segunda-feira, novembro 26, 2007

Revista de Imprensa...

"Meia dúzia de lavradores que comercializam directamente os seus produtos e que sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes superfícies vai agora ser eliminada sumariamente.

Os proprietários de restaurantes caseiros que sobram, e vivem no mesmo prédio em que trabalham, preparam-se, depois da chegada da fastfood, para fechar portas e mudar de vida.

Os cozinheiros que faziam no domicílio pratos e “petiscos”, a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a toneladas de batatas fritas e de gordura reciclada, podem rezar as últimas orações.
(...)
Os artesãos que comercializam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados. A solução final vem aí. Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste velho mundo, sobrará...

Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos e matérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda a gente está condenado.

Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têm estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo; organizam-se no governo nacional, sob tutela carismática do ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho;

e agem através pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas certamente a mais amada pelas multinacionais da gordura, pelo cartel da ração e pelos impérios do açúcar.
(...)
Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico.
(...)
Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtude fazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos.

Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem, ao lado, a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde, coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido.

Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido.

Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido.
(...)
É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcas especiais e com fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos.

Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há 30 anos? Proibido.
(...)
Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem de haver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto.
(...)
No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com uma etiqueta “produto não válido”, mesmo que vazia.

Cada vez que se corta uma fatia de fiambre ou de queijo para uma sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora dessa operação.

Não se pode guardar pão para, ao fim de vários dias, fazer torradas ou açorda.

Aproveitar outras sobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido.

Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de plástico, papel ou tecido.
(...)
Usar colheres de pau para cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos? Proibido. Tem de ser de plástico ou de aço.

Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados das mesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta com a data e a hora do corte.
(...)
Tudo isto, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente.

E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois claro!...”


António Barreto – in “Público” de 25.11.07

Perante isto que fazer?!... Matem-se! Ou revoltem-se!...

30 comentários:

uivomania disse...

A mim, francamente, o António Barreto, nunca me enganou.
...Já o mesmo não posso dizer do Sócrates, do Durão, do Cavaco e de uma carrada de gente com nome, que me tem tirado o pelo para pôr a manta às costas.
Quando o António Barreto fala, eu gosto de ouvir, ainda que nem sempre esteja de acordo.
...Já o mesmo não posso dizer dos outros.
Contudo, desta vez, o António Barreto esqueceu o enorme impacto da bactéria!...(?!)
...Há que, esterilizar, quer dizer: tornar inútil, incapaz...
Depois, o António Barreto, referindo-se a exércitos de liquidação, afirma que têm estado- maior em Bruxelas... eu, francamente, acho que eles a existirem, são um estado sem sítio e, não fora a malta querer é festa... a música era outra e o António Barreto não teria necessidade...

A Vilhena disse...

Ainda se lembram de quando, muito preocupada com o nosso bem estar e a nossa boa forma física, a Dinamarca propôs a pasteurização das massas queijeiras?
Santa ingenuidade...até faz mal!!!

anónimo disse...

e quem vai cumprir?
também é proibido ter os carros em cima dos passeios e estes estão cheios deles...

Licínia Quitério disse...

É assim... Tudo muito asséptico, bacteriologicamente morto, muitas tampinhas de plástico para juntar e ajudar os carenciados, muitas sobras de pão para o lixo, muita perversidade em tudo isto.
E nós de joelhos. E tantos louvando "as boas práticas".

Que tenhas um bom dia, com algumas bactérias amigas:):)

Maria Laura disse...

O meu pensamento sobre este assunto é (bastante) ambivalente. À maneira do António Barreto também eu tenho pena de ver desaparecer muitas tradições não bacteriologicamente puras mas muito ao nosso jeito e sabor. Acho, no entanto, que muita coisa teria forçosamente que ser mudada, independentemente das regras UE. E todos aqueles que sempre reclamaram porque “isto é tudo uma porcaria e não há fiscalização que olhe para isto…” não devemos criticar liminarmente a ASAE por fazer o seu trabalho. Talvez as prioridades não sejam as correctas mas isso já vem um pouco mais de cima. Não estou a defender a ASAE, defendo qualquer serviço público que cumpra a sua missão. Por muito que não gostemos, a da ASAE é fiscalizar. Infelizmente, nós não cumprimos leis. É necessário que nos obriguem.
Quanto às normas europeias, passem os exageros e a falta de adaptação às realidades e gostos de cada país, o aumento de ameaças graves à saúde pública e a pressão que isso gera tem levado a uma quantidade de normas que mudam os hábitos de muitos países membros (somos 27, agora). Talvez haja falta de capacidade de defesa daquilo que é defensável, dos nossos representantes nas instâncias europeias. Provavelmente poderíamos ter conseguido fazer entender a especificidade de alguns produtos. Mas tudo isso não impediria a mudança obrigatória de uma série de regras.
Tirando isto, claro que há exageros e coisas muito ridículas e gostaria muito de ler um dos teus sarcásticos textos sobre isto. Não duvido que gostaria muito mais.

