade dos Homens feita motivo de sarcasmos. Os néscios a debitarem as teorias dos chefes que são, por sua vez, os paus-mandados e bem-pagos de quem verdadeiramente domina.
Tempos sufocantes estes. Como diria o Eça: "...de ananases, menino!".

Abraço.

Paulo Sempre disse...

O conceito tradicional de «ética» infelizmente só existe nas comunidades ciganas....
Bom fim de semana.

un dress disse...

ciclos.

nada "significa"

voltas concêntricas. caladas.




beijO

Popper disse...

Oh ética por onde andas que não te enxergo! Um abraço e bom FdS.

Peter disse...

Qualquer dia vamos ver os políticos a andarem todos de escudo na cabeça como na BD do Astérix, com medo que a "transparência" lhes caia em cima da cabeça.

triliti star disse...

o que pode um nabo como eu vir aqui comentar?
tu dizes sempre tudo...

(mas olha que o país não está assim tão mal, inaugorou-se hoje a quarta maior igreja do mundo...
já pensaste na enorme quantidade de pessoas sem um teto que podem ter ali guarida?)

tolilo disse...

Chuac!-

para o Herético !

Miosotis disse...

Pois as públicas 'virtudes', não conheço!
Vícios privados, fala-se!

Ética... um conceito que penso raramente ter existido entre 'politocratas'... gosto da palavra! Não me pertence, é da Agustina!

Reconheço que as coisas não vão lá muito bem neste reino...
Sempre de 'pena em riste'. Herético! Saúdo a coragem de ainda não ter perdido a vontade de falar em política!

Sensibilizada pelo olhar afectuoso poisado em 'fragmentos'!
Um beijo

OrCa disse...

Falando apenas cá do burgo, fácil é de ajuizar quão nefasta foi a "longa noite" na formação das consciências. Ainda para mais, para quem já trazia atrás de si muitos anos de obscurantismo.

Eu cá vou sustentando que o que nos caracteriza especialmente é este tremendo facto de sermos todos mais ou menos primos uns dos outros, criando um novelo de interesses ensarilhados difícil de dobar...

Um abraço.