domingo, outubro 18, 2009

Barack Obama –“O Sonho e a História...”

O texto seguinte são extractos do artigo aqui que vivamente se recomenda na sua versão integral em castelhano.

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Não deveria levar-se a mal o Prémio Nobel da Paz a Barack Obama , (...) porque o homem apenas teve nove meses para cumprir os seus deveres imperiais – de forma mais concreta despejar explosivos de grande potência em Hindu Kush – enquanto outros premiados, como Henry Kissinger, estiveram a massacrar gente (...), com superlativa diligência, durante anos e anos.

Woodrow Wilson, o imperialista liberal do qual Obama cultiva tantas afinidades, ganhou Prémio Nobel da Paz em 1919,apesar de ter metido os EEUU na carneficina da I Guerra Mundial. O presidente que antes tinha conseguido o Prémio Nobel da Paz foi Teddy Roosevelt, que conseguiu o galardão em 1906, como recompensa por ter patrocinado a guerra hispano-norteamericana e ter desencadeado, com ardor, um verdadeiro banho de sangue nas Filipinas.

A Teddy Roosevelt foi atribuído o prémio Nobel da Paz não muito depois de demonstrar a sua infinita compaixão pela humanidade, patrocinando, na Feira Mundial de São Luis de 1904, uma exibição de “homens-mono” filipinos, apresentados como o “escalão perdido” na evolução do Homem (...): dolorosamente necessitados, portanto, de assimilação forçada, a que o estilo de vida nortemaricano não deixava outro remédio.

Por outro lado, antes de receber o prémio, Teddy Roosevelt diligenciou o envio da “Grande Frota Branca” em volta do mundo a fim de demonstrar as credenciais imperiais do “Tio Sam”, com o que antecipou em pouco mais de um século, as crendiciais para o prémio Nobel da Paz a Obama, que se dispõe agora a impor a Pax Americana ao Afeganistão e a partes do Paquistão.

A gente espanta-se com a idotia destes galardões do Nobel da Paz. Porém, há método nesta insânia, vinda da Noruega, porque ao fim de contas habitua as pessoas a aceitarem sem revolta, ou alarde de protesto, o absurdo como fazendo parte integrante da condição humana. É um mito(...) destinado à juventude: também tu podes matar filipinos, os palestianos, ou vietnamitas, ou afegãos e sem embargo ganhar um prémio da Paz.

É a audácia da esperança, superlativamente aviltada.

Obama, quando aparecem assuntos candentes (...), teme, sobretudo, os poderosos. E não está com os seus quando estes são ferozmente atacados pelo núcleo duro da direita; defaz-se deles, como coisa incómoda, e então o seu secretário de imprensa vem declarar que partiram por vontade própria. Pode ser que isto impressione os pacifistas de Oslo, mas na perspectiva norteamericana, não é mais que indecisão pulsinânime .

A política afegã de Obama foi evoluindo durante a sua campanha do ano passado com o propósito de repelir qualquer acusação de que era um pacifista na intervenção do Iraque. E (...) quando no resguardo da Sala Oval da Casa Branca, Obama, apelando ao bipartidarismo, apressou-se a acenar a bandeira branca, mantendo no seu posto Robert Gates, o secretário de Estado da Defesa, nomeado por Bush.

E constutiui uma equipa de política externa composta basicamente por falcões liberais da era de Clinton, encabeçados por Hilary Clinton e Richard Holbrook. O passo seguinte foi afastar o comandante dos EEUU no Afaganistão, general David McKierman, e nomear o general Stanley McChrystal, conhecido sobretudo por ter dirigido a secção epecializada de assassinatos do comando conjunto de Operações Especiais (...) .

Com desbragada insolência, o general McChrystal desenvolve agora uma campanha para mais 40.000 soldados adicionais no Afaganistão.

