segunda-feira, junho 16, 2008

"As aventuras da mercadoria..."

Ansel Jappe é um pensador de esquerda, assumidamente radical e anti-sistema. Partindo de Marx, que considera essencial para compreender a realidade contemporânea Anselm Jappe não acredita na reforma do capitalismo e considera que estará em curso a sua “crise definitiva” para além das ilusões do consumo, em que estamos submersos.

A urgência de combater os perigos da globalização, sem ceder, contudo, à “lógica do sistema”, como por vezes acontece, surge como uma das pedras de toque da sua produção teórica e da sua intervenção cívica.

O seu livro “As Aventuras da Mercadoria”, publicado, em Portugal, em 2006, foi uma leitura estimulante neste meu regresso “espiritual” a Ítaca. O autor, por ocasião do lançamento do livro, esteve em Lisboa para uma conferência na Universidade Nova sobre a “crise do capitalismo”.

Na oportunidade, deu uma entrevista ao jornal "Diário de Notícias” de que respigo alguns excertos como aperitivo para a leitura do livro. Claro que não encontrarão nele qualquer “alternativa”, nem muito menos a “A Alternativa”.

Mas, por certo, ficarão a saber “que para encontrar uma alternativa à sociedade mercantil não é preciso ir muito longe (...): é na origem da sociedade ocidental, precisamente aí onde a mercadoria iniciou o seu triunfo histórico, que se encontra o seu contrário. Há em Aristóteles um pensamento que merece verdadeiramente ser retomado: a ideia de “vida boa” como verdadeira finalidade da sociedade. É esse o contrário do serviço do deus-fetiche que é o dinheiro.”

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“Em as Aventuras da Mercadoria, revisita as ideias de Marx sobre a crítica do valor. Porquê este regresso ao Marx mais económico e menos político?

Nos últimos anos, ouvimos muitas vezes dizer que o pensamento de Marx está ultrapassado e que há muitas coisas que já não podemos explicar com o pensamento de Marx. A verdade é que, se uma análise simplesmente sociológica já não funciona, o Marx que determinou as categorias de base do capitalismo - a lógica da mercadoria, do trabalho abstracto, do dinheiro - ganhou actualidade, porque essa lógica que então nascia ampliou-se mais e mais...

O seu livro defende que já estamos a viver a fase final do capitalismo. No entanto, o que vemos nos países desenvolvidos é o contrário disso: uma demonstração de força. Cada vez se consome mais, de forma mais rápida e com estratégias comerciais mais agressivas. Considera este paradigma de sucesso económico é uma ilusão?

Podemos dizer que há alguns produtos, como telemóveis ou as viagens aéreas, que custam cada vez menos, tornando-se acessíveis a cada vez maior número de pessoas. Mas se observarmos bem, em paralelo, temos o desemprego sempre a subir. Há um sentimento generalizado de insegurança quanto ao futuro. E se as pessoas consomem freneticamente é porque têm a sensação que tudo é precário, de que tudo vai terminar de um dia para o outro

É a ansiedade da “humanidade supérflua”.

Exacto. E isto atinge não apenas os pobres, mas também as classes médias. Durante muito tempo, pensou-se que mais depressa morreríamos de tédio que de fome. A realidade está a encarregar-se de desmentir essa profecia.

Mesmo assim, aparentemente a catástrofe final ainda não chegou ...

Não se trata de um processo apocalíptico. Mas o certo que o sistema está hoje muito mais em crise do que nos anos 70: a produção verdadeira, a acumulação de capital real, perdeu importância face à acumulação de capital fictício, nas bolsas e na especulação imobiliária”.

Há quem diga que a globalização foi a tábua de salvação do capitalismo.

Para mim é apenas uma fuga para a frente.

A crise do capitalismo será sempre uma crise global. Isso não dificulta a luta contra o sistema?

É verdade. Mas isso não quer dizer que a solução passe pela reforma do sistema que existe. Pelo contrário. (...) a globalização é como um barco que já não tem combustível e que continua a navegar apenas porque vai queimando, pouco a pouco as tábuas do convés.”

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Boa semana de trabalho. E evitem, tanto quanto possível, os Centros Comerciais... rsss

26 comentários:

VEU DE MAYA disse...

