sexta-feira, outubro 14, 2011

Mitos e realidades da crise...


Até o prof. Cavaco Silva, do alto da sua sapiência - tão bom aluno que ele era na defesa da ortodoxia do euro, em nome da qual, como Primeiro-ministro, amputou o desenvolvimento do País, destruindo a indústria, a agricultura e pescas nacionais - compreendeu que a magna questão do déficit apenas se resolve com o crescimento económico.

De facto, entra pelos olhos dentro, que a recessão económica tem como consequência directa a diminuição das receitas do Estado, designadamente, por diminuição do montante dos impostos cobrados e que a contracção do consumo, pela diminuição do rendimento disponível das famílias se repercute negativamente no investimento e no consequente crescimento económico.

Para quê produzir, se não houver quem compre e consuma? A mercadoria tem sempre mesma lógica de acrescentar “valor”, ou seja, acrescentar lucro ao lucro e incorporar mais trabalho ao trabalho despendido. E se algum elo da “lógica” do lucro se quebra, todo sistema fica “perturbado” e junta crise à crise, numa espiral de recessão económica, em que o elo mais fraco na cadeia de produção e da sociedade pagam a respectiva factura.

Como, aliás, sabemos por “saber de experiência feito” e como o Primeiro-ministro acaba de nos confirmar com as violentas medidas de “austeridade” de novos aumentos de impostos, aumento do tempo de trabalho não remunerado, o corte nos salários e pensões e a brutalidade do corte do subsídio de férias e 13º mês.

Na outra face da crise, milhares de milhões de euros, que são isentos de qualquer contribuição para a redução do deficit, ou aqueles milhares de milhões que, não sendo isentos, saem do país rumo aos offshores e outros paraísos fiscais para fugirem ao pagamento de impostos.

Quem não se lembrará do caso exemplar da venda da “Vivo” pela PT à empresa espanhola Telefónica, com o fabuloso lucro de seis mil milhões de euros que não pagou um cêntimo que seja de impostos; como também não pagou qualquer imposto, a distribuição dos fabulosos lucros, em cujos beneficiários se encontram “pobrezinhos” como o Banco Espírito Santo, a Caixa Geral de Depósitos, a célebre Ongoing (a tal dos “espiões”), o grupo Visabeira ou a Controlinveste.

Importa também lembrar que, desde o início do ano, terão saído do País rumo aos offshores 6,6 milhões de euros por dia e que, nos últimos 15 anos, Portugal transferiu para o estrangeiro rendimentos em dividendos, lucros e outros, na ordem dos 51 mil milhões de euros, que fugiram ao pagamento de impostos no país, em resultado de as empresas detentoras do respectivo capital terem sede fiscal além-fronteiras.

Assim, o patriotismo da nossa burguesia! E, assim, a solidariedade europeia da livre circulação de capitais…

Claro que para tudo há limites. Talvez, por isso, o Presidente da República, em seu jeito peculiar, tenha vindo ultimamente a assinalar, como quem pretende “safar-se” da responsabilidade pelos tempos difíceis em que estamos mergulhados e da contestação generalizada que se advinha, que são necessários resultados para os portugueses tolerarem mais sacrifícios.

Não sei se Passos Coelho agradece. Afigura-se-me, porém, que não será o novo garrote de sacrifícios que irá evitar o colapso da economia e do colapso do Pais, que o Primeiro-ministro prenuncia.

A única coisa que o Governo de Passos Coelho tem é uma estratégia de desespero para oferecer aos portugueses e aos seus comparsas europeus, na vã esperança que a decantada Europa (ou a Alemanha por ela) resolva a crise e a pressão alivie. Tal qual o calvário de Sócrates e do seu governo, pelo que Passos Coelho nos poderia ter dispensado da sua “telenovela” e da agonia destes dias…

Apesar de todas as dificuldades, não estamos, porém, condenados ao desastre. Por nossas mãos e pela nossa luta outra política (e outra vida) é possível.

Assim, em unidade, a saibamos construir...

                                       

7 comentários:

Eduardo disse...

Estou na dúvida, mas, quem sabe, talvez haja uma luz ao fundo do túnel para onde nos fizeram entrar.
Se o Sr. Silva conseguiu compreender que sem crescimento económico, não é possível pagar o défice - agora, muito maior, com os juros em cima - então tenho esperança que os nossos ministros também compreendam. Contudo, desconfio que mesmo que o Sr. Silva lhes faça um desenho para ajudar a compreensão, eles, ministros não vão poder explicar isso aos "mercados" especuladores financeiros, pois isso seria a ruína de quem vive a emprestar dinheiro e a receber elevados juros. Isso de pagar com o crescimento económico, sem recorrer à banca, seria uma maldade muito grande para os senhores do capital, coitados!

Se, no meio de tanta tristeza, não nos alegramos, ainda contribuímos para o maior aumento dos portugueses deprimidos.

Um grande abraço

Vieira Calado disse...

Sim. Unidos e decididos!

Mas que oiço eu nos cafés de bairro, cheios de gente? estive com a orelha atenta à esquerda e direita. Nem uma palavra, acerca do aumento de 1/2 hora de trabalho diário!
Por aqui, pelo menos, não se passou nada!

Um forte abraço.

Miosotis disse...

Uma voz que poucos lembram! E como é belo o timbre de Adriano!

lino disse...

Lapso involuntário ou não, os sacrifícios nem em 20013 acabarão.
Abraço

bettips disse...

Eu espanto-me de tantas verdades que brotam como cobras dessas bocas conhecidas: até sua excelência um ex- ministro da AI, o profícuo comentador AC (sim, morreu um homem com um tiro de polícias, há muitos anos, numa manifestação pacífica, no Porto: diria mesmo que foi na altura que tudo se delineou, 81/82 com cavacadas, com ads e quejandos) acha que estas medidas estrangulam o crescimento pois que reduzem drasticamente o que as pessoas normais gastam e estrangulam o comércio.
Quando por acaso vou certificar-me de alguma coisa saída das brumas da memória, fico siderada com os títulos, os nomes que há 30 anos foram rodando. Siderada e escandalizada com a falta de vergonha que ELES apresentam hoje; e a superficialidade com que "o povo" se esquece.
Abç

Peter disse...

Ando só a ver quem ainda anda por cá.

Peter

comversas.xaxa@gmail.com

VÉU DE MAYA disse...

Meu caro herético!

Adorei ouvir o Adriano...Quanto à tua análise é clarinha.Quanta desgraça ficará esquecida!Quando o mito em vez de trazer afecto espalha o deserto...Que tristeza.
Se não fora tão trágico apeteceria...gargalhar. Cuida-te na saúde, porque a saúde é ainda o bem mais precioso.

Abraços,

Véu de Maya