segunda-feira, novembro 19, 2007

Precários e... mal pagos!

Sabiam que do total dos 5 milhões e 200 mil portugueses no activo mais de um terço tem vínculos de trabalho precário?!... Porventura, imaginam essa angústia? É o ganha-pão de cada um preso pelo ténue fio da imprevisibilidade. Em nome da saúde económica das empresas - dir-me-ão alguns. A desvalorização social do trabalho, enquanto elemento de autonomia individual e de dignidade humana - respondo-lhes!... A servidão dos tempos modernos – trabalho com “muitos deveres e poucos direitos”... Uma questão de cidadania, portanto!...

O facto, porém, de um terço dos postos de trabalho terem um carácter precário permite também leitura de que grande parte da nossa actividade económica não gera grande valor acrescentado e, por isso, dispensa a qualificação profissional dos trabalhadores. O que naturalmente não se ajusta ao objectivo proclamado do Governo Sócrates que se proclama apostado numa estratégia de qualificação profissional e de “novas oportunidades”. Nem condiz com as parangonas do “choque tecnológico”...

Esta realidade é tanto mais preocupante quanto é certo que o relatório anual da Proudfoot Consulting, - um estudo de análise independente Universidade de Warwick sobre a produtividade - acrescenta motivos de preocupação sobre ao desempenho das empresas portuguesas.

O que célebre relatório vem dizer?!... Que as empresas privadas portuguesas desperdiçam 47 dias de trabalho por ano, que representam 5,5 por cento no produto interno bruto, correspondente ao prejuízo de 7626 milhões de euros para a economia portuguesa.

Claro que os trabalhadores têm as costas largas. E não faltam governantes e “inspirados” comentadores a culpar o mundo do trabalho pela fraca produtividade da economia portuguesa. E, em verdade, face à precariedade das relações laborais quem poderia estranhar um menor empenho?!... De facto, à primeira vista, poder-se-ia deduzir que o desperdício estaria intimamente relacionado com o carácter precário de um terço das relações laborais...

Porém, não é nada disso que o relatório anual da Proudfoot Consulting afirma. Na realidade, segundo o relatório, a fraca motivação dos trabalhadores é apenas o terceiro factor que contribui para o chamado trabalho não produtivo. Os factores decisivos, causadores do desperdício 7626 milhões de euros para a economia portuguesa, são precisamente a falta de planeamento e de controlo dos dirigentes e a impreparação das chefias.

Se os números do trabalho precário são lastimáveis do ponto de vista social, os números do trabalho improdutivo constituem verdadeiro libelo acusatório aos nossos ilustres empresários, tão lestos em parasitar o Estado ou na exploração do trabalho, (ou a arrotar postas de pescada) mas tão pouco diligentes nas tarefas que deles se exigem.

A falta de planeamento e controlo por parte de quem dirige as empresas é responsável por 40 por cento do desperdício na economia portuguesa. E outros 40 por cento do desperdício são da responsabilidade das chamadas chefias intermédias, com falhas de formação necessária para dirigirem trabalhadores e para utilizar os métodos mais eficazes para poderem alcançar os objectivos.

Claro que nada disto nos é estranho. Toda a gente tem consciência que os trabalhadores portugueses são produtivos “lá fora”. Porque não serão “cá dentro”?!...

E aqui chegamos. Quem, porém, nos fala disto?!... Será que célebre relatório da Proudfoot Consulting é lido em S. Bento? Ou em Belém? Deixem-me ser um pouco perverso - será que um dia veremos uns “Prós e Contras” sobre o tema?!...

31 comentários:

Frioleiras disse...

(passa pelo meu canto...)

Maria disse...

Claro que não vemos...
Aliás, há uns tempos esteve lá o Carvalho da Silva e representantes de entidades patronais onde foi afirmado exactamente isso: a falta de produtividade neste país deve-se à má organização do planeamento e à falta de preparação das chefias.....
Mas parece que o programa teve efeito zero na comunicação social... e nos governantes... e no patronato....

Abraço

Maria Laura disse...

Provocaçãozinha, essa da última frase... :))
Desta vez, aplaudo e assino por baixo. A minha experiência é a de que, muitas vezes, os trabalhadores precários até estão entre os mais produtivos. Tentam manter o seu ganha-pão. Na maoaiorparte dos casos não lhes serve de nada e a mais valia que podia ser gerada pelo que aprenderam é deitada à rua. Mas, na verdade, aquilo contra o que parece quase impossível lutar é a falta de preparação das chefias. Não exste planeamento, estratégia, nada. É só mesmo para o lucrozito possivel...
Enfim, hoje já falei mais. E falta só dizer que gostei do teu artigo e que o teu blog me agrada bastante (Chávez à parte, mas o nosso PM lá está hoje... :))

un dress disse...

penso que vivemos novas escravaturas, hoje.

pela desvalorização social do trabalho enquanto matéria digna com direitos e deveres...

e porque a profunda recomposição dos universos laborais é incontornável e está, precisamente, a atravessar um período de grande "desconcerto" generalizado...


grande questão esta...que vai devorando a qualidade de vida e a vida de tantos de nós, entretanto...!





beijO

C Valente disse...

a frase mais que feita e tantas vezes ouvida até acaba por convencer alguns. Esta só serve para justificar o injustificavel, a imcompetencia de muitos governantes e empresários
Saudações amigas

Maria P. disse...

