quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Cheias e enxurradas....

Apesar das complicações e dos sofrimentos que poderá ter causado a alguns milhares de franceses, a inundação de Janeiro de 1955 teve algo de festa, mais do que de catástrofe. Antes de mais, ela deslocou certos objectos do seu contexto habitual, refrescou a percepção do mundo, inserindo nele pontos de referência insólitos e todavia explicáveis: pudemos ver automóveis reduzidos aos tejadilhos, lampiões truncados, só com a cabeça de fora a flutuar como um nenúfar, casas desmanteladas como cubos de crianças, um gato bloqueado durante vários dias em cima de uma árvore.

Todos estes objectos quotidianos apareceram de repente cortados das suas raízes, privados da substância razoável por excelência, a Terra. Esta ruptura teve o mérito de manter-se ao nível da curiosidade, sem ser magicamente ameaçadora: a toalha de água agiu como ilusionismo conseguido mas familiar, os homens experimentaram o prazer de ver formas modificadas, mas no fim de contas “naturais”, o seu espírito pôde manter-se concentrado sobre os efeitos sem uma regressão angustiada até à obscuridade das causas.


A cheia introduziu uma perturbação na óptica quotidiana, sem contudo a fazer derivar para o fantástico; os objectos foram parcialmente obliterados, mas não deformados: o espectáculo foi singular, mas dentro dos limites do razoável.

Qualquer ruptura um pouco pronunciada do quotidiano é uma iniciação à festa: ora, a cheia não escolheu nem deslocou apenas certos objectos, mas modificou a própria cinestesia da paisagem, a organização ancestral dos horizontes: as demarcações habituais cadastro, as cortinas de árvores, os alinhamentos de casas, as estradas, o próprio leito do rio, essa estabilidade angular que tanto facilita as formas de propriedade, tudo isso foi apagado, transposto do anguloso para o plano: não mais estradas, margens, direcções; apenas uma substância plana que não se dirige a parte alguma e que suspende assim o devir do homem, o separa de uma razão, de uma instrumentalidade dos lugares.

O fenómeno mais perturbador é, por certo, o próprio desaparecimento do rio: aquilo que está na origem de toda esta transformação deixou de existir, a água já não tem curso, a serpentina do rio, essa forma elementar da percepção geográfica que as crianças justamente tanto apreciam, passa da linha ao plano, os acidentes do espaço não têm já nenhum contexto, não há agora qualquer hierarquia entre o rio, a estrada, campos, os taludes, os terrenos incultos; a vista panorâmica perde o seu poder supremo, que é o de organizar o espaço como uma justaposição de funções.


É pois no próprio centro dos reflexos ópticos que a cheia vem introduzir uma perturbação.

(...) Paradoxalmente, a inundação deu lugar a um mundo mais disponível, manejável com essa espécie de deleite que a criança põe em servir-se dos seus brinquedos, em explorá-los e em extrair deles prazer. As casas deixaram de ser outra coisa que não cubos, os trilhos, linhas isoladas, os rebanhos, massas transportadas, e foi o barquinho, brinquedo superlativo do universo infantil, que se tornou o modo possessivo desse espaço estendido, desdobrado e não já enraizado.

Se passarmos dos mitos de sensações aos mitos de valor, a inundação guarda as mesmas reservas de euforia: a imprensa pôde desencadear muito facilmente uma dinâmica da solidariedade e reconstituir dia a dia a cheia como um acontecimento agrupador de homens.


Isso deve-se essencialmente à natureza previsível do mal: havia, por exemplo, algo de caloroso e activo na maneira como os jornais estabeleciam, com antecipação, o dia de máxima enchente; o prazo mais ou menos científico previsto para a eclosão do mal reuniu os homens numa preparação racional do remédio: barragens, diques, evacuações.

Trata-se da mesma euforia industriosa que leva a guardar uma colheita ou a roupa antes da tempestade, a içar a ponte levadiça num romance de aventuras, numa palavra, a lutar contra a natureza através da arma única do tempo.

Ao ameaçar Paris, a cheia pôde mesmo ver-se um pouco envolvida no mito de quarenta e oito: os parisienses ergueram barricadas, defenderam a sua cidade com a ajuda dos paralelepípedos contra o rio inimigo.