M. disse...

Realmente, o mundo está a enlouquecer de exagero. E provavelmente a nossa saúde vai ficar contaminada por tanto exagero asséptico.

un dress disse...

andamos cada vez mais cheios de máscaras.

elas mesmas escondidas em valores e símbolos aparentemente intocáveis...

e às vezes é tão difícil resistir...!!




beijO

Maria disse...

Tudo o que é exagerado tresanda...
... e se começassem por "desinfectar" o governo?

Um abraço

herético disse...

Maria Laura,

grato pelo teu comentário. julgo que colocaste os pontos nos devidos ii.

o que está em causa, porém, é mais do que a actuação da ASAE e dos seus trabalhadores, cuja actividade e actuação(apesar do aparato) se reconhecem como insdispensáveis.

o que se contesta é a pulsão uniformizadora "do estado-maior em Bruxelas" e a tendência muito nacional de se ser mais "papista que o Papa" ...

Graça Pires disse...

E eu que gosto tanto de azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos.
É um exagero de facto. Penso que todos os países têm uma realidade própria. Não pode ser tudo normalizado de igual modo. Haja bom senso! Um abraço.

Frioleiras disse...

Tens toda a razão!

Mas, há duas coisas que eu concordo, e cumpro
absolutamente..........

com a divisão (quase maníaca, pela minha parte) do lixo.......:

o não se fumar em recintos fechados, como pequenos cafés.
Já fui fumadora (cheguei a fumar 3 maços...) mas agora acho que em lugares onde há pessoas que não suportam tabaco, que o tabaco as incomoda ... então não se deve fumar.

Absolutamente,
nestas 2 coisas sou intransigente!

peço desculpa...

bjnhs

Peter disse...

Beber a bica sem ser em chávena?
Beber cerveja por copos de plástico? ARGH
Etc, etc, etc, ....

HAJA BOM SENSO!!!!!!!!!

Isabel disse...

Passei para te deixar um enorme beijo e te dizer: voltei.
Graças a todos vós vou tentar dar a volta por cima e voltar a ser EU.

Bjnh

bettips disse...

De acordo. É demais! Vi há pouco umas fotos da Sicília, mercados. Será que se metem lá com eles ou terão medo dos Corleone? O tal povo resiste, os artesãos da terra. Há movimentos que os enquadram, haja quem os apoie. Leio e releio o arauto erudito.
...mas depois, eu que até acho o Barreto tão bom "monarca" do seu pequeno e impoluto reino, lembro-me duns tempos dele, duns "camaradas e companheiros", agricultura e tal...e pimba! Lá fico preconceituosa e desconfiada. Ele não conhece por lá Bx uns amigos do peito a quem pudesse falar, ou dar uma confereência, ou uma petição? O diabo é que eles lançam-nos num caos como "velhos do restelo". Ó AB nós só votamos, viu? Não sentamos na cadeirinha do poder nem temos hissope...
Lá fui eu, lançada. Abçs

myself disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
São disse...

A Inquisiçao também queimava os corpos por bem e agora queima vidas por bem!
É assim!!
Saudações.

jrd disse...

Tenho algumas dúvidas sobre as preocupações de AB com os "pequenos" artesãos, até porque me recordo que ele foi homem de "muito alimento" nomeadamente no que dizia respeito à cozinha alentejana...
Sobre o papel da ASAE, em relação ao qual admito a existência de algum exagero, convém ter presente que os mixordeiros existem, são contumazes, e todos os dias vêm à rede.
Com o devido respeito, acho que só não entende quem é bom (ou mau) de boca...

SILÊNCIO CULPADO disse...

