domingo, maio 04, 2008

In illlo tempore: um melro...

O rapaz, nesse dia, fizera gazeta!...Que raio de ideia essa de ir à Escola, quando no alto dos negrilhos caprichavam mil cores de um sol primaveril, prenhe de desejos, sabe-se lá de quê!...

Coaxavam rãs no regato e soltavam-se lírios selvagens nas encostas. Mas nem uns nem outros, naquele dia, mereceram mais que um pedra atirada, fazendo silenciar os juncais...

Os lírios, sim, estivera tentado!... Sabia que mereceriam um beijo longo e doce e os dedos nos cabelos, que tanto o arrepiavam de afecto, quando os despejasse no regaço da mãe, com desprendimento: - “toma, mãe, colhi para ti!”...

Mas que justificação daria?!... Não, mais valia prosseguir ...

O destino era um melro negro e cantador, que o desafiava todos os anos, entre silvados, e que era motivo de chacota lá em casa, com o “Zé Fardela”, na sua ternura boçal, a espicaçar, trocista: -“ Já acertaste com o melro, Manel?! Querem ver que o sacana do pássaro ainda vai fazer o ninho no teu buço e, mesmo assim, não és capaz de o descobrir!...”

Enchera-se, portanto, de brio o rapaz. Desta vez, tinha que ser. Mas ninguém saberia. Aquilo era desafio solitário : de homem para melro!...

Esgadanhou as mãos em silvados, trepou frondosos freixos e, titânico, prosseguiu manhã fora. Na ponta dos galhos o melro, com seus trinados, desatinava-o, na sua malvadez trocista. A cada aproximação, sem se dar por achado, o melro voava cada vez mais longe...

Frustrado, adormeceu sob a copa protectora de uma árvore centenária durante minutos, que, no sono, foram horas. Levantou-se inquieto e, qual melro alvoroçado, ergueu-se espavorido...

Então, sobre a sua pobre cabecita de castanhos caracóis, o esvoaçar inesperado do casal de enamorados melros. Lá estava o ninho, ali mesmo, sem dar por nada, como se fora dádiva do Céu...

Durante toda a Primavera, o rapaz vigiou seu tesouro secreto. E ainda hoje se emociona com o cantar trocista dos melros na sua memória! Ironicamente, sabe agora que “aquilo que é verdadeiramente nosso, em nossos braços vem cair”, como a mãe lhe dizia para acalmar juvenis ansiedades...

Hoje, porém, os lírios são outros. São lírios da eterna saudade!...

26 comentários:

Mar Arável disse...

Belo texto

é verdade - os lírios ,as rosas

os cravos já não são os mesmos

excepto os nossos

os da memória perene

Maria P. disse...

Que maravilha...

Beijinhos*

Maria disse...

Belíssimo post....

Beijos

hfm disse...

Um verdadeiro exemplo da escrita pura e depurada sobre um assunto difícil. A beleza em cada imagem, em cada palavra e na escolha destas.
Belíssimo.

sinhã, a. disse...

A beleza dos lírios.:-)

Maria Laura disse...

Que se pode dizer quando um texto nos emociona e nos pôe um sorriso nos lábios para negar os olhos húmidos? Nada. Porque nada se pode acrescentar.

Licínia Quitério disse...

É isso mesmo. Os lírios, os melros, os nossos encantos de um outro tempo agora feitos saudade. Um texto doce como um pequenino choro.

Um abraço.

Carreira disse...

O seu blogue é o vencedor do Prémio Cegueira Lusa, referente ao mês de Abril de 2008.

Parabéns!!!

Cumprimentos,

José Carreira (www.cegueiralusa.com)

Justine disse...

Podemos ainda concluir outra "moral" da tua bela e nostálgica história: não vale a pena procurar longe, por vezes o que desejamos está mesmo junto de nós. Apenas precisamos saber olhar, e ver.
Abraço

O Puma disse...

Só a superior lucidez

produz um texto como o seu

Tinta Azul disse...

