domingo, novembro 11, 2007

Outras Personagens - Paul Tibbets!...

O nome de Paul Tibbets, diz-vos alguma coisa? Não?!... E o brigadeiro-general Paul Warfield Tibbets Jr., da aviação norte americana, que faleceu, beatificamente, em sua casa, no passado dia 1 de Novembro, em Columbus, Ohio? Ainda não?!... E a manhã soalheira de 6 de Agosto de 1945? E Hiroshima? E a primeira bomba atómica deflagrada sobre populações indefesas? E Nagasaki três dias depois?!... E as cem mil pessoas que morreram imediatamente à explosão, diz-vos alguma coisa?!... E milhares e milhares que morreram nos dias, meses e anos seguintes?!...

Tibbets foi o escolhido justiceiro da barbárie moderna. Quarenta e seis segundos depois de ter saído do bojo do “Enola Gay” – a super fortaleza voadora assim designada – a bomba atómica (carinhosamente baptizada de “Litlle Boy”) explodiu a seiscentos e cinquenta metros do solo, com a força de trinta e cinco mil toneladas de dinamite. “Ground Zero”, assim se disse então, da cidade devastada de Hiroshima...

Paul Tibbets treinara durante meses para a missão. Como, aliás, toda a tripulação por ele escolhida. Era, por isso, piloto experiente, como se compreende. Numa manobra de grande perícia, desviou o avião da linha perpendicular do lançamento e fê-lo picar abaixo do cogumelo nuclear e, a muitos quilómetros de distância, a explosão sacudiu o super avião, como se uma bomba antiaérea tivesse deflagrado a ali ao lado...

Seis horas depois aterrou, em Tinian, ilhas Marianas, donde partira na madrugada anterior. Missão cumprida! Tibbets e toda a tripulação foram condecorados...

Para a apressar o fim da guerra – diz-se – e vergar o Japão!... Mas a besta nazi entrara em colapso e o Japão sem meios para resistir mais que escassas semanas. Hoje, está historicamente comprovado que a bomba atómica, mais que o fim da guerra e a derrota inevitável do Japão, visava conter a União Soviética.

Assim o compreenderam, antes de todos, Oppenheimer, Einstein e Fermi, os cientistas que inventaram a bomba atómica, batendo na corrida o aparelho científico nazi, que tentava também construir a bomba atómica para oferecer a Hitler...

Alguns dos cientistas, que estiveram envolvidos no projecto Manhattan, face a dimensão apocalíptica de Hiroshima e Nagasaki, cedo lamentaram a sua invenção; outros, foram mais longe e, vencida a guerra, contribuíram para por termo ao monopólio nuclear dos Estados Unidos, trabalhando a favor da União Soviética, por entenderem que assim reduziam as probabilidades de novos ataques nucleares.

E, assim, décadas de “guerra fria” fizeram com que nunca se tivesse chegado à “guerra quente” por medo da catástrofe nuclear. Equilíbrio de terror, sem dúvida, mas em qualquer caso o equilíbrio de forças nucleares fez com que a Humanidade fosse poupada à tragédia.

Paul Tibbets nunca foi dado a tais rebates de consciência. Pelo contrário, em insólito fulgor patriótico, face a dimensão apocalíptica da tragédia que provocara, disse a Truman que cumpriu a sua missão, sem quaisquer hesitações ou dúvidas. E repetiu-o vezes sem conta. Era atroz perder tantas vidas, reconhecia. Mas enquanto as guerras existirem “é melhor ganhá-las que perdê-las!...”

E receio bem que Tibbets não esteja só. E que o desejo de ganhar guerras se sobreponha à vontade de evitá-las. Hoje o equilíbrio nuclear está desfeito. Mas quem se atreve a afirmar que o Mundo está mais seguro?!...

Paul Tibbets ficará na História. Esperemos que não seja pelos piores motivos...

A propósito – depois do Iraque, o Irão diz-lhes alguma coisa?!...