Harry Truman foi um presidente que lançou desnecessariamante bombas atómicas sobre Hiroshima y Nagasaki (...) . Lançou também a corrida armamentista da Guerra Fría em 1948. Apesar de tudo, os norteamericanos veneram-no, por duas coisas: pela advertência (referindo-se aos horrores da 2ª Guerra Mundial) “aqui termina a batata quente” e pela espectacular destituição de um herói da guerra, general Douglas MacArthur, por insubordinação, ao por em questão a direcção da guerra da Coreia por parte de Truman.(...)

Ora McChrystal não é um herói de guerra, como MacArthur. A gente necessita de uma prova de que Obama tem fibra na alma. Alto risco, talvez, mas a (demissão de McChrystal) seria, potencialmente, um grande êxito para Obama num momento políticamente muito complicado; e também uma airosa saida para a humilhação com o fracasso da candidatura de Chicago aos Jogos Olímpcos de 2016.
(...)
Não se alcança luz no fundo do túnel. A guerra dos robots, dos mísseis Predator enfurecem todos os afegãos (...). Com mais tropas e mercenários agora no Afaganistão que durante a presença militar soviética no seu ponto culminante, não há a menor possibilidade de que os Estados Unidos da América do Norte possam terminar o conflito e jogar um papel construtivo de largo prazo no Afaganistão. A pesença dos Estados Uidos não é senão pretexto de propaganda para recrutamento de mais e mais talibans (...).

No entanto Obama está rodeado pela mesma estirpe de intelectuais que persuadiram Lyndon Johnson a destruir a sua presidência com a escalada bélica no Vietname...”

Alexander Cockburn: editor da Revista CounterPunch
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CounterPunch ("Contra-golpe" em português) é uma revista bisemanal publicada nos Estados Unidos da América do Norte, dedicada a temas políticos.

CounterPunch é famosa pela sua crítica radical a Republicanos e Democratas e pelas suas extensas reportagens sobre o meio-ambiente, sindicatos, política externa e o conflito Israel-Árabe.

14 comentários:

Véu de Maya disse...

Meu caro!
De uma lucidez arrepiante... excelente a desmistificação. Em quem podemos acreditar? Em Deus? Nos políticos? nas estrelas? nos amigos? Ah, a paz, venha ela...porque sem ela tudo se agrava.

abraços,

véu de maya

O Puma disse...

Boa malha

a verdade já não é de agora

a paz anda de rastos

e à venda

lino disse...

Excelente artigo.
Abraço

jrd disse...

De facto, o Prémio Nobel da Paz não é lá muito bem frequentado.
(Ainda)Não sei se Obama "merecia" ser nele incluido...
Continuo a não ter certezas, principalmente antes de tempo...
Abraço

Maria disse...

Brilhante post! A necessitar leitura de MUITA gente...

Beijos

São disse...

Os prémios já não são o que eram, particularmente os da Paz.

Fica bem.


Vais ver "Os Três Cantos"?

Nilson Barcelli disse...

Tudo é falível... até os prémios Nobel o são.
Talvez atribuí-los depois da morte, já que há muitos casos falhados (até de fraudes nos resultados que conduziram aos prémios...).
Mais um bom post.
Abraço.

Vieira Calado disse...

Olá, meu caro!

Como sempre bem interessantes os seus posts.

E em relação à sua estimada presença no lançamento do meu livro, foi para mim, tê-lo conhecido pessoalmente.

Um forte abraço

MagyMay disse...

Um artigo que esmiúça.
Diria que uma escolha "certeira" a tua.

Beijo

Licínia Quitério disse...

Estranhos modos, os de Obama, de defender a Paz. Quanto a alguns dos seus antecessores na nobelização, o artigo é bem ilustrativo.
Prestimosa colaboração a tua. Grata.

© Piedade Araújo Sol disse...

um post bem interessante!

deixo um beij

Oliver Pickwick disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Oliver Pickwick disse...

É a probabilidade matemática aplicada à concessão do prêmio. Projetou-se a atuação de Obama nos próximos anos. Ou, alguém da comissão do prêmio pediu a uma cigana para ler a sua mão.
Um abraço!

M. disse...

Importante ter tido a oportunidade de nos dares a ler este artigo.