terça-feira, outubro 07, 2008

Em demanda do futuro...

Como se sabe, Marx foi um agudo e incansável investigador, que compreendeu e analisou melhor que ninguém, o desenvolvimento capitalista à escala mundial. Ele percebeu que uma economia internacional globalizada era inerente ao modo de produção capitalista e predisse que esse processo engendraria não apenas crescimento e prosperidade, alardeada por políticos e teóricos liberais, mas também violentos conflitos, crises económicas e injustiça social generalizada.

Em virtude dos últimos acontecimentos e da crise financeira desencadeada no mundo capitalista, a partir de Wall Street, que vêm mostrar a actualidade e, porventura, a dar novo impulso ao pensamento de Karl Marx, o professor Eric J. Hobsbawm foi entrevistado por Marcello Musto para a revista em castelhano, publicada on line, Sin Permiso - Republica y Socialismo también para el siglo Séc. XXI”. A entrevista pode ser lida integralmente em
La crisis del capitalismo, da qual se apresentam alguns excertos:

“A política de esquerda no futuro será inspirada uma vez mais nas análises de Marx, como foram os velhos movimentos socialista e comunistas(...) Na realidade, a recuperação do interesse de Marx está consideravelmente – diria principalmente - baseado na actual crise da sociedade capitalista (...). A presente crise financeira mundial, que pode bem transformar-se numa maior depressão económica nos Estados Unidos, dramatiza o fracasso da teologia do mercado livre global incontrolado e obriga, inclusive o Governo norte americano a optar por acções públicas, esquecidas desde os anos trinta.

Qualquer “retorno a Marx” será essencialmente um retorno à análise de Marx do capitalismo e o seu lugar na evolução histórica da humanidade – incluindo sobretudo as suas análises de instabilidade central do desenvolvimento capitalista que precede, mediante as crises económicas auto geradas, as dimensões políticas e sociais”


Sobre as forças políticas e intelectuais da esquerda internacional, que renunciaram às ideias de Marx, Eric Hobsbawm é peremptório e afirma:

Nenhum socialista pode renunciar às ideias de Marx, não tanto por crença de que o capitalismo deverá ser substituído por outra forma de sociedade, ou como esperança ou vontade que assim seja, mas pela análise fecunda do desenvolvimento histórico, particularmente da era capitalista.(...)

No entanto, Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até seja entendido que os seus escritos não devem ser considerados autoritariamente como programas políticos, (...) mas como guia para perceber a natureza do desenvolvimento capitalista.

Por outro lado, Marx não regressará à esquerda até que a tendência actual dos activistas radicais em converter o anti capitalismo em anti-globalismo seja abandonada. A globalização existe e é irreversível. Com efeito, Marx reconheceu-o como um facto e, como internacionalista, lhe deu teoricamente as boas vindas. O que ele criticou e o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo.
(...)

Para qualquer interessado nas ideias de Marx, é manifesto que Marx é e permanecerá como uma das mentes filosóficas mais poderosas do século XIX e analista económico, na sua máxima expressão. É importante ler Marx porque o mundo no qual vivemos hoje não pode entender-se sem a influência que os escritos deste homem tiveram no século XX. E, finalmente, Marx deveria ser lido porque - ele próprio o escreveu - o mundo não pode ser mudado a menos que seja compreendido; e, neste contexto Marx permanece como um soberano guia para a compreensão do mundo e os problemas a que temos de fazer frente”.

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Eric Hobsbawm é um dos maiores historiadores da actualidade. Presidente do Birkbeck College (London University), é também professor emérito da New School for Social Research (New York).

Entre os seus múltiplos trabalhos encontra-se a conhecida trilogia acerca do “grande século XIX” – “The Age of Revolution”: Europe 1789-1848 (1962); “The Age of Capital”: 1848-1874 (1975); “The Age of Empire”: 1875-1914 (1987), traduzidos e publicados em vários idiomas, entre os quais em português, pela Editorial Presença.

