quarta-feira, agosto 01, 2012

UM CONTO FANTÁSTICO...


Depois da estreia – Cena I

Caído o pano e apagadas as luzes, distendeu os músculos e ergueu-se da poltrona, onde gradualmente deixara as emoções da estreia, enquanto os ecos, aplausos e “encores” se esfumavam nas células nervosas, em ondas cada vez mais distantes.

Valera a pena! Não seriam necessárias as críticas nos jornais do dia seguinte para ter a certeza que o espectáculo fora um sucesso. Sabia, porém, que nas emoções do momento, naquela cartografia de sentimentos díspares, na osmose de sensibilidades em que durante meses se envolvera, secundária fora sua pessoa e pouco contara o seu tão proclamado talento: o apuramento de uma deixa, aqui ou ali, um acerto de luzes, um pormenor de guarda-roupa, uma leve correcção de marcação ou no registo de vozes, por vezes indispensáveis.

Porém, o teatro eram ELAS, essas duas mulheres sublimes, que por amor a elas, entrara naquele projecto, onde discretamente soubera imprimir a sua marca estética...

A ACTRIZ, vibrátil e intensa, transfigura-se no palco; e no nervo e no sangue de seu corpo, frágil e sensível, todas as culpas se redimem e todas as glórias, prazeres ou depravações mundanas, alcançam a beleza sublime do “Cântico dos Cânticos”...

A AUTORA coloca no coração da escrita a alegria fecunda da sua criatividade participativa, exposta e vulnerável, tantas vezes graciosa, onde flutuam, num jogo infinito de espelhos, heróis e vilões, sentimento calmos e funestas paixões...

Como não amar aquelas duas MULHERES? Adora-as... E, por amor a elas, comete pequenas/grandes traições, como aquela de, na encenação da peça, alterar o “final feliz” de deixar a heroína banhada em lágrimas, coberto o corpo nu com um lençol, como se tálamo nupcial fora, ao arrepio do que o público (e autora) esperaria. Mas a verdade é que não admitiria outro final, mais púdico, pois não suportaria vê-la assim exposta nos braços de outro homem...

Ama as duas, com paixão e ternura. Receia deixar fluir, um qualquer dia, a sua loucura mansa e, com o pano caído sobre o palco, com elas ensaiar a peça única das suas vidas. Sem outro guião que não seja a expressão livre do Desejo e sem outros aplausos que não sejam a cumplicidade erótica à solta.

Depois do Teatro, a Ceia – Cena II

Possuído pela paixão, como se fora um veneno doce, que tolhe a consciência e despreza quaisquer outras emoções que não sejam o deleite de mergulhar nas suas ondas, o ENCENADOR, frente ao espelho, maquinalmente ajustou o smoking.

Olhou-se nos olhos e acendeu nos lábios o leve sorriso de ironia, que a si próprio dedica em ocasiões como aquela, em que sabendo-se embora senhor de si, não pode, contudo, deter os fios da corrente do destino e, por isso, o “sim” ou o “não” se jogam numa centelha de intuição, mais que num exercício deliberado de inteligência.

Não, não iria à faustosa ceia, que o MECENAS, no seu palacete recentemente restaurado, decidira organizar para seu gozo pessoal e em homenagem a toda a companhia. Claro que tinha boas razões para ir. ELAS lá estariam requestadas, soberbas de charme e inteligência, dominadoras nesse palco sofisticado de mundanidades e prazeres fugazes. Mas não iria...

Não lhe agradava, especialmente nessa noite de consagração, ter de sentir-se refém do seu talento, escutar cumprimentos, brandir sorrisos, responder às perguntas imbecis dos jornalistas “culturais”, que certamente estariam em peso. Mas, sobretudo, preferia evitar o espectáculo do sorriso predador do MECENAS, cobrindo de elogios e atenções aquelas duas mulheres, alfa e ómega de seus êxtases. Se havia algum sucesso a comemorar deveriam ser apenas os três: qualquer intromissão seria perturbar o divino sopro do equilíbrio perfeito...

Não iria, pois! Num gesto brusco desfez o laço e libertou-se do smoking, enquanto se dirigia para o seu recanto predilecto na biblioteca. O sangue, porém, continuava a latejar de inquietação. Bem sabia ele que o MECENAS as desejava tanto, quanto ele próprio. E que sua momentânea desistência seria pretexto suplementar para os “avanços” do adversário. Mas não contaria com ele naquele espectáculo de sedução. Ponto final!...

Sempre assim fora a estranha relação entre os dois...

Eram amigos desde sempre!... Oriundos, ambos, de uma certa aristocracia arruinada da província, percorreram meio século de vida, adivinhando-se nos caminhos, nem sempre dóceis, trilhados por um e por outro. Fora assim no liceu, na faculdade, mais tarde em Paris, partilhando estudos, gostos, aventuras e mulheres - como se vida de cada um fosse réplica da vida do outro. Melhor: como se, por um qualquer acidente do destino, a vida de cada um realizasse neles o mesmo percurso matricial!...

