quarta-feira, maio 09, 2007

Outras Personagens V - Ian Kershaw...

... no 62º aniversário da derrota do nazi-fascismo!

Passou, ontem, 8 de Maio de 2007, o 62º aniversário da vitória dos Aliados sobre o nazi-fascismo, que levou a Europa aos horrores da Segunda Guerra Mundial. Parece-me adequado, assinalar a data com uma súmula de uma entrevista, dada ao jornal “Público” por um dos maiores especialistas da história do nazismo, Ian Kershaw. Dele a afirmação de que “sem a visão apocalíptica de Hitler a “solução final” é impensável”...

Ian Kershaw, sabe do que fala. É um académico de mérito, professor de História Moderna na Universidade de Sheffield, em Inglaterra. Kershaw foi o conselheiro de duas consagradas séries da BBC e autor de uma monumental biografia de Hitler, em dois grossos volumes.

Na entrevista em referência, o autor explica como foi possível pôr em prática, de forma quase secreta, a máquina de exterminação de uma “raça”. A perseguição dos judeus foi um processo sistemático de aniquilação física, que se tornou um programa global, cobrindo toda a Europa, durante a Primavera e Verão de 1942.

De facto, na Conferência de Wannsee, em 20 de Janeiro de 1942, ficou claro que todos os judeus seriam aniquilados; os que não conseguissem trabalhar sê-lo-iam imediatamente e os outros trabalhariam até à morte. Em qualquer caso, todos seriam mortos, mesmo aqueles que revelassem capacidade de sobrevivência aos trabalhos forçados. O objectivo, em suma, era a eliminação física de todos os judeus da Europa sob ocupação nazi, estimados em 11 milhões de pessoas.

O anti-semitismo biológico, que se desenvolveu no final do século XIX distinguia os judeus da raça “ariana”, através de características que alegadamente se encontrariam “no sangue”. E, por isso, era impossível mudar ou melhorar as características genéticas dos judeus, considerados, simultaneamente, inferiores e subversivos perante as raças “superiores”. Hitler acrescentou as estas teses racistas outro elemento crucial – a ideia de “redenção” nacional para os alemães, através da destruição dos judeus. Pode dizer-se que fez da eliminação dos judeus o pressuposto da salvação nacional do povo alemão.

O genocídio era possível sem Hitler, interroga-se o autor? Não, afirma peremptório. Sob um qualquer regime nacionalista teriam, sem dúvida, havido discriminação e perseguições. Mas Hitler era o mais radical dos radicais – como Goebbels disse “o mais inabalável defensor e porta-voz de uma solução radical” para a “questão judaica”. A sua autoridade era necessária para todos os passos essenciais no processo de extermínio...

Como foi possível manter-se o silêncio? Ninguém no exterior tinha ideia do que se estava a passar em Auschwitz e nos outros campos? Considera o autor que segredo foi mantido, através do uso de linguagem “camuflada”, entre o círculo mais próximo de Hitler. Falava-se, por exemplo, em “evacuação” ou “deslocação” dos judeus, em vez de se falar abertamente em extermínio. As ordens eram transmitidas oralmente em vez de serem escritas. A regra geral, estabelecida por Hitler, era a de que as pessoas só deviam ser informadas sobre aquilo que precisavam saber.

Claro que era impossível manter um segredo total. A diferentes níveis do regime circulavam rumores, embora mais em relação a fuzilamentos em massa no Leste, do que às câmaras de gás. E muitas pessoas conseguiam deduzir que se estavam passar coisas terríveis, embora possivelmente a informação concreta sobre os gazeamentos só chegasse a alguns.

P0r outro lado, a tentativa dos nazis de enganarem as vítimas teve algum sucesso. Isto era conseguido dizendo-lhes à chegada que tinham que tomar um duche e, depois, levando-os para as câmaras de gás disfarçadas de chuveiros... Mas era impossível manter um segredo total. Houve rebeliões em alguns campos. E a revolta no Gueto de Varsóvia aconteceu porque os judeus, que conheciam o que estava a acontecer em Treblinka e sabiam o que os esperava se fossem deportados.

Poderiam os aliados ter feito alguma coisa antes de 1945? É difícil definir exactamente o que sabiam os soldados aliados. Presume-se que os campos da morte, incluindo Auschwitz-Birkenau, não eram conhecidos dos soldados aliados. O choque dos soldados do Exército Vermelho, no momento da libertação de Auschwitz, ou dos americanos na libertação de Dachau, e dos britânicos quando chegaram a Bergen-Belsen foi enorme. De facto, os soldados não estavam preparados para o horror que encontraram.

No entanto, os governos aliados sabiam do genocídio, desde 1942. A BBC divulgou notícias sobre experiências com gás, no final de 1943. E, no Verão de 1944, os americanos tiraram fotos aéreas de Auschwitz, mas estavam mais interessados em bombardear o complexo industrial em Monowitz, nas proximidades...

Permanecem dúvidas, no entanto, sobre se a aviação aliada teria capacidade para inutilizar a linha de comboio para Auschwitz. De qualquer forma, os aliados decidiram que a melhor maneira de acabar com as perseguições aos judeus era acabar com a guerra o mais depressa possível...

O Holocausto foi um acontecimento sem precedentes na História da Humanidade, concebido pelo Estado e executado por métodos industriais e precisão burocrática, para exterminar completamente um grupo étnico, apenas por causa da sua identidade étnica. Distingue-se de outros genocídios terríveis pela chocante patologia de uma certa modernidade e pela prova, mais que evidente, do débil fio da civilização.

Será que a sociedade actual consegue tirar lições do horror e da desumanidade do passado e trabalhar por um futuro mais tolerante, justo e humano?...

4 comentários:

Rafael Velasquez disse...

Parece-me que hoje estão emergindo novos Hitlers... Onde cada qual quer eliminar o outro. Sejam esse outro diferenças raciais, nacionais, religiosas, economicas, ect.

Grande abraço,
Rafael

António Melenas disse...

E andam para aí uns meninos que se julgam muito inteligentes que acham que não houve holocausto nenhum. É util que estas coisas sejam lembradas, sobretudo por quem sabe do que fala
Um abraço

Frioleiras disse...

Como sp... u1 prazer ler-t...

Frioleiras disse...

Não não há esperança para a humanidade... não acredito ,,,
ao longo dos séculos vemos que acaba sempre na injustiça...
o homem destroi sempre ...tudo!