quinta-feira, maio 11, 2006

Estão a tratar-nos da saúde?!...

“Quem quer saúde, paga-a!...” proclamou um ministro da saúde anos atrás, ao que me recordo, no primeiro Governo do PSD, chefiado pelo actual Presidente da República. A expedita declaração ministerial mereceu na altura ressonância pública, pois que, encontrando-se o País embora em pleno refluxo político, eram ainda bem vivas na memória colectiva as promessas de “pão, saúde, paz, habitação...” (e outras músicas!), a que a Revolução de Abril generosamente se propôs, em antevisão de Futuro solidário.

Torna-se inevitável este regresso ao passado e à premonitória proclamação ministerial, perante os tratos de polé que o sistema público de saúde tem sofrido desde então, quer por parte dos governos do PSD, quer por parte do PS, quais irmãos siameses, vinculados aos mesmíssimos interesses da medicina privada.

Seria fastidiosa a enumeração das tropelias, a que o Serviço Nacional de Saúde tem sido sujeito, desde a medicina privada, praticada escandalosamente nos hospitais e serviços do Estado, às célebres parcerias público/privadas na construção e gestão de hospitais, aos negócios dos meios auxiliares de diagnóstico, passando pelas taxas moderadoras e à degradação do atendimento nos serviços periféricos. São raras as pessoas, que, por uma razão ou outra, não conheçam a realidade, tantas vezes confrangedora, do sistema de saúde. Tenho para mim, que tal degradação não é inocente...

Nesta linha, ganha maior expressão e actualidade a magna questão do encerramento das maternidades. Não me interessa, sobre o assunto, saber da habilidade ou inabilidade do ministro. Nem sequer a maior ou fundamentação técnica da decisão. Nem saber se os clínicos perdem qualidades técnicas ou humanas, quando trabalham em maternidades com menos de 1 500 partos por ano, presumindo eu, assim, que as clínicas privadas com número de partos inferior a essa mirífica quota também irão encerrar. Alguém acredita?!

Mas não posso deixar de ser atento à assinalável mobilização popular, na Figueira da Foz (o Ministério da Saúde ao mesmo tempo que anunciava o encerramento da maternidade entregava-lhe também galardão qualidade), ou em Mirandela, Lamego, Barcelos, Covilhã, Guarda, Oliveira de Azeméis, Santo Tirso, Amarante e Elvas, exigindo que não lhe retirem mais este serviço público.

Como não posso deixar de considerar significativo o facto de o senhor Ministro, confrontado com tamanha contestação, em entrevista na estação de rádio Antena 1, no dia da Mãe, ter afirmado, (não podendo eu garantir as precisas palavras) que o esforço que se gasta a fazer manifestações podia ser melhor dirigido, mobilizando a sociedade civil a fazer maternidades privadas nesses concelhos.

Ora aqui têm preto no branco. Não é verdade que “pela boca morre o peixe”?!... Na realidade, tais palavras induzem, sem dúvida alguma, não serem, nem os direitos das parturientes, nem das crianças, nem questões de saúde pública, a razão de estado que determina o encerramento das maternidades... Eu desconfiava. E ainda bem que o senhor Ministro confirma...

Talvez, com mais verdade, tais razões se encontrem no gigantesco negócio da saúde. E, nesse desígnio, cai como sopa no mel o rótulo de esquerda do actual Governo. Bem se sabendo que, quando se esbatem as fronteiras entre esquerda e direita, é a direita quem conduz as políticas, ao serviço dos sectores económicos dominantes, mas não seguramente ao serviço do interesse geral do País e das suas populações.

E, assim, nos tratam da saúde...

9 comentários:

Licínia Quitério disse...

Já não se pode ter um Ministro sincero? Estamos num país livre, caramba! Porque não privatizar também os Ministros? Quando isso for possível, eu fundo logo uma empresa de ministros. E vão ver que ainda vou ter tantos lucros como as Maternidades que estes ricos senhores se preparam para abrir. Pobre País o nosso. Dá vontade de dizer como o Poeta: "Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho, meus tão castos lençóis?".
Obrigada pelo post.
Abraço.
Licínia

FOTOESCRITA disse...

O que mais me revolta é eles não dizerem o que julgo ser a verdade: o estado não tem dinheiro. Andam ali às voltas a enrolar, com argumentos absurdos. Será que pensam que nós acreditamos?

lique disse...