Só com o primado da política dentro da globalização é que será possível pôr em prática os reequlíbrios indispensáveis à realização na vida das civilizações dos sentidos da EUDAIMONIA aristotélica.
Não deixarei de ler o livro, pois ainda não tive tempo de o ler... Penso que o problema não é só o da irracionalidade do consumo mas sobretudo, o da distribuição da riqueza e na sua humana utilização que cada vez mais sofrem de concentração exagerada.
Já se proclamou a morte de Deus, do homem...mas ainda ninguém proclamou a morte do dinheiro!
O teu post é muito interessante pq alerta para tantas ingenuidades...
que se espalham pelo Mundo...com todas as malfeitorias daí derivadas.

abraços

alice disse...

por vezes, os centros comerciais têm eventos que merecem a nossa presença, querido herético. foi o caso do lançamento do livro a menina marota ocorrido ontem :) adorei estar presente. um beijinho.

mdsol disse...

pedagógico!
:)

M. disse...

Estamos a viver a fase final de qualquer coisa menos do capitalismo e da ganância. vivem-se atropelos,evitam-se as partilhas sobretudo a nível do próprio país; estou a vivenciar na pele uma experiência péssima e a minha carreira encontra-se em risco por causa de multinacionais estrangeiras a comprarem os pequenos privados que quase não têm alternativa para sobreviverem. por culpa de outros maiores a nivel nacional que já com o poder suficiente sonham com os cifrões verdes nas mãos assim que as multi estrangeiras ficarem com o seu espólio. e o povinho que deu anos de lealdade que se lixe. poupasse o dinheiro. não andasse a enfrascar-se nos centros comerciais. na minha opinião Portugal está a entrar na era, no centro do capitalismo, e creio que é de facto um fenómeno que gera realmente esse estado de pânico que leva ao consumismo supérfluo.
e estamos ainda no princípio.
sinceramente, nem quero pensar quando estiver no auge...

manhã disse...

o capitalismo sempre esteve em crise, é cíclico e faz parte da sua própria natureza mas é incontornável apesar de ter que ser urgentemente humanizado, eticamente humanizado.boa semana!

Licínia Quitério disse...

Tardiamente, aqui, para comentar o teu "Regresso a Ítaca". Valeu a pena a Viagem e o Tempo que até agora te couberam. Aprendeste muito de partidas e regressos. É um barco elegante e sólido o teu Poema. Saúdo-te.

Vieira Calado disse...

Também sempre tomei, sobretudo, em conta, a análise que Marx fez sobre o capitalismo. É da realidade objectiva e sua compreensão que se pode partir
para qualquer processo evolutivo consistente.
Gosto sempre muito dos seus textos. Um abraço.

jrd disse...

Excelente texto.
Ao invés do que (muitos) acreditavamos, será a autofagia o fim do capitalismo.
Resta saber se seremos capazes de reconstruir uma sociedade mais fraterna e justa.
Abraços

Carla disse...

confesso que me despertaste a vontade para esta leitura..comento depois
beijos

São disse...

Cise no capitalismo...ou esgotamento do modelo?
Tudo de bom.

Maria Laura disse...

Parece-me que o livro deve ser bastante interessante. Na verdade,eu sou por natureza desconfiada das teorias económicas, sobretudo pela perversidade que decorre habitualmente da sua aplicação. O capitalismo já deu o que tinha a dar. Constatamos isso todos os dias. Mas... e o que virá a seguir? Lutar contra o sistema parece-me bem, mas lutar a favor de quê? Só deixo interrogações...

mariam disse...

olá
excelente "post"
sou uma "nabiça" sobre política, mas, vou colar aqui um coment que deixei agora mesmo no blog de
"VEU DE MAYA",

a correria louca do dia-a-dia

o umbigo como Deus maior

o novo-riquismo estúpido

entre outros!

ainda acrescento

a exibição de inúmeros cartões de crédito na carteira, dourados prateados,....como sinónimo de "status" ... LOL

Portugal deve ser o país com mais centros comerciais por metro quadrado! são sinais de miséria

certas vilas e cidades que conheço conseguem a proeza de 1/3 dos seus estabelecimentos serem... Bancos! são também sinais de miséria

Eu, embora com a vida num estado acelerado, "NAIFF" Sou, ainda, em muitas vertentes, graças a Deus!

é claro que alguma coisa vai ter que mudar!

desculpe o alongamento

um sorriso :)

Mar Arável disse...

Ainda sou dos que acreditam

que é preciso estimular

a natureza auto fágica

do capitalismo.

Braços cruzados - não.

um Ar de disse...

Amigo Herético,

Não é que a entrevista de A. Jappe traga grandes descobertas ou novidades.
.
Pelos vistos, tal como mencionas, a ideia de "vida boa", no sentido de uma ética social ou uma política para a educação ética do cidadão, já vem de Aristóteles, muito anterior a Marx...
.
No entanto, não deixa de ser assutadora a comparação de A. Jappe:
"(...) a globalização é como um barco que já não tem combustível e que continua a navegar apenas porque vai queimando, pouco a pouco as tábuas do convés."!... [até, porque, esta história do combustível é um dos últimos esgares do capitalismo...]
.
O que virá depois... parece o anúncio de um naufrágio!
.
Mas, nunca será para todos. Os eleitos já terão acautelado os seus lugares, em paraísos, bem longe dos olhares da plebe. É assim que entendem a "vida boa"!
.
[Beijo...]

tulipa disse...

Amigo
do olhar interior
do desencanto
já nem sobram
as sombras
limites
sem contornos
nem vedações
apenas,
ampliando a secura,
o grito
e o deserto
perdido nas dunas
nem sopro,
nem sombra
só um arfar
que não sei
se de raiva
se de tédio.

