quarta-feira, junho 25, 2014

Um Poema de Amor (ridículo)



Põe a mesa, amor, desdobra o linho
E em teu olhar bebe as linhas de meu rosto...


Serve a ceia, amor, corta este pão
E em tuas mãos amassa a ternura deste beijo...


Verte o vinho, amor, enche esta taça
E em teu seio acolhe o suor da minha fronte...


Cerra a porta, amor, e apaga a vela
E em tua mão pára o tempo que me queima...


Abre o leito, amor, recolhe a colcha
E em teu corpo geme a febre do meu desejo...


Fecha os olhos, amor, e deste cansaço
Em tua dádiva fecunda minha dor e minha eira...




Manuel Veiga

15 comentários:

Lídia Borges disse...


De amor, sim!
Comovente de tão "ridículo".

Um beijo

Helena disse...

Ridículo!!!? Nunca!!!
Quando se deixa a alma falar em versos... Tudo fica lindo!
Sorrisos, estrelas, meu carinho,
Helena

jrd disse...

Belo poema!
Nada melhor para o amor do que um poema ridículo.

Abraço Fraterno

Anna disse...

É assim o Amor... imperativo nos verbos, compromissivo nas emoções...
Quis um acaso feliz que me tivesse cruzado com a Virgínia no domingo passado... Um exemplar dos seus "Poemas Cativos", depois de saboreado, sorri-me agora com doçura numa das prateleiras da minha biblioteca. É um livro belo. Muito belo.
Obrigada! :)

© Piedade Araújo Sol disse...

se isto é ridículo, eu já não sei discernir o que é um poema de amor.

muito belo!

:)

Graça Pires disse...

Não ridículo. Inocente e perturbante ao mesmo tempo. Gostei muito.
Um beijo, meu amigo.

AC disse...

Intencionalmente "ridículo", que isto de ter base de sustentação para tudo tem que se lhe diga.

Abraço

Teresa Durães disse...

Gostei mas não será uma versão egoista do amor?

maceta disse...

se calhar o amor tem algo de "ridículo" para os que os sentem...

Graça Sampaio disse...

O amor nunca é ridículo e ai de quem assim pensa! (O Pessoa nisso não serve de exemplo...)

As palavras continuam a ser muito bem esculpidas e a cadência lembra as cantigas de amor à maneira provençal.

(mas... desculpa-me, heretico, é um bocadinho machista...)

Beijinho.

heretico disse...

Graça Sampaio,

Interessante a questão que levantas.

De facto, o poema não remete para o tipo de mulher "moderna", "emancipada" e ferozmente zelosa dos seus direitos de "igualdade" com o homem e, como ele - acrescento - acorrentada ao processo de produção e consumo da sociedade capitalista actual.

Porventura, como bem notas, o poema tenha em vista o modelo feminino da cultura provençal, ou se quiseres ir mais atrás o "arquétipo" feminino da cultura clássica tão bem ilustrado em Penélope.

Eu sei que "celebrar" a mulher fora dos cânones do "pensamento único" e de uma certa "post-modernidade" traz alguns riscos e equívocos - como esse de presumir "machismo" onde encontra "veneração" e até a "mitificação/divinização" do estatuto social da Mulher.

Quanto ao "pobre" Pessoa, deixa-o em paz, coitado! é apenas um enfeite retórico no título do poema - bem sabemos que ele não é "autoridade" na matéria.

Estou grato pelo comentário, pois me permitiu "clarificar" o poeminha.

beijo

Graça Sampaio disse...

Obrigada pela resposta, querido heretico! Não sou feminista nem nunca fui por isso não me «abespinhei» com o poeminha - antes pelo contrário: achei-o uma pequena delícia com as palavras certas (como de costume, aliás) Uma verdadeira Cantiga de Amor - D. Dinis não teria feito melhor...

Beijinho

Mar Arável disse...

Pessoa à parte

todas as mulheres
são hinos à liberdade
mesmo que não se mexam
a dardejar nos mastros

sem mulheres seríamos um deserto
sem vida por dentro
e os pobres homens
só teriam de rastejar
à pergunta de um qualquer deus

Abraço sempre

Baila sem peso disse...

O Amor servido em bandeja de ouro
Posto na mesa de realeza
Acendendo chama de folha de louro
Enaltecendo a sua grandeza

Muito bonito com toda a certeza!!

Beijinho e boa semana

Lune Fragmentos da noite com flores disse...

A conversa vai interessante por aqui :-)

Mas o poema remete sim muito mais para uma 'Penélope' do que para a mulher 'provençal'...

Retirando todas os 'equívocos' o poema é lindo!

Um beijo,