quarta-feira, março 11, 2015

ALVOROÇO TARDIO...


Hoje a várzea e sobre o rio o festivo freixo e sua sombra
E o cantar do melro no amarelo doirado do sol em fim de dia
E esta pedra no inamovível tempo em que me sento...

Nem sequer a melancólica aragem, nem o restolhar da memória
Como insecto em flor. Nem o mel silvestre da infância.
Nem o vime. Nem a aurora do sonho. Nem o cântico nas igrejas...

Apenas o alvoroço tardio. E esta pedra absurda no caminho
Como trono. E meus dedos desfiando contas. E o mistério
Inaudito das palavras. E o perfume da dor de todas as ausências.

Fenecem as grinaldas. Que as cores são apenas nevoeiro
Dos sentidos. Agora o vinho é espessura de bocas. Amargo.
E corpo do Desejo. Ardendo. Como lava em que me extingo...


Manuel Veiga

20 comentários:

G- Souto disse...

Gostei profundamente deste teu poema.
Não vou exprimir muito, evito 'dissecar' as coisas belas. Fico-me pelo sentir...

bejo, 'Herético'

Agostinho disse...

Poema forte que expressa a erosão do tempo. E, no entanto, a natureza renova-se: dê-se corda às sapatilhas e abandone-se a imobilidade da pedra.
Abraço.

Majo disse...

~
~ Belíssimas imagens primaveris - cores, cheiros, cantos, sabores
e paixão - em total e pungente apoteose dos sentidos.

~ ~ ~ Excelente, composição Poeta Amigo! ~ ~ ~
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Lídia Borges disse...

Bem, não "toco" para não estragar.

Bj.

Lídia

Baila sem peso disse...

Alvoroço tardio, com tanta beleza
Deixa que te diga...
que nunca será tarde à tua mesa!!! :)

Obrigada!

beijos

Graça Pires disse...

Um poema muito belo. Como se fosse um começo de sedução no feno dos olhos, aquilo a que chamas um "alvoroço tardio".
Um beijo, meu amigo.

Majo disse...

*
~ ~ Corrijo o lapso...

~ ~ Excelente composição, Poeta amigo.

~ ~ ~ Com admiração, um beijo. ~ ~ ~
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

CÉU disse...

O alvoroço no corpo nunca é tardio.
Apetecia-me ficar com o sabor na boca destas palavras.

O Puma disse...

Pelo sonho acordado

é que vamos

Abraço amigo

© Piedade Araújo Sol disse...

e fica os aromas e a pedra absurda que serve (por vezes) de descanso ao Poeta.

e restará sempre a vontade de sonhar...

bom fim de semana.

beijo

:)

Jorge P. Guedes disse...

É muito bom o que aqui nos deixou, caro amigo.

Um abraço.

Suzete Brainer disse...

As horas desenhadas de memórias

e a riqueza do belo sentir

poético a degustar a vida...

Um poema lindo que profundamente

ficou em mim, adorei!! Bjo.

Menina Marota disse...

Um sufoco de poema. Com sentidos e sentimentos vários. A lembrar vidas e Vida.

Um abraço de carinho.

Marisete Zanon disse...

Poucos os que ainda amargam o verdadeiro sentido e sentimento da poesia.
Gostei muito.

Um abraço

ॐ Shirley ॐ disse...

Sabor de saudade, de sentimentos perdidos, de impotência contra o tempo...
Maravilhoso, heretico!!!
Beijo!

Graça Sampaio disse...

Lindíssimo! Belas imagens e a força dos sentidos. Em final de festa?!

Mas muito bem torneado. Com as palavras cirurgicamente escolhidas e encontradas (como sempre)

Parabéns, Poeta.

Ana Tapadas disse...

É um poema enorme, no seu tardio alvoroço. Impressionam-me poetas maduros que assim escrevem.

Beijo

lis disse...

Tardio significa florescer depois do tempo habitual tal como chuva serôdia que cai durante as primeiras semanas da primavera(antes da colheita),e é necessária para fazer com que a plantação amadureça.
Que não feneça o sonho heretico,
É sempre muito lindo!

maceta disse...

há quem leia um poeta, mas é difícil perceber os meandros do seu pensamento...

jrd disse...

Mesmo tardio, se agita a memória vem sempre a tempo.
Abraço fraterno