Abracinhos.

heretico disse...

Mar Arável,

tens razão. braços cruzados. nunca!é necessario lançar achas na fogueira. sempre.

(porventura, já sem ilusões de gloriosos assaltos ao "palácio de inverno". com tudo que tem de simbólico...)

abraços

Graça Pires disse...

Deve ser um livro muito interessante. Gostei daquela ideia sobre globalização: como um barco sem combustível que continua a navegar porque vai queimando, pouco a pouco as tábuas do convés.
Um abraço.

Klatuu o embuçado disse...

Já te tinha enviado mail, e acabei de te enviar outro...
Vê-me se isso não está a ir para o spam.

Mariz disse...

Salvé!
Passei por aqui para o informar que tem uma nota para si, no meu espaço. Respondo sempre ao que me deixam..mais cedo ou mais tarde. Mas já que falou em "dinheiro"..hummmm esse "el dorado" que todos buscam com tanto fervor e devoção, esse outro tal "senhor"! Para mim, ele não é o primeiro, mas sim o mais primário que há...embora enquanto energia deva ser respeitado porque no mínimo faz falta para alimentar a substância contida no "SER". Porém até nisso não faço muita questão..não para me manter com uma linha estável, mas porque me alimento de outras coisas que passam por exemplo por Cosnciência! e é nessa consciência global que falta CUMPRIR! - assim como a de Portugal... - já dizia o poeta!
E não vale a pena escamotear-se a questão, porque a única solução é essa: globalização para o BEM COMUM, CONSCIENTEMENTE!!! - ASSUMINDO E VALORIZANDO OS PRINCÍPIOS intrínsecos em cada um e não por colagens ou colonagens... a uma qualquer personalidade, virtual ou não.
É por aí que se cumpore o nosso SER e o MUNDO SEGUIR-NOS-HÁ! - JÁ QUE: SOMOS TODOS UM!

Mariz

Mariz disse...

Ah! e peço desculpa de não vir muito aqui ou então quando os post já estão no esqucimento...não é por elitismo, mas porque há uma certa "nata" com que não gosto de me misturar....não por ser diferente, mas porque não reconheço qualquer ELEVAÇÂO!

Peço perdão pela frontalidade mas não tenho0 medo das palavras, ou seuer dos sentimentos...embopra a compaixão seja o mais adequado!- segundo os ensinamentos que tive. e que uso no meu dia a dia...

A esse respeito, pode ler-se um comentário no meu espaço também!

MAriz

Nilson Barcelli disse...

"E se as pessoas consomem freneticamente é porque têm a sensação que tudo é precário, de que tudo vai terminar de um dia para o outro."

O excerto da entrevista é relativamente curto e, por isso, não dá para avaliar a fundamentação do autor em toda a sua extensão (para isso será preciso ler o livro).
No entanto, a frase que destaquei acima não me parece nada correcta.

A globalização, que aparece agora como uma das principais causas para o alastramento do capitalismo selvagem, foi facilitada pela atenuação das barreiras alfandegárias (diminuição ou anulação de taxas de importação, etc.). Esta medida, no entanto, foi a única iniciativa de fundo estruturada para ajudar os países pobres que, assim, beneficiam da "deslocalização" de empresas dos países mais ricos.

O que se passa com este tipo de analistas é que querem sol na eira e chuva no nabal. Mas isso não existe. Se queremos viver melhor, sem desemprego, por exemplo, teremos que excluir do clube os países mais pobres.

Resumindo, eu não sei como é que se deveria fazer para todo o mundo viver melhor.
Se alguém sabe, que o diga...

Abraço.

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

entrei aqui pelo blog de um amigo. Adoreii. maravilhoso, seus textos são de uma profundidade. amei.um abraço. marthacorreaonline.blogspot.com

Justine disse...

Texto importante, este, que nos tira um pouco o fôlego...

batista disse...

Mais um post instigante. Valeu mesmo, Amigo! Certamente renderá discussões apaixonadas.

Um abraço fraterno.

PS. Também creio que "poesia é pra comer", rss!... contudo, o tempo, cada vez mais curto, impede-me de curti-la como gostaria. De todo modo, é por uma causa justa: atualmente trabalhamos com sete escolas públicas num projeto de jornalismo comunitário, ou seja - jornalismo não atrelado aos interesses do Capital.

Sophiamar disse...

Herético

Um post que gostei de ler e que daria para um grande comentário. A globalização não nos trouxe nada de bom e a crise está aí. Para durar. A nível mundial.Não é só na Europa que ela se sente e quando atinge os grandes não podem soprar bons ventos. Esgotado que está este modelo, vale a pena uma reflexão. Sair como? Por onde? Para onde?

Deixo-te beijinhos

bettips disse...

E quando o barco mete água... os ratos são os primeiros a fugir!
Mais uma prosa impecável e clara, como estimo ler!
Bjinho