segunda-feira, setembro 12, 2016

LINGUAGEM, MÉDIA E ... POLÍTICA


Como se sabe, qualquer linguagem ou sistema de comunicação, desde a política, a literatura, a arte, a moda, o cinema, o desporto, a culinária e, de uma forma geral, todo o comportamento humano – desejaria que até este próprio texto - “fala” para além daquilo que propriamente diz. Os silêncios, os gestos, os contextos, são tantas vezes mais expressivos que a denotação das palavras, ou os códigos em cada discurso se desencadeia e se realiza.
 
Claro que as linguagens mais elaboradas, como a literatura, o cinema, a arte em geral e (uma certa forma) de política alimentam-se deste jogo de(s) ambiguidade(s), e nuances de sentido, articulando-se, ou desfazendo-se, abrindo-se a novas possibilidades de “leitura”, ou remetendo para outras instâncias de “significação”...
 
No que diz respeito à política, a comunicação tem, por sua natureza, importância decisiva, como bem se compreende. Porque a política é fundamentalmente “verbo”, quer dizer, carne do compromisso originário do homem com a cidade - usar (d)a palavra é ministrar o sacramento do(s) poder(es)...

 Por isso, a política, é (era) palavra encenada, cerimonial, retórica, empolgante... Em discurso directo com os cidadãos, na praça pública, tantas vezes na proximidade da presença afectiva e do contacto pessoal. Pode dizer-se que a política se exercia sem mediatizações. Ou, então, em espaços e meios de comunicação neutros (enfim, tendencialmente!), por onde perpassavam os diversos discursos políticos, em relativa igualdade. E tinha sempre significado. Quer dizer, conteúdo, diferenciação, sentido... A pulsão da vida e do discurso político sobrepunham-se aos efeitos da forma...

Hoje em dia, verifica-se uma mudança de paradigma. Os órgãos de comunicação social e, em especial as televisões, criaram a sua própria “ideologia comunicacional” ao serviço do lucro das empresas, de que são emanação. As audiências são o alfa e o ómega de qualquer direcção editorial. O que interessa é o estrondo mediático que aumente o lucro da publicidade. A realidade real é ilidida. “A tragédia e o horror” são receita garantida de audiência. E, se a realidade não chega, “fabrica-se” virtualmente a realidade, inventando, empolando, repetindo até à exaustão... Com consequências devastadoras na forma de fazer política.

Os média – até então instrumento neutro (?) de comunicação - são hoje o “quarto poder”, sobrelevando-se aos poderes de soberania (as televisões têm a veleidade de afirmarem que “fabricam presidentes da República como quem vende sabonetes"...) A verdade política é, assim, aquilo que a comunicação social afirma ou as televisões revelam – e não aquilo que os políticos pensam ou propõem e, muito menos, aquilo que a sociedade e os cidadãos aspiram. A política ficou, portanto, prisioneira do enredo da comunicação social. A criatura devora o criador, num jogo de mútuos reflexos, de quem ninguém sai ileso – nem os média, nem os políticos.

Por exemplo, as “guerras do Alecrim e da Manjerona” dos debates televisivos, nas campanhas eleitorais, em que a dramatização interessa aos média, como meio de fixar audiências. E interessa também aos actores políticos, que pela histeria (no sentido patológico do termo) visam sobrepor os respectivos discursos, procurando projectar assim nas audiências e na sociedade em geral, de cada lado da confrontação política, uma alegada (falsa) ideia de democracia. Nos respectivos jogos de oposição e simulacro mais não fazem que degradar a própria ideia de Democracia.

Quem se limite assim a participar apenas dos "efeitos do discurso" não pode escapar a sensação de “deslumbramento” no confronto bélico dos candidatos. E, no entanto, a maior parte deles, são confrangedores, sem qualquer substância, ou qualquer ideia digna de registo, ou simplesmente esclarecedor de cada um dos programas.

“Flactus vocis” apenas, como diria o “seareiro” Raul Proença, nos tempos da "velha" política...

Manuel Veiga

9 comentários:

Graça Pires disse...

Fabricam-se tragédias, horrores e protagonismos, ou feiras de vaidades. É disso que vive a comunicação social quase toda... Aqui tens um bom texto para reflexão, meu amigo.
Um beijo.

Suzete Brainer disse...

