quinta-feira, novembro 15, 2007

O seu a seu dono...

O célebre “Por qué no te callas?” percorre, com frémito, o mundo lusitano!...

Desde o mais boçal taxista, ao mais sofisticado comentador, não há ninguém que se dispense, na matéria, ter opinião. Para louvar – hélas! – o brioso feito do monarca espanhol, mandando calar o semi-índio que, no outro lado do atlântico, por vontade do seu povo, é presidente da República da Venezuela...

Compreende-se esta pulsão cor de rosa pelo Bourbon de Espanha, feito monarca por decisão do generalíssimo Franco... Hugo Chávez é feio, faz voz grossa e - pecado dos pecados! – não desiste de, por processos democráticos, alcançar uma sociedade mais justa para o seu povo. E para a América Latina. Nem que para isso tenha que enfrentar os poderosos e dizer algumas verdades duras como punhos...

Bom seria que a nossa complacente comunicação social, para além da leitura da imprensa cortesã, que se publica em Espanha, estivesse mais atenta a tudo o que se publica no País vizinho, sobre o incidente verificado no decurso da XVII Cimeira Ibero-americana.

De facto, se é verdade que todos os periódicos espanhóis ligados à corte cerraram fileiras para defender o monarca, importa também conhecer, por exemplo, que o diário El País, em editorial, mostrou preocupação pelo contínuos incidentes que o monarca protagoniza, defendendo que “a figura do rei não deveria estar por mais tempo no primeiro plano político”. Embora, no caso concreto, um pouco contraditoriamente, reconhecesse que o monarca “esteve no seu papel”.

Mas, para além do incidente, o que deveria, sobretudo, fazer reflectir os cidadãos interessados, são as duras acusações de vários representantes de países sul-americanos às empresas espanholas e a determinados comportamentos da diplomacia espanhola, nos respectivos países.

Por exemplo, quanto à intervenção a embaixada espanhola em Caracas no golpe militar contra Chávez, em 2002. Está provado que aquela embaixada recebeu instruções precisas do presidente Aznar, em convergência com os Estados Unidos, para apoiar o golpe. No entanto, Hugo Chávez era na altura, como hoje, presidente legítimo da Venezuela, eleito por sufrágio dos seus concidadãos.

Por outro lado, Daniel Ortega, acusou directamente a diplomacia espanhola de intervir nos processos eleitorais da Nicarágua e de colaborar com a direita naquele País para evitar o triunfo da Frente Sandinista.

Deveriam também ser motivo de grande preocupação as denúncias feitas contra a União Fenosa, acusada de utilizar métodos dignos de gangsters na América latina. Ou a palavra honrada do “moderado” Presidente Néstor Kircher ao criticar, com dureza, a abusiva actuação das empresas espanholas na Argentina.

A nossa comunicação social, que rasga as vestes e se cobre de cinzas, perante o qualificativo de “fascista” lançado por Chávez a Aznar, acha bem que Aznar, então presidente do Governo de Espanha tivesse chamado a Chávez “novo ditador”, ou tivesse falado do “regresso ao nazismo”, ou tivesse acusado o Chávez de ser defensor do “abuso, a tirania e o empobrecimento”, entre outras expressões de igual teor.

Juan Carlos Bourbon, monarca de Espanha, em gesto imperial, pretendeu fazer calar Chávez. Mas porque se sentiu ofendido com as criticas de Chávez a Aznar? Em verdade, como, cada um de nós, deve qualificar alguém que apoia golpes militares para destruir as instituições democráticas? Na Venezuela, ou de qualquer outro País...

Tenho, para mim, que o gesto irado de Juan Carlos de Bourbon, tentando fazer calar o Presidente venezuelano, usurpando as funções de quem presidia à reunião e ausentando-se depois, não abonam a seu favor como chefe de Estado.

Talvez, por essas e outras, se levantem, em Espanha, cada vez mais vozes, reclamando a instituição da III República.

38 comentários:

Mar Arável disse...

tens razão meu caro

opuma@netcabo.pt disse...

os reis são nomeados pela hierarquia do sangue - são excrecências democráticas

manhã disse...

eu cá para reis também não tenho paciência nenhuma, mas em boa verdade para o Chávez também não, nem para o Aznar, mas gosto do Zapatero, e a Espanha dele agrada-me. Será por ter bonitos olhos? Nã creio, o programa eleitoral, foi cumprido e só isso, hoje Bale!

São disse...

Não aprecio muito Chávez, mas acho incrível o desatino de Juan Carlos.
Quanto a Aznar e ao seu PP são um asco, está tudo dito.
Boa noite.

uivomania disse...