"a falta de planeamento e de controlo dos dirigentes e a impreparação das chefias."

Creio que esta frase diz realmente tudo.
E eco na comunicação social, não me parece que vá haver, nem por outro becos, não convém...

Beijinho e boa noite*

Sophiamar disse...

Se somos bons lá fora e o não somos cá dentro é tudo uma questão de "condução".
Afinal que posso dizer que tu não tenhas dito e muito melhor do que eu? Continua amigo!Não desistas de dar umas boas " penduladas".
Gosto muito!
Beijinhosss

Licínia Quitério disse...

A angústia instalada, a minar, a roer o nosso direito de ser gente. A mediocridade como condição de sucesso e a precariedade como um fantasma sobre as nossas cabeças, as nossas mãos.
Um povo cercado é o que somos. De novo.

Abraço.

M. disse...

Muito bem!

isabel mendes ferreira disse...

claro qe "isso" seria Perverso.




bom dia.

C Valente disse...

è umprazer por aqui passar, e obrigado pela visita.
Saudações amigas

Graça Pires disse...

Trabalho precário: um fantasma, um cerco, uma humilhação, às vezes.

Entre linhas... disse...

Trabalho precário é um fuga a todo tipo de impostos e outros factores sociais,não é mais do que uma humilhaçãoaos direitos humanos,é uma servidão constante de escravidão.
Bjs Zita

manhã disse...

continuo a achar que a falta de rendimento se deve por um lado à corrupção grande e pequena, por outro à falta de visão e de conhecimentos de gestão dos dirigentes e governantes, não aos trabalhadores.

Anónimo disse...

tb.
será do tempo?


:)





________________


coisas.

SILÊNCIO CULPADO disse...

És dos meus mais queridos companheiros neste espaço da blogosfera e, por isso, quero comemorar o dia de hoje contigo, de uma forma especial.
Hoje é o dia do "Olá". O dia em que internacionalmente se comemora o world hello day, num grito universal de unidade em prol da paz e da justiça. Quando te digo olá eu quero dizer tudo. Mesmo tudo. Mas sobretudo quero caminhar contigo em busca de pessoas que queiram caminhar.
Olá!

Um Ar De... disse...

Não posso concordar mais com o conteúdo deste post.
E de outros... Por isso, lembrei-me de o colocar nos meus favoritos. Mas antes, será que posso?

hfm disse...

Em cheio essa dos Prós e Contras!

samuel disse...

Essa tecla de culpar os trabalhadores, precários ou não, pela baixa produtividade, está mais que partida!
A incompetência e ignorância por vezes bovina, das chefias e dos empresários em geral já não pode ser mascarada com desculpas mentirosas.

Gostei de encontrar este blog. Irei voltando.

bettips disse...

(O menino põe-me nervosa com essa do "Direito"). O meu caro Herético - e portanto precário na sociedade judaico-cristã em que vivemos, eh eh eh - alinha tudo o que quero ler: claro, sucinto, com pés e cabeça. Dispenso editoriais ao passar aqui, aliás dispenso muitas coisas porque aqui escolho os canais Limpos que quero!
Estou 100% em/de acordo, até com os amigos/argumentos que já botaram palavra. Falta-me acrescentar uma coisa que o meu velho patrão (todos os defeitos deles e algumas qualidades)dizia: a 1ª geração junta, a 2ª enriquece, a 3ª empobrece! Tal qual.
Ah... e as "chefias" das famílias? A maior parte delas (sei porque o digo e lidei com muitos empresários) essas, improdutivas, mal preparadas mas sempre inchadas do apelido, que não caberiam em lado nenhum...a não ser na "casota" dos pais! Produtividade? Em almoços, gasolinas e carros, passeios "lá fora" e cá dentro, por conta da casa, malas LV para levar "os dossiers", mais PCs claro, presentes despesas de representação... Já sem falar na política palaciana que por aí anda. E assim me vou, sem produtividade que se saiba, dormindo à sombra da figueira brava. Abraços

Peter disse...

Desafio Literário

O Charles Quint e o Tiago do "Notas Soltas, Ideias Tontas" lançaram-nos um desafio:
Escrever a 5a. linha da página 161 do livro que estamos a ler ou lemos ultimamente.
Dando seguimento à iniciativa, segue o convite a alguns que cremos ainda não terem sido desafiados:

António
Augusto
Belzebu
Betty
Herético
Lúcia
Maria Papoila
Marta
Paula
Silêncio Culpado

PintoRibeiro disse...

A falar de mim??? Lololol...
A voltar, devagar.
Um abraço.

linfoma_a-escrota disse...

de certeza que tens outra face também... toda a gente a tem... tou farto de te convidar... junta-te a nós...





WWW.MOTORATASDEMARTE.BLOGSPOT.COM

damularussa disse...

Além de perverso, creio que improvável. Mas às vezes há milagres....(milagres? que parvoice a minha, acorda damula...acorda!)

