sexta-feira, maio 23, 2008

No rescaldo do Maio 68...

Dona Ludovina que, na sua solicitude, o guiara, à chegada, nos meandros da Agência e, na generosidade da sua carne exuberante, velara pela educação sentimental do Rapaz, levou também muito a peito o robustecimento do seu espírito. Foi assim que o introduziu numa “selecta tertúlia” (palavra de Ludovina), depois de rasgados encómios ao seu (dele) talento literário.

Pontificava no grupinho um casal, recentemente regressado de Paris, onde no rescaldo de todos os Maios, proclamava, em beatitude, que a História estivera ali mesmo, na polpa de seus dedos. Ele era um homenzinho baixo e enfezado, a rondar os quarenta anos, de careca reluzente e de pêlos indiscretos, no nariz e nas orelhas. A barriga empinada e as pernas curtas emprestavam-lhe um ar de aranhiço prestes a armar a teia. O olhar líquido e redondo, por detrás de uns óculos de tartaruga, acentuavam-lhe a famélica postura da aranha à espera da presa...

O homem, porém, quando a cerveja escorria, de tudo falava. Nem era necessária plateia. Conhecia todos os argumentos. Entre os existencialistas e marxistas (peleja fora de moda, dixit) tomava naturalmente partido pelos primeiros. Discorria com ardor sobre o “nouvau roman”. O cinema e a “nouvelle vague” não tinham segredos. Também os estruturalismos de todos os matizes. Tratava por tu Althusser, Lacan, Foucault, Derrida. O homem era nitidamente um semiótico!...

A rapariga, - Cléo para os amigos - bastante mais nova, vivia em permanente devoção. Acendia-lhe os cigarros. Colocava o açúcar no café. Mexia e remexia. Carregava os jornais. Assinalava os artigos e notícias de interesse. Sacudia-lhe a caspa dos ombros. E eu sei lá o que mais não lhe faria!...

A moça era engraçadota, mas fisicamente desleixada, como era chic na sua condição. Num caderno sebento, de folhas azuis e linhas, escrevia seus poemas, onde quase sempre “a alma se encandecia nas torpezas do saber...”

Aconteceu que, um dia, o Rapaz, depois da Agência, na sua passagem pela leitaria, deparou com a Cléo sozinha, na mesa habitual. Explicadas as razões e, depois de minutos de conversa, palavra puxa palavra, olhar pede olhar, a ocasião faz o ladrão e estavam os dois falando de... sexo. E ela categórica comigo não te vale a pena não presto na cama e ele a dar-lhe não há como experimentar patati...patati...patatá e ela não se fez rogada e ele não pensava noutra coisa há semanas meu dito meu feito e meia hora depois estavam os dois na cama.

O Rapaz, que passara com distinção no estágio com Dona Ludovina, usou de todo arsenal de recursos aprendidos e inventou outros. A Cléo, porém, nada! Nem um gemido, nem um movimento, nem uma carícia, nem um esgar, nem uma palavra de estimulo, nem um fingimento. Nada, literalmente nada!... Um corpo inerte e amorfo. Apenas os olhos se reviravam nas pálpebras em cada assalto (frustrado, naturalmente).

Digam-me lá, se por mais esforçado, alguém naquela situação poderia resistir e completar a função?!... Pois bem, o Rapaz desistiu. Desistiu e... nunca mais apareceu na Leitaria e naquele cenáculo de saber e cultura...

Agora, à distância, receia o Rapaz ter sido, no tamanho daquela frustração literário-erótica, que ficaram definitivamente soterradas suas veleidades literárias. E, claro, por causa de semelhante embaraço a Pátria perdeu um intelectual eminente e a Literatura (com maiúscula) um epígono consagrado. Um outro prémio Nobel, quiça!...

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Tempos depois, o Rapaz contou a cena ao seu amigo Zeca, alentejano de Beja, “bon vivant” e economista do Quelhas, como faz questão de acentuar:

- “É bem feito! quem te manda a ti andares com intelectuais?!” - soltou numa gargalhada! - “Não sabes que as mulheres para a cama devem ser burras?!...”

O Rapaz embatocou. Mas passados uns momentos, já recomposto, meio sério, meio a rir, perguntou:

- “E se forem burras e intelectuais?!...”
- “Então é a desgraça completa! Não te invejo a sorte!...” – rebolou-se o Zeca, babado de gozo...

O meu amigo Zeca é um tipo bem caçado, reconheçam!...