O que ele queria dizer era: come e cala-te. Como dantes.
Independentemente de ser rei, de ser espanhol... é um sobrenadante que persiste e se quer nata de uma elite civilizada em que tudo está bem definido; de um lado, a gente fina, educada, sofisticada, culta, herdeira... do outro, os selvagens que não sabem nem respeitam nada e que, ainda por cima, teimam em ter "onde cair mortos"! E isto, claro, enerva reis e gente assim...

velha gaiteira disse...

zangadito?

Nilson Barcelli disse...

O cerne da questão foi que o Aznar não estava presente nem tem actualmente responsabilidades governativas.
O epíteto de fascista, independentemente de ser verdadeiro ou não, foi uma grosseria política do Chavez.

"Hugo Chávez [...] não desiste de, por processos democráticos, alcançar uma sociedade mais justa para o seu povo."

O parágrafo anterior, extraído do teu texto, foi a melhor piada que disseste até hoje no teu blogue...
Agora percebo por que via ele quer eternizar-se no poder. Eu não sabia que era possível ficar indefinidamente no poder pela via democrática...
Nem que era democrático fechar canais de TV só porque falavam contra o poder instituido (ele diz que acabou a licensa... eheheheheh...).

Não ponho em causa as boas intenções do Chavez em ajudar o povo e país. Apenas discordo da forma como o faz.

Portanto, uma vez mais em desacordo...
Mas não morre ninguém por causa disso, pois eu até respeito a opinião dos outros.

Bfs, abraço.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Um texto excelente como sempre. Eu disse qualquer coisa parecido no meu post. Não tão bom nem tão perfeito mas o sentido é o mesmo.
Um abraço.

herético disse...

Nilson,

és bem vindo. com as tuas discordâncias. sabes disso.

mas também sabes "de boas intenções está o inferno cheio". por isso, o "probleminha" com Chávez não são as meras boas intenções - ele "age" e, por isso, incomoda!

Gi disse...

Chavez , foi grosseiro, o monarca creio que não fez mais do que dizer em voz alta aquilo que muitos pensavam. Sinto-me completamente á vontade a dizer isto porque não tenho afecto especial por nenhum deles.

Mais do que as palavras que profere contam os actos e por acaso não tenho gostado muito do que tenho visto ultimamente.

Eu acho que naquelas circunstâncias também o mandava calar, sabes? Se calhar ando com mau feitio , a incontinência verbal cada vez me incomoda mais.

Um beijinhos para ti, bom fim de semana

Maria Laura disse...

Na procura de blogs interessantes, vi alguns comentários teus e resolvi vir conhecer o teu espaço. Pois li artigos muito interessantes, mas não posso concordar com a tua opinião neste, em particular. Para mim, ambos foram grosseiros e sem qualquer sentido de Estado. Mais haveria que dizer, mas ainda nem conheço o teu blog como deve ser.

D. Maria e o Coelhinho disse...

faz já demasiado tempo que por aqui não passava.

e não há dúvida que continua a ser um grande prazer ler o que escreve alguém que tem os pés bem assentes e o raciocínio isento.


Coelhinho (no Purgatório)

hora tardia disse...

obrigada.



:)




______________e calo.me_________:)

OrCa disse...

Ora cá temos mais um grosseiro exemplo dos dois pesos e das duas medidas com que - todos nós! - temos a presunção de avaliar o mundo. Por mim, cá vai a minha grosseira forma de o ver:

Chávez opinou no exercício legítimo do estatuto que lhe conferiu assento naquele fórum. É questão marginal - ainda que não despicienda - estarmos de acordo ou não com o que ele disse ou com os epítetos com que mimoseou Aznar.

Tecnicamente, a opinião de Juan Carlos é indefensável. Não era da sua competência o corte da palavra ao orador; não lhe 'assenta' o tom desrespeitoso, provocatório e vulgar com que o fez; denunciou uma irritabilidade que lhe 'destapa a careca'...

No fundo, a velha postura do colonizador perante o colonizado, tiques de que velhos monarcas, outros tantos monárquicos e meia dúzia de colonizadores, reaccionários impenitentes e saudosistas, não conseguem libertar-se.

Aznar fascista? Claro que não! O 'fascio' já nem existe, dir-se-ia cinicamente. Então como chamar-lhe quando tentou culpabilizar infamemmente a ETA pelos atentados de Madrid? Manipulador? Aldrabão? Vendido a interesses alheios aos do povo? Mero parvo ou triste deslumbrado? Político pimba?

Olhem, o Chávez chamou-lhe fascista. Ele lá saberá... Em todo o caso é a sua opinião e, a bem da liberdade, há que ouvi-la. E não calá-la.

un dress disse...

.abraÇo galileiCo.



:)

Jasmim disse...

