domingo, junho 14, 2009

Feira (internacional) de homens...



"Dimitri enrola o cigarro em movimentos lentos e fuma-o como se aqueles minutos de vício fossem o seu único prazer na vida. Da boca, as baforadas saem-lhe como as palavras: murchas. Há oito anos que o moldavo vem, todos os dias, à “feira de homens” em frente ao estádio do Sporting, no Campo Grande.

É a única maneira de conseguir dinheiro”, justifica.

Desde as cinco e meia da manhã que Dimitri e centenas de imigrantes, legais e ilegais, esperam por um lugar numa das dezenas de carrinhas que estacionam em segunda fila. “Nos últimos dois meses tem sido mais difícil. Não me dão trabalho”, queixa-se.

O imigrante moldavo, que nunca conseguiu obter um contrato de trabalho, não sabe explicar se a culpa é da idade, 50 anos, ou da crise que também bateu à porta do sector da construção civil. “A minha mulher vem visitar-me daqui a uns dias. Não sei o que lhe vou dizer...” Dimitri ficará por ali até às onze horas, ao lado de um grupo de ucranianos e africanos, que lêem os jornais gratuitos para matar o tempo. Nenhum deles irá trabalhar naquele dia. “Somos os excluídos”, vaticina.

Wagner tem mais sorte. Às sete em ponto, o jovem brasileiro entra, cheio de pica, numa Ford Transit cinzenta que o levará para uma obra em Cascais. Traz consigo um saco com o almoço: umas sandes e coca-colas. Foi escolhido há quinze dias para pintar as paredes de uma fábrica, por menos de €5 à hora, durante mais uma semana. “É melhor do que nada”, diz com um sorriso afável da Baía.

O valor não é muito diferente daquele que o indiano Abhay ou o maliano Mohamed vão ganhar. "Há cinco anos pagavam-nos o mesmo. O que vamos fazer? Não temos outro remédio senão aceitar", confessa o trabalhador oriundo do Punjab.

Sentado ao volante de uma das carrinhas, José, um angariador português que transporta um grupo de trabalhadores africanos, garante não lhe faltar mão-de-obra barata, disposta a trabalhar na construção de uma rotunda, em Sintra. “Falam em desemprego mas não vejo portugueses por aqui", ironiza.

A nova lei, que penaliza as empresas pela contratação de imigrantes ilegais (e não os imigrantes, como acontecia no passado), obrigou à mudança de mentalidade em alguns patrões da construção civil. “Os meus trabalhadores têm os papéis em ordem”, assegura Pedro, sem nunca, porém, mostrar qualquer documento.

Na roleta-russa do Campo Grande, pelo menos um quarto dos imigrantes encontra-se em situação ilegal, a acreditar na palavra de angariadores e trabalhadores do local: “São contratados para trabalhar em pequenas obras, como vivendas e jardins, onde é mais difícil a fiscalização das autoridades. E chegam a ganhar apenas entre €3 e €6 por hora”, revelam.

Este mercado de homens, em tudo semelhante às praças da jorna dos anos 60, surgiu há cerca de dez anos, no boom da construção civil. A crise económica não fez desaparecer os grupos de imigrantes, que se juntam entre as seis e as onze da manhã em frente ao antigo bingo do Sporting. “Há para aí muito trabalho”, conta Pedro, um dos poucos portugueses que o Expresso encontrou no Campo Grande.

O jovem oriundo de Chelas, de calças de ganga carregadas de tinta e t-shirt esburacada, diz-se satisfeito com o salário, mesmo que o receba em dinheiro vivo, ao fim de cada dia. Contrato? Não existe. “Tenho tudo controlado. Comigo não fazem farinha”, garante.

Pedro sabe, no entanto, de muitos trabalhadores recrutados para um duro dia de trabalho e que depois “ficam pendurados”. sem receberem qualquer dinheiro. “Há quem se aproveite dos ilegais para os “chular” declara, antes de partir em direcção a uma obra em Loures, sentado, ombro-a-ombro com trabalhadores de várias nacionalidades. Às 18h, irão voltar na mesma carrinha, que os deixará debaixo do viaduto da 2ª Circular.

Pedro é um dos últimos a partir. Pouco antes das dez da manhã, só os mais velhos e os menos corpulentos se encontram no Campo Grande. No grupo de Dimitri, moldavos e malianos já se conformaram com a falta de sorte. “Vou voltar para a minha pensão e dormir um pouco”, diz Dimitri, mandando o cigarro carcomido para o chão..."


Texto HUGO FRANCO - in “Expresso” de 13.06.09

28 comentários:

Licínia Quitério disse...

EStive a ler no DN algo sobre o mesmo. Falava de um cirurgião de um dos agora chamados países de leste que andava tentando trabalho na construção civil. A sua maior angústia era poder magoar as mãos.

Entretanto, de Ronaldo negoceiam também (ou principalmente) a "imagem".

Perante as "leis do mercado", quanto valem as mãos de um cirurgião? Ou de um pedreiro? Ou de um Homem?

Asco é uma palavra feia, mas é o que sinto.

Um abraço, Herético.

Ponto e Vírgula disse...

