segunda-feira, maio 17, 2010

Deus e o Diabo moram nos pormenores...

Da visita do Papa Bento XVI, retenho as imagens da partida (sem ironia). Faraónico, em seu “papa-mobile”, ladeado de afogueados seguranças e a rua serpenteada pelo fervor dos fiéis, o Papa saiu do país em contra mão...

Fantásticas as imagens, à saída do edifício da Câmara Municipal do Porto em direcção ao aeroporto. Vindas do céu, as câmaras de televisão davam a profundidade do séquito, em movimento sobre o negro do alcatrão, onde a alvura imaculada (como as vestes do Papa) das enormes setas inscritas no solo apontava a direcção de trânsito, exactamente no sentido inverso ao percorrido pela comitiva.

Certamente que expeditas razões de segurança assim o determinaram. Mas, como bem se sabe, todas as coisas falam, quer dizer, qualquer facto, imagem ou acontecimento social é susceptível de significar para além do respectivo “valor facial”... No caso, as imagens explodem em sentido e o seu impacto submerge as meras contingências ou as eventuais razões de segurança.

Por outras palavras, o contra mão do Papa ganha expressividade plena de significado... E, como todos os símbolos, susceptível de várias leituras, conforme o lugar ideológico donde se parte. Certamente que para os fiéis católicos, para quem, ao Papa, todas as subjugações são devidas, será natural este atropelo das regras instituídas. E estas palavras serão, provavelmente, uma mesquinhez mal intencionada, quando não uma afronta...

Mas para quem, respeitando a figura do Papa e a fé dos católicos, se coloca em posição exterior à ideologia da Igreja, ao efeito das suas interpelações e de suas práticas, não pode deixar de reconhecer, nesta (pequena) transgressão das regras de direito, um gesto (discreto que seja) do poder imperial do Papa, a que o Estado Português se rendeu e foi sujeito empenhado no decurso da visita papal...

“Vejam como o Papa é grande e a sua Igreja intemporal, pois que não há regras terrenas que não se submetam à sua gloriosa majestade...” – assim “falam” as enormes setas brancas, implantadas no solo negro, subvertidas pelo séquito papal, na ordem que apontam e no sentido (de trânsito) que indicam...

E, deste distanciamento sacral perante os homens comuns para quem as normas – incluindo as de trânsito, helás!... - são estabelecidas, se revestem todas as dignidades e se constroem os mitos. Todos os mitos... Que luzem na cabeça das pessoas, por força da ideologia em que estão impregnados, bem acima e para além da condição humana e das contingências históricas.

Dir-me-ão, mas a imensa multidão que bordejou as cerimónias, nos diversos espaços, não será justificação bastante para que o Estado português se tenha rendido ao fascínio da ideologia católica, bem sabendo nós que a ideologia nunca se reconhece como “ideológica”...

Entendamo-nos. O papa Bento XVI merece todas as honrarias dignas do Chefe de Estado do Vaticano. O que aqui está em causa é a submissão do Estado português, que se pretende republicano e laico, isto é, indiferente à interpelação da ideologia religiosa, deslumbrado (quero acreditar que não rendido) com os “efeitos especulares” (e espectaculares) do catolicismo romano. (Confesso que cheguei a recear o veto presidencial da nova lei de casamento civil, após a visita papal).

Uma última nota sobre este tema, recolhida de notícias da imprensa. Na despedida do Papa, os pescadores da Afurada engalanaram os barcos do rio Douro na esperança, que se revelou vã, de merecerem uma paragem, um gesto, talvez uma oração de Sua Santidade, no seu apressado percurso.

Mas o sucessor de Pedro – o pescador - sobre cujos ombros se construíram os alicerces da Igreja de Cristo, não se dignou...

Também este “não gesto” papal está prenhe de sentido. Resulta claro que, para Sua Santidade, o mundo do trabalho não entra nas suas doutas preocupações teológicas...

O que permite dizer que, para além do contra mão no trânsito do Porto, o Papa Bento XVI caminha em sentido contrário ao percurso da História...

23 comentários:

alice disse...

estive no porto, para ver o papa. queria perceber ou tentar perceber a razão de tantos movimentos, o que teria aquele homem de especial, e surpreendeu-me o seu ar tão frágil de homem idoso, a sua pele cheia de manchas, os seus gestos tão inseguros. será pedro assim? beijinho grande, herético.

Maria disse...

Corres o risco de ainda seres excomungado...

:)))

Miosotis disse...

... sabes que não comento política e/ou religião, por princípio draconiano assumido. Mas quero deixar um
Beijo,

Frioleiras disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Frioleiras disse...

Bento XVI... não «era» o meu Papa...
.
Sou cristã, melhor: católica romana... e assumo-me de raíz completamente judaico-cristã...
logo até sou contra, absolutamente, à entrada da Turquia na Europa......
.
Mas sou, absolutamente democrática e admito todas as opiniões já que sou crescidinha demasiado .... para saber do que gosto............

tal como não pertendo que alguém «comungue» do que comungo.