Este modo lendário de resistência exerceu uma grande sedução, apoiado por toda uma imagística do dique, da trincheira gloriosa, da muralha de areia que as crianças edificam na praia, lutando a toda a pressa contra a maré. (...) A imagem de uma mobilização armada, com o concurso da tropa, os barcos pneumáticos a motor, a salvação “das crianças, dos velhos e dos doentes”, a recolha bíblica dos rebanhos, toda a febre de Noé enchendo a Arca.


Porque a Arca é um mito feliz: a humanidade toma através dele as suas distâncias para com os elementos, concentra-se nessa tarefa e elabora a consciência necessária dos seus próprios poderes, fazendo emergir da própria infelicidade a evidência de que o mundo é manejável.”

Rolland Barthes – in “Mitologias” – Edições 70
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O mundo é manejável, dão-se conta disso?!...
Que outras enxurradas nos animem, então!... Aquelas que o País precisa!...

25 comentários:

Frioleiras disse...

Se nos damos conta de que o mundo é manejável?

querido Herético, não há ninguém que o não saiba, claro!

(sempre bom ler-te...)

pardal de telhado disse...

~~~~~~~~~~~~~~voando~~
pairando~~~~~~~~~~
po aqui~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Jasmim disse...

e venham elas... as enxurradas, d cultura e cidadania, preferencialmete; precisam-se urgentemente!

jawaa disse...

Bela e oportuna citação de Rolland Barthes.
Em Portugal apagam-se os rios com cimento, esquecendo que o caminho é deles.
Como metáfora, serve para a política: há que respeitar quem paga o pato (mas pague-se o pato!).

Licínia Quitério disse...

Que belíssimo texto a fazer-nos reflectir sobre a sedução da iminência da catástrofe. O barco, a arca, as nossas trincheiras. A dor só vem depois, com os escombros. Estranhos que nós somos...

Maria Laura disse...

Na verdade, por muito que a água me atraia, nunca pensaria em olhar assim para as cheias. Mas este texto é belíssimo e faz-nos ver doutra forma.
Quanto às enxurradas, estamos mesmo a precisar delas. Enxurradas de mudança.

Mel de Carvalho disse...

Caríssimo Herético,

venho, antes do mais, agradecer reconhecida todos os comentários que me tem deixado lá na minha noite "poética".

O texto que aqui nos deixa, belíssimo por sinal, remete-nos para a estética do e no caos. Existe sim, sem dúvida. Vou imprimir e ler com mais calma mais tarde.

Deixo-te agora este link, da minha noite de prosa. Por lá ando a tentar reunir textos esparsos que tenho por ai...

Obrigado pela sua permanência nos meus blogs, Herético. Considere-se sempre bem vindo.

Os meus melhores cumprimentos,

Graça Pires disse...

Uma maneira curiosa de tratar o tema das cheias como só Rolland Barthes sabe fazer.
Claro que o mundo é sempre manejável. Podem sempre ver-se os acontecimentos pelo ângulo mais propício às nossas convicções...
Um abraço.

Sophiamar disse...

As cheias numa perspectiva diferente. Este texto fez-me recuar a textos bíblicos, Ao dilúvio, à destruição de cidades inteiras povoadas por sociedades pecadoras.

Beijinhosssss

Mariadosol disse...

há cheias de que posso gostar...às vezes é preciso acrescentar a gota de água que faça transbordar o copo do situacionismo!
ENXURRADAS nunca...é que, como ser humano sinto o dever de NUNCA, NUNCA justificar meios duvidosos para atingir fins por mais "benélovos" que eles sejam. Gosto muito da ideia de ideal...já me inquieto bastante com a ideia de utopia...é que na prática, no bem bom da acção concreta, foi em nome de utopias (lindíssimas)que se cometeram (d)as maiores barbaridades da história humana.

:))

(não tem a ver com o post? olha ... saíu assim) ehehe

A.N.(A.) disse...

http://www.nacionalistaslivres.blogspot.com/

Tiago Enes disse...

Oi

O Blog tá muito legal!
Bons posts!

Parabéns!

Abraço!


Se puder visite!!!

http://tiagoenes.blogspot.com/

