sexta-feira, novembro 06, 2015

FRAGMENTOS XIV - a Tabanca. Ainda.


Dormiu o Alferes, mas pouco tempo, que o tempo do sono (e do sonho) não se medem pela mesma medida do tempo vivo. Porém os minutos que foram de sono e o desvelo de Dona Rosalinda retemperam as forças e o ânimo do Alferes que, de supetão, largou o aconchego quente dos envolventes braços e saiu do amantíssimo leito, espicaçado pelo aguilhão do Dever que o reclamava, pois bem sabia que os seus homens, recolhidos no velho armazém de mancarra, elevado agora à categoria de caserna militar, esperavam suas instruções.

Entretanto, o “Ordenança” do comando, conhecido em todo o Batalhão pela expressiva alcunha “O Assobio” que, por razões que adiante se saberão, mantinha pelo Alferes uma devoção a rasar o incómodo, havia depositado o pesado malote militar, onde o Alferes acomodava a escassa roupa, fardas e livros, nas mãos do maiato negro de Dona Rosalinda, que discretamente o deixara à porta do quarto. Pode assim o Alferes cobrir o corpo distendido de roupa limpa e envergar a farda nº 2, na sua versão africana, de cor castanho claro, apenas calções e camisa colonial, com largos bolsos no peito e presilhas nos ombros, onde, solicita, Dona Rosalinda ajudara a enfiar seus doirados galões de oficial.

- “Vai, meu filho, vai aos teus deveres! E não esqueças que, também aqui, tens muito trabalho para fazer...” – Aludia, com um sorriso, Dona Rosalinda, em sua inesperada ironia, não apenas ao trabalho suplementar, em que as circunstâncias por si escolhidas e alimentadas, haveriam aprofundar a educação erótico-sentimental do Alferes, mas também ao trabalho oficial, tal como fazer inventário de todo o recheio, elaborar o registo para memória futura e assinar o auto de recepção da vivenda, cuja expropriação fora, de comum acordo, negociada pelo Comando do Batalhão, em nome do Estado-maior do Governo Militar da Província, destinada, perante o novo quadro de evolução da guerra, ao corpo de comando da guarnição militar da Tabanca.

Dona Rosalinda, em seu instinto de sobrevivência, bem sabia que os tempos idos eram tempos passados, sem regresso possível, e, por isso, tratou de salvar o que havia a salvar, vendendo, por bom preço, a espaçosa vivenda ao Exército. Para isso contaram, certamente, os bons contactos que mantinha no Palácio do Governador Geral da Província e que as suas quase três décadas de residência na colónia ajudaram a consolidar.

Lá fora a tarde finava-se. Depois da violência da tempestade, o regurgitar dos sons da savana e o sol, em sua esplêndida majestade, a declinar no horizonte, por entre farripas de nuvens alaranjadas. O Alferes, em passada larga, galgou a distância até ao armazém, agora caserna militar. Os soldados circulavam, dentro e fora, a descontrair os músculos e a comentar o espectáculo da trovoada, rodeados de crianças negras e os adultos, mais longe, como que medindo, com o olhar, o momento de iniciar a aproximação.

Na presença do Alferes, os militares perfilaram-se em continência, no cumprimento de uma regra que obriga a todos, sejam eles soldados, sargentos ou oficiais, perante um militar de classe ou posto superior, praxe essa que o permanente convívio dos militares em campanha tornava cada vez mais lassa. Então o Alferes, “paisanamente”, dispensou a continência e, num gesto largo, erguendo a voz, ordenou a entrada dos militares para o interior do edifício. A criançada, num ápice dispersou e os adultos seguiram-lhes os passos.

Lá dentro, ao abrigo de olhares e ouvidos estranhos, o Alferes assumiu um ar grave (bem se sabendo que exagerado fingimento) chamando particular atenção para as suas palavras aos respectivos comandantes de secção do pelotão e do veterano Sargento Fernandes, todos informalmente sentados em círculo, falando da sua desilusão pela promiscuidade a que lhe fora dado assistir entre militares sob seu comando e a população local e evocou então dois princípios da “doutrina” estabelecida no quadro da Companhia, face às contingências da guerra, que todos conheciam, mas nem sempre tinham presente. E, como remate, o Alferes determinou que, como uma tribo guerreira, todos proclamassem, de pé e em voz alta: 1º “Nas instalações militares não entram civis; 2º os militares podem tudo, menos ofender os paisanos!...”