Vim desejar boa noite agradecer a visita.
Até breve

Klatuu o embuçado disse...

Dificilmente poderíamos concordar nesta matéria... em relação a D. Juan Carlos I eu não sou imparcial nem pretendo.

Mas penso que aqui a única coisa importante é não esquecer que Chávez é um ditadorzeco anacrónico que está a destruir a Venezuela.

Abraço.

velha gaiteira disse...

querido amigo, creio que estás a exagerar um pouquinho!

Abraço amigo

velha gaiteira disse...

E não acho que o D. Carlos tenha desatinado !!!

Até acho que foi oportuno! Se ele não fosse rei talvez voces não tivessem embirrado tanto com o acto dele!!!

Dsculpa querido Herético!

maria disse...

Não gosto nem de um nem de outro...
Gostaria, isso sim, que democracia e liberdade não fossem palavras vãs, gastas, moribundas...
Bjs

Anónimo disse...

Assumo-me anónimo porque sou frequentador deste blog e talvez não tivesse a coragem de vos dizer (sobretudo ao Herético a quem muito admiro) de que:

* Sou pela monarquia e tenho pena que o 1640 tivesse acontecido em Portugal.

* Gostaria imenso que a nossa unidade ibérica não se tivesse perdido nunca. Só assim faz sentido.

* Liberdade não é sinónimo de República!!!

Repito, sou pela Monarquia, e gostaria que o meu monarca fosse o Senhor D. Juan Carlos!

Teria um enorme orgulho nisso e sei que Portugal estaria muito melhor se tivesse ficado sempre unido a Espanha e que o laxismo português não seria tão evidente.

D. Maria e o Coelhinho disse...

PALMAS À GI !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!



D. MARIA (que em politicA é um nadinha diferente do coelhinho)

herético disse...

Anónimo,

este espaço procura ser um espaço de liberdade. anónimo, ou não, serás sempre bem vindo...

porém, a questão do iberismo é uma questão diferente da que abordei. a merecer um post, sem dúvida!

sobre os Bourbons, a minha preferência vai para a Rainha Sofia, que tendo presente a experiência da Grécia, se impôs ao monarca e impediu um regime de Coronéis em Espanha!

SILÊNCIO CULPADO disse...

Porque és um visitante especial, que deixa nas ideias as suas convicções e o calor humano do respeito e da amizade, deixei-te, no meu blogue, o símbolo do nosso aperto de mão.
Obrigada pela tua presença amiga

Belzebu disse...

Meu caro amigo, hoje tenho que discordar totalmente contigo! Subscrevo inteiramente o comentário do Nelson Barcelli, pois não gosto de populistas travestidos de socialistas e muito menos quando têm tiques de ditador!

Aquele abraço infernal!

bettips disse...

No "Eixo do Mal" apresentou-se uma parte bem mais explicativa do incidente. Tenho para mim que ninguém (desses)disse "fascista" nas trombas do Pinochet e deixaram-no morrer, coitadinho, em casa, entre a baixela e o coração de pedra, mais a família. Uma belíssima explicação tua (lembras-me de repente "o pêndulo" e o Umberto Eco). E gostava de saber um pouco do que diz Aznar por aí. Será como Kissinger a dar lições de democracia? E beliscar a China, não vale? E a velha mafia da ex-URSS? Incrível que a América Latina dê lições à velha Europa, raptada pelos EU para o rancho no Texas. Mestizos... O Mundo terá de viver em equilíbrio, em conversação permanente, dadas as novas forças que se degladiam. Todos os que servirem a "causa da conversação em vez da guerra" têm a minha admiração. Abraço

Oliver Pickwick disse...

Não é por acaso, prezado Herético, que me tornei um leitor regular desta página. Admira-me a sua coerência, imparcialidade e conhecimento de assuntos da América Latina. Nem aqui, no Brasil, li algo tão apropriado. E olha que eu nem morro tanto assim de amores pelo Chávez.
Quanto ao monarca, só faltou cochichar ao pé do ouvido de Zapatero: "a repreensão em público a um semi-índio, feito presidente, meu caro Zapatero, é agradável aos olhos de Deus!"
Abraços, e tenha a melhor das semanas!

P.S.: Pernas por pernas, é claro, eu também sou mais a Sharon Stone.

Bernardo Kolbl disse...

http://suckandsmile.blogspot.com/2007/11/no-solidariedade-com-os-trabalhadores.html

VIVA O REI! Eheheheh...
Abraço,

Vera disse...

Sinceramente não gosto do Chavez... Acho que a democracia (?) dele roça e muito a ditadura...
Não quer dizer que gosto do Juan Carlos...
Gosto sim de Liberdade! Democracia na verdadeira acepção da palavra.

