quarta-feira, fevereiro 27, 2008

De Regresso às "Farpas"...

"SR. MINISTRO DO REINO

Ex. mo sr. ministro do reino:

O estado em que se acha em Portugal a instruc­ção leva-me a dirigir a V. Ex.a o seguin­te aviso:

Se a instrucção secundaria não fôr immediata­mente reformada, este ramo do ensino publico aca­bará dentro de póucos annos. A frequencia dos lyceus nacionaes, como V. Ex. a verá das respectivas estatisticas, diminue de anno para anno. Pouco tempo mais, e os alumnos terão desapparecido inteiramente.

Ainda uma derradeira experiencia e ninguem mais quererá em Portugal entregar ao Estado o ensino de uma creança. Esta abstenção é a mais vergonhosa das revoluções que podem atacar uma instituição. É a oppo­sição pelo desdem, é a revolta pelo desprêzo.

E no emtanto todos desejam instruir seus filhos; o numero dos alumnos propostos a exame augmen­ta extraordinariamente; os collegios são maus; os cidadãos são pobres; o Estado faculta a instrucção gratuita n'um collegio que deveria considerar-se mo­dêlo; pois bem: ninguem quer essa instrucção!
(...)
Quaes as razões d'este desprêzo pelo ensino offi­cial? As seguintes:

1° Porque não ha um edificio para as escholas,

2. ° Porque as casas em que ellas existem provi­soriamente são immundas, de um aspecto vicioso, relaxado, desmoralisador. (...) A direcção superior do estabelecimento intelligente e zelosa não tem meios de remediar este estado.

3º Porque o régulamento dos cursos torna extre­mamente arrastado e moroso o ensino.

4.° Porque os compêndios adoptados são geral­mente absurdos e offensivos da intelligencia e do senso commum.

5° Porque não ha salas de estudo, sendo os alu­nos inteiramente abandonados pelos professores depois da hora da aula.

6. ° Porque ha cêrca de quatro mezes de férias, os quaes juntos a trinta e seis quintas feiras e a varios outros dias feriados reduzem o anno lectivo a seis mezes de trabalho.

Para transformar este lastimoso estado do ensino se­cundario na primeira cidade do reino é urgentissimo:

1.º Que V. Ex.a mande levantar um vasto edificio com todas as condições de ventilação, de luz, de aceio e de elegancia, indispensaveis n'um estabeleci­mento de educação publica.

2.° Que os programmas sejam de novo discutidos e reformados.

3.º Que sobre as bases do novo programma se abra concurso, para os compendios que houverem de ser adoptados, perante um jury de professores de instrucção superior.

4º Que se estabeleçam as salas de estudo, nas quaes o alumno deverá applicar-se durante tres horas pelo menos em cada dia sob a direcção do professor respectivo.

5º Que a hora de entrada no lyceu seja às oito horas da manhã e a sahida depois das quatro, não sendo permitido a sahir do edifício antes do prazo indicado, sendo o seu tempo distribuído de modo que elle tenha em cada dia: três horas de licção; três horas de estudo; duas horas de gymnastica e de solfejo em três dias da semana e nos outros três dias duas horas de trabalho mecânico

6.° Que todos os professores sejam obrigados a permanecer no lyceu durante cinco horas, pelo me­nos, em cada dia.
(...)
É urgente para a regeneração intellectual e mora da raça nacional profundamente abatida, apathica, enfraquecida, indifferente, que dos nossos lyceus desappareça o dogmatismo, o classicismo, a rheto­rica, a metaphysica, a oratoria, a theoria grammati­cal. E que estes conhecimentos, abstractos e inuteis, sejam substituidos pelas noções da cosmographia, da anatomia, da mechanica, da hygiene, da econo­mia politica e da economia domestica.

Que as lin­guas vivas se apprendam no intuito principal de as entender e de as falar. Que as licções se tornem, quanto seja possivel, experimentaes e praticas. Que sejam obrigatorias as visitas de estudo ás grandes manufacturas, aos arsenaes, ás alfandegas, ás gale­rias e ás repartições do Estado nas grandes cidades, e nas provincias aós estabelecimentos fabris, ás quin­tas regionaes, ás grandes e ás pequenas lávouras.

Os dinheiros do Estado não chegam para o gran­de augmento de despesa que este serviço demanda. É verdade isso, mas ha quanto tempo não chega o dinheiro do Estado para os gastos que elle empre­hende?! Não se está cobrindo o paiz todo de cami­nhos de ferro? Não será chegado ainda o momento, de olharmos um pouco para esta segunda viação: a viação do espirito?

O Estado em Portugal tira-nos da ignorancia ab­ccdaria para nos lançar em seguida n'uma ignorancia ainda mais perniciosa que a ignorancia dos anal­phabetos: a ignorancia resultante da falsa instruc­ção e da falsa sciencia.
(...)