19 comentários:

éme. disse...

Obrigada!
:)

Impossível mudar o que não se conhece, sem dúvida.
Desde miúda que ouço dizer que a humanidade caminharia precisamente para onde não tem andado,
desde muito pequena me lembro de ouvir dizer que teríamos de caminhar no sentido da justiça social, da igualdade (efectiva!) de oportunidades, da Igualdade e da consciência, da Justiça!

Mas também desde há mais de metade da minha vida tenho vindo a perceber que a teoria diz verdades que a humanidade trata de negar.

A teoria é criada por gente que depois, (isto nunca perceberei...), parece fingir não saber "ler" e "estraga" completamente tudo que, em boa verdade, não vejo porque não há-de ser levado a sério e efectivado!

O que se passa com a nova leitura de Marx... sim, é uma das inevitabilidades que esperávamos, sim... a ver vamos, das nuances que lhe encontrarão.
Já agora, porque será que mal se ouve falar das suas obras ao longo da escolaridade pré-superior? E, já agora, demorará muito mais a leitura de (como estas) Outras formas de compreensão acerca da evolução histórica da humanidade?

E, já agora, faltará muito para que se reconheça de vez que o problema não é, efectivamente, a globalização mas Este modelo de "aldeia global"?
...
Compreender o mundo, as pessoas, a vida e
assumir a nossa parte do processo de solução dos problemas será, talvez, para cada um de nós O desafio com que estamos a confrontar-nos a cada instante... Importa resistir, olhar mais longe, olhar De Frente!

(para intervalo de trabalho à volta dos restos da dominação colonial... ufff... foi uma leitura que me soube a ginjas!)

dona tela disse...

E se falássemos de coisas divertidas?

Um beijinho da Tela.

mundo azul disse...

Bem, não há como negar que Marx tinha uma visão que alcançava muito longe...



Beijos de luz e o meu carinho!!!

As Sombras de Fim do Dia disse...

"O que ele criticou e o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo"

E mais NaDA!!! Este post está fantástico!

:)

Menina_marota disse...

"...Ele percebeu que uma economia internacional globalizada era inerente ao modo de produção capitalista e predisse que esse processo engendraria não apenas crescimento e prosperidade, alardeada por políticos e teóricos liberais, mas também violentos conflitos, crises económicas e injustiça social generalizada."


As Teorias de Marx... que li há alguns anos... seria ele um visionário?

Deixo um abraço ;))

jrd disse...

Excelente poste.

"No entanto, Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até seja entendido que os seus escritos não devem ser considerados autoritariamente como programas políticos,(...)"

Mudar o Homem para que ele possa compreender o Mundo e depois mudá-lo.

batista disse...

belíssimo e oportuno texto! que venham outros mais, a fomentar "movimento", a nos tirar do marasmo... vento forte!
deixo um abraço fraterno e solidário.

Miosotis disse...

... como sempre, sensato e oportuno! Sem pretender guiar, apenas percorrer caminhos que nos vais 'desvendando' ou 'relembrando'.

Efectivamente o problema estará no modelo, e em outros aspectos que nem bom é chamar...

Sensibilizada pelo teu olhar em 'fragmentos'! Lamento o 'isolamento' :(

Véu de Maya disse...

Meu caro herético!

"os filosofos têm passado o tempo a compreender o Mundo...está na hora de o transformar"a citação pode não ser literal maso sentido e este...a compreensão está feita, com Marx e comos que vieram a seguir...mas o rumo das transformações é que levanta muita polémica...para onde vamos com esta globalização que escorrega desta forma para o abismo? Aí a compreensão de Marx pode dar pistas-mas duvido que seja a compreensão por mais luminosa que seja que resolva o problema do que fazer...o coração do homem é ul lugar muito obscuro onde entra muita confusão...quantas vezes ele faz o pior, sabendo bem o que é melhor...Mas Marx,..tal como Nietzsche e Freud...é incontornável.

abraços

Graça Pires disse...