Pronto, o homem foi sincero. E quem diz a verdade, não merece castigo! Deixemo-nos lá dessas "esquisitices" de esquerda (da qual realmente o PS só tem mesmo o rótulo), manifestações e coisas assim e vamos mas é tratar de esmifrar o contribuinte, que, além de contribuir, ainda tem que "pagar" a saúde e qualquer dia tudo o resto...
Quanto às fronteiras entre direita e esquerda... como não dizer que é tudo igual, se olhamos para o Ps e PSD como exemplos de esquerda e direita? Neste caso, parece-me que é mais "ao centro, marchar!".
Beijos

Menina_marota disse...

“Quem quer saúde, paga-a!...”

... pois é...confesso, que já há muito tempo sei disso. Tenho uma pessoa doente em casa, com uma doença crónica grave e, se na devida altura não me tivesse "mexido" ou seja andar por bons especialistas, ele já não estava vivo... por isso, para mim, não é novidade.

Já o meu falecido Pai, me dizia: quem quer ser bem tratado neste País, tem que pagar... (e, mais algumas coisas, de que me abstenho agora de dizer...)

Um abraço e bom fim de semana ;)

jorgesteves disse...

De facto 'estão a tratar-nos da saúde'; com pleno conhecimento (leia-se consentimento) dos doentes. É verdade que é de registar o movimento que se tem vindo a verificar em vários pontos do território, é verdade que cada vez mais se torna evidente e notório o 'polvo' que se estendo por baixo de toda esta tramóia, é verdade que os argumentos perdem-se em falácias e inconsistências ou até mesmo em ridículas atoardas. É verdade! Tão verdadinha como a recente sondagem que dá (continuada) maioria ao partido do governo...
com amizade,
jorgesteves
...
p.s. - grato pelas suas amáveis e elogiosas palavras.

Poesia Portuguesa disse...

Será que estão?!
;)

Bom fim de semana ;)

JPD disse...

Olá Herético

Ao ter sido estabelecido a universalidade do acesso á suade, a prsunção seria não apenas conceder aos mais desfavorecidos toda a assistência médica necssária, como controlar os custos dessa disponibilidade e "acomodar" a classe médica e a indústria farmacêutica ao regime.
Tratando-se de um traoézio, o equilibrio era muito precário.
Os custos descontrolaram-se
As pessoas ganharam hábitos e não se resignam a perde-los.
Compo o economicismo parece prepinderar - épocas! -- a propensão para rduzir custos, tão tenaz não se atemoriza e singra.
É claro que entre comprar submarinos e fortalecer o sistema de saude, as pessoas optarão pela saude.
Quem a s convencerá de outra coisa?!
Um abraço

OrCa disse...

Caro Herético,
Agradecendo e retribuindo simpáticas visitas e amáveis palavras, não posso deixar de manifestar algum conforto solidário depois de me "passear" pelas heresias manifestadas.

Na verdade e segundo o que vamos vendo, nunca terá havido tantos recursos (e dinheiro) disponíveis na Terra, mas nunca - ao mesmo tempo - terão eles sido tão mal desbaratados e/ou distribuídos.

As questões como a saúde, a educação, a alimentação, etc., onde cada Estado deveria assumir a grande posição de regulador e, depois, redistribuidor (se não para isto, então para quê o estado?), estão cada vez mais entregues aos "circunscritos" interesses dos privados.

No que toca a Portugal, face ao exagero quase caricatural das medidas adoptadas, cada vez mais me convenço de que não passamos de um pequeno "balão de ensaio" desses altos desígnios de uma certa e também circunscrita "globalização"...

Terrível isto, que me deixa a um passo das paranóicas teorias da conspiração. A grande chatice acaba sempre por ser aquela história das bruxas, em que não acreditamos, mas lá que existem...

Daí a relevância de opiniões, como aquelas que por aqui vou apreciando.

Um grande abraço.

Vlad disse...

Na "mouche" meu caro... não podia concordar mais. E cada vez acredito mais numa teoria global de conspiração... e não só na saúde. O capitlimo encontrou a fórmula pra reaver todo o domínio e ainda por cima dado de mão beijado com cobertura da democracia... comprando os lideres políticos elegíveis.A liberalização dos preços dos combustíveis é um exemplo... já deviam saber a instabilidade que aconteceria pouco tempo depois com os preços do barril... por motivos "psicológicos" o barril do petróleo não para de aumentar. Cá para mim tá a cabar e todos querem aumentar a sua fatia antes disso. O mais grave é a cooperação daqueles que são eleitos por nós e que deviam defender os nossos interesses...mas isto já é outro tema que espero venha aqui a ser abordado(os combustíveis).
Um abraço ;)