26 comentários:

Maria disse...

O Mundo nunca terá estado tão inseguro, e isto tem a ver com o facto do equilíbrio nuclear ter sido desfeito... e até sabemos como.
E o nome de Enola Gay não foi dado ao avião porque a mãezinha desse senhor tinha esse nome, ou coisa parecida?
E claro, o Irão...... pois!

bettips disse...

Incrível que ainda hoje (ontem, domingo)falei neste facto! Como pode uma pessoa viver e morrer sem culpa, mesmo que transitória, dúvida? São vidas humanas... quase todas NÃO TEM NADA A VER COM GUERRAS. Todos dirão que "cumprem ordens"! Mete-me nojo, esta "normalidade" que nos impingem...e mais nem digo. Ao menos que não se passeassem pelos nossos olhos, como querubins!
Abraços

velha gaiteira disse...

Nem de propósito!!!

Reli tudo o que havia para ler na breve biografia sobre ele no Expresso !

Tiras-me o pensamento com as tuas palavras!

Bem Hajas!

Mel de Carvalho,www.noitedemel.blogs.sapo.pt disse...

Digamos que se nada nos dissesse, passaria por certo a dizer. A crónica é subtil e acutilante.
Tem a capacidade de nos questionar sobre os valores de cada um e sobre os nossos papéis sociais.

Um abraço e os votos de que este "Relógio de Pêndulo" jamais fique à mercê de um tempo não questionável.

Mel

un dress disse...

mas que fulgor patriótico então...!

triste e tão duvidoso!!

Paul Tibbets, não sendo ele mesmo um bode expiatório...pra mim é um paradigma difícil analisar sem condenar muito.

e falo ainda desses cumprimentos do dever quotidianos, aqui ao lado, onde muitos se escudam pra se demitirem de ser humanos...


~

isabel mendes ferreira disse...

Muito.



assim como a Síria...


____________________.


beijjs.

Vieira Calado disse...

Quanto ao tipo de deixar cair a bomba, com certeza que não foi escolhido por acaso.

Licínia Quitério disse...

Uma jovem serviu-me uma bica.
Disse-me ser soldado.
Perguntei-lhe: Se a mandarem matar, mata?
Claro, respondeu.
E nunca vai ter dúvidas sobre quem são os maus?
Nunca, respondeu.

A bica soube-me a fel.

A História dos homens continua.

Graça Pires disse...

Questionamo-nos. Ficamos sem fôlego e sem palavras.
Um abraço.

JPD disse...

A II G.Guerra só começou a ser Mundial quando o Japão interveio para desfazer a Esquadra da Marinha de Guerra Norte Americana em Pearl Harbour.
Até aí, tratava-se de um conflito europeu onde se degladiavam a Alemanha apoiada pela Italia e os Aliados, com preponderância da Inglaterra e da União Sovietica.

É claro que num conflito daquela envergadura, respeitar as Convenções de Genebra era uma utopia.

NADA JUSTIFICA HIROSHIMA E NAGASAKI
Completamente de acordo.

Porém, no plano estritamente militar, que fazer quando se está perante adversários que não hesitarao um segundo em levar por diante genocídios e mortande que escandalosamente são reconvertidos em meras estatísticas?

O Japão parava?
A URSS era ajuda suficiente para travar Hitler, sem a intervenção americana?

A Humanidade estará sempre confrontada com dilemas desta natureza: se os políticos não conseguem evitar conflitos, quem poderá proteger civis senão um exército capaz de agir sobre o adversário?
Para preservar a Paz tem-se mitas vezes de lutar.
Muito antes de Herochima, ja o massacre sobre os judeus decorria. Depois do final da guerra, alguem no Ocidente se importou com a continuaçao do extermínio de judeus na URSS; foi possível imperdir o genocídio de Pol Pot?

Um abraço peloteu excelente texto.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Excelente texto bom para avivar consciências e extremamente didáctico. É bom que todos tenhamos presente tudo o que aqui relatas.