Após o que houve lauto festim colectivo, na base de ração de combate, com as inevitáveis conservas, celebrado, porém, com uns garrafões de vinho tinto, que o sargento Fernandes ciosamente guardava e que, num gesto que o redimiu, colocou ao dispor dos seus camaradas de armas.

Silenciava-se a savana, com o aproximar da noite. E a população indígena recolhia-se nas palhotas. De terra, elevava-se um odor profundo e acre a terra molhada. Aqui e além uma poça de água lamacenta, à espera de ser absorvida pelo solo quente e pela brisa da noite estrelada.

Conforme a rotina de meses, o veterano sargento Fernandes acendeu os luminosos candeeiros “Petromax”, colocados estrategicamente em redor da caserna. O Alferes, acompanhado do seu estado-maior, quer dizer, dos seus furriéis, comandantes de secção, a que o sargento Fernandes se juntou, atravessou o largo da Tabanca, campo de jogos e parada militar e, com sua corte, entrou no edifício que, em tempos fora instalação dos incipientes Serviços de Saúde e que, com a guerra e a retirada do enfermeiro civil, somava agora também espaço de messe e o dormitório dos sargentos.

Num breve briefing foi aprovada a escala de serviço, repartida entre os furriéis e respectivas secções para as funções de vigilância nocturna e prestação de serviços colectivos à unidade militar, bem como definidas as tarefas imediatas para cumprimento da missão - ou seja, a instalação dos 120 homens da Companhia completa - bem se sabendo que as obras de fundo requereriam articulação permanente e briefing diário. Ao veterano Sargento Fernandes e os seus homens, em final de comissão de serviço, ficavam reservadas as funções de limpeza e intendência ao serviço da unidade militar.

Adivinho, Maria Adelaide, o teu tédio perante esta prosa sincopada, tipo relatório militar, bem se sabendo da tua permanente pulsão em interferir no rumo da narrativa, aliás com todo o direito, pois que texto e contexto são emanações espontâneas de um discurso, onde “o autor não existe”, e o tempo e o espaço se dobram e desdobram ao serviço das personagens como um magna sem destino aparente, mas que no fundo obedecem a lei da gravidade universal em que a linguagem (literária?) se despenha. Mantém, por isso a pose e o desejo de irromper, apaixonada, como no tempo outro, que haveria de chegar, do Chiado e da Bénard, em que, em véspera de eleições, te deliciavas com “éclairs” e lembravas, numa ironia doce, “no Domingo, não te esqueças em ir votar!...”

Mas, por enquanto, vá la saber-se por que ocultas e forçadas razões, Dona Rosalinda reina, o “Assobio” requer atenção e a Tabanca é palco. Ainda.





5 comentários:

jrd disse...

Um "ainda", na vida do Alferes, cuja leitura deliciosa se prolonga.

Abraço meu irmão

Suzete Brainer disse...

Uma leitura tão deliciosa, que a certeza
da"inexistência do autor" propositada
através desta tua capacidade de excelência,
no domino da linguagem, na arte,
dela sim, reger...

Assim, vou carimbando o meu passaporte
na continuidade desta encantadora
viagem (rss)...
beijo.

AC disse...

Uma prosa bem construída, envolvente, a dissecar memórias com profundas raízes...

Abraço

Mar Arável disse...

... e assim vou continuar nos teus apeadeiros

Abraço amigo

Agostinho disse...

Mais um bom naco de prosa que me transporta aos anos setenta.
Um ainda por certo de muitos ainda que isto das memórias são cerejas na boca da gente. E, como a gente gosta delas, vermelhas, suculentas, a estalar ao trincar, hão de vir sem fartar.