sábado, novembro 08, 2014

"COMO UMA BALA NO CÉREBRO..."


Há mais de quatro décadas, ouvi da boca de um expert norte-americano que a mensagem publicitária deve explodir no cérebro “como uma bala”. A metáfora, de uma eficácia arrepiante, exprime a vocação totalitária do consumo, a que todo o Desejo, Vontade, Emoções e Sentimentos são submetidos pela força prodigiosa da publicidade e do marketing...

Hoje, não é motivo de escândalo! Mas, então, éramos jovens, tínhamos sonhos e não bebíamos Coca-Cola!... Foi, assim, por nós considerada tão elucidativa imagem da bala no cérebro como mais um exemplo “prático” da urgência em mudar o mundo - para que o Homem, liberto das contingências da exploração social e das manipulações do consumo, pudesse, enfim, assumir-se, sem culpa, nem pecado, na reincarnação de Eros e a publicidade não fosse mais que a celebração da Poesia...

Surpreendi-me nestas lucubrações ao ler, no semanário Expresso (27.10.07), que a revista de economia norte-americana Forbes – uma revista de negócios – publicou um artigo entusiástico sobre os avanços das neurociências, com o sugestivo título (em tradução livre) “À procura do botão/interruptor das compras”.

O artigo em causa não saiu, obviamente, por acaso, mas sim na sequência de um crescente interesse nos meios norte-americanos por este assunto. O Expresso cita, a propósito, uma variedade significativa de artigos sobre o tema e esclarece que a Forbes, “que não brinca em serviço”, segue com atenção o que passa nos laboratórios de investigação das neurociências.

Porquê? Porque estas pesquisas tentam perceber o que acontece no nosso cérebro quando este é sujeito a determinados estímulos. E, claro – diz o Expresso – “o facto de as empresas poderem configurar os seus produtos ao conhecimento preciso do que se passa no cérebro do consumidor, é algo cujo potencial só pode ser aliciante”, já que permitirá a perfeita adequação dos produtos ao consumo. E o conhecimento dos impulsos cerebrais permitirá “carregar no botão das compras de cada um de nós, individualmente...”

Por isso, a Forbes – acrescenta o semanário - voltou à carga com novo artigo, desta vez intitulado “Este é o seu cérebro quando faz uma compra”. Este segundo artigo da Forbes terá sido motivado pela publicação de um texto da revista científica Neuron, na qual um grupo de estudiosos revela que, fazendo scanning - com uma das mais recentes tecnologias disponíveis, o FMRI (Functional Magnetic-Resonance Imaging) – ao cérebro de um indivíduo se “conseguia determinar se ele iria fazer, ou não, uma determinada compra”.

Esclarece ainda o Expresso que os autores do artigo científico em questão pertencem a algumas das mais prestigiadas escolas dos Estados Unidos e que trabalham numa nova área de investigação designada “neuroeconomia”. Esta nova “ciência” combina as contribuições das neurociências, da economia e da psicologia na perspectiva de definir, entre outras questões, os padrões de comportamento dos indivíduos na tomada de decisões de consumo...

Como se compreende, os artigos são cautelosos quanto à possibilidade de as “lojas em geral” terem capacidade para “olhar” para dentro do cérebro dos consumidores – “não só pelo custo proibitivo das máquinas que o fazem, como pela sua inadequação aos espaços mais comuns”-, mas garantem que os resultados obtidos permitem já não só compreender melhor os mecanismos da tomada de decisão dos consumidores “como prefiguram claramente o futuro que se prepara”.

Enfim, se eles o dizem...

E, com toda a naturalidade, referem que grandes empresas como a General Motors, por exemplo, têm vindo a utilizar tecnologias de visualização do cérebro em tempo real, para estudarem as reacções dos consumidores perante determinadas imagens específicas (carros, dinheiro, etc.).

Entretanto, a dimensão orwelliana agrava-se quando se fica a saber que tais tecnologias de “leitura do cérebro” serão, num futuro não muito distante, também “passíveis de serem exploradas e aplicadas em contextos muito diversos, como a política e a cultura...”

Eis, pois, o anúncio antecipado da derrota de Eros e do fim da autodeterminação do Homem que, desde os helénicos, tem percorrido História como promessa de realização plena...

Perante isto, que posso dizer-vos? Que a metáfora da explosão da bala no cérebro deixou de fazer sentido? Ou que ainda hoje não bebo Coca-Cola?!... Ou dizer-vos da fatalidade do absoluto “Triunfo dos Porcos”?

Ou, pelo contrário, proclamar que continuo acreditar na urgência em mudar o Mundo?

Manuel Veiga


8 comentários:

lino disse...

Não me espantaria que, qualquer dia, os telemóveis já viessem equipados com essa tecnologia!
Abraço

Lídia Borges disse...

Os investimentos em estudos científicos não deveriam privilegiar a resolução de problemas que afetam o bem-estar das pessoas?

Já tinha ouvido falar vagamente do assunto que nos traz. Fiquei um pouco assustada com a ideia de, ao entrar numa loja, ter uma máquina apontada, pronta a medir o meu estado de satisfação ou desinteresse em determinado produto e a partir daí, alguém aparecer para me fazer "explodir a bala no cérebro", a mim que nunca gostei de coca-cola.

Bj.

Ana Tapadas disse...

Também não gosto de coca-cola (hábitos de quem se iniciou tarde)...nem sequer sou consumista. Assim, prefiro a tudo o último parágrafo!

Beijo

Rogerio G. V. Pereira disse...

A caminho desse "Admirável Mundo Novo"?

E quem sabe se na "Lisboa Games Week" não se preparam as mentes para esse salto?

(excelente texto, pá)

jrd disse...

Excelente texto.
Falhada que está a possibilidade de manter o consumo sem pôr fim aos salários, eles tentam tudo para manter o "status quo".
Resta-nos resistir à Coca-cola, a todas as coca-colas enquanto aguentamos o "triunfo deles"

Um abraço fraterno

MARILENE disse...

É fácil atrair consumidores mediante comerciais até simplistas e/ou com vendedores que entendam, por características humanas já estudadas, os interesses de cada um. Há quem consiga vender uma tv para quem procura apenas pilhas. Independente desses estudos, já existe exploração da mente humana nos campos temidos, como o da política, atingindo os que não pensam ou não têm conhecimentos suficientes para uma análise própria do que veem e sentem. Não será a "leitura do cérebro" um impeditivo às mudanças almejadas, desde que os cérebros se mantenham firmes em sua vontade. Abraço.

Helena disse...

Procuro manter corpo e mente saudáveis... definitivamente não tomo Coca-Cola!
Também acredito na urgência de se mudar o Mundo!
Apenas receio que o “Triunfo dos Porcos” se dê antes disso...

Majo disse...

~ ~ Mudar o Mundo é uma tarefa descomunal, mas esta trabalhosa partilha é uma dádiva importante.

~ ~ Quem sabe?
~ ~ Até poderá ter efeito dominó.

~ ~ Dias felizes e criativos. ~ ~