segunda-feira, março 27, 2017

Que Mil Metáforas-trapaças FLoresçam...


Que mil metáforas-trapaças floresçam. E brilhem.
E desçam. E de pétalas abertas
Abismem as cabeças.
E se celebrem, anafadinhas,
Em esmeros
De artesão.

E se ergam – as metáforas-trapaças. Às resmas!
E na euforia dos versos
Chovam. E lutem contra
O destino. Como o Fado!

Que de metáforas-trapaças - eu vou ali e já venho!
Em verdade vos digo que afinal
Não tenho nada contra elas.
Mas não as engulo. Não sou capaz, não!
Até faço jejum e de canela as polvilho
Para as poder tolerar.

É este o meu azar. Não as consigo tragar
Não as metáforas. Que aguentam tudo
( Até eu lanço mão delas - coitadas! )
Mas tão-somente aquelas
Que não passam de trapaças.

E vos garanto não ser cisma minha
Ou teima. É uma espécie de azia
E um transtorno geral
Pior que óleo de ricínio
Em cólica intestinal.

Enfim, passo um calvário.
Eu bem as cuido “coisinha linda”, piu … piu…
Das metáforas-trapaças – está claro!

Mas é este meu fadário
Não tenho jeito nenhum
Para as hipnotizar, coitadinhas!
Ou ser cocorocó de aviário!


Confesso mais - não ter paciência
Para feitos de tal tamanho.
Deixo-as, pois, para quem delas faz bom uso
O cego olho de Camões
E a monumental porra do Soriano.

Manuel Veiga


15 comentários:

LuísM Castanheira disse...

"O meu pensamento é um rio subterrâneo" - F.Pessoa

É com esta analogia que os políticos
criam engodos e nunca dizem o que na verdade querem.
São estes os mais perigosos pois afectam directamente as pessoas.
Daqui só a azia prevalece.

Na Literatura- poetas/escritores -, as metáforas são, aos olhos de quem os lê, uma espécie de daltonismo.
São cores ao gosto.

Na Política, Economia é demais Ciências, está em voga a 'narrativa' e a 'percepcão', além das ' linhas vermelas' 'irrevogáveis' e 'de tanga'
Bem nos enganam, eles, nestas trapaças.

Um abraço, caro amigo, Manuel
(só não sei a que Soriano (Luz?) te referes)


Manuel Veiga disse...

Luís Castanheira,
meu Amigo

obrigado por este teu olhar lúcido sobre a floresta, esquecendo as árvores.

bem necessária seria a "Luz" do Soriano, mas como sabes sou transmontano: o Soriano do poema é mesmo o do Guerra Junqueiro!

forte abraço




luisa disse...

Não há metáfora-trapaça que valha a pena que se agaste assim. Mas também lhe digo que está formidável o desabafo.

Manuel Veiga disse...

Obrigado, Luisa

acho que tem razão. menos no "formidável"

Tais Luso disse...

Gostei do desabafo com essa ironia requintada! Meu estilo preferido.
Piu-piu.
bjs

Odete Ferreira disse...

Estou como tu: as metáforas têm que ser claras; não me importo que sejam "anafadinhas" (muito feliz o uso do termo) mas que pretendam "trapacear" o leitor, já me incomoda.
Uma delícia, este teu poema, pela arte como vais discorrendo e entrosamento com a ironia que me fez sorrir.
Tal como o Almada Negreiros "Morram as metáforas-trapaças, morram, pim!"
Bjo, Manuel :)

Manuel Veiga disse...

Tais,

piu... piu toda a vida também cansa , né? rss

beijo,
grato

Manuel Veiga disse...

Odete,

que morram, pois! PIM...

e se um dia - sejamos optimistas! - deixarem de ser "trapaças" cá estaremos para bradar aos quatro ventos: "que vivam as metáforas, vivó!..."

beijo

jrd disse...

Tenho andado retirado da blogosfera, daí que continue presente, metaforicamente falando, claro.

Um abraço fraterno Poeta

Agostinho disse...

Metáforas-trapaças-galinácias-falácias... carago, MV, onde isto nos levava!?
Achei-o bestial porque atiras nele a convenção ao ar. Não há problema que alguma loiça se quebre. Na rola dos arroladas é que era bom.
Grande abraço. E obrigado, por tudo.

Manuel Veiga disse...

Meu Caro JRD

mas tu sabes que estás "realmente" presente, mesmo que escolhas estar metaforicamente.

fraterno abraço

Manuel Veiga disse...

Agostinho, meu Amigo

quem está grato sou eu, meu caro
pelo teu olhar atento e atencioso sobre os meus textos

e muito gratificante neste em particular.

caloroso abraço

Suzete Brainer disse...

Meu amigo,

Eu sou mais radical, não aprecio qualquer tipo de trapaça que
fira a ética da honestidade interior no correspondente exterior.
Apreciei este teu poema na ironia dinamite, no registro de uma
arte poética ácida e explicita. A linguagem direta deve ser usada
na expressão da clareza da mensagem.
O uso das palavras como esconderijo de atitudes menores contaminam
o universo na proliferação da hipocrisia e covardia.
A arte de modo geral merece a expressão do talento e caráter (ética).
Beijo.

Manuel Veiga disse...

Suzete, minha amiga

grato pelo comentário. que para além da generosidade com que sempre aprecias meus textos é uma reflexão muito inteligente e oportuna sobre o valor das palavras e o respeito que nos devem merecer em todas as circunstâncias

sobretudo pelos poetas para quem o uso da palavras deve ser afirmação de beleza e de ética.

beijo


graça Alves disse...

Que mil metáforas brilhem! E brilham sempre por aqui...
bj