De V. Ex.a
Alltigo amigo dedicado"
Agosto de 1875

Ramalho Ortigão - in “As Farpas” – Editor David Corazzi – 2º Volume- 1887

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Em português de lei. Para melhor apreciarem...

Solidário com a luta dos Professores. Mas será que as nossas Escolas apreciam Ramalho Ortigão?!...

23 comentários:

Mar Arável disse...

Oportuno texto

oportuna interrugação


Este é um blog

inteligente

abraço amigo

Jofre Alves disse...

A História quan do se repete tem crácter de tragédia e comédia, como a leitura do texto nos ensina, num texto sempre actual. Ontem como hoje, somos uns alarves.

Justine disse...

Texto actualíssimo, mas que, claro, ninguém lê.
É importante dá-lo a conhecer, e tu estás a contribuir para isso.
Abraço

isabel mendes ferreira disse...

"esfarpado". bem. o texto.


como quase sempre. (brinco) (rss).



e da acutilância.

em hora. nunca tardia.



abraço.

Graça Pires disse...

Esta farpa está bem metida...
Será que alguém ligado ao poder leu, algum dia, Ramalho Ortigão?

foryou disse...

Excelente!

Solidária também com todos os professores, salvaguardados alguns pormenores.

beijo

Maria Laura disse...

Pois. Absolutamente. Tens a certeza de que ele não fez alguma viagem ao futuro antes de escrever esse texto? É que, na verdade, o homem acerta no alvo (actual) em cheio.
Era um bom sinal se "As Farpas" fossem lidas nas escolas. Infelizmente, parece que não.

Maria P. disse...

Sempre actual.
Como eu gosto desta "Farpa"

Bjos*

SILÊNCIO CULPADO disse...

Herético

Extraordinário como textos antigos ficam tão actuais.

"ainda mais perniciosa que a ignorancia dos anal­phabetos: a ignorancia resultante da falsa instruc­ção e da falsa sciencia." O que, traduzindo para português moderno, significa esta falsa cultura alimentada pela comunicação do poder para que aceitemos, de bom grado, a injustiça e a opressão como valores da democracia.
Um abraço

São disse...

O teu post ( excelente, diga-se de passagem) só confirma aquilo que venho dizendo: os nossos problemas são os mesmos desde o início do país!!
Abraços.

Frioleiras disse...

Adoro as tuas beliscadelas...

Maria disse...

A oportunidade deste texto, a qualidade do blogue, tu, obrigam-me a vir aqui, todos os dias....
Obrigada!

Beijo

Licínia Quitério disse...

É sempre curioso e triste verificar como os nossos vícios perduram. E sempre a arrogância e a estupidez se opõem aos alertas dos pensantes que clamam no pré-deserto.

Abraço.

As Sombras de Fim do Dia disse...

É impossível passar por aqui e não aprender, lembrar ou certas coisas de modo diferente, sempre, mas sempre fui fiel a este blog. (com outros nomes, outras casas)

E Ramalho Ortigão, infelizmente mantêm-se actual.

beijinho, bom Wk

hfm disse...

Ele bem sabia... Ramalho Ortigão hoje nas nossas escolas? desculpe, mas ri-me...

Sophiamar disse...

E o passado é igual ao presente. De que serve o estudo da História se o seu contributo não servir para melhorar as sociedades?

Beijinhosssss

Peter disse...

A preocupação fundamental do Min Educ é satisfazer as cotas de Sucesso Escolar definidas por Bruxelas. Os alunos têm de ter sucesso, custe o que custar.

Os Profs têm razão em não aceitar uma avaliação nesta altura do ano, pela perturbação que tal acarreta para o normal ensino dos alunos.

Não têm razão em TODOS pretenderem atingir o topo da carreira (julgo ser isso...).

casa de passe disse...

ora, ora, meu amigo,
como se as manifestações levassem a algum lado!
Cá em casa , iamos logo para o meio da rua!


nini e a loulou

Popper disse...

Olha passei por cá. Como sempre. Bom FdS e um abração kamarada.

um Ar de disse...

De facto, muito oportuno, como todos os autores que escolhes.

Tudo se tornou tão grave, que eu já só queria conseguir levar um plano de aula a bom porto.

Queria alunos que quisessem aprender e percebessem que a escola e as aulas são o lugar para isso acontecer.

Os alunos estão nas salas de aula, de facto, mas é uma ilusão meramente estatística, como são as aulas de substituiçãao e as salas de estudo...

Olha. Não me apetece dizer mais nada...

[BEIJO]
Também pela tua solidariedade com a indignação dos professores.

un dress disse...

abraÇo.beijO ~

pessoana disse...

Estava aqui com um certo mal-estar!
Pensei: "Passados mais de 100 anos de 1001 reformas, ainda não resolvemos nada".

Mas depois passou-me a dor de barriga! É que, pelo menos, já criámos as salas de estudo...

É um princípio...

Bem-hajas! E vénia ao Ramalho farpado!

casa de passe disse...

quando nos fazes uma vizitinha?

(Loulou, Nini mais a Aliçona)