Em tudo semelhante aos mercados de escravos dos séculos XV/ XVI. Ficavamm os mais velhos, os mais baixos,os mais enfezados. A exploração do homem pelo homem vem de trás mas nada justifica que assim se mantenha.Como em tempos de antanho há quem se aproveite das crises mantendo-se em boa consciência.
Quão injusta a sociedade que o homem continua a construir!

Beijinhos

Peter disse...

Não li o "Expresso" pois o jornal não atendeu aos pedidos dos vendedores e apesar da cidade (Lagos) estar a rebentar pelas costuras, até enviou menos, do que resultou andar às voltas sem o encontrar à venda.
Assim progredimos...

O que contas, deixa-me chocado, pois desconhecia-o, mas justifica a subsistência do país através desta economia paralela e de outras "habilidades" similares. A "exploração do homem pelo homem", o enriquecimento dos "patos bravos" à custa dos imigrantes e dos seus desesperados concidadãos desempregados.

Aqui não há fiscalização, há é para os desgraçados que, sob a torrina do sol, andam pela praia vendendo bolas de berlim.

mdsol disse...

Uma lástima.
:))

Mel de Carvalho disse...

Herético... ele há coisas... e porque as há é que eu, que tenho a mania de ser "fundamentalista" no que concerne a questões sociais, me recuso (não sublinho RECUSO porque sou "naba" e não o sei fazer em comentários), RECUSO, repito, a ver, a ouvir a entrar num estádio de futebol. Se no carro, em viagem o relato"é-me imposto" é certo e sabido que chego ao destino literalmente cheia de vómitos ...

É que, o mercado e as suas leis "procura/oferta" meu bom e lúcido amigo, quem o faz são os consumidores.

Quem alimenta estes absurdos somos (são, eu não, repito), quem lhes dá audiências e, esquecendo muitas e muitas vezes quem deixa em casa, paga bilhetes exorbitantes para encher estádio de futebol.

Provavelmente se as coisas fossem mais equilibradas, se estes REIS ou DEUSES, sei lá, tivessem preços dentro de uma lógica de normalidade, até gostasse... gosto de arte, seja qual for. Todavia, desde tenra idade, me incomodou a situação... e a idade adulta reforçou este "asco visceral".

Do rapaz da foto? Seja muito feliz. Mas muito mesmo... parece que até distribui lá pelos seus amigos e afins... mas tem sentido??

Que se faça uma viagem pela noite da cidade ... não se anunciem: vão. Vejam o que são os "ilegais" a revirarem os caixotes do Lidl ... mas vejam! Vejam!!!!

E depois repensem o valor do dinheiro... (ou da falta dele).

Herético ... não vale. É-me impossível aceitar estas coisas... revoltam-se-me as entranhas, que quer?

Bem-haja por continuar a trazer a lume questões como esta.

Abraço fraterno, boa semana
Mel

Maria P. disse...

Conheci em tempos uma pessoa dos países de leste, era pediatra, sabes que fazia?
Trabalhava na construção civil por um ordenado miséria e fora de horas dava consultas na aldeia onde vivia, porque essas pessoas (portugueses) também não tinham dinheiro para ir ao médico, ele via e tratava as crianças da aldeia e...não queria receber nada! Dizia que assim se sentia, ainda, pessoa.

Depois temos estes "ronaldos" e todos os seres do futebol por aí a falar de milhões.

Que vergonha!

Parabéns por este post.
Beijinho*

jrd disse...

Ignóbil realidade, num país que já viu os seus serem despejados como gado na Gare de Austerlitz.
Abraço

Mel de Carvalho disse...

PS: Não foquei sequer estas redes de "economias paralelas" ... é que não são de hoje, de ontem, nem sequer se esvairão amanhã ...
Uma vez mais os culpados somos nós que aceitamos tudo e, atacados por um "sindrome de bornout" do tipo: não me diz respeito ... seguimos em frente. Pior: se tivermos necessidade de uns trabalhadores a patacos ... até lá vamos "comprar" os trolhas/as empregadas domésticas e etc... (ah... até sabem colocar a mesa à francesa... e eles? bem... excelentes... até sabem ler as plantas das casas, etc...). Ironia?
Não! Tristeza. E muita...

"por amor da santa..." até quando?

De novo, boa semana!
Abraço
Mel

vida de vidro disse...

Continuas a trazer aqui as questões sobre as quais é urgente que reflictamos. É importante que haja quem o faça, sem desistências. Obrigada por isso. **

Frioleiras disse...

Eu li, li a notícia no Dn...

Estamos numa sociedade de extremos...

Os ideais dos anos 70, é claro que já não poderão ser postos em prática, comidos que foram pela febre do consumo que viciou tudo e todos...

O neo-liberalismo gerou todo o descalabro e o fim desta sociedade.

O que virá, ninguém sabe ...

(interessantes as 'colunas', desta semana , no jornal Expresso da
Clara Ferreira Alves e do Cutileiro...)

Não tenho fé num retorno.

Tanto e tantos sopraram o balão, esquecendo-se da máxima de que ele iria, ifalivelmentar, rebentar !

