quinta-feira, setembro 04, 2008

“Não há festa como esta!...”

A Festa do Avante, promovida pelo jornal do Partido Comunista Português, celebra-se, anualmente, na Quinta da Atalaia, no Seixal, com a participação de milhares e milhares de pessoas, de todas as idades e condições sociais, vindas de todos os cantos do país (e muitas do estrangeiro) para três dias de encontro e confraternização.

“Não há festa como esta” dizem, com razão, os seus promotores e militantes. E não apenas pelos seus eventos culturais (com o melhor que se produz no domínio da música – para todos os gostos - das artes plásticas ou da literatura), ou por esse mosaico de gostos e paladares que são a culinária e os vinhos nacionais, ou pela multifacetada expressão do artesanato regional, ou pelos exaltantes momentos de participação política.

Claro que haverá sempre diversos olhares sobre a Festa. É natural que haja. Apenas a engrandecem aqueles que por preconceito, ou por função e missão, dela desdenham. Mas para quem, com olhar límpido, quiser ver não poderá ignorar o imenso sortilégio que a Festa do Avante exerce sobre quem a frequenta, independentemente, das opiniões políticas.

E é caso para nos interrogarmos sobre as razões de semelhante sucesso, numa sociedade eivada de um anticomunismo larvar, permanentemente instigado pelos aparelhos de dominação ideológica – na comunicação social, nos modelos de sociais, nos padrões de consumo, na política, na profusão das imagens que encharcam o nosso quotidiano.

Porque razão o “efeito” Festa do Avante excede o horizonte da mera militância política e seduz tanta gente? Digam-me. Tenho, porém, claro que a Festa do Avante é antítese perfeita da chamada “sociedade do espectáculo”, em que andamos mergulhados. Dai as razões do seu sucesso...

Deixem que tente explicar-me. Como sustenta Guy Debord, as modernas condições de produção apresentam-se como uma imensa acumulação de espectáculos, onde “tudo o que até então era directamente vivido se afastou numa representação”.

Assim, o espectáculo será, no dizer deste autor, “ao mesmo tempo o resultado e o projecto do modo de produção existente”. Sob todas as suas formas particulares - informação ou propaganda, publicidade ou consumo, ou divertimentos - o espectáculo constitui o modelo da vida socialmente dominante, numa “afirmação omnipresente da escolha já feita na produção e no consumo”.

Forma e conteúdo do espectáculo são, assim, a justificação total das condições e dos fins do sistema de produção existente. Numa frase lapidar, “o espectáculo será o discurso ininterrupto que a ordem dominante faz sobre si própria, ou seja, o seu monólogo elogioso”, .

O processo de alienação será permanente: quanto mais o espectador contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. “A exterioridade do espectáculo em relação ao homem concreto revela-se nisto - os seus próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhos apresenta”.

Pois bem, a Festa do Avante escapa a tal lógica. A Festa do Avante pertence literalmente dos seus construtores. É trabalho voluntário que ergue os seus pilares. Trabalho livre, sem salário. Com o tempo e a forma que cada um escolha, motivado apenas pelo desejo de “fazer” a festa. Trabalho desalienado, portanto. Que subverte do sistema de produção dominante, pois é demonstração prática (precária que seja) de que outro modo de produção é possível.

Por outro lado, a Festa do Avante pode ser usufruída sem mediação, nem filtros, por todos aqueles que nela participem. O espectáculo, (que Festa do Avante também é) e as imagens que projecta na sociedade portuguesa e, em especial, em que têm o privilégio de nela participar e compreender, correspondem à vivência real dos homens concretos, como “discurso” alternativo à ordem social alienante.

Por momentos, nos três dias da festa, será a libertação do Desejo e do Sonho, (“de focinho pontiagudo”), sondando os dias do Futuro. E a vida real de milhares pessoas, alargando o horizonte da consciência social de cada um e o caudal da consciência colectiva de que é possível uma vida melhor.

Gosto, sim, da Festa do Avante. Muito. Como paradigma de uma sociedade diferente. Mais justa, solidária e fraterna. Como lampejo da Utopia, que as mãos, a luta e o suor dos homens, libertos das contingências de modo de produção dominante, um dia poderão erguer...

23 comentários:

Maria disse...

Excelente post!
E vou viver três dias num espaço que sendo o meu País, é um País novo, e que um dia há-de ser o meu País para sempre...

Até amanhã, ao som da Carvalhesa...

um Ar de disse...

A Festa do Avante é como outra cigarra que teima...
:)
[Beijo...]

mdsol disse...

Então muito Boa Festa (por agora, no plural fica para o Natal)!

OLha e eu fui muitas vezes à Festa do Avante! Por exemplo, na Quinta dos Balteiros foste?

rsrsrrs

:))

manhã disse...

Ai esse discurso marxista...parece-me do passado mesmo e tanto que eu o disse e ouvi. Também gosto da festa.

Véu de Maya disse...

