sábado, janeiro 26, 2008

Os dedos e a Lua...

Quando por vezes me enleio em pormenores secundários, perdendo de vista o que da vida é essencial, seja na política ou no pachorrento fluir do quotidiano, surpreendo-me a fustigar-me a mim próprio com o célebre provérbio chinês: “quando alguém aponta a Lua, o pateta olha para o dedo...”.

Julgo que, em matéria de integração europeia, andamos muitos de nós a fazer figura de patetas. Denunciamos a gravidade da quebra de promessas eleitorais do Eng.º Sócrates ao meter na gaveta o referendo sobre a ratificação do Tratado Reformador, mas não denunciamos com igual vigor a gravidade daquilo que está realmente em jogo no tratado, agora ratificado na Assembleia da República.

Socorro-me então de dedos mais sábios, quer dizer, de vozes mais autorizadas, que, para além do ruído das circunstâncias, apontam a claridade das “evidências escondidas”.
........................................................................................................

“(...) O Tratado Reformador se entrar em vigor, significará o fim do princípio da igualdade dos Estados e o consequente rebaixamento do Estado português em termos internacionais, quer em relação ao interior quer em relação ao exterior da União Europeia (...).

Para as elites europeístas portuguesas a autonomia, o auto governo de Portugal e a sua pertença a uma comunidade internacional de Estados soberanos é algo que encaram como um fardo e não com orgulho. E por isso, tudo tentam (tudo fizeram) para transformar o nosso País numa mera região administrativa da Europa. Essas elites (...) têm plena consciência, tal como nós, que a aprovação deste tratado reformador implica uma menoridade internacional de Portugal (como aliás de qualquer outro Estado médio ou pequeno da União).

Sucede isto por três ordens de razões: em primeiro lugar, pela forma como é organizado a partir de agora o poder dentro da UE; em segundo lugar, pela forma como se processará a representação externa da comunidade; em terceiro lugar, pela forma como serão tomadas as decisões no âmbito da União.

(...) O primeiro aspecto que se deverá salientar é o da perda da existência em cada momento de um comissário de cada país. Haverá uma rotação, pelo que o nosso País, tal como os outros, deixará de ter sempre um comissário. A razão invocada para esta alteração é a eficiência no processo de decisão no âmbito da Comissão que, ao que parece ganharia muito com menos comissários para grande benefício dos cidadãos dos Estados europeus. Nada de mais falso...

(...) Na realidade a intenção é outra. É de afirmar bem explicitamente que a representatividade dos Estados e, em particular, dos de menor dimensão, deve ser reduzida (...). Pode objectar-se: “mas os grandes países, tal como os pequenos, entram em pé de igualdade na rotação dos comissários pelo que deixarão também em muitas ocasiões de ter um comissário”. É certo, mas a verdade é que os grandes países trocam alegremente essa perda do comissário permanente pela dominância no Conselho - em que os países mais pequenos têm um papel de menoridade.

(...) A instituição do novo cargo de Presidente do Conselho não tem justificação nenhuma, a não ser a seguinte: acabar com as presidências rotativas a cargo dos pequenos países. As presidências rotativas eram, até agora, (...) a forma dos países mais pequenos, ao fim de um certo ciclo de anos (...) terem a possibilidade de fazer avançar os seus interesses dentro do quadro dos interesses mais gerais da União.

(...) O facto das presidências serem mais espaçadas (pelo aumento do número dos países) não apaga a constatação evidente que é melhor existirem presidências rotativas espaçadas do que não existirem nenhumas, além de que presidências exercidas por pequenos países são uma garantia que não prevalecem inteiramente os interesses dos grandes Estados.

(...) Também é muito clara a intenção de (...) rebaixar o estatuto internacional dos pequenos países em relação ao exterior da União. (...) O argumento (...) dos nossos europeístas adeptos de Portugal região-administrativa-europeia é de que no mundo de hoje não é possível a um pequeno país seguir uma política externa própria.

Isto é inteiramente falso e deve ser desmontado com toda a veemência. Existem mais de 180 Estados no mundo, alguns de dimensão bem pequena e todos eles têm políticas externas próprias (...).. Porque razão é que só os pequenos e médios países da União não podem ter política externa adequada às suas características? Porquê ser empatado por um serviço diplomático europeu?!...