Sempre fui católica embora por volta dos 30 anos me tivesse afastado... por egoismo, por me ter divorciado então ... e assim me sentir a viver e assumir «normas» que eram só minhas e não da religião a que pertencia.....

Com o andar do tempo aproximei-me através do O caminho neocatecumenal
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Caminho_neocatecumenal)

Interrompi porque... dado ter voltado a casar ... não poderia continuar a caminhar. Andar lá sim mas repetir sempre os mesmos passos...

Sofri, inseri-me noutros movimentos católicos mas o meu coração ficou sempre naquele movimento...

Mas aceito as normas católicas, as normas do Papa. Que nunca poderei viver na essência pois não poderei comungar.

Aceito-os e acho que, no dia que a religião católica «ceda» a algum dos seus tabus.... será o seu fim. È nessas fragilidades que está a sua força...
Só lá anda quem quer !!!!!
Ninguém é obrigado !!!!

Agora em relação aos Papas testemunhas do meu «volte face» isto é do regresso à prática da religião católica... tive um fascínio enorme pelo Papa João Paulo II, mais do meu estilo, e sobretudo... pq movia milhares de jovens. A noite de vigília, aquando da sua morte, na Igreja de S. Nicolau foi inesquecível................................

mas o «viver» não o ver.... ou «observar»
repito
«viver» a experiência que tive no Terreiro do Paço..............
foi algo impensável e insubstituível.................
nem era o Papa... tão frágil e tão velhinho............
foi a Fé e o enorme Respeito, Verdade e Esperança... que se respirava por todo o lado....

Foi uma enorme benesse,
neste mundo de perfeita crise em que
tenho absoluta certeza
não vamos dar a volta... e vai ser um terror para, sobretudo para a minha geração mais difícil de adaptar pq envelhecida....

A alegria que vivi no Terreiro do Paço ....
Para mim... foi morfina já no estertor da minha morte.....

Mas querido heréticozinho>:


aceita-me como eu sou... que eu aceito-te como és....

se em vez de criticares «sentisses» o lodo positivo da questão... telvez tivesses outra postura.............................................

© Piedade Araújo Sol disse...

por norma e costumo dizer:

não comento religião, politica e sexo.

mas, sem querer comentar, gostei muito de ler a sua analise.

um beij

lino disse...

Ainda vai morrer na contra-mão.
Abraço

jrd disse...

Excelente!
Manejar a palavra como quem maneja a câmara num travelling desafiador.
Abraços

São disse...

Caríssimo, claro que estou totalmente de acordo com o teu lúcido post.

Quanto a Jesus, espero que não lhe passe pela cabeça a ideia de se deslocar a Roma, pois o Papa e a Cúria o farão empalar, sem hesitações, na coluna da Praça de S. Pedro.
E isto porque não foi Judas o grande traidor mas sim Paulo de Tarso e quem o seguiu nesta organização da igreja enquanto instituição.

Sabias que os funcionários do Vaticano tinham que receber ajoelhados os telefonemas de Pio XII ?

Um abraço e desculpa o comprimento, sim?

lis disse...

Assino embaixo .
Seu País reconhecido como o pais mais católico do mundo se portou como tal.Ainda deslumbrado.
Em pleno século XXI e em plena decadencia da Igreja e seus pedófilos a tarja preta nos olhos permanece e a carreata segue.
Excelente seu texto.Publique-o em todos os jornais, quem sabe alguém se toca.
abraços

maré disse...

gosto de regressar e ler a lúcida visão que aqui se espelha.
não sei o que se passou no Porto, nem em Lisboa, nem em Fátima.

sei que é perigoso o ópio quando ilude e vicia

também sei que cada vez mais nos "despimos" de verdades e caminhos seguros para a esperãnça.

no respeito absoluto pela pessoa humana, "cresço" à rebelia das crenças

a história não se/me desmente: o teu título também.


___

obrigado e um beijo

MagyMay disse...

Escreves bem... como sempre!

Beijo

Genny Xavier disse...

Querido Herético,
Seu texto, repleto da mais lúcida visão crítca, me reafirma a certeza de que a crença espontânea no místico e no divino em nada se relaciona com os valores institucionais das religiões. Estes, sim, tão cheios de enganos e demagogias, demonstrações de poder e ostentações são, verdadeiramente, o ópio que aliena os que na boa fé os seguem.
Como sempre, seu texto me instiga pensar e me anima acreditar no valor das consciências.
Beijo e carinho,
Genny

Maria P. disse...

Um olhar claro.

Beijinho*

casa de passe disse...

Peço-lhe desculpa senhor Heretico mas vou somente deixar uma palavrinha à sua comentadora frioleiras:

Sempre ouvi dizer que "ele" escreve direito por linhas tortas e utilizando muitas vezes as mãos dos mortais. Terá sido ele que guiou a sua mão levando-a a escrever a palavra lodo?


Ernesto, o avô

Graça Pires disse...

Essa contra-mão parece-me uma metáfora de tudo o que diz respeito à hierarquia da Igreja...
Um beijo.

jawaa disse...