Admirável coerência de tantos homens e mulhres que acreditam e merecem uma sociedade mais justa e solidária... e a tua é a de uma cigarra que teima e muito bem...

abraços

Graça Pires disse...

Também gosto da festa do Avante.
Um abraço.

Mar Arável disse...

Venham mais cinco

Mia disse...

"Gosto, sim, da Festa do Avante. Muito. Como paradigma de uma sociedade diferente. Mais justa, solidária e fraterna. Como lampejo da Utopia, que as mãos, a luta e o suor dos homens, libertos das contingências de modo de produção dominante, um dia poderão erguer..."

e aí não me evado. Concentro-me num modo de viver em comunidade que não é utópico. O sonho comanda a vida. Deixem-me sonhar!
Beijinho

Frioleiras disse...

Há uns anos estava um calor imenso... Eu tinha estado adoentada e fui com amigos meus. Ouvi lá um dos meus bateristas preferidos: o Bruno Pedroso. Lembro-me bem. Nessa altura era ao género de música que mais ouvia... Lembro-me bem. Comprei um chapéu de abas de palha muito grandes... Estava tão fraquinha que temia o sol.......
nunca mais lá voltei mas, eram outros tempos, mais idealistas.

pentelho real disse...

Sabei, senhor, que meu pai foi a várias festas do avante. e gostava. Vê-de, senhor, e era Rei. Até a monarquia gosta.
Assim, acho que tendes razão no que aqui escrevesteis.

hfm disse...

Um ponto de vista que respeito; apenas isso. E digo isto tendo lá ido algumas vezes.

tulipa disse...

Estamos em Setembro e a palavra mais usada é a «rentrée»; fala-se de rentrée política e eu decidi falar sobre a «rentrée literária, sempre é um tema diferente.
Livros de pelo menos 16 escritores galardoados com o Prémio Nobel de Literatura, entre os quais José Saramago, vão ser lançados até ao final do ano em Portugal, o que constitui, se não uma raridade, uma marca de diferença desta "rentrée" editorial.

Também houve ontem a rentrée da chuva e parece já o Outono.

O que é importante é que estejamos com saúde para apreciar todas as rentrées à nossa volta.
É isso que desejo, muita saúde, paz, flores, poesia e miminhos.

Bom fim de semana.

NOTA:1º fim de semana de Setembro é sinónimo de Festa do Avante.
Aproveita e sê feliz por lá, nesses 3 dias de festa grande.

~pi disse...

nunca fui mas sinto! :)




beijo




~

Alfazema Azul disse...

Conheço bem esta festa embora lá não vá há uns anos. Poucos. Posso dizer que são três dias diferentes. Por todas as razões que apontas. E haverá mais.

Beijos

Leonor disse...

concordo.
é uma festa incrivel.carote. mas merece a pena.
beijinhos

Sill Scaroni disse...

Uma festa para celebrar a diversidade.
Bom final de semana.
Sill

São disse...

Na primeitra vez em que fui à festa do "Avante" levantei-me da cama de propósito, apesar da tremenda constipação com que me debatia.
Boa Festa!!

Mariz disse...

Salvé Herético!

É de génio este post.
Não faltei a uma sequer, a não ser quando se mudaram para o Seixal. Fica dilícil, quando não se tem carro...nunca conduzi.
Concordo em pleno com o espírito da festa única no país, impecavelmente organizada....e o tal espírito sente-se!- lembro-me vagamente, dada as nuances que tomou, quando em tempos remotos, um único movimento sobressaía pelas mil e uma faces sem côr política.... o MDP/CDE. Belos tempos! uma frente solidária, centrada num único ideal - pelo menos foi assim que o vivi.
Mas não demorou muito tempo...


Abraço
Mariz

Fique bem

éme. disse...

Regressar e encontrar um post assim...
Faz-me reconhecer de forma clara que:
É mesmo bom voltar aqui!
:)

(Também acredito que essa outra forma de vida é possível e é para lá que teremos, sim, que teremos, necessariamente que caminhar!)

tardes mágicas disse...

E não há mesmo!! :))

Mel de Carvalho disse...

pois... não fui. estava em "parte incerta"... ehhh... a ouvir música Celta e a ver castelos.

mas mandei embaixadores de boa vontade: o meu filho João e a minha "quase nora" Ana.

Venham mais dez, que tentarei estar por perto.

Saudações fraternas

bettips disse...

"O sonho comanda a vida..."
O que os arautos conseguiram dizer: que Jerónimo de Sousa tinha ficado "no desemprego" pela introdução das novas tecnologias... ele há coisas imaginativas! Não que concorde com todo o ideário e todos os seguidores: mas que não há FESTA como ESTA é ASSIM! Do resto, sabemos que a cor e a alegria assustam, as criancinhas, os velhinhos, as concentrações de capital ...não me chegavam os dedos "para contár-los".
Abç

M. disse...

Gostei muito do teu olhar sobre esta festa. Interessante a análise.