(...) Talvez, porém, o mais perverso de todos os aspectos do tratado, (...) seja o processo comunitário de decisão (...). No caso específico português poderá dar-se o caso da nossa Constituição vir a ser alterada por decisões comunitárias (...). Pela vergonhosa revisão constitucional de 2004 ­um dos mais vergonhosos actos de demissão de um parlamento ou até de um órgão de soberania português - as normas comunitárias prevalecem sobre o direito interno português, inclusive a Constituição da República Portuguesa; qualquer decisão importante com que não concordemos, mas que seja aprovada pela famigerada maioria qualificada (...) terá de ser aceite por nós, mesmo que vá contra a nossa Constituição.

(...) Em relação ao fim das decisões por unanimidade, alguns argumentam dizendo: ”bem, a verdade é que a experiência demonstra que a possibilidade de veto por parte dos pequenos países não é real porque eles nunca exercem esse direito”. Em primeiro, esta afirmação não é factualmente verdadeira, mas mesmo que o fosse, a existência do direito de veto, ainda que não exercido, dava aos pequenos países uma força de negociação que contribuía para uma maior igualdade entre os Estados. E isto faz toda a diferença. (...)

(...) Todos estes aspectos tornam o Tratado Reformador uma gigantesca perversão do que foi a ideia inicial da Comunidade Económica Europeia e o princípio da igualdade dos Estados. Tudo isto torna este tratado inaceitável para o nosso país. Tenho pena que, mais uma vez, na União, tenhamos ido a reboque de interesses que não são os nossos (...)”

João Ferreira do Amaral – Economista e Professor Universitário – in “Seara Nova” – nº 1702 – Janeiro de 2008.
..........................................................................................................

Querem voz mais clara?!... Não se embaracem com o dedo – olhem a Lua!...

24 comentários:

um Ar de disse...

Ah!... Como eu abomino maiorias absolutas!

Ditadura(zinhas) com corpo de lobo e pêlo de ovelha mansa e branca, branca..., a fazerem-se passar por "democracias"...

E nós, povo(zinho) português, cada vez menos Estado [cada vez menos Nação], ovelhas(zinhas) desavisadas e prontas para entrar na boca do lobo [mau, grande, global].

A Lua está em quarto minguante, a tender para Lua nova [no moon, only a poor finger...].

Obrigada pelo teu post.

Sophiamar disse...

E não foi feito referendo! E a população não foi esclarecida. Lamentável!

Beijinhosssss

Bom domingo!

OrCa disse...

Há uma pequena questão circunstancial que ainda torna mais limitada a nossa capacidade de enxergar a Lua: é que nos enganámos ao apontar e espetámos o dedo no próprio olho.

Enfim, que nos reste, ainda, essa transcendência poética de conseguirmos ver com um olho o que não conseguimos ver com os dois.

Um abraço.

Leonor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

deixo aqui novamente o meu comentario

eu penso que olhamos todos a lua... mas aquela voz de todos juntos venceremos perdeu-se. agora fala-se muito mas cada um por si. porque nao se juntam as vozes?
beijinhos da leonor

Mar Arável disse...

Na política
a lua é a mais inocente
quando está cheia

Na chamada democracia moderna
e no socialismo incinerado

tudo é possível

nas costas do povo

velha gaiteira disse...

por falar em lua, em céu, em suma:

Fui hoje, com mais dois gaiteiros ver o Jesus Cristo Superstar!
E olha que gostei! Tenho andado neura e o cheiro a "revista" aqueceu-me as nostalgias!

Abração amigo

Gi disse...

E mais lamentável ainda é que alguns nem o dedo conseguem ver!
Este artigo está extraordinariamente bem escrito, creio que não falha uma.

Um beijo

Peter disse...

Herético

Li o texto que publicaste e que muito apreciei, destacando:

"Pela vergonhosa revisão constitucional de 2004 ­um dos mais vergonhosos actos de demissão de um parlamento ou até de um órgão de soberania português - as normas comunitárias prevalecem sobre o direito interno português, inclusive a Constituição da República Portuguesa"

P.S. - Agradeço a apreciação que fazes ao texto "Lisboa" e que é na verdade belíssimo, não se justificando a ausência de comentários, o que só acontece por eu não andar a deixar "beijinhos e abraços" por aí.
Face à quase indisponibilidade do ANT e à menor dsponibilidade da "bluegift", eu convidei a Cristiana Palhais, que não tem blog, nem possibilidades de agradecer a TODOS que a lêm, para colocar semanalmente um texto dela.
Aceitou, desde que fosse respeitada esta última condição. Trata-se de uma pessoa amiga de um familiar meu.

Maria disse...

Já espero tudo, isto e mais ainda, de quem tem (ainda) o poder neste país.