:)
[bastam as tuas palavras]

MJM disse...

Linda! Linda prenda, trazida da ilha do tempo. Tu trouxeste, e eu, eu fui.

O entrecruzado simbólico é uma renda de bilros onde parece não terem estado nenhumas mãos.

Bendito filho, melros e lírios!
Aquele kissug

Carla disse...

"lírios de eterna saudade"...flores perfeitas que nos oferecem recordações mil.
que belo regresso à infância
beijos

Peter disse...

Identifico-me com o Zé Fardela. Nos meus tempos de rapaz, calcurreava montes e vales com a minha fisga, lá pelo Alentejo, à procura de pardais.

Nunca consgui apanhar um melro. Fugiam de mim com aquele som trocista.

Hoje, onde vivo, existem melros, que quase convivem connosco. Dantes acordava bem cedo ouvindo-os, mas hoje os emproados pombos, à semelhança dos políticos e de outros "importantões", ou pseudo-importantes, invadem e poluem tudo.

dona tela disse...

Isto é que é um blog duma pessoa com muita cultura. O que o senhor foi arranjar para falar da avezinha. Posso fazer uma pergunta? O senhor não gosta muito deste governo, pois não? Eu também não, mas fica assim como um segredo entre nós.
Boa tarde e até um dia destes.

Bloga Comigo disse...

Escrito com a eloquência de quem faz das letras o seu quotidiano. Poderia ser Aquilino, Torga também mas não está indicado o autor. Por suposto foi o próprio, o Herético, que nos deu um fraterno presente.

Belas as palavras.Lírios, rosas, cravos...

Bjo

isabel mendes ferreira disse...

os lírios sempre são saudade. a esgadanhar (?) tempos.
no mais subscrevo o Mar aRÁVEL.



BEIJO.

Sophiamar disse...

Comoveu-me este teu regresso ao passado. Não sei se narrador e autor são coincidentes mas isso pouco importa agora. A beleza do texto, as lágrimas a espreitarem, a memória lá longe, na minha serra, os lírios do campo,o coaxar das rás no regato.... as flores para a mãe, porque dela são todos os dias, o afago desejado e saboroso no colo materno, num dos mais bonitos textos que já li.

Um açafate de beijos

Bem hajas!

Vieira Calado disse...

Um texto muito bonito!
Acontece que tenho no meu quintal, melros e felosas (por vezes), pintassilgos (sempre), pardais, claro,
e andorinhas com ninhos nos beirais.
Quer melhor do que isto?
Um forte abraço

Gi disse...

Doce nostalgia.

Não consegues esconder a tua veia poética, ela ressalta em cada frase deste texto! Que exercício de escrita tão bem conseguido.

Doce é também o olhar deste menino. E inocente . Procurou longe o que afinal estava tão perto. Não o fazemos nós ainda, tantas vezes?

Gostei muito. Vou ler-te mais abaixo. estas aus~encias fazem com que as leituras se acumulem

Um beijinho

Um exercício de escrita tão bem conseguido , tão inoc

M. disse...

Muito, muito belo. Um abraço.

Vanda disse...

Doce como a memória de saudade que trazes no peito.

um Ar de disse...

Gosto do teu modo de "contar"...

Como gosto destes teus pedaços de vida!...

[Um beijo]

M. disse...

"aquilo que é verdadeiramente nosso em nossos braços vem cair"


E hoje tornaste esta beleza um pouco nossa também.
É de uma doçura que ainda desconhecia no pouco que li de ti :)


Beijo

Nilson Barcelli disse...

A tua excelente história fez-me recuar até à minha infância.
Eu também tinha desafios desses, mas ninguém sabia... outras vezes o desafio era colectivo. Tudo pelo prazer de ver toda a obra, desde o fazer do ninho até aos filhotes se aventurarem no primeiro voo. Fossem melros ou outros pássaros. Havia tempo para tudo...

Bom resto de semana, abraço.

jrd disse...

Belo texto. A Utopia também pode ser preta e de bico amarelo.
Abraço