Como cidadãos responsáveis, vejo como obrigação fazer reparos àquilo que nos parece mal. O teu texto é para fazer pensar - é o que falta aos Portugueses - e não deixa de respeitar o que é de respeitar: a fé de cada um.
Mas, senhor, no século XXI era para sermos um pouco mais esclarecidos, afinal estamos na Europa... ou não?
Deixei de ver a TV pq a paciência esgotou-se de imediato no que respeitou a visita do Papa.
Espero que tenha ido em paz para a sua corte e seu reino.
Um abraço

Mar Arável disse...

Cuidado amigo

consta que ele ainda anda

por aí

Abraço

Marta disse...

venho só deixar um beijo,

pelas palavras.
obrigada :)

Oliver Pickwick disse...

Já que é tão necessária, dizem, a religião deveria ser a Física, que além de explicar tudo, ainda comprova em laboratório.
A propósito, soube que comprou uma daquelas estatuetas-quase-relíquia-souvenir com a imagem do papa. Quero ver como vai se explicar lá no Clube dos Heréticos. :)

Um abraço!

Vieira Calado disse...

Andou em contra-mão e,

claro, mesmo nas barbas dos polícias,

não foi multado!

Ai se fosse eu... ou você...

Bom fim de semana.

Um abraço

Graça Pimentel disse...

Realmente cada um de nós é um ser único. Sou católica praticante e respeito as convicções religiosas (ou não) de cada um. Não sou grande fã deste Papa como não era do anterior. O que eu mais gostei foi o João XXIII, a quem o meu Pai chamava o papa 23, 1º Esq.
O texto está muitíssimo bem escrito mas eu, quando vi a sinalética do trânsito apenas pensei que dava uma boa fotografia.
Suponho que o mesmo atropelo às regras se verificará com outras altas individualidades cuja segurança urge preservar.
Mas, atenção, o facto de ser católica não me tira a lucidez crítica. Há muita coisa na Igreja com que eu não concordo já que a sua adaptação aos tempos se faz a uma velocidade muito inferior à dos tempos em si. Daí um desfazamanto permanente. Mas a Igreja é feita de homens, seres obviamente imperfeitos.
Também critico, e muito, o que se gastou nesta visita. Então em Lisboa, foi uma afronta a quem trabalha e um atentado em altura de crise. Mas isso é a mania das grandezas de que o Estado Português sofre. E de que maneira... Isto deu-me mais que pensar. Se Cristo voltasse corria-os a todos.

beijinho

KrystalDiVerso disse...

A verdade é que o povo, a pobreza, sempre adorou a ostentação; prosta-se aos pés dela e sente-se a alma mais feliz se puder beijar-lhe a mão!... Ninguém se deixa cair aos pés da pobreza!... A igreja Católica tem um inferno considerável de histórias bem contrária ao que prega. Ou nem tanto, mas o egoísmo está sempre presente e as "setas" brancas apontam sempre na salvação da alma dos crentes e desesperados, caso contribuam para alimentar a ostentação dourada!... Governos, empresariado e beija-mãos, comungam do mesmo corpo e bebem do mesmo sangue, sempre da ignorância que se debate com infinitas cruzes castigadoras, dizem eles!... Já não há lugar para os ladrões e dizer que é do lado de cá que eles cumprem a pena, sem julgamento, não é pecado nenhum!...
Interessante como o nome de Jesus Cristo, um Homem, por sinal bom, passa despercebido na boca desses sumos católicos de fé contaminada por um vírus qualquer de paganismo!... Divirto-me à brava imaginando J. Cristo, passar por Fátima e correr aqueles milagres todos à cajadada; as beatas são de bradar aos céus e os peregrinos de pés moídos e esfolados lá vão pagando a suas promessas, mas não mudam, nem um pouco, para melhor! Se ladras foram, ladras voltaram; muitos, vão cheios de pecados e regressam de rastos sob o peso de outros tantos!...
O Papa é simpático, atrás daqueles olhinhos de cobiça, nunca sabemos o que cobiça; se a salvação o uma eterna cobiça em si mesma e pouco mais do que isso!... Ainda sobre J. Cristo, sabemos que continua bem pregado no báculo no qual os Papas parecem apoiar-se, mas a mim parece-me mais que é apenas para o materem sob crucificada vigilância, não vá Ele despregar-se e seria o Bom e o bonito!... Não me lembro de milagres, nos séculos mais recentes, feitos por Jesus; todos os mnéis, joão, zé, paulo, pobres Lúcias, Jacintos e Franciscas, conseguiram seus milagrinhos, no entanto, Ele... népias!...
Eu também confundo tudo e não há milagre que me valha; rezo para que ninguém me pregue... umas cajadadas!... E não me parece que gostasse de Papamobiles!... Dêem uma esmolinha para o pobre vaticano que abençoou a nossa economia, nossos empregos e nossos salários, Esses milhares de Euros que o "bento" levou!...




Bom fim de semana




Escolha entre... beijos e abraços