Abraço

Stella Nijinsky disse...

OI H,

Este elenco não é novidade nenhuma,
tem anos de existência!
Todos sabemos disso e assinámos.
A questão será essa!
Volto depois!

Beijo,

Stella

Stella Nijinsky disse...

(todos pequenos países)

Maria Laura disse...

E se ficarmos entre o dedo e a lua? Assim de olhos bem abertos em frente, que tal? :)
Verdadeiramente, acho que quem nisso pensa um pouco sabe que são sempre os pequenos países os prejudicados por qualquer tratado dentro de uma União deste tipo. Quanto ao referendo, dou-o de barato. Porque iam engalfinhar-se todos nos fait-divers da política nacional e ninguém ia realmente esclarecer aqueles que desejam ser esclarecidos. Votar nessas condições, vale a pena? Agora quanto ao que perdemos ou ganhamos, eu também acredito que, no total, vamos perder um bocado. Será assim tanto? As presidências rotativas têm assim tanta importância? A nossa identidade como nação irá ser prejudicada? Era a estas dúvidas todas que gostava de ter respostas várias, plurais.
De qualquer forma, mais uma vez trouxeste aqui para discussão um dos assuntos que deviam ser realmente discutidos. E isso é importante.

un dress disse...

mais pra te deixar um abraÇo.

oh e deixa a bela da lua fora destas coisas tão feias e despudoradas!! tadinha! :)





.beijO

Justine disse...

Tanta é a areia que nos atiram diariamente para os olhos, que já há quem nem veja o dedo, quanto mais a lua!
É uma indignidade, o desprezo destes governantes pelas pessoas -e por eles próprios, acho eu.
Felizmente ainda há gente lúcida,mas são precisas mais, muitas mais vozes, para juntas serem ouvidas por cima deste vozear ignóbil dos nossos imperadores e seus lacaios.
Obrigada pelo post.

Graça Pires disse...

Estou com alguém que diz aqui que alguns nem o dedo conseguem ver, quanto mais a lua.
Isto está difícil. Um abraço.

Vieira Calado disse...

A maior parte do pessoal
anda a olhar para o dedo...
ou a chuchá-lo...
Um abraço

isabel mendes ferreira disse...

obrigada...
mas o meu trabalho poético naquele caso foi apenas o da "compilação".


de todo o modo, grata pela gentileza.


cordialmente.


:)


_________________.

São disse...

Olhemoa a LUA!
Entretanto, evitemos as maiorias!
Fica bem!

M. disse...

Obrigada pela actualidade sempre presente e partilhada.

Miosotis disse...

Vim só para agradecer muito sensibilizada o teu olhar sempre amistoso em 'fragmentos'!

Momentos 'diferentes' me impedem de exprimir algo mais!

Até breve!
Um beijo

jawaa disse...

Um belo post que te agradeço.
Eu não sei se um referendo resolveria alguma coisa, continuamos a ser um povo inculto e relapso. Nenhum governo me merece respeito se não investir fortemente na educação do seu povo e neste campo só andamos para trás. Perguntar a que povo? O que sabe o povo português? O que interessa ao povo português? Ter férias, de preferência pós-pagas, ser licenciado, doutorado até e continuando a não saber construir uma frase correcta, a dar erros de ortografia, a defender que não é precioso saber a tabuada pq os cartões de crédito pagam até o café. As TVs continuam a arrastar os telejornais durante horas com informação que se daria em meia hora, e completa, em vez de fazerem o que fizeste aqui, por exemplo, ajudando a cultivar o povo.
Sem mariquices, sem jogos de brincar. Somos adultos, precisamos de ter acesso ao que nos deve interessar. Utilizar bem a nossa língua, compreender tudo o que nos diz respeito para que possamos decidir, a nossa história (que já nos honra) construída com amor e respeito.
A melhor escola é a TV. A outra foi relegada para o facilitismo, o desrespeito, o carnaval à custa de mais escravos. Pelo menos na Antiguidade os «libertos» eram respeitados...

Ant disse...

Eu defendo sempre que, acima de tudo, deve haver esclarecimento sério sobre matérias desta importância (e das outras também, claro). Parece, contudo, que andamos a pregar aos peixinhos.
E mais uma vez cá vamos a reboque.

Abraço

Nilson Barcelli disse...

Para eu ter uma opinião sobre o que o autor diz, terei de ler o tratado.
Mas ainda não tive tempo...

De qualquer modo, não estou muito preocupado. Se der para o torto, fujo para a França... eheheheh...

Abraço.