quarta-feira, maio 21, 2008

"Espelho meu, espelho meu..."

Nem cânticos, nem glórias. Que favores
Não tenho. Calados em meus gestos...

Sou rio seco. Ou além os montes desertos
Que ao longe atraem, mas que de perto
São pedras rolantes apenas. Cuidando o sopro.

E nessa miragem me despenho. Inteiro.
Que de mim apenas o voo a que me afoito
Sem asas de falcão. Nem alvos de permeio.

Mas fervoroso nos dados em que me jogo.

Sou nada ou o infinito – queiram ou não!
De resto – é como digo:

Pés descalços e olhar altivo.
E as rosas que colho e os frutos que semeio...

Amores e desamores. E o peito aberto!...

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Bom feriado! E bom descanso...

19 comentários:

um Ar de disse...

Espelho teu, espelho teu...

Os nossos espelhos nem sempre são os melhores, para nos devolverem o que somos... e o que tu saberás, melhor do que eu!

Que não tens asas de falcão, nem alvos de permeio? Ainda bem.

Dos pés descalços entendo a metáfora [do desapego pelos cânticos e glórias].

Do olhar altivo, penso que só o tem quem anda de peito aberto...
O que é um risco, nos tempos que correm e sempre correram.

Mas não consigo imaginar-te a viver uma vida a olhar para os próprios pés, descurando tudo aquilo de que "curas"... porque o nome "Herético" é uma pequena ruga, que reconheces, na folha de prata, do reverso do teu espelho!

O "outros" espelhos, onde te podes encontrar, dir-te-ão que escolhes as rosas que "colhes" e cuidas os frutos que "semeias"... e sim, com o peito aberto e a olhar em frente, decidida[mente].

E, ainda bem...

[Bom descanso, pois que seja, num beijo do meu espelho, também teu.]

Justine disse...

Retrato a preto e branco? Ou apenas um des-amor passageiro, um passageiro amargo de boca ?
Se calhar, o não conseguires passar para o outro lado do espelho...

Licínia Quitério disse...

Olááá... Aqui não há pardal, mas poeta. E com as dores próprias da condição. Nada a fazer, Amigo!

M. disse...

Já é a segunda vez que sou aqui surpeendida por um poema.
Nem cânticos nem glórias. Rio, miragem, nada, tudo e infinito. SIMPLESMENTE HUMANO!


Beijo. De ida.

Por vezes é preciso.

Tinta Azul disse...

Quando está tudo, bem, dito não é preciso dizer mais nada.
Muito bom!
:)

Jorge P.G disse...

Boa tarde!

Vim aqui uma vez, recomendado o
seu blogue por pessoa amiga.
Na altura, não sei se deixei sinal da minha passagem. Hoje, com algum tempo livre, decidi voltar. Em boa hora ofiz, pois encontrei m belíssimo poema num blogue de qualidade inquestionável.

As minhas saudações e cumprimentos.
Jorge P.G.

M. disse...

Gosto muito.

jrd disse...

Belo poema. Espontâneo e seguro!
bfs

mariam disse...

"Mas fervoroso nos dados em que me jogo"...
mostra belíssimos pedaços d`alma...

um sorriso e bom feriado :)

Maria Laura disse...

Auto-retrato do artista olhando o espelho. Um belo poema.

GP disse...

Bonitas palavras.
Gostei.

mdsol disse...

Ambivalências bem escritas. Humanidade vivida!
:)

triliti star disse...

e quanto mais descalço, mais obrigatoriamente altivo.





um

triliti star disse...

passei também pelos deuses das pequenas coisas:

fiquei tão encantado como aqui...

triliti star disse...

no primeiro comentário que deixei está lá um "um" que não percebo como lá foi parar.

bom fim de semana.

mundo azul disse...

Um belo poema! É sempre gratificante ler poemas assim...Beijos e muita luz!

Oliver Pickwick disse...

De início imaginei sentimentos restritos ao universo interpessoal. Na segunda leitura a impressão é de que os versos também estendem-se a conceitos mais amplos, como o de nação, continente, mundo.
É a vantagem da arte poética, às vezes os sentidos escapam ao controle do autor, e permitem o surgimento do co-autor, imaginando conteúdos que, provavelmente jamais fizeram parte da concepção do criador original.
Um abraço!

P.S.: Escreveu "voo", sem acento. Sinal que aderiu ao acordo. Aprecio a sua modernidade ;)

alice disse...

gostei do teu poema / espelho :)

beijinho e bom fim de semana!

luis lourenço disse...

Poema forte mas hermético...A psicanálise ajuda mas não resolve.
A arte dos espelhos é interessante e subtil.... e o herético coordena-a bem.

Um abraço