sábado, dezembro 13, 2008

Outras Personagens - Baltazar Gárzon

Tive o privilégio de assistir, passado dia 11 de Dezembro, na Casa do Alentejo, em Lisboa, a uma conferência proferida pelo juiz espanhol Baltazar Gárzon, promovida pela Fundação José Saramago, comemorativa dos 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Para os mais distraídos, direi que o juiz Baltazar Gárzon tem um brilhante curriculum como magistrado ao serviço das causas mais nobres, como defensor das vítimas de crimes de genocídio e crimes contra a humanidade, promovendo reabilitação moral e social das vítimas e movendo perseguição jurídica contra os seus verdugos.

Dos processos mais conhecidos, ressaltam a prisão e julgamento do ditador Augusto Pinochet e, presentemente, o processo em curso sobre as vítimas do franquismo, entre as quais o poeta andaluz Garcia Lorca que, como se sabe, foi fuzilado às mãos do fascismo espanhol, acrescentando o seu nome ilustre a milhares de outros.

Claro que é sempre gratificante poder ver uma inteligência luminosa em pleno voo, sem o mínimo de vedetismo ou afectação, em dias em que proliferam tantos ídolos de barro, ávidos de protagonismo social. Mas para além da individualidade e da empatia que estabeleceu com as largas dezenas pessoas presentes, quero partilhar convosco duas ou três ideias, que especialmente me impressionaram.

Que os tempos vão difíceis para a causa dos direitos humanos, é uma realidade que todos sabemos. Porventura, também não haverá dúvidas entre nós que, cada violação dos direitos do homem, no mundo actual, é sempre percorrida pelos poderosos interesses económicos mundiais, que manietam os Estados e corrompem pessoas e instituições.

Mas é bom ver estas convicções reafirmadas na palavra de alguém que, com a autoridade (e o risco) da sua vida, tem confrontado os liames negros desse conluio. Com a superioridade moral de quem a defesa dos “direitos do homem” não pode ser mera proclamação retórica, mas antes um compromisso prático de vida. E, por isso, o seu escrúpulo e a decência em não ultrapassar a fronteira da iniquidade, mesmo quando estão na mira os mais ferozes verdugos, respeitando neles os direitos e a sua (in)dignidade homens.

São assim os homens íntegros. Não promovem o “justicialismo”, mas perseguem a realização da Justiça! Sem arrogâncias, nem idealismos deslocados. Mas com a determinação de quem sabe que o combate jurídico-penal, em defesa dos direitos do homem, não é mais que o culminar de outros combates cívicos e políticos ao alcance de cidadãos comuns. Que, porém, não cedem, nem se calam...

Como as “Mães da Praça de Maio”, na Argentina, que durante anos a fio, mantiveram permanentes manifestações públicas, para exigirem, aos poderes políticos, notícias de seus filhos desaparecidos durante a ditadura militar naquele País.

E que, nesta reunião, se soube, pela voz afectuosa de Pilar del Rio, que o juiz Baltazar Gárzon, homenageou, fazendo com elas, na Praça de Maio, o mesmo percurso de dor e luto...

Há momentos, assim, reconfortantes. Que nos apaziguam e nos reconciliam com a Humanidade. Por sabermos que, para além de nós e do cinzentismo da realidade imediata que nos cerca, há homens e mulheres determinados que não se cansam, nem cedem na luta por uma Humanidade mais livre e justa...

Foi para mim, nesta quadra, uma íntima e pessoalíssima prenda de Natal, acreditem-me...

18 comentários:

Licínia Quitério disse...

As coisas que eu perco...
Baltazar Gárzon é uma personagem que muito admiro. Preciosa, em tempos de tanta iniquidade.

Um abraço.

hfm disse...

Acredito bem que tenha sido uma grande prenda. Sempre gostei da verticalidade de Baltazar Gárzon, aliás admiro sempre as verticalidades, mesmo se não estou em consonância com elas; neste caso, estou-o inteiramente.

jrd disse...

Uma figura impar dos nossos dias. Vertical e incorruptível. Um Homem necessário aos homens que ainda têm esperanca.

Tinta Azul disse...

Coincidênias...
Muito à minha maneira, prestei-lhe hoje uma espécie de homenagem, ainda que através do humor.
Porque o admiro e tenho a maior consideração por pessoas como ele.

Gostei muito que tivesses escrito sobre ele, sobretudo hoje.

BJS

São disse...

Por castigo dos meus pecados, foi-me totalmente impossível aceitar o convite para ir até à Casa do Alentejo!!!

Estou aqui morrendo de inveja tua, mas estou também agradecendo-te muito por este teu magnífico testemunho!!!

Bom domingo.

dona tela disse...

Mas que juíz tão boa pessoa!

Muitos cumprimentos.

mdsol disse...

Grande Baltasar! Qual rei Mago do combate pelos direitos humanos!
:))))

Arabica disse...

Há momentos que levam a nossa esperança, mais longe.


E ainda bem que há homens capazes ainda desses milagres.


Um abraço

C Valente disse...

Bela prenda, deve ter sido muito gostoso
Saudações amigas com votos de Santo Natal

vida de vidro disse...

Um homem íntegro é coisa rara hoje em dia. E um conforto, na verdade. Foi bom ver aqui este testemunho. Feliz Natal! **

OrCa disse...

Com homens desta estirpe se faria um excelente presépio da modernidade, isso te digo eu... Faria outro sentido o Natal e o ditame da Paz na Terra aos homens de boa vontade.

Grande abraço.

Vieira Calado disse...

Ainda há gente que preza a justiça!

Obrigado também pelos votos deixados no meu blog.

Abraço

Stella Nijinsky disse...

Olá H,

Vinha à procura de poesia,

apesar da humanidade q aqui encontraste, já me deixei destas coisas.

Stella

Mar Arável disse...

Um homem impoluto

que nos faz acreditar

em amanhãs de justiça

sem medo

triliti star disse...

é um prazer enorme ler os teus poemas. mas, ler o que escreves sobre as pessoas e sobre o que se vai passando neste mundo não é prazer menor.

...e a partir de tudo o que nos deixas, imaginar a pessoa que serás.

éme. disse...

Há por aqui referências que me tiram as palavras...
Mas há aqui, precisamente, uma situação que me leva, delicadamente, a dizer que tenho "inveja" (sim, claro, da inveja boa, aquela que significa, quem-me-dera-ter-lá-estado-também!!) desse encontro!

Sim, há indivíduos que nos podem apaziguar os dias e fazer renascer esperanças :)

Grata pela partilha aqui!

Nuno de Sousa disse...

Qdo gostamos de algo temos de saber aproveitar e tu soubeste e tiraste proveito e porque não prazer no que escutaste.
Espero que as prendas continuem a aparecer tal como gostas :-)
Um abraço e um natal feliz para ti,
Nuno de Sousa

Véu de Maya disse...

Uma figura brilhante da jurisprudência mundial...mas fazem falta tantas...O Mundo está num declinio perigoso...è preciso enfrentar a hidra do mal...

abraços