"o mundo não pode ser mudado a menos que seja compreendido". Eric Hobsbaum sempre lúcido. Marx teve uma visão do futuro inexcedível... Não podemos negar isso.
Um abraço.

Licínia Quitério disse...

Para o entender, questionar, criticar, é preciso lê-lo. Para o combater, basta ser ignorante.

Abraço.

vida de vidro disse...

E eu, que nada de nada entendo de economia, acho que ele conseguiu prever os efeitos do capitalismo deixado sem freio, com aquela estafada ideia de que o mercado se regula a si próprio. Obviamente não é assim e estamos a ver ( e sentir) os resultados. Será que a visão de Marx poderá "salvar" esta sociedade? Ou transformá-la? Só dúvidas... **

Peter disse...

De Hobsbawm li as três "Idades" quando andava pela FLL. Utilizei-o em diversos trabalhos.

Peter disse...

A falência do capitalismo


OS ADORADORES DO DEUS MERCADO

"Os adoradores do deus mercado, os adeptos do neoliberalismo, os entusiastas do capitalismo high tech, os analistas económicos que debitam vulgaridades nos media "de referência", todos eles estão agora confrontados com uma realidade brutal: a ruína do capitalismo, pelo menos da forma em que o conhecemos. Estes últimos sete dias representaram uma viragem na história do capitalismo mundial (nacionalização de facto dos passivos da Fannie e do Freddie, falência do Lehman, salvamento da AIG, aumento gigantesco da dívida externa dos EUA, início do reflacionamento da economia estado-unidense).
Há que ser claro: o que o Federal Reserve e o Tesouro dos EUA querem salvar não é a economia dos Estados Unidos e sim os seus banqueiros. O plano em curso é para reflacionar os activos imobiliários a fim de minorar os desastrosos balanços dos bancos. Por isso aumentarão o endividamento da população daquele país. Ou seja, resolvem um problema de dívidas insolventes com a acumulação de ainda mais dívidas. Trata-se de uma neo-escravização através da dívida. A repartição do rendimento nacional dos EUA obviamente irá piorar.
A procissão ainda vai no adro. A crise sistémica do capitalismo está longe de acabada. As sequelas e repercussões pelo mundo afora têm desdobramentos que mal se podem adivinhar. O risco de o imperialismo empreender uma fuga para a frente através da guerra é enorme. Tudo isso num pano de fundo de uma realidade física inescapável: o mundo já atingiu o Pico Petrolífero, o que tem consequências fundas."

Maria P. disse...

E ainda há solução?!...
Excelente apontamento.

Beijinho*

M. disse...

Muito interessante. A necessidade da compreensão das coisas, uma vez mais.

OrCa disse...

clap-clap-clap... o meu aplauso pela ousadia!

Conceitos como o capitalismo monopolista de estado, exemplarmente descritos e previstos, não em processo de adivinhação, mas por análise circunstancial da maior profundidade, estão aí, para espanto abissal dos aprendizes de feiticeiro. Afinal, nada é novo. Tudo era previsível... e estava previsto.

E agora ocorre-me uma elementar citação: «Que fazer?»

casa de passe disse...

a verdade está aí, indubitavelmente!

LOULOU
(sem a beata da Nini, sem a Alice, sem o Avô e sem o safado do João)

Oliver Pickwick disse...

Se o nome é Marx, é bom! Karl, Groucho, Chico, Harpo, Gummo, Zeppo... Bons tempos!
Acho temerário afirmar que a atual crise financeira partiu apenas de Wall Street. Bem sabe que a ex-quase-socialista Europa (oeste e norte) há tempos troca sensações orgásticas com o neoliberalismo globalizado. É época de tosquia, de socializar o prejuízo.
Continuo fã do Marx até hoje. Pena que a esquerda - assim como o futebol brasileiro, caminha para o abismo. Sem asas.
Um abraço!