Apenas o rosto e a profissão os distinguia. E, evidentemente, a ostentação da riqueza material. O sucesso empresarial fizera do MECENAS um homem prodigiosamente rico...

Em vão, buscava o ENCENADOR, envolvido no turbilhão destes pensamentos, refrigério para o estado febril e para aguilhão do desejo que, em sua imaginação exacerbada, teimava em queimar-lhe a carne. Afastou, assim, com os dedos, as gotas de suor que, como orvalho matinal sobre pétalas, lhe ornavam a fronte e retirou da estante o LIVRO.

Sempre o mesmo livro quando, como agora, a alma delira e o corpo requer o calor de outro corpo.Abriu, assim, ao acaso, as páginas do “Fausto” de Goethe e soletrou, intimamente, o seguinte diálogo:

Fausto: -“Batem? Entre. Alguém me vem amofinar”.
Mefisto: - “Sou eu!...”
Fausto (enfadado): - “Entra lá!...”
Mefisto: - “Ora assim é que é falar, acho que vamos dar-nos bem...

Não teve mais tempo para prosseguir a leitura. O portão da entrada ribombava de impaciência. Abriu. ELAS ali estavam, cobertas de glória. A AUTORA envolta num esplêndido vison castanho. A ACTRIZ com uma estola de arminho sobre os ombros, fazendo ressaltar o azeviche dos cabelos.

Da penumbra do hall, sem cerimónia, o MECENAS irrompeu e gargalhou, numa reprimenda fingida: - “Como não quiseste estar na minhaaaa Ceia - sublinhou – viemos nós celebrar contigo...”

Depois da Ceia o Jogo – última Cena

Entraram. O MECENAS balanceava ainda o corpo na gargalhada e ocupava todo o espaço no jeito peculiar de seus movimentos felinos. ELAS, com um brilho especial nos olhos, prenunciador das grandes explosões luminosas que, uma e outra, guardavam na subtileza e graça de seus gestos.

- “Jogamos?!...” – perguntou a ACTRIZ num murmúrio, enlaçando-o. Sentiu o ENCENADOR a carícia doce de seus cabelos na face e o lume dos olhos negros devassando os seus.

Pressentiu, então, uma peça cujo alinhamento desconhecia. E a AUTORA, num sorriso de cumplicidade, entre irónica e decidida, acompanhando as palavras com um beijo: - “Viemos aqui para jogar, sabias?”

Contrariado, com o olhar interrogou o MECENAS: - “Não te vires para mim, estou tão inocente quanto tu...” – disse este, rindo com gosto, suspendendo, por momentos, o gesto de abrir o champanhe. “Mas por mim, aceito!”- acrescentou, sublinhando a intensidade da gargalhada.

O ENCENADOR compreendeu que estava “cercado”. E, se pretendia dominar a cena, teria que tomar a iniciativa.

- “Seja!.. Joguemos, pois!”, anuiu. E, libertando-se do abraço: - “Mas já que jogamos, façamos deste jogo uma obra de arte!...”

E, em passadas largas pela sala, frenético, em súbita iluminação, descreveu cenário e as regras do “espectáculo”. Jogariam, como se aquele jogo fosse o último acto de suas vidas. Nus e com máscaras, como se toda a vida passada se desfizesse em pó nos passos percorridos...

Portanto...

Ao centro, a mesa de jogo com pano verde cuidadosamente aberto. Apenas a luz crua da lâmpada solta reflexos doirados sobre os rostos, cobertos de máscaras barrocas: o MECENAS, com uma máscara estilizada de Dionísios; o ENCENADOR, com a ”carranca” de um velho Fauno.

ELAS, mais subtis, escondem o rosto em mascarilhas de seda... Azul, uma, sob a qual espreitam os olhos de uma luminosidade intensa. Negro e branco a outra, sugerindo, vagamente, o esboço de um Pierrô...

- “Para quê jogar se conhecemos o resultado?” – exclama, num sorriso melífico, Dionísios. – “Depois do jogo” – esclarece, misterioso -  sobrará  apenas o esboço ténue de nossas máscaras, flutuando no espaço...”

- “Jogaremos!...” – teima categórica a mascarilha azul, que bem conhece as subtis ironias de Dionísios e as suas blagues para lhes conceder qualquer importância. E assertiva: - “todos nós, os quatro, somos jogadores e apreciamos o jogo pelo prazer de jogar...” 

E, empolgando-se: -   “Já que Deus não joga aos dados, enfeitemo-nos nós de deuses e joguemos!...”

E o velho FAUNO, que outra coisa não quer que não seja o calor dos corpos na intimidade do jogo e a colheita sinuosa das almas, em cada lance, declara, enfático:

- “Joguemos, pois!... E saibamos guardar a memória do jogo, como o vinho guarda o perfume da vida...”