Amigo, a revolta anima-me a um longo comentário. Sou uma defensora da tradição, dos ambientes familiares, da cozinha tradicional, das pessoas simples que nos recebem com afecto. Os ventos do consumo de da globalização estão a varrer tudo e a arrancar-nos a alma para dela também tirarem lucro. O Natal já não é a festa da família mas a festa do consumo. As pessoas já não gostam do Natal pela obrigação de comprarem o que não podem como se um Natal sem consumo já não possa ser amado. Temos um milhão de pessoas com depressão que, nalguns casos terminam em suicidio, temso um país devassado pelo individualismo e quebra de laços solidários.
Tudo isto me angústia.
Hoje tenho um post no Notas Soltas & Ideias Tontas (http://notassoltasideiastontas.blogspot.com) em que fiz um apanhado de dados oficiais sobre os "cancros" que o país padece e que mostram, de forma nua e crua, as realidades com que nos confrontamos.
Se tiveres um pouquito de tempo gostaria de ouvir a tua opinião sobre temas tão gritantes quanto aqueles.
Um abraço solidário

herético disse...

JRD

também eu tenho reservas quanto às intenções do AB, sobretudo, quanto aos "artesãos", alentejanos ou não.

mas o texto é "herético" q.b. e está bem escrito!

quanto a boa boca (ou má) confesso-te que "cômo com as mãos".

... e tenho mais olhos que barriga.

bem vindo. abraços

Gi disse...

AB é um dos colunistas que aprecio e que leio quando posso. Esta crónica li-a e , tal como ele , também a mim me faz pena ver desaparecer muitas das antigas tradições. A ressalva colocada pena Ana lLaurafoi muito oportuna e convém não esquecer, assim como não convém esquecer que muitos destes pequenos negócios , geridos pelas famílias, fazem parte de pequenos cancros que nos vão minando . Sabes quantos deles pagam impostos? Tu pagas ... eu pago ... mas muitos deles não ! E depois não venham criticar os ciganos e a feira do relógio. Não pdoe haver dois pesos e duas medidas ! Isto faz parte daquilo a que se chama economia paralela. É muito chato eu sei, tenho muita pena, pois tenho... mas ela existe e enquanto existir nós ficamos na cauda da europa e a ver os outros a passar.


Desculpa, hoje não estou grande coisa e quando assim estou vejo sempre o lado mais neghro das coisas. Pode ser que amanhã esteja melhor.

Um beijinho para ti

António Melenas disse...

"In medio virtus", diziam os romanos. "Nem tanto ao mar, nem tanto á terra" diz a sabedoria popular. Só que este senhores da Europa eos seus "Yes men" não t~em a sabedoria de uns nen de outros. mas a poeira vai pousar, tenhamos a certeza.
Um abraço

Sophiamar disse...

é tempo de mudança...para nosso bem. Ou para nosso mal.
Beijinhossss

hfm disse...

Na Linha de Cabotagem há qualquer coisa para si.

Sobre este assunto direi apenas que num país sem força anímica para ter uma verdadeira opinião pública eles podem fazer tudo.

Vlad disse...

Demora muito... a Revolução?

;)

Um abraço

jorge vicente disse...

O António Barreto é das pessoas mais esclarecidas deste país. Foi por isso que abandonou a política

Um abraço
Jorge Vicente

isabel mendes ferreira disse...

nem isso. a revolta.



_________________parabéns!

PoesiaMGD disse...

Bem morremos à fome! Exageros que chegam a ser ridículos!Gostei da "resenha"!
Um abraço

manhã disse...

é verdade, as tascas têm os dias contados e é pena! a ideia seria remodelar não perdendo a qualidade dos petiscos mas seguindo as regras de higiene e condições decretadas, mas sei que para muitos isso será falência. Espero que o joaquim das conquilhas nã se vá!

herético disse...

Manhã,

o "Joaquim" gosta muito de conquilhas. por isso não as irá largar...

... enfim, digo eu que não conheço o gajo!

toca do túlio disse...

devido a interesses que cada vez são mais claros, caminhamos para insípido, incolor e inodoro...

No dia 24 de Novembro de 2007, foi publicada no semanário Expresso, uma entrevista do Inspector Geral da Administração Interna, Dr. António Clemente de Lima, anunciada na capa com o título “Há incompetência a mais na polícia”, a qual teve um efeito bombástico transversal, pondo o país em sobressalto.