M. disse...

Fazes bem em lembrar. Por mim falo, para que eu não encoste ao lado, esquecida.

Peter disse...

"Hoje, está historicamente comprovado que a bomba atómica, mais que o fim da guerra e a derrota inevitável do Japão, visava conter a União Soviética."

Certo e sem facciosismos políticos.
Fermi teria depois poupado tempo e esforços à então União Soviética na busca do poder nuclear.

Como é que Tibbets conseguiu dormir durante estes anos todos?

Peter disse...

Peço desculpa em me intrometer, mas gostaria de responder a Vieira Calado, que pergunta:

"Quanto ao tipo de deixar cair a bomba, com certeza que não foi escolhido por acaso."

Não, não foi escolhido por acaso. Quando a deflagração da bomba se dá a uma determinada altitude sobre o alvo, o que foi o caso, os efeitos devastadores são sempre superiores.

uivomania disse...

Gostava de acreditar no que a bettips diz sobre as pessoas não terem nada a ver com guerras...
Infelizmente, a maior parte das vezes se verifica o que a licínia quitério ilustrou: demasiadas pessoas não hesitam em cumprir ordens para matar e não têm dúvidas sobre quem são os maus! ...Sendo que elas, são os bons.

Maria P. disse...

Como sempre o post certo no momento certo, para que nada seja esquecido. É importante!

P.S. Impressionante o relato da Licínia.

Beijinho.

hfm disse...

E depois do Irão?

Sophiamar disse...

A blogosfera mexe. Está provado, cada vez mais, de que aqui se aprende e recorda. Saber isto, sabia-o.Mas recordá-lo é sempre bom porque a memória dos homens é curta.
Excelente post!

Beijinhos

NÓMADA disse...

Este é um texto do melhor que tenho lido. As consciências têm que despertar.

NINHO DE CUCO disse...

Vivemos em sociedades de risco e não nos damos conta. Vivemos em mundos dominados pela guerra e passamos por cima disso. É preciso abanar, amigo, é preciso abanar!
És formidável!

Miosotis disse...

Chegar aqui é poisar na mão que nos aponta o mundo... e como o mundo continua intranquilo!!

Os Homens não se poupam na destruição dos outros Homens :(

Sim... são países que nos fazem tremer e temer o que podem desencadear!

Sensibilizada pelo olhar sempre afectuoso poisado em 'fragmentos'!
Um beijo

Anónimo disse...

.....(eu já não me justifico)....


mesmo.



(extra.post)



bom dia.


:)



/piano.

velha gaiteira disse...

as minhas desculpas! percebes, não é verdade?

Nilson Barcelli disse...

Hiroxima e Nagasaki foram os actos mais vergonhosos dos americanos no século XX.
Neste, já têm 2 ou 3 nomeações...

Excelente post, abraço.

Klatuu o embuçado disse...

Mas sabes que ele gostava de passear pelo jardim... gostava de flores... Bom rapazito... e era Americano.

Abraço!

OrCa disse...

Comento apenas através do oportuno comentário de un dress: "falo ainda desses cumprimentos do dever quotidianos, aqui ao lado, onde muitos se escudam para se demitirem de ser humanos".

É, para mim, apanágio dos fracos o cego cumprimento do 'dever', com que se ilude a desresponsabilização e um cínico comodismo.

E a prova é que sem homens que se apresentem como a carne para canhão das guerras, as guerras não teriam forma de existir. Claro que isso implicaria consciências fortes... Exactamente aquelas que os mandantes das guerras não permitem que se formem, a não ser para serviço próprio.

Anarquia? Não. Mais utopia... Mas é também entre o 'não', oportuno e de combate, e o sonho que nos aprontamos para o dia de amanhã.

E não sei se este pobre velho, agora finado no rigor que a Natureza nos vai impondo, conservará, na tal História, ainda que seja a dos 'vencedores', um lugar invejável

Um grande abraço.