herético disse...

Mariadosol,

compreendo-te. receias ir na enxurrada... rss

... em qualquer caso, mítica!

O Puma disse...

É verdade meu caro

por vezes sós

até na sátira

mas nunca isolados

mesmo em dia de enxurrada

abraço amigo

Nilson Barcelli disse...

Mais manipulável que manejável... diria...
Gostei da abordagem do autor do texto. Um olhar diferente, ainda que há mais de 50 anos se vissem mais como fatalidade do que como incúria humana.
Em Paris, defenderam-se. Aqui, nem ai Jesus disseram. Só depois...
O que aconteceu há dias na zona de Lisboa é intolerável. Mas ninguém vai ser incomodado, como de costume...

Abraço.

Peter disse...

O final desejável ...

Parvinha da Silva disse...

li atenta e interessadamente, como é merecido.

Bom fds

uivomania disse...

As enxurradas vão sempre continuar. Enquanto isso, e por isso, bem que poderiamos tomar isso em consideração e respeitar as bacias hidrográficas.

PintoRibeiro disse...

Que venham, que venham...
Bom fim de semana, um abraço K'mrd.

hora tardia disse...

tudo afinal é "manejável".


bom fim de semana.

:)

______________.

cordialmente.

M. disse...

Sim, se me dei conta de que o mundo é manejável! E de que maneira! Interessante texto. Nunca tinha pensado nas cheias deste modo.

un dress disse...

cheias e enxurradas

de vazio...





beijO

Menina_marota disse...

Não foi Barthes que disse "...A linguagem é como uma pele: com ela eu contacto com os outros..." ?

Tal como as enxurradas que contactam e pôem a nu, as misérias e o deleixo de gerações?


Mas será o mundo manejável, ou a aspereza de delito da perspectiva humana, que faz com que isso aconteça?

Apropriado e oportuno texto, numa fase em que, não será de uma enxurrada de água suja que precisamos, mas sim, de uma enxurrada de mentes não poluídas, sob vários aspectos, no nosso terreno já lamaçal...

Beijo e bom fim de semana ;)

um Ar de disse...

Este "delírio" de R. Barthes, em torno da ideia de um mundo manejável é atraente, como quase tudo o que ele escrevia o era.

Demais, até. Porque tem o condão de transformar a opinião em quase verdade.

Tudo entra nos seus ensaios a tocar o romanesco e a epopeia: referências à infância, ao sonho, à esquizofrenia... referências bíblicas, até. [Um verdadeiro descendente de Freud!...]

Roland Barthes é um encantador [não de serpentes, mas de leitores], um sedutor de palavras e de sentidos.

Curiosamente, Mitologias não foi a obra que mais reli. Mas este excerto não foge à quasi-regra...

Fragmentos de um Discurso Amoroso, O Prazer do Texto, o Grau Zero da Escrita... enfim, esqueci-me de algum, igualmente lido e relido, no todo, na diagonal, aleatoriamente, à procura de uma frase importante, no momento...

La Chambre Claire, esquecia-me desse!... talvez porque não li a tradução.

E o último, finalmente, confissional, da teimosia em não aceitar, publicamente, a sua identidade de género [ao contrário de M. Foucault, para quem, isso e tanta coisa mais, pouco importava, porque outras eram muito mais importantes...].

Voltando ao assunto, de o mundo ser manejável, pois é. Manejável demais.

Embora muitos trabalhem para o transformar... são tão poucos aqueles que têm o "plano" para os seus desígnios!...

Não é de uma enxurrada que se trata, de facto, mas de algo organizado e com um sentido que convém que nos ultrapasse, mesmo se nos dão umas pequenas "pistas com umas migalhas" para nos ocuparmos a pensar que percebemos o que o futuro nos reserva...

[BEIJO]

P.S.: Estava a ver que não chegava a tempo de comentar um texto de um autor que me encantou, quando era o tempo de me render aos encantamentos... Adorei reler R.B.

Oliver Pickwick disse...

Do jeito que as coisas andam, caro amigo, não sei se enxurradas terão esta capacidade. Talvez um meio-termo entre a enxurrada e o dilúvio bíblico.