quarta-feira, maio 14, 2008

Ballet no camarote...

Suzette amava pequeno-burguesmente o ballet...

Sobre o estirador, Margot Fontaine e Ruldolf Neuryev, em grande cartaz e grande estilo, alimentavam a fantasia quotidiana da doce Suzette. E se o mito “fala”, como um tal Rolland Barthes teimou em afirmar, então o ballet constituía a pulsão mas secreta, a fantasia mais terna, o sonho mais colorido da doce Suzette! ...

Pela undécima vez, Suzette se apropriou do rapaz para, com olhos em alvo e coração devoto, lhe relatar o espectáculo que vira, recentemente, em Paris, terminando sempre com a sacramental promessa: - “um dia levo-te ao ballet!...”

A doce Suzette era esguia e fina como vime, pronta a partir-se ao primeiro sopro. Vista de trás a doce Suzette era apetecível. Formas, apesar de tudo, bem delineadas. Mas vista de frente, a Suzette - meu Deus! - a doce Suzette não tinha outro encanto que não fosse a graça de ser mulher...

Debaixo do camiseiro florido apenas uma breve sugestão de seios – Suzette era aquilo que se chamávamos “uma tábua de engomar"!... E a minha ternura pela doce Suzette impede-me de vos descrever o rosto - algo de mitológico, entre uma equídea figura e uma ave de rapina. Imaginem!...

O rapaz, porém, tivera sorte. Uma estrutura envidraçada, separava os “criativos” dos “gráficos” da agência de publicidade em que ambos trabalhavam, de forma que ele, da sua secretária, estava permanente em linha com a parte de trás de Suzette, balançando-se, debruçada, perna à frente perna atrás, no trabalho minucioso do estirador (ainda não haviam computadores). E, lá no alto, as figuras tutelares de Margot Fontaine e Ruldolf Neuryev!´...

(Aqui vos confesso que o rapaz, na brisa de seu desejo, por mais que uma vez se soltou do seu trabalho de “copywriter” para desfrutar, secretamente, a elegante ondulação daquele corpo...)

Um dia, inesperadamente, a doce Suzette, numa euforia desusada, intimou-o: “no Sábado, vamos ao ballet! e não admito desculpas!...”

Foram.

Sobrava espaço no elegante camarote do teatro S. Luís. (Soube mais tarde o rapaz que assinatura era de um tio de Suzette, quadro superior no SNI)!... Mas que importava no momento?!... A Suzette estava eufórica e até o rapaz, usualmente tão comedido, se soltava em sorrisos, agradecimentos e palavras elogiosas, perante a feerie da matinée...

Enfim, o bruuuá do momento chegou!... O espectáculo ia começar. As luzes, lentamente, diminuíam de intensidade!... Aos primeiros acordes da orquestra, as mãos, discretas primeiro, ousadas depois, tomaram conta do doce corpo da doce Suzette. O arfar melodioso dos beijos de Suzette, prolongava as tonalidades da música de Tchaikovsky...

Então, debruçada sobre o espaldar, no enlevo do bailado, em delírio estético-erótico, a doce Suzette oferecia-se, erguendo, até à cintura, o vestido de cambraia vermelha. Que o rapaz desfrutou, como fauno sequioso vindo dos confins da música. E, assim, suspensos sobre o infinito, fundindo-se na vibração da música e da dança, se amaram e, ao menos dessa vez, se redimiram da “alienação”da publicidade.

Confesso-vos, que nunca houve "Quebra-Nozes" mais apreciado!...
.................................................................................................................

Passados anos, numa das últimas vezes que o rapaz foi ao S. Luís, surpreendeu-se a olhar da plateia para o camarote deserto, absorto, num sorriso irónico-nostálgico, de que foi acordado pela cotovelada da Mulher: - “por onde andará essa cabecinha?!” – disse, fixando-lhe o olhar como que a ler-lhe a alma.

E, naquele instinto de leoa, que o rapaz tão bem conhece, sem outra palavra ou esperar resposta, a Mulher segurou-lhe a mão, que manteve quente, entre as suas, até ao final do espectáculo!...

8 comentários:

jrd disse...

Muito bonito.
Nem com Tchaikovsky os "pas de deux" são eternos...

um Ar de disse...

Que história incrível!...
E como persiste na memória.
Seria da música?
Sim, porque dos bailarinos não foi, com toda a certeza...
:)

[Beijo, de saudades de arrebatamentos da juventude - passada...]

Justine disse...

Delicioso, secreto e arrebatador ballet,que será para sempre dançado na memória deles.
E,no texto, o ritmo das palavras
compuseram uma bela valsa :))

Maria Laura disse...

:)) Que belo bailado!

mundo azul disse...

Gostei da sua história...Há memórias que não se apagam!
Beijos e muita luz...

Tinta Azul disse...

Ir Óptico.
Ir Ético.

Ao ballet.

Muito bem escrito. :)

Oliver Pickwick disse...

A Valsa das Flores e uma história tocante.
Pelo visto, está inspirado para o fim de semana.
Um abraço!

velha gaiteira disse...

beijinhos de uma velha gaiteira