Um beijo grande

M. disse...

Pois, tens razão, só que me parece que nenhum deles tem a pureza de pensamento e atitude que se desejaria para o verdadeiro bem comum.

alexia disse...

O teu post tem meandros minuciosos que possivelmente dão um cariz mais rebuscado ao que se passou. E o que se passou para uma simples leiga como eu foi um Chavez grosseiro no discurso e um Rei pouco diplomático resultado talvez duma falta de paciência que é própria da idade:)

Fica bem!

jrd disse...

Os Boubons e os seus Pizarros já utilizaram meios mais eficazes para mandar calar os "Indíos", arrancávam-lhes a língua.
Hoje a arrogância e a intenção são as mesmas, apenas o método é mais diplomático...

JPD disse...

Esta Cimeira Ibero-Americana acabou por ter duas notas de impacto mediático:

O espalhafato de Chavez e a reacção do Rei de Espanha;

O empenho de Cavaco Silva em anunciar as reformas de Sócrates e o potencial da economia portuguesa.

Para Espanha e, se calhar, todos os países da America do Sul, a nova de Belém foi irrelevante.

Mutatis mutandis, o que é que aconteceu de relevante na Cimeira para além de Chavez? -- Protocolo! -- Pouco. Muito pouco.

E tudo isso justifica um «Prós e Contras» esta noite?

Um abraço

Stella Nijinsky disse...

Olá H.,

Gostei do seu post e gostei da postura das pessoas que o comentaram.
Apesar de tudo o que está em causa entre os dois países e mesmo das questões pessoais e da carga ideológica de um mundo passado com reflexos no presente, Hugo Chávez optou por, ao mais alto nível, usar da má educação e da rebeldia que lhe é característica.
Acredito que lhe soube bem!
Acaso o seu país estivesse noutra posição, talvez padecesse de tentações expansionistas, como todos os outros, onde o nível do jogo é outro.
Bem há muito para dizer por aqui.
Unidade ou União Ibérica?
Sob a égide de quem?
Dos dois?
Impossível!
(somos dois, não somos?)
Boa noite a todos!

Stella

Kalinka disse...

OLÁ
num túnel escuro é onde me sinto hoje...e nos dias anteriores.
Preciso muito de me animar, tenho necessidade de ser Feliz.

AS COISAS NÃO ESTÃO NADA BEM COMIGO.
Deixo que o tempo passe por mim, mas queria-o mais solidário com o meu estado de alma.
Sei que mereço ser respeitada e, não sou. A violência doméstica de forma psicológica acompanha-me dia a dia, dói muito.
Estou impotente perante tanta agressividade.
Vivo os dias em quase total apatia, sem metas, sem motivação, como se o amanhã não passasse de uma miragem.
(desculpe o desabafo)

Um abraço.

Sobre o teu post:
Chavez foi grosseiro, Juan Carlos não fez mais do que dizer em voz alta aquilo que muitos pensavam.
Enfim...figuras tristes desta gentinha...

Maria disse...

Ó caramba, então eu passei por aqui e não comentei?
Teria sido das malvadas "word verification" que tantas vezes pedem novas palavras, e eu saio olimpicamente e nem vejo que o comment não foi publicado?
É assim, a minha opinião: Quem se julga Juan Carlos para dizer o que disse? O ainda "invasor, ocupante, etc. e tal" da américa latina?
O único a manter o sangue frio foi o Zapatero. Mas sabemos como fala o Hugo Chavez, e como se empolga quando fala. E a verdade é que o Aznar é um facho. A forma como o Rei (como pode ele falar em democracia se nunca foi a sufrágio...) falou é antes de um ocupante da américa latina. Esse tempo já foi.
Para o bem e para o mal, Chavez foi eleito.
Tal como Sócrates, para o nosso bem e para o nosso mal, também foi eleito.
Estou apenas a comparar o acto eleitoral, não as pessoas, muito menos aspolíticas....

Abraço-te
(e agora fico a ver se as letras publicam ou se me são pedidas novas letras....)
hehehe, pediram-me mais letras

Belzebu disse...

Quem convive mal com as oposições, quem não tem um comportamento digno e civilizado, quem a democracia é só um meio de se perpetuar no poder, nunca vai ser capaz de conviver com democracias alicerçadas em princípios e legitimadas democraticamente pela constituição!
Sinceramente sou tudo menos alguém de direita, mas não estou minimamente disponível para vender a alma ao diabo...apesar do nome!

Aquele abraço infernal!

Aquele abraço infernal!

Lord of Erewhon disse...

Tiveste direito a resposta com «salero», ó poeta! :)

P. S. Esse «anónimo» é ratazana conhecida... Toma lá que é para não andares p'las «monarquias»! :)

Abraço.