12 comentários:

M. disse...

surpreendemente em Oz encontram-se linhas para estes espaços. e ainda bem! Que a chuva é tempo de ócio e propícia a leituras como as tuas.
Educação "sentimental" hein? predadores e presas de outros tempos.Intelectual uma carapuça. A coitada sofre de frigidez, só pode. esqueceram-se de ensinar ao Rapaz!

Sophiamar disse...

Amigo
Um texto que não me surpreendeu pela excelência da escrita a que desde sempre me habituaste nem pelo tema porque ultimamente vens fazendo um tipo de post diferente mas nem por isso de somenos importância. Pois no rescaldo do Maio de 68 encontrei casais muito semelhantes não podendo porém confirmá-lo se elas também padeciam da frigidez que me pareceu ser mesmo a maleita aqui presente. Pobre rapaz, espero que não tenha ficado frustrado para a vida. Sexual!
Beijinhossssss

Justine disse...

Que retrato cruel tu fazes desses velhos tempos! Mas um retrato verídico e certeiro, desenhando muito bem figuras/caricaturas que todos nós -- os que tínhamos 20 anos em Maio de 68 - conhecemos tão bem!
Só é pena a história acabar mal :))

mdsol disse...

Como sempre muito bem escrito. Muito mesmo! Contrariamente à Justine não acho que acabe mal...a história...só acaba...O que, em alguns casos, é mesmo o melhor ...
Estes bocados de excelentre prosa nãosão colados e dados a outras estampas??? (só pergunto)
Ich gratuliere dich!

luis lourenço disse...

Belo perfume e que experiencia saborosa neste relato tão bem humorado e escrito que cruza os valores associados ao Maio de 68 com as peripécias quase sempre utópicas mas genuínas da existecialidade quotidiana.

Abraço existencial

jrd disse...

Como diria o Clooney (sem martini). Magnifico!

Azar. Nem no Maio de 68 houve quem encontrasse o ponto G da jovem Cléo.
De facto era muita a areia debaixo das pedras e principalmente em cima das cabeças...

um Ar de disse...

O conto... Gostei. Adoro contos, como sabes!...
:)
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No entanto, não consigo deixar de comentar [ou de continuar...].
A Cléo avisou...
Ela disse que não valeria a pena, ou o trabalho...
Ela disse.
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Há sempre um pequeno laivo de arrogância masculina, quando um homem [neste caso, um rapaz] se convence de que será capaz de mudar uma tal certeza, ou outras afins!...
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Não me pareceu burra... Nem o assunto teria a ver com o facto de ser "demasiado" intelectual...
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Se o rapaz não fosse tão jovem... se não estivesse tão preocupado com os seus desempenhos naquela matéria... se amasse a jovem Cléo... talvez tivesse tido "tempo", para descobrir "o porquê"!
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Mas não.
O amigo [alentejano é pormenor] brincou com o assunto... pois que mais haveria que esperar?
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Hoje, talvez o rapaz pensasse duas vezes, ou três, ou muitas...
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Mas... te-lhe-á ficado o jeito de narrar e não terá, ele, perdido o seu tempo...
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[Pobre do amigo, se continuou a pensar nas mulheres burras, com quem se "deitar"...]
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[Beijo e um :)]

Maria Laura disse...

Bem, ela avisou... Mas, na verdade, este teu delicioso naco de prosa lembrou-me algo que sempre foi usual discutir em relação a este tipo de "desaires". O problema é só de um ou dos dois? Não terá o Rapaz sido traído pela habitual pressa da juventude? :) Com um pouquinho mais de empenho e menos urgência, talvez a "intelectualidade" da Cléo se rendesse... :)) Quero crer que, para o seu bem, o Rapaz deve ter aprendido isso com a experiência da vida.
Quanto ao texto, excelente, claro.

Graça Pires disse...

O Zeca é um tipo bem caçado, sim.
O texto é delicioso e excelente.
Um abraço.

foryou disse...

Que texto excelente (nem sei porque me admiro...) uma época bem retratada, num texto cuidado, com uma escrita impecavel.
E um amigo Zeca bem caçado, sem dúvida :)

Anónimo disse...

ahahahahahaah

Adoro a 'tua linha queiroziana'!
E o Zeca?! Um cromo imperdível :-)))

Kisses da burra-inteligente
ahahahahahah

batista disse...

inda levas uma coça da mulherada, ó meu irmão! rss!

é sempre bom te ler, não só nas análises políticas.

um abraço fraterno.