Toda a noite jogaram, intensos e vibrantes. Subindo mais e a parada. Como se cada lance, fosse o orgasmo primordial. Ou, como se o universo se esgotasse na energia fálica dos dedos sobre a mesa de jogo...

Raiava o dia, naquele casarão decadente nos arredores da grande urbe: -“Ficamos por aqui!... “ - declara categórica a mascarilha azul – “o sol não tarda a nascer e eu quero estar em casa, antes das crianças irem para o Colégio...”

Ganhara. A mascarilha azul ganhara um bom pecúlio de letras. Jogara inteligente e contida e ganhara, pois bem sabia que nunca se jogam emoções num primeiro jogo e, sobretudo, numa única jogada.

- “Saio contigo!...” – diz a mascarilha “pierrô”, alvoroçada com os preparativos de uma viagem em perspectiva. Como jogadora exímia, acumulara também emoções às emoções que trouxera!...

Restaram DIONÍSIOS, com seu riso sardónico, e o velho FAUNO, que abatido se levantou e tirou a máscara. Atravessou, com elegância o salão até ao candelabro, onde se finavam as velas. Acendeu uma cigarrilha negra, juntou o polegar com o indicador e, se qualquer esgar de dor, apagou uma a uma, todas as chamas com os dedos.

Liberto assim da sua condição ou destino de velho FAUNO, voltou-se o ENCENADOR, num arrepio de gelar corpos e almas. Perplexo, deparou com a máscara tombada de Dionísios. E, em vez do MECENAS, em seu lugar, o seu próprio corpo de ENCENADOR e seu rosto duplicados!..

Cumpria-se, finalmente, o drama órfico de seu destino paralelo, tantas vezes prenunciado...

Soou, então, uma voz cava, vinda de além do Tempo: -“No delírio dos corpos, quiseste colher almas!... Espero que esta derrota te ajude a compreender a tua...”

No ar pairava intenso odor a enxofre. Como espectros, AUTORA e ACTRIZ acenavam do espaço, sem se saber, se como chamamento ou como despedida...

De um canto da sala, Mefisto, saído de uma qualquer página do “Fausto”, esguichou uma gargalhada (ihihihih) e desapareceu envolto em fumo denso...

E este pobre narrador, que não é um homem justo e que, por vezes, tem a pretensão de jogar aos dados com a vida, declara que ateia fogo, em praça pública, às palavras e cenas atrás (d)escritas, em expiação, não de seus pecados ou culpas, mas de seus exageros...

Manuel Veiga

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Este espaço entra de pousio até meados de Setembro. Virei uma vez por outra, tanto quanto as condições permitam, a abrir as janelas e cuidar das plantas...

Entretanto, deixo-vos com a reedição deste conto, da autoria de meu alter ego, que teima em espreitar no proscénio...  rss

Beijos e abraços.













13 comentários:

folha seca disse...

Boas férias meu caro!
Abraço
Rodrigo

C Valente disse...

Saudações amigas e boa ausência que espero sejam de férias bem gozadas

Maria disse...

Gostei de te reler. Já tinha saudades...
Boas férias e até à Festa!

Beijos.

jrd disse...

Reli-te com a mesma emoção com que te tinha lido.
Leva o talento contigo de férias, mas cuida bem dele.
Cá fico à espera.
Um grande abraço

lino disse...

Boas férias!
Um grande abraço

Fragmentos Culturais disse...

Escrita talentosa!

Um beijo, 'Herético'!

Nilson Barcelli disse...

É um excelente conto.
Parabéns pelo talento que ele revela.
Boas férias.
Abraço.

Jorge Castro (OrCa) disse...

Sabes? Estive a ler O Físico Prodigioso do Jorge de Sena, do qual concluí uma leitura apaixonada há minutos. E, de seguida, acidentalmente, vim ler-te... E não é que te descubro meandros inexplicavelmente paralelos (convergentes?), palavra após palavra? Ele há coisas...

Grande abraço e belas férias!

bettips disse...

Glórias e tragédias: como os amigos: decadente um com literatura dentro/ascendente o outro com acções dentro. A somar.
"levado à cena num teatro..."
Abçs até depois

Jorge Castro (OrCa) disse...

Um ligeiro escrito ao que acima ficou escrito:

- Não se entenda, obviamente, do meu comentário, que a tua excelente prosa colha quaisquer referências do Sena que eu acabei de ler.

O certo é que, lendo os dois autores, ele e tu, e como pretendi dizer acima, descobri neles uma similitude de raciocínio, ainda que em matérias absolutamente díspares, que me emocionou.

Enfim, valha aqui tão só o dito atribuído a Voltaire, segundo o qual «les beaux esprits se rencontrent»...

Sempre a ler-te e com um forte abraço.

joão l.henrique disse...

Boas férias.

Um abraço.

São disse...

Já que encerras temporariamente, te desejo umas férias excelentes.

Te abraço, sem jogos, rrss

Hanaé Pais disse...

Fantástico texto!