Manuel, meu querido amigo,

Que texto excelente e tão oportuno para o momento atual,
em que a sociedade se encontra aprisionada pela ideologia
do "quarto poder", com tempo suficiente diariamente na
vida das pessoas, a fabricar fatos com a "tragédia e o horror",
com a manipulação; a grande moeda no mundo atual, a informação,
deformada, pronta para ser usada como o "prato do dia" no
cardápio malicioso e perverso no abuso da democracia, a janela
aberta para a política sem ética a dominar os meios de
comunicação que adormece qualquer capacidade crítica
de uma população.
Como diz muito bem no texto:
"A linguagem remetendo para outras instâncias
de "significação"..."
Esta profundidade na leitura e na interpretação
necessita de um exercício de consciência crítica,
sabemos o quanto é desprovido de recursos para
que uma população receba a educação como
ferramenta para aquisição desta consciência crítica.

Compreendo e me identifico com este seu olhar, que
aqui atua como janela para o exercício desta criticidade
perante estes meios de manipulação da linguagem e
comunicação sócio-politica da vida, nossa vida,
nosso mundo e o quanto estamos sendo manipulados
da forma mais desigual e desumana.

Muito grata pela partilha deste exemplar texto de
literatura e cidadania.
Minha admiração, meu amigo!!
beijo.

Agostinho disse...

Caro Manuel Veiga
Uma esclarecida peça de quem é exímio no exercício da palavra.
Como sabemos a palavra é como a sola deixa-se bater por qualquer um. Mas nem todos pretendem fazer sapatos. Vivemos num mundo de ilusão onde os actores da simulação mercam a verdade por encomenda. Poucos são os castos da palavra.

A propósito, Hillary Clinton não se retirou das presidenciais porquê, para quê? Que papel fez, durante tanto ano, o balofo que se dava por Durão?! (?)orra!!!
Abraço

Manuel Veiga disse...

Caro Agostinho,

tens razão, temos todos um pouco "de sapateiro a tocar rabecão", mas enquanto cá andarmos não podemos deixar de lhes "morder nas canelas"...

consegue-se pouco, mas ao menos não nos comem por parvos.

gostei de te "ver".

abraço

Tais Luso disse...


Meu amigo Manuel,
Por tudo que estamos vendo e passando, cansei de ser generosa; perdi a capacidade de lidar com os imprevistos daqueles homens públicos que têm a obrigação de gerir nossas vidas.
Penso como as coisas poderão ficar mais difíceis e, talvez em dez anos sentiremos saudades dessa época em que estamos vivendo agora - nada admirável. Não penso no mundo que ficará para meus filhos; penso se conseguirei pegar um pedacinho de um mundo melhor pra mim e minha geração. Espero estar viva e todos nós juntos, mesmo nessa era conturbada de muita ciência e pouca humanidade. Talvez as gerações futuras olharão para nossa época e irão nos comparar aos Bárbaros - do Império Romano. Quem sabe nos chamem de os Novos Bárbaros, criaturas que matam com requinte e outras que roubam com cinismo.
Há pouco tocou numa rádio o lindo fado 'Foi Deus'. Ao terminar entrou o noticioso da emissora, daqueles pra acabar com qualquer sonho. Não sabia se me enternecia com o fado português ou chorava com o noticioso brasileiro. Fiquei na dúvida, e achei melhor poupar minhas emoções.

Beijo, meu amigo.
Belo, consciente, esclarecedor seu texto, serve para todos como uma luva...

José Carlos Sant Anna disse...

Caro Manuel,
Aportamos aqui e saímos com o bornal cheio. E ficamos a pensar o que fazem de nós. E quando conseguimos desatar alguns nós, outros já nos prendem, já nos atam. O ritmo é febril... me falta a antiga serenidade!
Já estou a pensar...
Forte abraço,

Odete Ferreira disse...

Quem está minimamente informado e capacitado de opinião própria, sabe que, atualmente, tudo é estratégico. Contudo, mesmo os mais avisados, nem sempre conseguem escapar aos efeitos do que está premeditado. Um exemplo: quando vou (e frequento pouco) a uma grande superfície, levo uma lista, mas há sempre algo que compro a mais.
Sobre o teu texto reflexivo e opinativo: excelente e a traduzir o pensamento dos mais "avisados".
(Confidencio-te que tenho paixão pela linguística; houve uma altura em que quis fazer um mestrado nesta área; depois, como exerci cargos de direção, fiz apenas uma pós graduação em gestão e administração escolar.)
Bjo, Manuel :)

Ailime disse...

Boa tarde Manuel,
Gostei da sua reflexão com a qual estou de acordo.
O jornalismo de hoje (com honrosas excepções) infelizmente para todos nós está a tornar-se não só quarto poder, como a destruir o respeito e a credibilidade da profissão que muitos ainda exercem com isenção.
Liberdade de expressão não é isto a que assistimos todos os dias.
Bjs
Ailime

Agostinho disse...

Assim é que é falar!