Falhou a religião, falharam as ideologias , falhou a oportunidade de igualdade entre os homens que aproveitaram a liberdade para o exarcebo do consumo isto é, da matéria em preterimento da alma ... dos ideais espirituais portanto.

Sem alma, sem espírito não pode existir o Homem...

E ficam as anómalias sociais como as somas exorbitantes pagas a jogadores de football e quejandos.

A classe média desapareceu .
As benesses sociais também .

Restará a miséria galopante numa sociedade sem projectos na qual os extremos opostos, fruto da desonestidade, da ganância e da podridão, serão os únicos predadores ...........


Sem ética ou religião, sem justiça nem cumprimento das leis e sem valores espirituais, como será possível qualquer construção ?

SILÊNCIO CULPADO disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
SILÊNCIO CULPADO disse...

Herético

Não sou amante de futebol e, logo, também não sou fascinada pela estrela Ronaldo. Esses negócios de milhões infindáveis são uma afronta num mundo em convulsão e de assimetrias sociais. Porém o Ronaldo não tem culpa. Ele até representa o sonho de quem mal consegue sobreviver e parte em busca duma oportunidade onde não se exigem as cunhas de familiares influentes, cursos académicos e suportes financeiros que permitam o acesso aos lugares onde vão os patrões da economia. Ronaldo vem apenas com os pés que Deus lhe deu e, com eles, conquistou o mundo e saiu com a família dum lugar de extrema pobreza para o topo da luz.
O mal está em haver quem não tenha para viver. Quem seja humilhado para que os lucros proliferem. Quem integre um exército disponível que faça baixar o preço do trabalho.
O mal está na injustiça social que aumenta ao invés de diminuir. E nós vamos continuando a aceitar as desculpas dos culpados... Aí é que está o mal.


Abraço

Paula Raposo disse...

Faço minhas as palavras da Alice. Há coisas que não me entram na cabeça...beijos para ti.

maria m. disse...

as grandes injustiças e desequilíbrios sociais.
a desumanidade crescente.

mundo azul disse...

_________________________________


...triste realidade!

Que acontece para uma pessoa com qualificações chegar nesse ponto?


Li com pesar o seu texto...


Beijos de luz e o meu carinho!!!

__________________________________

rouxinol de Bernardim disse...

Digno de meditação!Parabéns!

Geanina Codita disse...

Siempre que vienen a visitar este blog a que descubra la armonía de los colores mágicamente enviado por mensaje de texto fenomenal. Gracias.
Si estás en mi blog sería un honor, si la votación en TOPblog y yo entiendo que te gusto y me vas a volver.
Un buen día para ti!

~pi disse...

sim, muito bem visto

eu não sei que dizer senão que me p+arece tudo isso

bastante...anormal

[ anormal porque em estado de

saturação

das representações

sociais mais mentecaptas,,,




beijo




~

mariab disse...

... ou da lógica multinacional da exploração. e da nossa vergonha.
beijos

© Piedade Araújo Sol disse...

acho que nao tenho palavras.

certas "coisas" como estas mexem comigo.

abraço meu

Graça Pires disse...

Uma realidade humilhante para quem a vive e obscena para quem abusa dela. Um texto muito bem escrito. Depois é o que se vê com os jogadores de futebol. É um insulto à pobreza...
São as leis do mercado e as leis de quem faz o que quer com crise ou sem crise...
Um abraço, Amigo.

Véu de Maya disse...

Que fazer com isto? o contraste que parte o coração...que bela lição...as feiras do livro são adoráveis...estas em que o homem se transforma quase em mercadoria...são tristes e não auguram nada de bom...Bem hajas por destacar estas contradições que falam por si,

abraços

Alvarez disse...

Amigo Herético,

Não é heresia... é a pura da verdade!...

Um abraço,

Alvarez

bettips disse...

O tempo que perco a ler o que pensam "amigos"... aqui e neste caso, deixa-me SEM PALAVRAS a mais das que foram ditas (e não sublinho, porque como a Mel sou naba...)- SUBSCREVO -
"Os putos" que eram/foram cantados.
A falência do carácter.
O que passámos nos bidonvilles.
As gravatas: a mim dá-me vontade de lhes por cordas e mandá-los como o Egas Moniz, pagar as dívidas.

Bjs

Graça Pimentel disse...

Palavras que nos deixam a pensar.
É isto a democracia?
E a quantidade de gente que está a trabalhar clandestinamente enquanto recebem, de todos nós, o subsídio de desemprego ou o rendimento mínimo.
Problemas que me deixam com a tremenda sensação de impotência...

beijinho

alyia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
escarlate.due disse...

nem consigo comentar...

triliti star disse...

asco não é uma palavra feia. asco é também o que quase sinto, na tasca onde vou, quando os oiço comentar os grandes vencimentos p ex. do presidente da rep. (não interessa qual nem quando) e se sentam à volta do balcão, frenéticos com o futebol e não se ralam com o que os jogadores auferem.

não, licínia quitério, asco não é uma palavra feia. palavras feias eram caralho e foda-se e oiço-as todos os dias nos transportes públicos, às mesa do restaurante, por todo o lado e a toda a hora.

asco sim, sinto