Um abraço

Ps: Excelente texto.

Peter disse...

"Segundo o relatório anual da Proudfoot Consulting a fraca motivação dos trabalhadores é apenas o terceiro factor que contribui para o chamado trabalho não produtivo.
A falta de planeamento e controlo por parte de quem dirige as empresas é responsável por 40 por cento do desperdício na economia portuguesa. E outros 40 por cento do desperdício são da responsabilidade das chamadas chefias intermédias, com falhas de formação necessária para dirigirem trabalhadores e para utilizar os métodos mais eficazes para poderem alcançar os objectivos."

Será que o referido relatório é do conhecimento dos nossos governantes?

Frioleiras disse...

(fiquei-me ...pelo Frioleiras
... sinto-me mais "em casa"...

entretanto, vou e venho

de lá e para lá...)

Gi disse...

Trabalho precário, os novos escravos do séc. XXI, essse é que é o verdadeiro "choque", deixemos o tecnológico de lado!
Subscrevo tudo aquilo que dizes, acrescentava ainda à precaridade a sobrecarga horária . Como esperam que gente esgotada também seja produtiva? Sabes que num estudo recente se apurou que só 5% dos portugueses declararam ter recebido formação profissional? Quando se começa a olar paraestes valores nada se estranha ... nem que as mesmas pessoas que cá não produzem noutros países sejam dados como modelos a seguir muitas das vezes...

Um beijinho

Klatuu o embuçado disse...

Tu és mesmo do contra, pá! Então não acreditas na governação socialista?!?!? :)

Abraço.

Nilson Barcelli disse...

Não sei onde foste buscar que mais de 1/3 dos trabalhadores no activo estão com um vínculo precário.
Acho muito, mas mesmo muito. A sensação que tenho é que devem ser muitos menos.
De qualquer modo, é bom que nos habituemos a lidar com isso, pois isso de arranjar um trabalho para toda a vida está a acabar.
Mas não concordo com isso, pois a estabilidade é importante para o equilíbrio psicológico de quem trabalha e este para a produtividade.

Concordo integralmente com a 2ª parte do post.
O grande problema do país é a falta de quadros, desde a 1ª linha de chefia até aos administradores.
Somos fraquinhos, medíocres, com tendência para a prepotência, etc.
Quando falo, por exemplo, numa autoridade alicerçada numa gestão democrática, onde a opinião das partes interessadas (os trabalhadores, por exº) deve ser tida em conta, quando falo numa verdadeira delegação de poder de decisão ao mais baixo nível hierárquico possível, etc, riem-se de mim. Então dou o exemplo da Microsoft, onde a capacidade de liderança é que conta para escolher as chefias e os gestores (e não a filiação partidária), onde liderar não é mandar, mas sim ter a capacidade de envolver e motivar os colaboradores.
Desconversam...
Em Portugal não há massa crítica suficiente para tirar o país dos últimos lugares do ranking europeu a curto/médio prazo.

Por tudo isto, vamos continuar assim por muitos anos (pelo menos 10), e só ficará melhor um bocadinho se tudo estiver bem por todo o mundo, com o PIB a crescer. Mas será sol de pouca dura, pois não temos tecido empresarial que aguente a mais pequena crise...

Mas, por outro lado, atendendo a que a felicidade varia na razão inversa da riqueza, já nem sei o que será melhor...

Bfs, abraço.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Os compadrios e os jobs for de boys, ou ditos tachos, são autênticos tampões à produtividade, criatividade e tudo o mais que obsta ao relançamento da economia. Revelam-se redes reforçadas de concluios e incompetências que incentivam à contestação ao desrespeito e ao medo.
Por outro lado os trabalhadores mal pagos e mal reconhecidos dificilmente têm condições para, por si sós, darem o seu melhor.

OrCa disse...

Excelente artigo.

Não baralhando conceitos e atendo-me, apenas, ao da precaridade, devo dizer que, se houvesse vergonha e expiação de culpas por parte dos nossos governantes, tal conceito não poderia ter sequer aplicação prática.

Na verdade, a precaridade, além de ilegítima, é ilegal e apenas se verifica com a conivência e cumplicidade dos sucessivos governos que, eles próprios, usam e abusam do conceito e da prática em tudo quanto é funcionalismo público.

Depois, como "os bons exemplos vêem de cima", é um fartar vilanagem.

Lamentável é que estas flores neo-liberais em meia-dúzia de anos de poder se arroguem o direito de varrer conquistas que custaram tantos anos de lutas e tantas vidas. Há aqui, também, grandes culpas de quem, calando, consente.

Irrita-me, entretanto, supinamente a hipocrisia dos que advogam a precaridade como panaceia contra a "concorrência externa", ao mesmo tempo que não tomam medidas contra o incivilizado que é a mão de obra ao rés da escravidão nas chamadas "economias emergentes", como a China ou a Índia, que propicia a inundação de produtos ao preço da uva mijona, afogando as pequenas e médias empresas nacionais.

Medidas proteccionistas? Nem pensar! Os gajos são tantos!...

Sic transit gloria mundi...

Um abraço.